Dicas

Como transformar seu celular em um “celular minimalista”

Uma mão segurando um celular com a tela branca em ambiente completamente escuro.

Um projeto muito comum nas plataformas de financiamento coletivo estrangeiras, como o Kickstarter, é o do “celular minimalista”. Você já deve ter visto algum na imprensa: eles são aparelhos elegantes, muitas vezes com tela monocromática, e não costumam fazer muito mais do que ligações e troca de mensagens.

Teve o Light Phone, que já está em sua segunda versão e foi comentado aqui no site.

Light Phone 2 segurado na mão.
Foto: Light/Divulgação.

Outra marca do gênero badalada é a Punkt, que já tem uma linha de aparelhos simples e com acabamento premium, cujo argumento de vendas era o fato de que eles não se conectavam à internet. O mais recente deles, o MP02… bem, tem internet, mas somente “internet como ferramenta”.

Celular Punkt MP02 sobre uma mesa branca, visão de cima, com objetos vermelhos nos lados da imagem.
Foto: Punkt/Divulgação.

O mais recente do gênero é o Mudita Pure — seu financiamento coletivo terminou no último dia 23 de julho, com US$ 262 mil arrecadados. Ele traz uma tela de e-ink (similar à do Kindle), alega emitir menos radiação e vem com um sistema operacional próprio sem navegador web, mas com app de meditação.

Celular Mudita Pure sobre uma superfície branca com duas pedrinhas à esquerda e um ramo do direito.
Foto: Mudita/Divulgação.

A repercussão que esses aparelhos geram sinaliza que, em algum nível, estamos insatisfeitos com os nossos celulares normais, os “não minimalistas”. Apesar disso, nenhum deles chegou perto de arranhar a hegemonia em vendas das Samsung e Apple da vida. Aspiramos os valores que os minimalistas carregam, mas na hora do vamos ver é difícil abrir mão das comodidades a que nos acostumamos nos celulares tradicionais.

Acredito que isso ocorra porque os celulares “minimalistas” (tenho bode desse termo) são a resposta certa para uma pergunta errada. Afinal, se o que quiséssemos fosse menos recursos, interfaces simples e bateria de longa duração, os feature phones de marcas como Positivo e Nokia/HMD Global estariam vendendo muito mais. Não é o caso. Eles ainda vendem, mas não para jovens abastados em busca de ~liberdade que se encantam com os vídeos bonitinhos desses projetos de Kickstarter. Feature phones vendem para quem busca, geralmente em cenários específicos, os recursos que eles oferecem bem, a saber ligações, mensagens de texto e bateria de longa duração.

O Lightphone 2 evidencia a dissociação entre aspiração e prática. A primeira versão só fazia ligações e trocava mensagens SMS. Na segunda, seus criadores fizeram concessões e acrescentaram ferramentas opcionais — o que, em outros celulares, alguém poderia chamar de “app”. Até agora, há uma calculadora e um app de podcasts como opcionais. Em produção, um tocador de músicas que deve chegar em agosto e, ainda sem prazo, mas já em desenvolvimento, apps para direções/mapas, gravador de voz e lembretes do calendário. Também estão tentando integrar a Uber e a Lyft, mas “isso exige colaboração das plataformas [Uber e Lyft], então é um pouquinho mais complicado que outras ferramentas que planejamos lançar com um prazo previsível”.

Quando mudamos a lente pela qual percebemos os celulares, fica mais fácil entender o problema e buscar a solução. E aqui eu lanço uma suspeita: o que nos atrai nos celulares minimalistas é o manifesto contra o excesso de distrações dos celulares tradicionais. Por isso, para um “celular minimalista” pode ser qualquer um, basta que ele seja bem configurado.

Preparativos

Boa dobradinha.
Foto de 2016. O notebook continua o mesmo; o celular, quase o mesmo, mas com apps beeeem diferentes. Foto: Rodrigo Ghedin.

O objetivo aqui é deixar o celular menos viciante, não incapacitá-lo. Ao longo do anos, fiz vários testes e experiências que, no geral, acho que me ajudaram a mitigar o vício. Talvez algumas conclusões a que cheguei lhe sejam úteis.

Uma ajuda externa que faz diferença é ter um computador e/ou tablet à mão, para delegar tarefas que demandam mais atenção ou têm maior potencial de distração a uma tela maior, mais confortável, que não exija tantas rolagens ou olhos fixos em telas relativamente pequenas. Sei que essa não é a realidade da maioria das pessoas, então fica essa ressalva: se o celular é o único dispositivo com acesso à internet que você tem, é mais difícil torná-lo à prova de distrações.

