Jogo pode ter sido confirmado
A cobertura de tecnologia de consumo depende muito de rumores que se alastram como fogo em palha, replicados por inúmeros veículos sem qualquer reflexão. Confirmação? Aí é pedir demais para redações pressionadas para gerar Grandes Números de audiência.
Os de que mais gosto são aqueles em que alega-se uma alteração de planos que sequer foram anunciados previamente (“Apple adiou o iPhone que supostamente seria lançado em novembro”; exemplo fictício) e os que noticiam certezas que carecem de confirmação. Pode ser que sim, pode ser que não… quem sabe?
Na ronda matinal desta quinta (30), topei com esta pérola: “Injustice 3: Jogo pode ter sido confirmado em vazamento.”
O verbo “confirmar” é binário: confirma-se ou não algo. “Pode ter sido confirmado” é uma maneira amalucada de dizer que ainda não foi confirmado. É, pois, uma não notícia.
Outro veículo, pegando carona no mesmo rumor, cometeu o mesmo deslize: “Injustice 3 pode ter sido confirmado acidentalmente.”
(Injustice 3 é um jogo de lutinha com bonecos da DC Comics. Acho.)
Essas pérolas são recorrentes no Google Notícias, que ainda insisto em visitar na esperança de catar alguma coisa útil na sofrida editoria “Ciência e tecnologia”. O nome não poderia ser mais enganoso. Em vez de ciência e tecnologia, o pobre leitor é ofendido por uma pororoca de rumores descabidos e/ou insossos, notícias de video games e publicidade disfarçada de conteúdo (“celular tal está com desconto histórico!!”).
Talvez a crise do jornalismo seja auto-infligida.
O que me deixou estarrecido é saber que vocês usam Google News. Por que?
A ideia é boa: agregar as notícias mais relevantes do dia. Uso para encontrar a mesma notícia em diferentes veículos e (aqui eu acho que estou dando bobeira) tentar achar algo que preste.
É uma das coisas que mais detesto e que me fizeram deixar de acompanhar a maioria dos veículos que adotaram tal prática. Tenho um amigo que insiste em me mandar este tipo de não-notícia e só respondo ele com “pode” ou então “espera acontecer e aí tu me manda”.
No que se refere a jogos, chamo isso de indústria do hype. Sempre preferi aguardar o lançamento e ter a opinião de alguém que conheço e jogou.
Em 2013, uma empresa que destoou do padrão foi a CD Projekt RED. No Teaser Trailer do vindouro Cyberpunk 2077, dizia: “>Coming: When it’s ready”, no lugar de anunciar uma data ou estação do ano.
https://www.youtube.com/watch?v=DvVjkqB3LH0&t=122s
Depois, houve mudanças na empresa e anunciaram uma data. Falei: “isso vai dar merda”. O resto é história.
Guedin, você descreveu exatamente o que eu sinto ao acessar essa editoria no Google News.
Perdi o jogo 😓
Perdi tbm
Na primeira aula de filosofia do Direito, coincidentemente a minha primeira aula no curso de Direito em uma universidade pública, o professor (um gênio da filosofia da educação) pediu que nos apresentássemos e disséssemos sobre nossos gostos, hobbies etc. Meu eu patético de 16 anos disse me interessar por “tecnologia”. O professor questionou: você se interessa por raios laser, quimeras e afins? Internamente me senti julgado e extremamente envergonhado por saber que ele sabia que não era disso que eu estava falando, mas sim de ver análises de notebooks e celulares no canal do Tecmundo. Mas claro que respondi com um quase silencioso “é, por aí”.
Ninguém tem certeza de nada na editoria de ciência. Poético quase.