O Light Phone 2 é legal, mas você não precisa dele para fazer as pazes com o smartphone

Light Phone 2 segurado na mão.

Uma das críticas mais frequentes às empresas de aplicativos e Apple e Google, donos dos dois principais sistemas operacionais de smartphones, é o design viciante dos seus produtos. Tudo, dos mecanismos de funcionamento às cores usadas, são calibrados para gerar o maior nível possível de engajamento — em outas palavras, para que não abandonemos jamais nossas telinhas. Uma startup do Brooklyn, em Nova York, há anos oferece uma alternativa radical a essa abordagem dominante na tecnologia móvel.

Em 2015, o Light Phone foi anunciado em um site de financiamento coletivo. Joe Hollier e Kaiwei Tang, os criadores do projeto, pediram US$ 200 mil para materializar o aparelho; receberam mais que o dobro, ou US$ 415 mil.

O Light Phone original não tinha sequer tela, apenas um teclado numérico iluminado. Ele pesava apenas 38,5 g e era bastante discreto. Com o tamanho aproximado de um cartão de crédito, era deliberadamente projetado para “ser usado o mínimo possível”. Ele funcionava com um chip pré-pago e podia receber ligações redirecionadas de outro smartphone, guardava até dez números na memória e mostrava as horas. E só. A bateria durava 20 dias.

Agora, a dupla da Light voltaram a uma plataforma de financiamento coletivo para lançar o Light Phone 2, uma versão revisitada, com algumas funções extras, mas que preserva a simplicidade do projeto original —  enquanto esse só fazia “uma coisa” (ligações), a nova versão faz “algumas coisas”.

De partida, o Light Phone 2 será capaz de fazer ligações, trocar mensagens SMS, armazenar contatos, programar alarmes e terá uma função de resposta automática para quando o usuário não estiver disponível. Caso “seja possível e faça sentido”, ele também ganhará direções por GPS, acesso a serviços de carona tipo Uber, um player de música, previsão do tempo, comandos de voz, calculadora e dicionário.

O que ele não terá? Nominalmente, os criadores do Light Phone listam notícias, anúncios, e-mail e redes sociais. A lista, porém, é bem maior e inclui jogos, câmera e boa parte dos apps que servem de base para outros smartphones populares.

O Light Phone 2 roda uma versão alterada do Android, que os desenvolvedores batizaram de LightOS. Ele é monocromático e totalmente baseado em texto. Pelos vídeos e imagens promocionais, parece algo bem resolvido e que casa com o visual minimalista do dispositivo. E isso não significa que seja algo defasado; o Light Phone 2 conversa com redes 4G, traz um conector USB-C e uma tela de e-ink, similar à usada no Kindle, da Amazon.

Light Phone 2 recebendo uma ligação.
Light Phone 2 recebendo uma ligação. Foto: Light/Divulgação.

As demais configurações incluem 1 GB de RAM, 8 GB de memória interna, sensor de proximidade, alto-falante, motor de vibração e acabamento em alumínio anodizado. Ele pesará 80 g e a sua bateria, de 500 mAh, garantirá até cinco dias longe da tomada, em stand by.

Um Light Phone seu

Quem comprar o Light Phone 2 na pré-venda, pagará o valor promocional de US$ 250. Quando chegar ao mercado, seu preço sugerido será de US$ 400.

O sucesso da campanha, que, faltando 21 dias para ser encerrada, já arrecadou 277% do valor pedido — US$ 692 mil —, sinaliza um forte interesse de parte dos consumidores por mais simplicidade.

A boa notícia é que, para desfrutar desse mítico smartphone que exige menos da gente, não é preciso desembolsar centenas de dólares em um novo aparelho nem esperar ele ser lançado — as primeiras unidades serão entregues em abril de 2019. É possível transformar qualquer smartphone em um “light phone”.

O cineasta Matt D’Avella, em seu canal no YouTube, dá um bom ponto de partida para essa “conversão” (vídeo em inglês):

O segredo está em encontrar nossos pontos fracos na relação com o smartphone e combatê-los.

Um bastante óbvio são os apps de redes sociais. Muito legais, eles criam fossos de procrastinação quando usados indiscriminadamente. D’Avella esconde o Instagram em uma pasta de difícil acesso. Outra saída é apagar o app e acessar a rede apenas pelo navegador, em um computador convencional. O mesmo vale para Facebook, Twitter, Pinterest e todos os demais apps com feeds com rolagem infinita.

As notificações são outro vilão. No New York Times, John Herrman as compara com ervas daninhas: sempre crescendo, sempre exigindo a nossa atenção para serem aparadas, ou removidas. Na maioria dos casos, os desenvolvedores abusam desse recurso, usando-o para chamar a nossa atenção a informações que não são nem urgentes, nem tão importantes que não possam esperar que cheguemos a elas ativamente. Assim, reduzir o volume de notificações é um bom caminho para perder menos tempo distraído por elas.

Gráfico comparando o Light Phone 2 ao original e a smartphones.
Foto: Light/Divulgação.