As dicas são baseadas no iOS, mas não imagino que alguém tenha dificuldades em reproduzi-las em celulares Android. Se deparar-se com alguma, peço que a explique nos comentários.

Ferramentas, não apps

Quando me percebo usando tempo demais um app qualquer, questiono se preciso dele. Por esse filtro, não sobrou um app de rede social instalado no celular. Não nego que fizeram falta nos primeiros dias, mas é surpreendente como se passa bem sem eles depois do choque inicial. Vale também para jogos e apps de notícias, qualquer coisa não essencial (e tem que ser criterioso com a classificação de “essencial”) que esteja lhe tomando muito tempo.

Acesso redes sociais no computador, em horários não determinados, mas específicos — leia-se: não fico com o Twitter aberto o tempo todo. Gasta-se menos tempo com aquela rolagem do feed por inércia e, consequentemente, com “polêmicas” vazias, que só existem dentro dessas redes ou raramente as extrapolam.

Mais uma vez, a filosofia do Light Phone está correta:

Diferentemente de feeds, que são projetados para mantê-lo rolando [a tela], ferramentas são para realizar tarefas. (…) O Light Phone 2 nunca terá feeds, redes sociais, publicidade, notícias ou e-mail. (…) Não é infinitude, apenas intenção.

Ah, e cuidado com o navegador. Todas as redes sociais têm versões web, mais rápidas de serem acessadas do que baixar o app correspondente. Até dá para bloquear esses sites, uma pequena dose de vigilância nos primeiros dias pode ser suficiente para não abusar dessa brecha.

De reativo para intencional

Print da tela de configurações do recurso Não Perturbe, no iOS 13.Meu celular só acende a tela e faz barulho quando alguém me liga. Notificações jamais me interrompem, nem mesmo quando estou usando o aparelho. Isso é possível mantendo o recurso Não Perturbe ativado o tempo todo e, nas opções dele, marcando a opção Sempre no campo “Silenciar”.

Acho que essa deveria ser a configuração padrão, pois mais tranquila e sem perdas evidentes. Com frequência dou uma olhada no celular e, logo na tela de bloqueio, ele já me informa se há notificações novas. (E quando passo muito tempo sem vê-lo, é porque definitivamente não quero ser interrompido.) O mesmo ocorre quando estou usando o celular; vez ou outra, puxo a cortina de notificações para ver se tem algo novo. Com essa configuração, inverto a lógica das notificações: em vez de reativo, meu papel passa a ser ativo.

Há exceções, por exemplo quando estou aguardando uma mensagem específica ou coisa do tipo. Nesses casos, simplesmente desativo o Não Perturbe até recebê-la e o reativo em seguida.

Vale a pena, também, passar um pente fino nas permissões de notificações. A maioria dos apps abusa desse recurso, então eu simplesmente fecho a porta a eles. Isso vale para qualquer app, mas em especial àqueles que usamos esporadicamente. Durante a pandemia, por exemplo, não estou usando apps de carona (Uber, 99 etc.), então desativei as notificações porque elas têm zero utilidade nesse período. Nos de mensagens, grupos são sempre silenciados.

Um efeito colateral inesperado dessa dieta de notificações é que ela valoriza as que passam pelo filtro. As notificações voltam a ser agradáveis, em vez de uma chateação. Isso é bem legal.

O que mais?

Uso e recomendo fortemente um bloqueador de anúncios. As vantagens são dramáticas e variadas: menos poluição, sites mais leves, menor consumo de bateria. Veja aqui as melhores extensões e aplicativos.

Uma dica que faz muito sucesso desde que foi apresentada é deixar a tela do celular em preto e branco. Apps viciantes com forte apelo visual, como YouTube e Instagram, ficam bem menos atraentes sem cores. Neste post explico com ativar isso.

Faltou alguma dica? Diga aí nos comentários.

Foto do topo: @guanmu/Unsplash.

Edição 20#27

A melhor maneira de acompanhar o site é a newsletter gratuita (toda quinta-feira, cancele quando quiser):

Acompanhe também nas redes sociais:

  • Mastodon
  • Telegram
  • Twitter
  • Feed RSS

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

30 comentários

  1. Matéria interessante!
    Há algum tempo penso sobre um aparelho mais minimalista. Porém, me encanto pelas facilidades que os atuais me apresentam. App de banco, app de estacionamento e parquímetro, app que deixa sua casa mais inteligente são alguns que mais gosto e utilizo de forma responsável. Difícil abrir mão deles depois que se acostuma.
    Pesquisei os modelos da matéria e os preços não são nada convidativos. Resultado: continuo com o atual que pode se tornar minimalista, basta não dar asas à imaginação.

