O Signal começou a testar um recurso de transferência de dinheiro usando a MobileCoin, uma “privacy coin”, ou criptomoeda que se esforça para preservar o anonimato dos usuários e das transações (ao contrário do bitcoin, esses dados não ficam expostos numa blockchain pública). Por ora, as transferências só estão disponíveis no Reino Unido, pelos apps para Android e iOS.
A notícia preocupa. Em entrevista à Wired, Moxie Marlinspike, criador do Signal e CEO da fundação responsável pelo aplicativo, argumenta que o objetivo é dar às transações financeiras o mesmo tratamento privado existente para a comunicação, o que parece uma premissa falha — existem numerosos cenários que justificam conversas privadas; já para transações financeiras, só consigo imaginar cenários ilegais, como lavagem de dinheiro. Ao misturar as duas coisas, periga enfraquecer o argumento da privacidade nas comunicações em vez de fortalecer o da privacidade como um todo.
A novidade também borra o foco do Signal, que sempre foi um app de mensagens, e com certeza atrairá um escrutínio pesado de governos e órgãos reguladores. Moxie dá a entender que a oferta de transferências financeiras seja um imperativo competitivo, como se o destino de todos os apps de mensagens fosse virar os super apps chineses. Não precisa ser assim.
O maior impacto, porém, é na confiança. Para muita gente — e eu me incluo nesse grupo —, é forte a associação entre criptomoedas e atividades suspeitas e ideias malucas. O Signal sempre teve um foco cirúrgico em manter conversas privadas. Agora, não mais. O clima no tópico de discussão da novidade está péssimo. Via Signal (em inglês), Wired (em inglês).