Facebook com brasileiros: O fim do mundo

por Vincent Bevins

Nota do editor: O post abaixo, publicado originalmente na FORM IV : THING 002, traz uma visão privilegiada de um estrangeiro que viveu no Brasil e costuma estar aqui, tem amigos brasileiros e conhece os meandros dos nossos hábitos. Ele fala sobre como nos comportamos em redes sociais, especialmente no Facebook. Caso você se identifique, não se preocupe: é o nosso jeitinho.


Quando Isabel me pediu para escrever algo sobre a forma como interajo no Facebook, senti-me grato por dois motivos. Primeiro, foi bom ter notícias dela. Não vivo próximo a ela ou de muitos outros bons amigos há anos. Só a tenho visto pelo Facebook.

O segundo motivo foi pela forma como ela descreveu as coisas que eu tenho publicado lá. Não foi exatamente um elogio e é um pouco constrangedor repetir o que ela disse, mas tive a sensação que ela entendeu mais ou menos o que eu queria dizer. Ela sabia discernir quando eu estava falando algo sério, ou somente quando estava fazendo piada. (mais…)

Por que sites de restaurantes são tão ruins?

Se tivesse que escolher uma categoria de sites para representar más práticas da área, ficaria dividido entre os de pirataria e os de restaurantes. A primeira pela tempestade de anúncios invasivos e de mau gosto; a segunda, por conseguirem transformar algo inerentemente simples numa experiência quase sempre ruim.

Nos últimos anos meio que substituí a procura de restaurantes da web para apps como Foursquare e Yelp, mas os bons têm sites. E por motivos justificáveis. Além de facilitar a consulta ao cardápio e dar um ar mais seguro aos futuros clientes, alguns aceitam reservas e têm delivery.

Só que, em pleno 2015, muitos continuam queimando a própria imagem com erros básicos de usabilidade. Ficando só em Maringá, este aqui, um dos mais requintados da cidade, apresenta o menu em Flash. Este outro, de que gosto bastante, tem uma interface horrível que abre em janelas modais, como se fosse as seções fossem um carrossel de fotos — e… bem, na prática o site é isso mesmo. Versão móvel? Site responsivo? São exigências muito futuristas. (mais…)

Smartphones à prova d’água, o legado de 2014

Água e eletrônicos, regra geral, não combinam. Se você alguma vez, por descuido no banheiro ou alguma brincadeira à beira da piscina deixou seu smartphone mergulhar em H2O ou outro líquido qualquer, é bem provável que aquele tenha sido um salto fatal. Felizmente, a grande tendência entre os smartphones em 2014 torna essas tragédias coisas do passado: os modelos à prova d’água vieram para ficar. (mais…)

Hoje é segunda-feira, mas está tudo bem

Quando você chega ao trabalho na segunda-feira vindo do descanso do fim de semana, qual a sua atitude em relação às demandas e compromissos profissionais? Entusiasmada e revigorada, ou resmungona?

A forma como encaramos o primeiro dia útil da semana remete àquela história do copo meio cheio ou meio vazio. O retorno ao trabalho pode ser um revigorante recomeço após dois dias de descanso, ou munição para reclamações matinais incessantes. A ciência e a praxe suportam ambas as situações. (mais…)

Yo, Drop e Ping lutam pela área VIP do seu smartphone: as notificações

Nunca cogitei criar um app do Manual do Usuário ou de qualquer outro blog. A web, acessada pelo navegador móvel, é suficiente para tudo. Ou quase tudo. Apenas um recurso a que apps têm acesso eu sinto falta: notificação.

O fluxo de posts daqui é tranquilo. Quando muito, publico três, quatro num dia. Alguns blogs, menos ainda. Seria legal poder avisar ao leitor mais interessado quando um post vai ao ar, na mesma hora, direto na parte mais privilegiada de um dispositivo móvel.

E… bem, o Yo, por mais risível que fosse a sua proposta inicial, supre essa lacuna — e o melhor, sem que eu precise me preocupar em desenvolver um app e atuar na sua manutenção. Ele parecia uma piada, mas alguns viram ali potencial. Em atualização posterior, o Yo ganhou a capacidade de carregar links junto ao característico “yo!” Aproveitei-me disso para subir o desejado sistema de notificação de posts em tempo real.

