Galaxy S10e de três ângulos diferentes.

Os melhores celulares deixaram de ser os mais caros


22/2/19 às 15h03

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As apresentações públicas de novos produtos de tecnologia seguem um roteiro manjado. Os apresentadores, geralmente executivos da empresa, começam exibindo números positivos e/ou falando de alguma iniciativa que supostamente faz bem ao planeta. Depois, lançam um problema que, sem surpresa, o produto que será revelado dali a pouco consegue sanar. No clímax, entra um vídeo pomposo e, tcharam!, eis que aparece o melhor produto de todos os tempos — até a sua atualização ser anunciada no ano seguinte.

Essas apresentações acontecem em grandes centros de convenções ou em teatros imponentes, com uma importância insuflada que talvez a revelação do Santo Graal teria se descoberto. Alguém desavisado pode achar, pela circunstância e roteiro, que de fato o mítico cálice usado por Jesus Cristo na Última Ceia está ali, só que na forma de um pedaço de metal, vidro e placas de circuito que promete resolver todos os seus problemas.

Na última quarta-feira (20), a Samsung rompeu com esse padrão de uma maneira “tarantinesca”. Tal qual o diretor de cinema norte-americano, a fabricante sul-coreana inverteu a cronologia que se espera de eventos do tipo e o abriu com o seu grande produto do dia — ou o mais chamativo: o Galaxy Fold, o primeiro celular com tela dobrável de uma grande empresa.

Fascina o ato de abrir um dispositivo que lembra um livro e deparar-se com uma tela lisa, sem qualquer vestígio de que, segundos antes, ela estava dobrada ao meio. É uma tecnologia que merece o rótulo de “futurista”. E, pela movimentação da indústria, há pelo menos uma aposta de que em um futuro próximo usaremos versões melhoradas do Galaxy Fold no lugar dos celulares com telas rígidas atuais.

Homem manuseia Galaxy Fold fechado com a tela externa ligada.
A tela externa do Galaxy Fold, de 4,6 polegadas, fica minúscula no corpo gigante do aparelho. Imagem: Samsung/Reprodução.

Mas esse futuro deve demorar. De um lado porque o Galaxy Fold parece desengonçado a ponto de ser ruim de usar quando, sei lá, você estiver dentro do ônibus, de pé e espremido entre os outros passageiros, tentando resolver um problema pelo celular. De outro, pelo preço: o Galaxy Fold custa inacreditáveis US$ 1.980. Celulares de US$ 1 mil são tão 2017…

O Galaxy Fold não foi a única novidade do dia. Também foi apresentada a família Galaxy S10, composta por quatro aparelhos — sendo um 5G que, pela situação do Brasil nessa área, nem vale a pena comentar. Você talvez esteja imaginando que são esses aparelhos que chegarão às mãos e bolsos dos meros mortais, certo? Parte dela, sim. Um quarto, para ser mais preciso. E mesmo essa fração será para poucos.

Os quatro modelos de Galaxy S10, lado a lado.
A família Galaxy S10. Imagem: Samsung/Divulgação.

Quando os iPhone XS, XS Max e XR foram anunciados, em setembro de 2018, escrevi que celular da Apple tinha deixado de ser celular caro para virar coisa de gente rica. As marcas que usam Android aproveitaram o flanco aberto pela Apple e subiram também os preços dos seus topos de linha. Tivemos o Galaxy Note 9 por US$ 1 mil e, agora, o Galaxy S10 nesse mesmo patamar.

A Samsung emulou a estratégia da Apple em 2018 com a família S10. Temos o Galaxy S10 por US$ 900 que seria o equivalente ao iPhone XS (US$ 1 mil); o Galaxy S10+ de US$ 1 mil, equivalente ao iPhone XS Max (US$ 1.100); e uma novidade, o Galaxy S10e (de “essentials”) por US$ 750, equivalente ao iPhone XR de mesmo preço.

Os celulares na faixa de US$ 1 mil — no Brasil com preços iniciais entre R$ 5,5 mil e R$ 7 mil — não são 33% melhores que os de “segunda linha”, de US$ 750. Todos eles compartilham os mesmos componentes vitais, como chips de processamento, memórias e câmeras principais. No caso do Galaxy S10e, a diferença é ainda menos perceptível, pois a tecnologia da tela é idêntica à dos modelos mais caros, diferentemente do iPhone XR. “Poder” resta o único argumento para pagar mais, porque o benefício é marginal — uma câmera extra aqui, um design levemente mais chamativo ali, memória excedente da qual, sendo realista, ninguém de fato precisa e que nem faz diferença no uso.

E nem dá para criticar muito esses voos mais altos que as fabricantes têm tentado nos preços. Trata-se de uma resposta à estagnação do setor, que pune o valor das empresas em uma lógica irracional (leia-se: capitalismo) onde apenas o crescimento sinaliza que os negócios vão bem, não há crise. O único risco é chegar muito perto do Sol e perder as asas, como Ícaro da mitologia grega.

Pelo efeito da ancoragem, formulado pelos pesquisadores Amos Tversky e Daniel Kahneman e descrito pelo último no livro Rápido e devagar: Duas formas de pensar [Amazon], o celular de US$ 750 soa quase como uma pechincha. Não é. Mas o modelo, dentre os novos Galaxy S10, me pareceu a melhor opção. As principais diferenças para os mais caros da linha são poucas e pontuais, a saber:

  • Tela menor (5,8″ contra 6,1″ e 6,4“) sem as bordas que “escorrem” nas laterais;
  • Sensor de digitais no botão liga/desliga (lateral) em vez de embaixo da tela;
  • Duas câmeras atrás em vez de três;
  • Uma câmera frontal apenas (a dupla só está disponível no S10+); e
  • Memórias de menor capacidade, mas que já começam em 6 GB de RAM e 128 GB para armazenamento — o bastante para qualquer perfil de usuário.

O “e” do nome deveria ser de “enough” (suficiente), não de “essentials”.

O que nos leva à seguinte conclusão: os melhores celulares deixaram de ser os mais caros. O que se perde optando por um Galaxy S10e em vez do Galaxy S10+ são características marginais, cosméticas ou simplesmente luxuosas — o que tem valor para algumas pessoas, mas que transcende a finalidade e os usos de um celular, por mais abrangentes que eles sejam.

Abaixo, um breve resumo dos demais modelos:

  • Galaxy S10: a versão principal, com tela de bordas curvadas com 6,1 polegadas e câmera tripla nas costas. A principal diferença para o S10+ é na frente: a câmera frontal é simples. Preço sugerido: US$ 900. A título comparativo, o S9 custava US$ 720 no lançamento.
  • Galaxy S10+: Igual ao S10, mas com câmera dupla na frente e tela maior, de 6,4 polegadas. Preço sugerido: US$ 1 mil. O S9+, no lançamento, custava US$ 840.
  • Galaxy S10 5G: é ainda maior, com tela de 6,7 polegadas. E 5G, embora a disponibilidade ainda seja bastante limitada — nos EUA, sairá com suporte apenas por uma operadora, a Verizon. Também tem uma quarta câmera atrás. Sem preço definido. Muito provavelmente não será lançada no Brasil.

Um olhar de perto nos novos Galaxy S10 pelo Ztop.

Ainda não há previsão de data de lançamento ou preços para os novos celulares da Samsung no Brasil.

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