O r/Piracy, o streaming e o “projeto do instante”

Bandeira pirata hasteada e tremulando contra céu azul.

A “pirataria” digital está em nossas vidas há 20 anos graças, especialmente, a Shawn Fanning e seu aplicativo de compartilhamento de arquivos pioneiro, o Napster. Nesse período, suas formas de se expressar com os usuários e com a lei têm se mostrado dinâmicas. Assim, habitar a distribuição do entretenimento passa a ser um jogo de xadrez. É sobre essa habitação que este texto trata. Sobre uma habitação negociada, especialmente, a partir do tempo.

Em se tratando de “pirataria” digital, a rede social Reddit desempenha um papel singular na vida dos interessados em encontrar filmes, músicas, jogos, entre outros formatos de entretenimentos sem condicionar o consumidor a relações contratuais junto a direitos autorais. Muitas vezes o Reddit é caracterizado por suas áreas de interesse ou fóruns, também chamados subreddits, dedicados a discutir e/ou incentivar o consumo considerado ilegal e “pirata”. Fazendo justiça ao Reddit, ele apresenta um grande arsenal de subreddits que abordam quaisquer assuntos, desde “pássaros com braços (r/birdswitharms) até as axilas da cantora Taylor Swift (r/taylorswiftarmpit). A “pirataria” é apenas uma de suas porções; ainda assim, um quinhão polêmico.

Em dezembro de 2017, realizei uma pesquisa antropológica em um dos subreddits mais populares relacionados à “pirataria”, o r/Piracy. Das diversas percepções de dinâmicas e diálogos entre os usuários e o Reddit, logo compreendi que a “pirataria” movia e era movida por todos ali — cerca de 330 mil usuários — e que dificilmente ela seria (simplesmente) encerrada.

Print do r/Piracy.

Essa compreensão me foi importante, pois à época a tecnologia do streaming se consolidava com a expectativa de panaceia no que concerne as violações aos direitos autorais. Com a transmissão do conteúdo em formato instantâneo via streaming, o regime de propriedade intelectual estaria cada vez mais próximo de parecer menos anacrônico e aviltado, adjetivos endereçados muito em razão da popularidade da “pirataria”. Ocorre que tal tecnologia não agradou tanto quanto poderia (ou se esperava) e o r/Piracy manteve-se atuante, por vezes até mesmo servindo de espaço de promoção para programadores lançarem seus próprios serviços de streaming “pirata”.

Algumas razões ajudaram a manter a “pirataria” em cena mesmo com a explosão de popularidade do streaming: perseverança e uma dose robusta de incompreensão sociotécnica como a (precária) qualidade da infraestrutura de muitos usuários; os inconvenientes contratos limitados com produtoras (no caso do streaming de vídeo); e a dificuldade de se ter a posse do lazer (em formato de vídeo ou áudio) nos dispositivos.

Nunca, especialmente após os anos 2000, a “pirataria” se mostrou excluída do panorama do consumo do entretenimento, apresentando maneiras singulares (e muitas vezes curiosas) de articulação com a lei.

Alguns subreddits que abordam o assunto são populares não somente por discutirem sobre a prática — como, de certo modo, o r/Piracy se propõe. Muitos também incentivam o acesso e a disseminação do acesso “pirata”, tornando o ambiente um espaço muito semelhante aos programas P2P.

Destaco os subreddits r/megalinks, r/crackedoftware e r/fullmovies, todos banidos em 2018 por apresentarem dinâmicas de distribuição e acesso mais hostis aos parâmetros “aceitos” pelo regime de propriedade intelectual e que, junto ao Reddit, opera a partir de políticas de reincidências a contravenções, ou seja, políticas que indicam que o escancaramento da “pirataria” ultrapassa um limite tácito de tolerância. Assim, com a pressão das articulações legais, os administradores do Reddit baniram os subreddits em questão, apresentando em seus antigos endereços a imagem de um malhete, símbolo da justiça — aquele martelo utilizado por juízes em determinadas cortes — e, localmente, símbolo da repetição das violações e da exaustão do campo jurídico.