Se você quiser receber os posts do Manual do Usuário na hora em que são publicados, basta mandar um Yo para “manualdousuario” (sem aspas). Funciona e, hoje, 38 leitores já estão cadastrados nesse sistema. (mais…)

Eu esperava menos do Apple Watch

Ontem a Apple se lançou em uma categoria inédita tendo como parâmetro de comparação apenas produtos das concorrentes, desenvolvidos a toque de caixa e lançados ante a mera especulação de que ela estaria criando algo nesse segmento, nenhum deles definitivo em forma ou função. Um relógio, um relógio inteligente.

Nada do que Samsung, Google, LG e Motorola fizeram, até agora, é interessante. São gadgets curiosos, sem dúvida, mas sobram deficiências para afastar tanto quem gosta de telinhas brilhantes quanto os que usam relógios estilosos e estão à espera de um assim que, por acaso, também tenha alguma inteligência.

O Apple Watch tem apps, sensores, compartilha até as batidas do coração com outros usuários. Tem funções para a prática de exercícios físicos. Oferece indicações curva a curva do GPS (via Apple Maps e usando o módulo do iPhone) e puxa fotos para exibi-las numa tela incapaz de mostrar muita coisa. (mais…)

O que importa: números enormes ou experiência de uso?

Quando se fala em gadgets, especificações costumam tomar um pedaço do debate. Antigamente isso fazia algum sentido: com processadores, memórias e outros elementos não tão avançados, qualquer ganho era importante. Hoje? Não mais. O iPhone está aí para provar: tem 1 GB de RAM e usa um SoC com processador dual core rodando a 1,3 GHz e, ainda assim, não sofre com problemas de desempenho. Pelo contrário. O diabo é enfiar isso na cabeça do consumidor.

O novo Moto X é um exemplo de reação a essa sede por números. O original, do ano passado, tinha um Snapdragon S4 Pro enquanto todos os demais eram lançados com a versão 800. Ainda que, por dentro, ambos fossem muito parecidos, a menção a “S4” criou um bloqueio em boa parte dos consumidores em potencial, aquela consciente desses nomes. Alguns sites “especializados” entraram na onda e colocaram o Moto X no segmento intermediário, mesmo ele oferecendo uma experiência de uso melhor que os topos de linha incontestáveis.

O mesmo vale para a tela. A do antigo, de 4,7 polegadas com resolução de 720p, era um “sweet spot”: grande o bastante para ver vídeos e jogar com conforto, pequena para não sacrificar portabilidade e uso com uma mão. (mais…)

Qual é a da obsessão com os grupos do WhatsApp?

Ultimamente tenho observado o comportamento de amigos e conhecidos no WhatsApp e, desse processo, uma dúvida emergiu: por que essa obsessão com grupos do WhatsApp?

Não é algo restrito aos meus círculos de amizades. Uma pesquisa no Google revela tutoriais e indicações de grupos. Em qualquer grupo no Facebook, não demora muito até alguém propôr a criação de um grupo do WhatsApp, tipo um grupo do grupo. No Twitter, uma pesquisa por “grupos whatsapp” revela as situações mais malucas, como o grupo de DJs que vão às apresentações uns dos outros para se apoiarem (?), e aquelas triviais, como os já tradicionais grupos familiares.

https://twitter.com/FatosDoTwiteiro/status/501505227099734017

https://twitter.com/surtossurreais/status/500828071369670657

https://twitter.com/grossa/status/500452823130447872

A prova irrefutável da penetração dos grupos do WhatsApp na nossa cultura vem do Google Trends, que mede a popularidade de termos consultados no maior buscador do mundo. É notável a supremacia dos grupos do WhatsApp:

Grupos WhatsApp, Grupos Facebook e Comunidades Orkut no Google Trends.

Os grupos do WhatsApp atropelaram os do Facebook quando esses começavam a se estabelecer. Eles estão em um patamar que nem mesmo as comunidades do Orkut, que tinham a favor a falta de concorrência e contra a quantidade menor de usuários, conseguiram alcançar. Tenho a suspeita de que rapidez e o acesso mais difundido a smartphones, dos quais o WhatsApp virou item básico no Brasil, explicam a preferência por ele e a sua recente subida meteórica no gráfico acima.

