Boox Go 10.3 (gen II) Lumi: Um tablet Android e, não bastasse isso, com tela E-ink

Foto de cima do Boox Go 10.3 (gen II) Lumi, sobre um livro aberto, com um notebook e um Kindle nas laterais.

Lembra quando eu contei que estava usando o Kindle como meu jornal particular? E que aquela solução era ideal porque eu não precisava comprar outra bugiganga?

Mantenho aquela opinião, mas comprei outra bugiganga para ser o meu “jornal particular”: um tablet Boox Go 10.3 (Gen II) Lumi. (Ufa! Daqui em diante, chamarei-o apenas de Boox Go.)

Essa marca, Boox, não atua no Brasil. Ela é especializada em dispositivos Android com telas E-ink, a mesma do Kindle, em diferentes tamanhos de tela. Ficou mais conhecida pela linha Palma, um leitor digital do tamanho de um celular.

Meu Boox Go, o de segunda geração, é o modelo mais recente deles. A maior novidade é a presença de iluminação na versão (pouca coisa) mais cara. Ela também sai de fábrica com o Android na versão 15. A geração passada vinha e permanece com o Android 11, sem indícios de que algum dia será atualizada.

Apesar do Android recente, o da Boox sempre foi bem diferente daquela que se vê em celulares e tablets convencionais. Há um “launcher” próprio e uma pequena seleção de aplicativos da própria fabricante, com as possibilidades de expansão em uma lojinha própria, com poucos aplicativos recomendados, e a Play Store do Google.

Poderia usá-lo assim? Sim. Só que eu sendo eu, claro que fui caçar confusão a fim de remover todas as coisas da Boox e do Google. Desde o início, meu objetivo era ter um tablet Android “ideal”.

Adianto que consegui, mas não sem sofrimento. É como o Bruno De Blasi resumiu no seu relato do retorno ao telefone fixo (há gente em estado pior que eu, afinal):

Afinal, por que estou depositando tanta energia nesses objetos? Por que estou me concentrando tanto em coisas que eu, volta e meia, reclamo ou digo que não gosto? Até que, um dia, soltei: “talvez eu esteja usando só porque está disponível.”

***

Tablets Android nunca alcançaram o mesmo nível de prestígio do iPad junto a desenvolvedores. Na prática, isso se traduz numa escassez digna de nota de aplicativos adaptados à tela grande.

Um tablet com tela E-ink traz outra dimensão a esse cenário de miséria. Não é legal rolar telas no E-ink. Por mais rápida que a taxa de atualização da tela seja, a animação fica toda zoada e a tela “suja”, ou seja, sobram resquícios das imagens anteriores devido à própria tecnologia E-ink.

Bons aplicativos para telas E-ink trocam a rolagem por paginação, como se fossem livros (ou Page Down e Page Up, para os millennials que ainda usam computador). A paginação diminui a “sujeira” reminiscente do E-ink. Esse sistema também desorienta menos.

Disso veio a primeira decepção: o aplicativo para Android do Readeck, serviço de “ler depois” que uso, não tem paginação. Verdade seja dita, o aplicativo é precário mesmo em telas comuns, incluindo o do iOS.

uma “issue” aberta no repositório do aplicativo em dezembro de 2025, sem atualizações relevantes desde então. Eu não esperaria de pé por tais melhorias, mas seguirei esperando sentado. Enquanto isso, fui buscar uma alternativa.

Desenhou-se à minha frente uma situação bastante inusitada: descobrir essa limitação no Readeck às vésperas de encerrarmos o Wallabag no PC do Manual. O aplicativo do Wallabag é bem chinfrim também, mas tem a opção de paginação.

Pedi ao Claude para fazer um script de migração do Readeck para o Wallabag e subi uma instância desse no meu servidor doméstico. Funcionou.

Outro aplicativo que me deu dor de cabeça foi um navegador web. Testei o EinkBro, que se apresenta como um otimizado para telas E-ink. De fato, ele está em casa no Boox, mas as outras funcionalidades deixam um pouco a desejar, ou assim me pareceu à primeira vista. Talvez o revisite mais à frente.

Fui pesquisar soluções para o que já me era conhecido (Firefox e Chromium) e encontrei a sugestiva extensão Page up and down scroll buttons para o Firefox. Instalei o Fennec, um fork menos poluído do Firefox, e problema resolvido. (Não que fosse um problemão; o que menos estou usando nesse tablet é o navegador web.)

Detalhe da tela inicial do Olauncher no Boox Go 10.3 (gen II) Lumi, com quatro aplicativos.
Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

Por fim, instalei o Capy Reader para ler meus feeds sincronizados com o Miniflux do PC do Manual, e o KOReader para livros digitais. Também coloquei o BasicSync para sincronizar meus livros com a biblioteca do computador e um editor de texto puro porque sim, é sempre útil. Para finalizar, o Olauncher com cores invertidas para deixar a tela inicial do tablet bonitona.

Sinceramente? Acho que não preciso de mais nada neste tablet.

***

Adicionar aplicativos foi fácil. Instalei todos via F-Droid. O difícil foi remover os que eu não queria.

Recorri ao Universal Android Debloater NG, que já comentei aqui no Manual. Removi alguns pacotes e tal, mas a praga o software da Boox não saía por completo.