O (des)controle da “pirataria” não é assim algo tão impassível como possa aparentar. Em março de 2019, após aproximadamente dez anos de existência repletos de postagens e discussões sobre conteúdo “pirata” no r/Piracy, os administradores do Reddit informaram os moderadores do subreddit em questão que estavam recebendo muitas reclamações de detentores de direitos autorais e que, por isso, o espaço poderia ter o mesmo destino de outros relacionados à pirataria — ser banido.

Informaram ainda que removeram (através da lei DMCA1) diversos conteúdos do r/Piracy sem a ciência dos moderadores do fórum. O argumento era de que tais remoções poderiam evitar o banimento do subreddit. O receio de um fim próximo fez com que moderadores do r/Piracy debatessem junto aos usuários do espaço a busca por possíveis alternativas ao banimento completo do fórum.

Ficou estabelecido que o r/Piracy sugerisse a exclusão de todo o material publicado há mais de seis meses. De acordo com um dos moderadores, isso poderia eliminar grande parte de conteúdo considerado ilegal, além de mostrar aos administradores do Reddit que há um esforço sendo realizado para reverter o atual cenário e evitar novas notificações. A proposta eleita pelo grupo foi a de livrar-se de grande parte dos dez anos de atuação e de conteúdo do r/Piracy, seja esse conteúdo violador ou não de direitos autorais. Uma proposta que converge com a manipulação atual do tempo na distribuição e consumo de entretenimento.

Mesmo sem a certeza de que os esforços dos moderadores sejam suficientes para manter o subreddit atuante, destaco no contexto do entretenimento, o instante. Este mobiliza controles (de consumo, uso, apegos) e contrasta com interesses, com visões, com modos de pensar e operacionalizar o entretenimento.

Historicamente, o consumidor de discos de vinil, fitas cassete, CDs e DVDs se deparava com o uso temporalmente irrestrito do material (ao menos contratualmente) muito em razão de sua posse — a posse decorrente do que foi o centro de uma relação contratual de compra. Em outras palavras, a compra do material garantia o seu uso por tempo indeterminado salvo por negligência do comprador com o item físico fruto do negócio firmado com o detentor do direito autoral contido naquele material.

Com o Napster e a popularização do MP3, o objeto se digitalizou, mas a ideia de posse se manteve. Baixar o arquivo poderia significar montar uma biblioteca digital. A posse estava altamente associada à fruição no/ao longo do tempo. Além disso, os compartilhadores “piratas”, desde seu auge até a atualidade, inseriram junto à operacionalidade técnica uma outra de natureza ética: quem compartilha, ou seja, quem se mostra mais generoso, pode ser recompensado futuramente. Aplicativos de torrent recompensam que tem uma taxa de envio (“upload”) de arquivos maior que a de recebimento (“download”) com prioridade na hora de baixar novos conteúdos.

Hoje, com a emergência e popularidade do streaming e com as diversas limitações de acesso (e interação a esse acesso) que apresenta ao consumidor, o instante parece prevalecer sobre a história, a memória e a posse (digital ou física) de bens. O streaming e/em seu tempo, justamente por oferecer certa precariedade na prática do desfrute e do prazer do usuário, realça o estreito vínculo entre o entretenimento e as emoções que o público desenvolve por produções audiovisuais2.

A liberdade das opções — e dos significados de tais opções — sobre o que fazer e não fazer com os bens em detenção, é relevante para compreender a importância da posse no cenário do streaming legal e da “pirataria” digital: o usuário quer ter poder e controle sobre o que se assiste/escuta onde e quando quiser; sobre a multiplicidade de possibilidades de acesso a tais conteúdos — não usufruir do entretenimento somente a partir de dispositivos pré-estabelecidos e limitados; e quer ter escolha sobre iniciar ou não uma coleção de vídeos/músicas, mesmo que nunca mais os assista ou as escute.

Tal questão, assim como tantas outras, parece nortear os moderadores do r/Piracy: deletar o conteúdo com mais de seis meses no subreddit é uma forma de agradar e contentar campos que se contorcem no e com o tempo. É lembrar, avivar, viver as limitações do streaming.