Da minha experiência, há casos onde a reunião rápida entre algumas contatos faz sentido: em trabalhos acadêmicos, eventos ou para combinar saídas, às vezes é mais fácil fazer tudo por ali. Isso rola bastante, mas parece que só conta uma parte da história. A outra é que o WhatsApp virou uma espécie de fim em si mesmo, um ponto de encontro onde as pessoas estão sempre disponíveis e dispostas a compartilhar.

Isso leva o WhatsApp a extrapolar a sua função nuclear, o bate-papo em tempo real, e se transformar em uma espécie de rede social. As fotos da festa, que já foram maciçamente compartilhadas por e-mail, depois Orkut e Facebook, hoje são trocadas pelo WhatsApp. Vídeos, então… grupos de zoeira são um mini-YouTube, e ainda temos os de pornografia. Casos recentes e de grande repercussão de revenge porn tinham em comum o WhatsApp como canal de disseminação.

https://twitter.com/larissagaldi/status/472470251947716608

Na Ásia, concorrentes como o WeChat abraçaram essa “missão” maior. Eles não oferecem apenas bate-papo; lá, os chineses compram coisas, agendam compromissos, compartilham fotos em perfis e realizam uma série de outras ações através de apps que, originalmente, serviam apenas para conversar. Nesse sentido o WhatsApp é extremamente conservador e, ainda assim, as pessoas não desgrudam dele. Há, portanto, um potencial enorme para o Facebook desenvolvê-lo e aprimorá-lo, ainda que isso o coloque em disputa direta com o seu produto principal. Canibalizar o Facebook ou manter o WhatsApp simples, sob o risco de perder terreno para concorrentes mais completos e se dar por vencido em mercados emergentes, como os asiáticos?

Questões empresariais à parte, o que mais me fascina continua sendo a motivação para criar e continuar em grupos do WhatsApp. Quando surge o assunto grupos do WhatsApp não é difícil alguém citar a função silenciar grupos, ou soltar alguma reclamação sobre um deles ou todos. Mas é raro alguém bancar a crítica e sair dos grupos. O medo de perder alguma coisa fala mais alto, só não mais do que a nossa incapacidade de ficarmos sozinhos.

Talvez, apenas talvez, a vontade de estar neles seja apenas uma forma mais fácil, sem fricção de suprir a cota de pertencimento e contato de que todos precisamos.

https://twitter.com/_aSol/status/503445273847533568

Todo mundo odeia o Facebook Messenger

A Rillary não gostou do Facebook Messenger.

Na App Store o Facebook Messenger é o app gratuito mais baixado (o segundo, na brasileira) e sua versão atual tem mais de 1500 avaliações que lhe conferem uma estrela de cinco possíveis. O Google Play agrega todas as versões, logo não existe uma nota que reflita esse período conturbado, mas uma olhada nas últimas avaliações revela avaliações negativas acompanhadas de reclamações inflamadas. Qual o problema do Facebook Messenger?

De minha parte, nenhum. Desconfio que essa onda de críticas decorra puramente da obrigatoriedade em instalá-lo. Porque, de outro modo, é um bom app: tem um design mais elaborado (bonito e funcional), é rápido e faz tudo e mais um pouco que o antigo sistema de conversas embutido no app principal do Facebook, descontinuado em prol desse, fazia. (mais…)

Passamos a fase das extensões nos navegadores, certo?

O Gizmodo perguntou aos leitores quais extensões para o Chrome lhes são vitais. Eu faço a você outra pergunta: existe alguma extensão digna de receber o status “vital”?

Quando esse conceito de extensões surgiu há mais de uma década, ele fazia sentido. A web era limitada, os navegadores, mais ainda. As extensões eram complementos que se inseriam nas lacunas deixadas pelo meio. E havia bastante espaço para elas.

Só que esse meio evoluiu e não foi de graça que situações como a do Fingerprint Canvas se tornaram possíveis. O navegador virou um negócio bem avançado, tanto que um dos principais sistemas domésticos se resume a um deles.