  2. Isso de celular minimalista é só para vender aparelhos. Qualquer celular é minimalista se vc configurar. O iphone é um excelente celular minimalista. Dura bastante, atualizacões frequentes de sistema operacional, dá pra modificar quase tudo, e a bateria dura muito. Quem reclama da bateria é pq passa horas com a tela deslizando feeds. Uso um iphone SE da primeira geração desde quando lançou, e é perfeito. Além disso, tem tudo que vc precisa, pra quando precisa. É mágico ter mapas, calculadora, gravador de voz, mp3 player, chamar táxi a um clique, fotografar com razoável qualidade, comunicar com qualquer um, no seu bolso. Minha única reclamação é que as pessoas acham que vc precisa responder o whatsapp imediatamente, mas isso nem é problema do celular, e sim da mentalidade geral.

  3. Eu acho legal a ideia de usar menos o telefone e qualquer aparelho eletrônico, por outro lado, eu vejo com ressalvas essa busca pelo controle. Parece que alguma pessoas trocam a ansiedade de estar sempre na redes pela ansiedade de não usá-las. Pode-se argumentar que o segundo é menos nocivo porque nos expõem menos às redes; tendo a concordar, mas ainda assim, ansiedade é ansiedade.

    1. Falando por mim, no começo rolou uma ansiedade. (No comecinho mesmo, eu trapaceava acessando as redes pelo navegador.) Depois, porém, a coisa vai se assentando. Imagino que seja como com qualquer outro vício, que tem aquela fase de abstinência, mais difícil de lidar. Daí vem a indiferença, e isso é bom demais. Um dia talvez a gente seja como o Zeca Pagodinho, o minimalista-mor:

      “”Há muito tempo que eu não usava esse roupão. Achei em casa, estava frio, falei: ‘Mônica [esposa], tira uma foto e manda para a Adriana Pena [da sua equipe]. Ela postou. Eu não sei nem o que é isso, postar. Não faço ideia. Não mexo com esses negócios, não. O meu telefone é só para ligar e atender.”

      1. Ainda não cheguei nesse ponto, mas sinto que estou chegando naquele momento da vida onde tudo fica mais complicado de aprender, minhas piadas não tem mais graça e os jovens precisam me ensinar conceitos complexos como o TikTok.

        Sinto que a vida está ficando boa novamente.

  4. Há launchers desenhados para menos uso, como esse aqui que infelizmente ainda não está disponível publicamente: https://www.youtube.com/watch?v=VVnmrUmSvqo

    Se procurar na Play Store, você consegue achar várias alternativas sob a descrição de “Minimalist Launcher”, acredito que faça muito mais sentido que um hardware dedicado essa alternativa. O Before Launcher é bem legal, para mim não faz tanta diferença assim, mas quando testei atendeu bem.

    1. Eu era um desses viciados em launchers, até trocar meu smartphone pelo Zenfone 5z. Ele veio com Android 8 e o launcher inchado da Asus, então eu continuei testando launchers. Uma semana depois, atualização pro Android 9, e a interface melhorou. Passei a usar o Nova launcher, e ficava nisso.
      Mas aí a Asus trouxe o Android 10, e cara, foi uma boa mudança. O launcher ficou bem limpo! Além disso eu pude mexer em várias coisas, e deixei ele tão simples, que são 2 toques na tela para entrar nos apps mais usados.
      Nada de barra do google, nada de widgets, tudo bem condensado em uma só tela. Foi pouco trabalho pra deixar o celular redondinho. Tô impressionado.

    2. Eu tentei usar o Before, o problema é que ele ainda parece um “beta”. Tive muitos bugs com ele, principalmente com a navegação por gestos no Android 10.

      O Ratio parece sensacional. Me inscrevi nele na outra vez que você postou o vídeo hahahahaha

  5. Limitar o tempo de uso dos apps também é uma boa ideia.
    No começo fiquei chocado ao ver que gastava 5h do meu dia no Twitter.

    1. quando usava redes sociais coloquei limite tb, mas quando estava para bater eu sempre selecionava “estender tempo”

  6. Usando mais o computador e menos o celular sinto que fico menos “viciado”, não no sentido de ficar na frente da tela por menos tempo, mas sim na qualidade de conteúdo acessado. A disposição para ler textos maiores e me concentrar nas coisas, além de ficar menos em redes des-sociais, é evidente. Essa tela do iPônei cheia de ícones já me deixa irritado.