Assim como o streaming, a decisão do r/Piracy de convencer os detentores de direitos autorais passa a ser um meio de transmissão que faz dominante a provisoriedade, o prazer efêmero e a impotência de controle sobre a experiência que tal conteúdo desperta. O instantâneo não é produzido somente por CEOs e produtores de entretenimento, mas também pelas vias das ações judiciais que percebem, no controle do tempo, uma via de efetividade.


  1. DMCA (Digital Millennium Copyright Act) é uma lei norte-americana que criminaliza não somente a infração de direitos autorais, mas também a produção e a distribuição de tecnologias que contornem tais direitos.
  2. Em minha pesquisa de doutorado em Antropologia Social pela UFRGS, foi possível perceber as alterações nas relações de pessoas e bens com o passar do tempo, assim como a transmutação do status de muitos bens, que de mundanos passaram a carregar forte vínculo emocional, e até mesmo alterar seu status, tornando-se raridade.

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35 comentários

    1. Acredito que você não queria ostensivamente fazer apologia a pirataria e tentou ao máximo deixar o texto imparcial, mas as suas conclusões sobre a precariedade no desfrute e prazer ou o desejo dos usuários de reproduzir o “bem” adquirido da maneira que quiserem são parciais. Pensando aqui, talvez o viés esteja no grupo que você pesquisou. Entendi que a pesquisa antropológica se restringiu aos usuários dos subreddits relacionados a pirataria. Esse é, na minha opinião, apenas 25% dos interessados. Se você conseguisse estender à pesquisa aos usuários de streaming que não praticam pirataria e também aos artistas e executivos das gravadoras, estúdios e afins, poderia trazer uma visão mais ampla e completa desse tema polêmico. Quem pratica a pirataria sempre vai ter motivações e argumentos “verdadeiros” para justificar o que faz. O ponto é, será que todos os envolvidos nesse contexto têm o mesmo entendimento sobre justiça social que os pirateiros e comentaristas desse blog? Francamente acho que todo mundo que defende a pirataria e todo esse blablabla de as gravadoras e estúdios serem gananciosos estão é querendo fazer socialismo com o que não lhes pertence. Ou será que o Ghedin não se ressentiria e procuraria seus direitos se eu traduzisse os textos dele para o inglês, publicasse em um blog com anúncios e não partilhasse o que faturei com ele? Posso dar a desculpa de que estou ampliando o alcance das ideias dele já que pelo menos diria que foi ele quem os escreveu.

      1. fazer socialismo com o que não lhes pertence

        Meu deus do céu, caiu um chatopitalista por aqui.

        Eu não sei as respostas que ambos darão, mas acho que quando se discute sobre pirataria, tem coisas além do “ fazer socialismo com o que não lhes pertence” que acho que talvez não entra na sua cabeça pois para você “socialismo” é um vilão, Paulo Freire um demônio, e etc… etc… e muitos de nós trouxemos aqui nos comentários.

        O fator social, a questão das legislações (curiosidade: até hoje existe uma espécie de “divisão virtual” que deveria limitar as distribuições de mídia, e não a toa, com isso gerou os diferentes padrões de sinal de vídeo, que resulta em produtos diferentes para mercados diferentes.), a dificuldade na distribuição, a questão justamente do “sou dono, então posso tudo”…

        A não ser que você seja um funcionário / advogado da ABES / ECAD e lucra com os processinhos por aí…

      2. “querendo fazer socialismo com o que não lhes pertence.”

        querido, se a classe operária tudo produz a ela tudo pertence, tá ok?

        quem tá na chuva é pra se molhar

        jogo é jogo, treino é treino

        tá ok?

        #pas

      3. Fernando,

        O texto é baseado em pesquisa que realizei com consumidores de “pirataria” na mídia social Reddit. Inevitável foi perceber que a maioria, mais de 60% dos que entrevistei, assinavam plataformas de streaming, mas recorriam à pirataria devido à uma das facetas da precaridade de tal indústria, o catálogo.

        A precariedade também se manifestou nos discursos daqueles que queriam possuir o conteúdo, ou seja, guardá-lo para depois consumir, ou somente para ter em sua biblioteca, recurso que os serviços de streaming disponibilizam com muita limitação até então.