Perguntei no Twitter quais extensões o pessoal lá usa e acha importante. Várias respostas, nenhuma novidade. Muitos falaram do Pocket, uma extensão que pode ser substituída pelo bookmarklet numa boa. O mesmo vale para o Evernote. Bookmarklets, aliás, fazem a mesma coisa que extensões, só que sem consumir recursos, nem poluir a interface — aliás, nem têm interface. Ah, alguns seguidores também falaram em bloqueadores do Flash, algo que dispensa extensão já que o Chrome faz isso nativamente.

No meu navegador tenho apenas três extensões, todas desativáveis a qualquer momento. Duas delas, Google Cast e Buffer, raramente uso (o Chromecast eu uso muito, mas a partir do smartphone). A terceira, Kill News Feed, está sempre à vista e considero uma aliada, só que longe de ser “vital”. Eu passaria mais tempo no Facebook sem ela, e esse seria o único prejuízo.

Então, refaço a pergunta: em 2014 existe alguma extensão de navegador “vital”? De minha parte, acho que passamos essa fase, mas sou todo ouvidos para quem pensa diferente.

Kindle Unlimited, a Netflix dos livros, não resolve o maior problema do leitor moderno: a falta de tempo

Esqueça a pirataria por um momento. Considerando apenas o mercado formal, endossado por produtoras, estúdios, editoras, todos os envolvidos no caminho que a obra faz do autor até o consumidor, hoje é possível ouvir, assistir e ler quantidades absurdas de conteúdo gastando menos de R$ 50 por mês.

É uma conta fascinante. Com a entrada da Amazon na onda dos “Netflix de [insira aqui um mercado de consumo]”, as três frentes se fecham. Não que o Kindle Unlimited seja pioneiro; Oyster e Scribd oferecem planos similares há mais tempo. Juntas, porém, elas não têm o peso da Amazon, que nos EUA domina 65% do mercado editorial. Daí a repercussão do anúncio. (mais…)

No Facebook a vida dos outros parece mais interessante. Fora dele, também

Você já deve ter visto o vídeo acima, provavelmente no Facebook, compartilhado por alguém que aproveitou a deixa para reclamar de como todo mundo é superficial e aumenta as coisas que publicam no site. (mais…)

Nem Material Design, nem iOS 7 são herdeiras da linguagem Metro

Toda vez que alguém mostra um retângulo de uma cor só ou uma tipografia grande na tela, em menos de três segundos alguém no fundo da sala grita “metro!” Com seu aspecto plano, bastante espaço para respirar e visual peculiar, a linguagem Metro (ou moderna, ou seja lá como chamam ela hoje) conseguiu um feito não intencional, não sei se desejável, mas digno de nota: ser atribuída como precursora de uma tendência da qual ela nem é parte.

Na Google I/O desse ano, a linguagem visual Material Design chamou a atenção. E com mérito: é uma proposta ousada, muito bonita e que consegue o feito raro de ser praticável na mesma medida em que é ambiciosa. É só ver as reações no Twitter e em blogs de tecnologia, incluindo aí a de muitos críticos contumazes do Google, para ver que o trabalho liderado por Mathias Duarte foi bem feito. (mais…)

Yo: o futuro da comunicação ou a agulha que estourará a bolha 2.0?

O logo do Yo é tão simples quanto o app.
Imagem: Yo.

Imagine um app que tem como única finalidade mandar uma notificação que informa em texto e áudio, de um jeito engraçado, “yo”. O usuário adiciona seus amigos e, quando toca em um deles, manda um “yo”. Do outro lado, a única opção para quem recebe a mensagem é responder. Com um “yo”. E é basicamente só isso. (mais…)

A melhor brincadeira de 1º de abril que o Google já fez

Nos últimos anos o Google se especializou em celebrar o 1º de abril, também conhecido como Dia da Mentira, com ideias cada vez mais malucas e elaboradas. Em 2014, já na véspera, 31 de março, algumas foram ao ar, como o mashup entre Google Maps e Pokémon. Este ano também marca o décimo aniversário de uma das mentiras mais incríveis da empresa — em parte, curiosamente, porque ela acabou se revelando não ser uma.

As (poucas) brincadeiras do Google até 2004

Imagem ilustrativa do Google Copernicus Center.
Google na Lua. Imagem: Google.