No gráfico em que contrapõe o Light Phone a smartphones comuns, os criadores do projeto dizem que esses “fazem muitas coisas”. Reduzir esse volume é uma boa, especialmente se você dispõe de outros equipamentos. Caso tenha um tablet, por exemplo, pode remover apps de leitura, como o do Kindle, sem muito prejuízo. O mesmo vale para joguinhos. Apps usados esporadicamente ou em um período limitado podem ser apagados passada a necessidade sem qualquer prejuízo.

O objetivo geral, ou o que baliza quem está disposto a encarar o smartphone de uma maneira mais assertiva, é usá-lo com propósito. Limitar as possibilidades que o sistema dele tem de chamar a nossa atenção ao essencial, pegá-lo no bolso ou na bolsa quando ele for necessário, e não para passar o tempo.

Caso prefira dar uma chance ao Light Phone, a campanha vai até dia 26 de março e eles entregam no mundo inteiro.

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14 comentários

  1. Só sei que se fosse rosa e tivesse câmera (apesar de não mostrar) seria praticamente o dispositivo móvel do episódio Nosedive da terceira temporada de Black Mirror

  2. Achei o aparelho muito bonito, mas acho que a proposta é tão minimalista que sairia pela culatra no meu caso: precisaria sempre carregar meu smartphone a maioria do tempo.

    Penso que seria uma boa oportunidade de aproveitar a flexibilidade do Android e lançar uma skin focada em uso “produtivo”. Usar uma interface minimalista com menos triggers de uso, desabilitar notificações “inúteis” por padrão e oferecer ferramentas de monitoramento de uso como sugerido aqui mesmo no MdU.

    No momento, acho que a solução realista é fazer essas alterações você mesmo.

  3. Temos que aprender a combater o exagero, e não a tecnologia.
    O conceito é legal, mas eu duvido muito que as pessoas deixarão seus Iphones em casa para ficar com um Light phone no bolso.
    A campanha foi um sucesso, mas isso não reflete a realidade.
    Chegamos a um patamar tecnológico que não tem mais volta.
    Romancear um passado com máquinas de datilografar, como o vídeo de divulgação tenta nos vender, é algo que jamais acontecerá.

    Ps: Que telefone caro, hein?

  4. E quem é que ainda faz ou recebe ligações?
    Eu só uso whatsapp, facebook messenger, e emails…
    Aliás o celular ressuscitou o email que não usava mais no pc a não ser à trabalho…

    1. Victor, pois é. Isso e muito comum ainda nos EUA e Europa. Aqui no Brasil SMS e ligações para outras operadoras era algo quase proibitivo. A ascensão desses mensageiros na terra brasilis se deu justamente por esse motivo.

      1. Mas não só. Ligação de voz é contraproducente. Obsoleta. Ora você tá ocupado e não pode atender. Ora tá atendendo e mais alguém te liga. Ora precisa fazer teleconferência. Ora não entende o que falam e pede pra repetir ora tem que pegar papel e lápis pra anotar um recado ou lista de coisas… .. Por sms já era um avanço mas cobrar por mensagem era proibitivo. Enfim. Comunicação assíncrona em paralelo e em grupo é muito mais prática…

        1. Existem forma de criar grupos via MMS que é bem comum por lá também e, veja só, suas colocações são importantes, mas não estão em situações que acontece por lá, por exemplo.
          Chamadas em conferência, chamadas em espera…etc
          Mandar arquivos via e-mail é algo que ainda persiste;
          Eu, por muitas vezes, prefiro ligação a esperar a resposta de uma pessoa.
          Agora voltando a questão pessoal;
          WhatsApp para mim é diversão, muito informal, não deixa de legal mas não compreendo quererem formalizar, tratar como se tivesse o mesmo preso de ouvir a pessoa no momento e com a mesma rapidez de uma chamada. Para mim ligar rápido e tratar de assuntos é bem mais produtivo, mas claro, depende muito.
          O que me incomoda é a mistureba que o app faz, e aí que ele começa a deixar de ser produtivo, você tá tratando de assuntos da universidade e se dá conta que está a 15 minutos assistindo videos de gatinhos.

    2. Pelo que vi sobre o Light Phone 2, eles estão estudando novas possibilidades… Nada impede eles de fazerem uma parceria com o WhatsApp para criar uma versão do app limitada à troca de mensagens (já que o celular terá suporte a troca de SMS), assim como podem fazer com inúmeros outros aplicativos úteis, que não fujam da proposta de diminuir o tempo gasto no aparelho, mas ajudem a resolver o problema da aparente inutilidade do mesmo…

    1. Sei que shopping China é fogo, porém na Gearbest tem uns celulares nesse naipe de simplicidade porém não tanta é sem E-ink

  5. Desde o ano passado tenho me adaptado mais a questão do menos uso do smartphone.
    Os primeiros problemas iniciais foi a sensação de solidão, ela é real e a segunda parte é como as pessoas podem chegar até você.
    Você está tão pronto para qualquer coisa, que quando você dificulta (sai do WhatsApp por exemplo), todos imaginam que você mudou de número ou não quer mais aquela amizade.
    É, de certa forma, perturbador.
    Enfim, como ainda continuo usando as redes sociais, compartilhando coisas e comentando de vez em quando, eu consigo imaginar que para os outros eu estou bem, curtindo e levando a vida como eles.
    Um detalhe que também me fez me desconectar mais, a bateria do telefone dura dois dias!
    Ótimo texto, abraço.

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