        Sobre a delimitação da pesquisa: saber da opinião do mundo todo está fora de meu alcance enquanto doutoranda, suspeito que está fora do alcance de muitos pesquisadores brasileiros especialmente neste momento político. Mas a ideia, é claro, é ideal. Meu intuito, no entanto, é apenas compreender as dinamicas “piratas” em relação aos serviços de streaming, e porção da parte “pirata” investigada foram consumidores online. Também realizei pesquisa junto a programadores.

        Sempre bom lembrar que a “pirataria” é um fenomeno social organizado, ele não apenas distribui entretenimento que viola direitos autorais. Entre seus membros existem regras, éticas, moralidades. Existem estudos demonstrando tais economias morais. Por exemplo, não raro algum usuário em algum site/fórum “pirata” pode ser banido por solicitar links de artistas independentes, ou mesmo de grandes ou médios artistas que colaboram e dividem das mesmas ideias sobre compartilhamento que baseiam a “pirataria”. Isso porque “piratear” o trabalho de alguém que não tem muitos recursos, ou que apoia/condiz, mesmo que parcialmente, com as noções “piratas”, é mal-visto por muitas comunidades “piratas”.

        Então, pessoalmente, acho a ideia de legal/ilegal, roubo/dentro da lei, bastante simplista. A “pirataria” é um fenômeno social complexo permeado por éticas, moralidades e negociações destas.

        Gostaria também de assinalar que os serviços de streaming que falamos apresentam muitas similaridades com a “pirataria” (gratuidade, baixo custo, maior atenção ao consumidor), o que penso ser uma incorporação de funcionalidades, e mesmo de moralidades, ilegais na lógica legal.

        Abraços,
        Andressa

        1. Oi Andressa,
          Então, baseado na sua resposta, posso entender que você tem pelo menos certa simpatia pela causa pirata, não tem? E tudo bem ter uma opinião. E é muito bom deixar ela clara, pois sabendo que você simpatiza, o texto faz total sentido agora. Porque, por mais que ele seja uma pesquisa cientifica feita no rigor do método científico, como qualquer produção cultural ela é ideológica no sentido que reflete e, por que não?, defende as opiniões de quem a criou (para quem acha que ciência não tem ideologia, recomendo ler Estruturas das Revoluções Científicas de Thomas Kuhn). Ainda mais em ciências humanas… e ainda mais no Brasil onde a academia está infestada de mediocridade esquerdista que não aceita o contraditório.
          Sobre a ética dos pirateiros, ainda bem que eles têm alguma. Mas acho que a maioria dos criminosos tem, não é? A questão é o estado de direito. Pelo pouco que conheço da lei de direitos autorais brasileira, ela não distingue artista independente de artista mainstream. Se não concorda com a lei, use as ferramentas que a democracia te proporciona para muda-la, ou pegue em armas e tente a revolução (mas como a maioria de quem comentou aqui é socialista de iPhone, o máximo que eles vão fazer é tirar uma selfie durante a revolução). Agora, se a sua opinião não prevalecer, engole o choro, pois democracia é a ditadura da maioria, seja ela burra ou inteligente, e ainda não conheço um modelo de governo melhor já que o comunismo (a única expressão prática que tentou subverter a ordem capitalista) foi miseravelmente derrotado.
          Os mesmos que gritam que a legislação de direitos autorais é anacrônica são aqueles que ficam histéricos quando mexem na CLT, mesmo ela sendo tão anacrônica quanto e pior, tendo como base uma legislação fascista!
          Para aqueles que também estão comentando e acham que estou nadando em uma piscina como a do Tio Patinhas com moedas dos pobres artistas, que fiquem sabendo que sou apenas um funcionário de uma corporação transnacional “maligna” da área de tecnologia nada relacionada a produção cultural. Me entristeço por não achar a série Fringe disponível em nenhum serviço de streaming, mas mesmo assim decidi não piratear ela em respeito aos artistas envolvidos e as famílias dos milhares (milhões talvez…) de funcionários da indústria cultural.

          1. O cara misturou a falácia da Carta del Lavoro ter servido de inspiração pra CLT, esquerdismo acadêmico (isso é bem típico de quem NUNCA pisou numa ambiente acadêmico de pesquisa) e no final ainda salpicou com a famosa frase “comunista de iPhone” (sem falar que mistura comunismo com socialismo).