Outro problema que me pegou foi a desativação periódica dos aplicativos que instalei pela F-Droid. A Boox tem um negócio chamado “congelamento” para os aplicativos, imagino que uma precaução devido à baixa quantidade de memória (4 GB de RAM). Tive que voltar ao launcher da Boox para desativar esse recurso e prevenir que os meus aplicativos sumissem do Olauncher.

O que me ajudou, mesmo, foi este tutorial. Ele não é específico para o Go 10.3 de segunda geração, mas as sobreposições são quase perfeitas. Acho que só desinstalei uma ou outra coisa extra de IA que não estava contemplada na lista do site.

Devo notar que os primeiros dias de tentativa de configuração foram bem estressantes. Não sei explicar o porquê e já estou tratando isso na terapia.

***

Meu interesse por um tablet Android com tela E-ink foi despertado pela análise daquele da TCL com tela Nxtpaper 4.0, que passou por aqui no início de 2026. Ao final dos testes, percebi que meu uso para um tablet é apenas leitura, e que um com a mesma tela do Kindle, só que maior, seria perfeito.

De fato, o Boox tem suprido as minhas expectativas. Consigo ler nele todos os tipos de materiais que costumo ler (e agora também artigos em *.pdf!) em uma tela confortável, tudo sincronizado com o meu computador ou serviços na nuvem independentes, sem surpresas, com um consumo energético baixíssimo e zero estímulos indesejados.

Uma canetinha e uma capa magnética vêm inclusos no pacote. A caneta, infelizmente, veio com a ponteira torta e as ponteiras sobressalentes se perderam na viagem. Não tenho uso para a caneta, então… ok? Uso a capa apenas para transportar o Boox Go, porque o tablet em si é finíssimo e leve. Temo que qualquer pressão nele possa entortá-lo ou coisa pior.

Aliás, é um negócio tão leve (364g) e bem distribuído (por 10,3 polegadas) que dá para segurá-lo com uma mão só, numa boa.

Vou usá-lo por mais algum tempo para compartilhar impressões de longo prazo aqui, neste mesmo blog.

Deixe um comentário

Por favor, leia as regras antes de comentar.

Tags HTML permitidas: <b> <strong> <i> <em> <a> <ul> <ol> <li> <code> <cite> <blockquote> Markdown *não* funciona.

20 comentários

    1. Eu tentei e não funcionou :( O Readeck sequer conseguiu “enxergar” o plugin.

      De qualquer forma, gosto de ter aplicativos específicos para cada finalidade.

        1. Também testei esse plugin e não deu muito certo. Para ler os artigos do Readeck no Koreader fiz uma inscrição OPDS. Assim, consigo baixar os artigos do Readeck da mesma maneira que baixo os livros do Calibre. Tem funcionado muito bem pra mim. Isso mais o plugin do Miniflux melhorou muito a maneira como consumo conteúdo no Kindle

  1. Opa, Ghedin! Queria trazer uma dúvida que levantei recentemente no Órbita, sobre como funciona os demais apps de leitura nesses tablets/e-readers: se a transição entre os apps é ok, se demais apps funcionam como esperado, etc.

    Minha dúvida seria sobre qlq app de leitura de livros, tipo Kindle, Google Books, Kobo, MEC Livros e afins.

    Mas como vc removeu o Google Play, não sei se conseguiria instalar outros apps tipo o MEC Livros.

  2. Ghedin, qual a sua opinião sobre a BigMe? E o que te chamou atenção na Boox especificamente em relação às concorrentes?

    1. Topei com essa marca na minha pesquisa, Daniela. Eles têm alguns modelos com tela de 10,3″. Não sei dizer por que não o considerei, embora pesquisando agora, vi que esses são mais caros que o Boox Go que adquiri. Talvez tenha sido esse o critério.

    1. Alguém que mora nos EUA trouxe para mim, ou seja, paguei o preço sugerido (~US$ 430, acho) e não foi taxado.

      Comprar no Brasil é meio inviável. Pelo que pesquisei alguns meses atrás, o preço final vai para cerca de R$ 5 mil… Aí não compensa.

  3. Em maio comprei um Xteink X4… A proposta dele é diferente, mas acho a sua cara. Dá uma olhada. O divertido são as opções de firmware pra ele.

    ps: uso o Olauncher no meu celular. Gosto bastante.

    1. O Xteink virou uma febre no grupo de assinantes do Manual, todo dia tem alguém entrando para a seita 😁

      Embora a natureza hackeável dele seja muito legal, o tamanho da tela me desanima muito. Já achava a do Kindle pequena, essa, então… E como a minha rotina não tem muitos momentos de “ficar esperando em lugares fora de casa”, o principal caso de uso de um mini leitor digital não faria diferença.

      O Olauncher é sensacional!

  4. Gente, alguém coloca um escorpião na carteira do Ghedin!

    Eu assinei o Manual pra apoiar o trampo… E pra usar o Readeck pra “ler jornal” no Kindle!

    1. Sim, vou vender meu Kindle. Tornou-se redundante.

      A bateria parece durar bastante, mas nada próximo da do Kindle. O meu, em especial, acho que nunca vi zerar porque sempre usei ele desconectado do Wi-Fi.

      O sistema da Boox suspende o Wi-Fi quando o tablet está em modo de espera (tela desligada), o que ajuda a prolongar bastante a autonomia. O consumo se torna mínimo — coisa entre 1 e 3 pontos percentuais da bateria por dia.

  5. De navegador, dá uma olhada no EinkBro. Feito para navegação em telas e E-ink e com personalização de gestos.