    1. Tenho a mesma impressão.
      Não que eu passe menos tempo, mas eu REALMENTE paro pra ler, presto atenção, penso no conteúdo da leitura, quando estou na frente do computador.
      A tela maior (e sem touch), o teclado, o mouse, não são imediatos como uma tela touch.
      Mas eu sinto um controle maior com eles, e isso ajuda na minha concentração. Consigo estudar tranquilamente no computador, o que não acontece no celular. Me parece uma boa ideia dicas de como estudar pelo celular, a maioria dos aparelhos tem telas grandes (>5.5″) e nas faixas de renda mais baixas, geralmente é o único aparelho com internet.

  7. Eu tenho deixado o celular num canto, em vez de à mão. Isso faz com que, em momentos de ócio, eu tenha que percorrer a casa para alcançá-lo. Essa única mudança já fez com que eu usasse bem menos o celular.
    Das sugestões do post, já por anos eu apenas mantenho apps essenciais. Em tempos de isolamento/home office, desinstalei Waze e Uber. Redes sociais não precisei nem desinstalar, visto que excluí minha conta em todas elas já há algum tempo (exceto o LinkedIn, mas que, pra mim, não é tão viciante. Este, só acesso via web).
    A sensação de se usar o celular bem menos, ou somente para o essencial, é libertadora. É impressionante como acaba-se criando tempo para outros temas e atividades.

  8. Acho curioso essa interpretação de que para você ser minimalista você tem que comprar/ter bens “minimalistas” e o que você já tem não serve. Acho que essa abordagem desses celulares minimalistas vai de encontro ao que acredito ser minimalista. Parece-me uma tentativa de ganhar dinheiro com minimalismo vendendo o que não é minimalismo.

    1. Penso parecido. E considerando que estamos à beira (ou já vivenciando) de um fetichismo do minimalismo, me pergunto se isso já não estava presente na nossa esquina com aqueles celulares da Obabox para gente idosa. Afinal, aquilo é concentrar apenas no essencial também, não? Só não tem glamour tecnológico nenhum, se é que isso importa.

  9. “Durante a pandemia, por exemplo, não estou usando apps de carona (Uber, 99 etc.), então desativei as notificações porque elas têm zero utilidade nesse período.”
    É melhor remove-los até precisar novamente.

  10. segunda desinstalei facebook e instagram e até agora tudo vai bem.

    sobre notificações, meu celular está sempre no silencioso, os poucos apps que deixo passar recebo-as pelo smartwatch (único uso significativo dele, inclusive) e ali na hora decido se pego ou não o celular.

    a única coisa que gostaria de ajustar melhor é de recebimento de e-mails, eu recebo pouco, mas gostaria de receber em lote, vi um app que faz isso, mas ele não funciona no android 10

      1. seria das notificações, gostaria de configurar para receber por exemplo: 10, 14, 20h, daí os e-mails recebidos nesse meio tempo ficam aguardando a hora para serem notificados

        1. Por que não desativar as notificações de e-mail, aí você só acessa o app nesses intervalos (ou quando quiser)? Pensando aqui agora, a tela inicial do e-mail funciona como se fosse uma tela de notificações: você vê os remetentes e assuntos de cada mensagem, mas só acessa a íntegra se tocar em uma delas.

          (Eu nunca ativei notificações de e-mail no celular e, sinceramente, jamais fez falta.)

  11. As dicas ficam mais “em conta”.
    : )
    Há anos tenho curiosidade nesses aparelhos e sempre me assusto com os preços.
    : (

  12. Durante um curto período, desinstalei redes sociais do meu Android, e o configurei para tela em escala de cinza. Definitivamente foi útil para diminuir seu uso pra cerca de 30%.

    Imagino a possibilidade de ter automações (no caso do Android) para ajudar a controlar o uso, mas nunca consegui implementar nada do tipo.

      1. Penso em usar algo como tasker, para ligar o ~~ Modo Minimalista ~~ em algumas situações, por exemplo, dentro de uma janela de horário, desligar notificações exceto urgentes (ligações de favoritos), diminuir brilho e deixar o display P&B (provavelmente precise de root), bloquear acesso a redes sociais…

        Como uso o celular do trabalho, estar conectado em horário comercial estendido é essencial, porém eu acabo sucumbindo sempre a 3-4h de instagram por dia (!)

        1. Preocupante esse Insta aí!
          Já deu uma olhada nas receitas do IFTTT? Talvez consiga encontrar para algumas dessas funções. Também dá para personalizar usando os apps de bem -estar digital.

        2. O Android 10 deixa a tela em escala de cinza nativamente, tem até uma opção de fazer isso, tipo o modo noturno ou o não perturbe.

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!