            Ou seja, soltaram o troll do MBL no MdU.

            Por isso que eu sou a favor da gulag canavieira.

        2. Gostaria também de assinalar que os serviços de streaming que falamos apresentam muitas similaridades com a “pirataria” (gratuidade, baixo custo, maior atenção ao consumidor), o que penso ser uma incorporação de funcionalidades, e mesmo de moralidades, ilegais na lógica legal.

          Bingo.

          A criação do Netflix, mesmo que no BR seja caro, mudou um pouco os paradigmas de uso de produtos legais, mas mecânica é quase similar a de sites de distribuição ilegal: tentativa de ter um produto fácil ao consumidor, preços baixos (e assim incentivar o consumo contínuo).

          Spotify tem a questão da gratuidade também (junto com o YouTube), e proliferou muito bem.

          Nisso dá para notar que empresas hoje tem uma visão da pirataria como base de consumo e tenta pegar para transforma-lo em um “consumidor legal”.

      4. Eis alguém que não sabe o que é pirataria e defende o jogo nefasto das gravadoras e do capitalismo.

        A obra (seja ela qual for) pertence a quem? Produtores ou artistas?

        Conhecimento artístico não deve ser limitado por dinheiro e deve ser de livre acesso. A pirataria venceu =)

        1. Sério Paulo? Me permita um jogo de palavras. Vou trocar “conhecimento artístico” por “trabalho proletário” e vejamos o que temos: “Trabalho proletário não deve ser limitado por dinheiro e deve ser de livre acesso”. Quem vence aqui? Talvez a escravidão. Por que o fruto do esforce de alguns não deve ser remunerado e o de outros deve?

          1. Numa sociedade ideal nenhum trabalho seria remunerado. A remuneração ocorre por necessidade de adequação à lógica capitalista de dinheiro/oferta e demanda. Sem capitalismo, sem remuneração e sem acesso restrito a bens e serviços. Toda essa restrição é fruto de uma lógica capitalista de escassez, oferta, demanda e controle corporativo.

            Isso, ainda assim, não tem relação com alguma com a escravidão. A escravidão é a obrigatoriedade por força de imposição física ou emocional para que alguém realize algum tipo de trabalho (intelectual ou braçal) sem remuneração e sem possibilidade de saída desse ciclo. Nesse sentido o capitalismo é muito mais próximo da escravidão do que qualquer outro sistema – aliás, a escravidão mais conhecida e como produto de venda de pessoas se deu, justamente, sob o capitalismo – e mesmo assim você o defende atrabalhoadamente aqui.

            Em nenhum momento, ainda, eu disse que o trabalho de uns não deve ser remunerado frente ao trabalho de outro. Você chegou a essa conclusão depois de tortamente fazer uma analogia entre trabalho proletário (aliás, o que você entende como proletário está errado, sugiro uma leitura dos teóricos sobre o tema para não cometer esses erros de definição tão básicos) e o trabalho artístico. Existem diversas maneiras, contudo, de se remunerar o trabalho artístico. O direito autoral não é uma delas e é uma invenção corporativa recente.

            Sugiro as palestras do professor Túlio Viana da UFMG, que está bem longe de ser um “medíocre esquerdista de iPhone” e mesmo assim explica sobremaneira o viés elitista e corporativo do direito autoral e como ele, quase sempre, serve como instrumento de destruição da arte e de escravidão dos artistas (esses são so que menos ganham com direitos autorais).

            E, finalmente, o sonho de Star Trek ainda é distante, contudo.

          2. Aliás, como você gosta tanto do estado de direito, sugiro o artigo “A ideologia da propriedade intelectual” e a discussão ao seu redor onde são esmiuçados os absurdos legais da criminalização da pirataria.

            E ainda bem que esse artigo é livre, senão eu sequer poderia lhe indicar a leitura.

          3. Cara, não sei se o Ghedin vai gostar do que vou usar como exemplo, mas só ver a questão do próprio Manual do Usuário e como ele é formatado.

            Não posso dizer pelo jornalista o que ele passou nas empresas jornalísticas, mas dá para fazer uma jogada lógica fácil: em empresa jornalística, quem detém o lucro são os responsáveis pela marca, equipamentos e distribuição. O jornalista fica com parte do lucro, mas não o todo ou justo.

            O Manual do Usuário, como colocado, permite que ambos que participam desta conversa, leiam as matérias sem restrição. Mas ao mesmo tempo eventualmente o responsável solicita que se possível, contribua para auxiliar nos custos e fazer este trabalho ser rentável ao mesmo. As condicionantes: matérias abertas a todos, obviamente com a regra de que se usar a matéria em outro lugar, converse ANTES com o responsável pelo copyright (Ghedin) para ver a melhor opção para compensar a cópia desta matéria. Os ganhos com as doações e assinaturas vão diretamente ao responsável pelo site e as partes mantenedoras (técnica e auxiliar).

            E obviamente, sabemos que nada impede que o site seja copiado, clonado totalmente, etc… Wayback Machine, um serviço eletrônico que clona sites para preservação, não paga nada para isso (funciona com doações) e não vai remunerar a quem copia o site. Em compensação, caso a pessoa tenha problemas com falta de backup, nada impede de recorrer a este serviço.

            É complexo falar de pirataria, e quando você (como bem nota o Pilotti) meio que age como “troll a serviço dos chatopitalistas”, você apenas só quer se colocar como dono da razão e provocar revolta nos comentários, pois não quer dar abertura para um bom debate.

            Não vi até agora ninguém dos comentários defendendo que quem produza mídia não ganhe com isso. Mas sim defendendo que a pirataria existe pois não há formas justas diretas para fazer quem produz mídia ganhar com isso. Na verdade até há – hoje há comissionamento, financiamento coletivo, sistemas de assinatura (como o usado aqui). Mas há também o fator social (a capacidade de a pessoa gastar parte de seus recursos com mídias), na qual você ignora e usa um fator moral para inibi-lo (“não faço uso de pirataria, por isso sou uma pessoa isenta e não corrupta”).

            Antes do fim do Fórum PCs, discuti no fórum com um autor (Benito Piropo) que usou do seu mesmo recurso para se definir como uma pessoa de “Moral Limpa” por nunca usar pirataria, meio que indiretamente desvalorizando quem usa como “criminosos”.

            No mais, sigo junto às respostas de Pilotti à ti.

  1. Acho que o texto esqueceu de abordar um aspecto positivo das plataformar oficiais de streaming que a variedade de conteúdo. Por um preço de um CD ou de um DVD por mês eu tenho acesso a uma multiplicidade de obras que eu jamais teria acesso se precisasse comprar mídias. Sem dizer que a distribuição é extremamente facilitada favorecendo quem produz e quem adquire. Quando, no cenário de venda de midias, teríamos acesso a series filandesas e dinamarquesas, a light novels japonesas, a albuns de musica cristã colombiana? Sobre a pirataria, não desconsiderando o trabalho acadêmico feito, penso que há uma tentativa de justificar o roubo. Talvez uma fantasia de Robin Hood moderno…

    1. Verdade, os caras tentam todo santo dia com velho e ultrapassada justificativ: o roubo. Talvez uma fantasia de Robin Hood moderno…vdd

    2. Se você acha que é justificar roubo, então por gentileza, prenda o país inteiro ou puna-os, inclusive presidentes, policiais, membros da justiça, talvez até mesmo você deveria ir ser preso por pirataria, vai saber…

      Entendo que o trabalho que a Andressa faz é justamente para ter bases e entender o porquê da manutenção de comportamentos que continuam com a pirataria e trazer a luz justamente para quem é do mercado, quem não é e quem trabalha com tecnologia pensarem juntos para entender este comportamento e buscar formas se fazer uma remuneração justa a quem precisa ser remunerado.

      Colocar a pirataria na prateleira de “crimes comuns” é algo tão idiota quanto as falas do Bolsonaro, diga-se de passagem.

      1. Sim pode ser mas pessoas que trabalham todo dia para ter sustento próprio e ainda vem com isso? Ok colocar na Colocar a pirataria na prateleira de “crimes comuns” e algo ilógico mas o pirataria é um roubo não? Vc é roubado pelo que vc trabalhou muito tempo e aí como fica? Gosta de ser roubado? Não é possível, ngm gosta de ser roubado, rapaz

        1. Realmente, pobres coitados os donos de gravadoras e estúdios de cinema. Um passeio por San Diego e você topa com um dono de gravadora mendigando a cada esquina. Uma loucura o estrago que a pirataria causa na vida dessas pessoas.

          1. Tu falando isso e me lembrei de uma cena de Bohemian Rhapsody onde o Queen peitava o dono da gravadora para definir a música que seria o “Lado A”.

        2. Quem rouba dos produtores de conteúdo são seus patrões (gravadoras, estúdios, emissoras, etc) na forma de mais-valia e renda sobre a propriedade intelectual.

          1. Poxa, tu resumiu lindamente…

            O lance é que a “galera” se coloca na posição de patrão (gravadora) enquanto empregado (produtor). Pelo menos só assim consigo compreender a persistência de tais discursos.

        3. Resposta simples: NÃO, pirataria NÃO É ROUBO

          Resposta complexa: É perfeitamente compreensível que quem produz um produto de mídia, seja arte, jornalismo (como o próprio Ghedin aqui faz) e tudo mais MEREÇA receber uma compensação. Isso é sem dúvida nenhuma o ideal em uma sociedade de valores monetários.

          Na prática, existe N condições que geram a pirataria. Vamos a eles:

          – A questão social: Produzir uma mídia não é tão difícil nos tempos atuais, digitais. Divulgar e reproduzir, idem.

          No entanto, quando trabalhamos com direitos autorais, com regras arcaicas que beneficiam concentradores de poder, temos um problema sério.

          Se não fosse a iniciativa do Ghedin em procurar uma forma de se remunerar (E isso em parte graças aos apoiadores que passam por aqui – obrigado a vocês também), não estaríamos aqui comentando. Eu ao menos bateria no paywall.

          E se não fosse a pirataria, não estaria curtindo algumas músicas que peguei gosto ou desenhos japoneses. E é difícil classificar a pirataria neste ponto, pois hoje a distribuição digital abrange de uma forma que é difícil saber onde começa a parte “ilícita” (a redistribuição pirata).

          – A questão de uso, posse e manutenção: a Andressa trás isso nos dois textos que ela divulga aqui, fora outros textos tanto do Ghedin quanto de outros. Se teoricamente a gente rouba toda vez que escuta sem pagar, então uma música é um “serviço” (paga por uso) e não “produto” (paga para se ter). É o sonho de muitos capitalistas de mídia.

          Com isso, não teríamos fitas cassete, vinil, etc… Imagine só.

          Se não é a pirataria ou a cópia sem permissão, não teríamos inclusive backup / cópia de coisas que nem original mais tem. Vide incêndios que emissoras de TV sofreram no passado – alguns acervos de TV são baseados em fitas de espectadores que gravaram. Manchete mesmo tem acervo quase perdido por falta de manutenção – sobra as fitas de entusiastas e curiosos.

          – A questão financeira: Sem dúvida quem produz tem que ganhar, mas ainda não há uma infraestrutura que seja justa ao produtor de mídias. O cara acaba recorrendo a grandes empresas de mídia para tal, ou acaba até fazendo uma para si mesmo. E nisso ele acaba de ovelha virando lobo.

    3. Não era o objetivo do texto demonizar, fazer qualquer juízo de valor ou mesmo comparar o streaming com outras formas de distribuição de conteúdo. A Andressa comenta apenas que as dinâmicas do streaming extrapolam as aplicações e afetam até mesmo ambientes de discussão da pirataria.

      No mesmo sentido, também não era a pretensão condenar ou absolver quem pratica a pirataria. Nem do texto, nem do trabalho acadêmico dela, que analisa um fenômeno sem entrar no mérito da legalidade ou não. Pessoalmente, acho essa visão de que pirataria é roubo uma bem pobre porque desconsidera muitos fatores que devem entrar nessa discussão, limitando-se à narrativa das grandes empresas de entretenimento que batem nessa tecla por motivos egoístas (eu ia dizer “óbvios”, mas seu comentário automaticamente derruba essa possível conclusão).

      1. Entendi verdade, nesse caso concordo sobre isso. realmente existe um lado e muitos fatores sobre isso, espero que no futuro foquem em qualidade dos serviços digitais de qualquer meio do meio de entretenimento assim não brigaram com sites piratas né?

        1. Tempos atrás a Crunchyroll fez uma tacada interessante: não sei exatamente o que ela fez nos bastidores, mas conseguiu pegar boa parte dos sites de distribuição de animações “piratas” e redirecionou ao próprio site.

          Detalhe: muitos dos sites de animações piratas pegavam animações que na verdade eram até distribuídas gratuitamente pela Crunchyroll.

          Rolou uma boa discussão no Twitter, mas não dá para tirar o mérito que:

          – sim, há má fé em alguns casos de pirataria
          – tem que se entender o porque da demanda por sites piratas sendo que o site original tinha produtos gratuitos por lá.

    4. Acho que toda forma de latifúndio deve ser combatida, sobretudo o latifúndio caracterizado pela propriedade intelectual.

      Viva a pirataria!

      PS: não, nunca foi e não há argumento que justifique você chamar pirataria de “roubo”. Roubo é o que o patrão faz com a nossa mais-valia.

      PS2: está em curso uma disputa pelo monopólio do streaming. Aguarde alguns anos para ver se a Disney vai continuar liberando por só 8 dólares por mês todo o catálogo dela. Até lá, precisamos garantir a existência das plataformas de pirataria.

      PS3: se não fosse justamente a pirataria uma série de conteúdos antigos sem apelo comercial seriam inacessíveis para a maioria das pessoas.

      PS4: não confie em um capitalista para fazer o trabalho de um arquivo, museu ou biblioteca https://medium.com/message/never-trust-a-corporation-to-do-a-librarys-job-f58db4673351

      1. não confio em capitalismo e também não confio em oposto de capitalismo. pois a natureza humana sempre ferrou e bagunçou tudo. por isso radicalizar qualquer tipo do sistema econômico só piora as coisas e ir aos extremos também não ajuda em nada.
        para mim só existem velhos sonhos e ultrapassados: ficar rico, ser poderoso, ser imortal, ficar famoso, eu só apenas vivo com vida simples e sou feliz com coisas pequenas dia a dia, sempre focado no presente. enfim nada é perfeito, tudo tem um preço.
        bem a pirataria é útil mesmo e monopólio só gerou problemas e ainda gera vicio pelo dinheiro e poder,fama acaba ferrado tudo.

    5. Cópia não é roubo. Seu principio é errado desde a premissa.

      Roubo pressupõe a subtração de um bem físico (você é roubado quando tem um celular furtado ou roubado na rua). Uma cópia mantém o seu bem sob sua guarda e circula uma cópia. Não existe prejuízo, exceto, o prejuízo sonhado com a venda de mais cópias. Mas não se faz justiça com números sonhados.

      Refaça o seu comentário e o seu argumento sob a premissa correta da cópia e a partir daí desenvolve uma raciocínio melhor sobre o tema. Fure a bolha da “mediocridade esquerdista acadêmica” sendo melhor que eles ao invés de simplesmente repetir argumentos errados.

      Existe uma enorme discussão sobre o tema. Discussão séria. Pra isso existe, inclusive, o Partido Pirata no mundo todo.

      1. Entendi a cópia e só um réplica que espalha muito sem afetar o produção dos ricos afinal a pirataria é complexo como dizem por aí e tentam prender pessoas e jogam nos prisões lotados e horríveis por causa de cópias que são espalhados que os donos já tem bilhões na cofre? Entra o problema de tentavia em limitar o pirataria para manter seu conteúdo para si mesmo e sem dar acesso para pessoas que não podem pagar e nem todos podem pagar por conteúdo original quanto a esquerda para mim a esquerda e direta são posições ultrapassados e brigar por ideologia e posição política e partidos políticos são ilógicos e perda do tempo.
        Então dei meu melhor falando sobre isso.

          1. Bem olha lá acho que a direta e esquerda são idiotas e nem tomei posição como direta ou esquerda, e bom tentativa de jogar isca ou talvez qur vc tá sendo troll, eu nunca gostei de direta e esquerda,
            Olha lá eu não sigo ngm para que perder tempo a fase não tem dono e não tem dono de qualquer posição política.

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