A primeira brincadeira do Dia da Mentira do Google data de 2000, quando a empresa lançou o MentalPlex, um sistema que prometia projetar a imagem mental dos usuários enquanto esses olhavam para um GIF animado. Dois anos depois, foi a vez do PigeonRank, um trocadilho com o PageRank, sistema que analisa e atribui peso às páginas para mostrar sempre as mais relevantes no buscador do Google.

Em 2004, foi a vez do Google Copernicus Center, uma subsidiária do Google na Lua! Foram abertas vagas de emprego com a promessa de que as operações começariam dali a três anos, em 2007.

Além dessa maluquice (convenhamos!), outro anúncio foi feito naquele ano. No comunicado à imprensa, o Google revelou que após ouvir as reclamações de uma usuária sobre os webmails da época, decidiu criar o seu próprio serviço de e-mail. “Pesquisa é a atividade online número dois — o e-mail é a número um; ‘Heck, Yeah’, disseram os co-fundadores do Google”.

Nascia ali o Gmail.

Gmail em 2004: 1 GB de espaço!? Isso é brincadeira?

Ícone do Gmail.
Imagem: Google.

Mas nascia mesmo? Parecia bom demais para ser verdade e, no contexto da época, poderia ser uma brincadeira e tanto. As reclamações da usuária (teoricamente) fictícia no comunicado eram dramas reais das pessoas que acessavam a Internet em meados da década passada:

“‘Ela reclamava sobre gastar todo o seu tempo arquivando mensagens ou tentando encontrá-las’, disse [Larry] Page. ‘E quando ela não estava fazendo isso, tinha que apagar e-mails feito louca para ficar abaixo do limite de quatro mega bytes. Então ela pediu, ‘Vocês aí podem consertar isso?””

Hotmail e Yahoo! Mail, líderes da época, eram tiranos com espaço: com 2 e 4 MB de espaço para mensagens, respectivamente, eles nos forçavam a manter uma rotina quase robótica de apagar definitivamente mensagens da caixa de entrada. Até essa época, aliás, clientes de e-mail locais como Outlook Express (RIP), Thunderbird e outros menos conhecidos hoje faziam sentido porque no computador não havia limites, logo ao baixar as mensagens do servidor rolava um grande alívio no parco espaço disponível para receber novas mensagens.

Imagine o choque que foi um e-mail, gratuito, com 1 GB de espaço? Dava para desconfiar. Muita gente desconfiou, inclusive a mídia especializada.

No Slashdot, a pergunta era “O Gmail do Google ofecerá 1 GB de espaço?” e, em uma atualização datada em 1º de abril (a notícia do Gmail foi publicada no New York Times um dia antes), a descrença se manifestou com força (grifo meu): “O site do Google agora tem um comunicado oficial, naturalmente datado em 1º de abril.”

Outra interrogação cravou seu espaço no título desta notícia do WebProNews, cujo lide pisava em ovos e tinha uma abordagem bastante precavida: “No que pode ser uma elaborada brincadeira, o Google anunciou o lançamento do GMail, um serviço de e-mail gratuito”. O Erik, ao descobrir que o Gmail era de verdade 30 minutos depois de tomar conhecimento dele, ficou desapontado: “Eu testei. Não tem nada de impressionante. Não há nada aqui que eu já não tenha visto antes”. Ah, Erik! Como assim?

Naquele mesmo dia, porém, Jonathan Rosenberg, então VP de Produtos do Google, confirmou a veracidade do Gmail a vários sites. Primeiro acessível mediante convites, depois liberado a todos, a confirmação marcou o fim do racionamento de espaço para e-mails. E fica o convite à reflexão: quantos mega bytes teríamos em nossos webmails hoje se essa história fosse apenas uma brincadeira?

À frente da sua época, e assim por muitos anos

Para os padrões da época 1 GB era um espaço tão colossal que apagar e-mails no Gmail não era uma tarefa trivial ou mesmo incentivada. O site do Gmail não tinha um botão “Delete” destacado na interface — embora existisse, ficava soterrado em um menu à parte. Só em 2006 o “Delete” ganhou um espaço mais digno na interface. A proposta do Google era que com aquele latifúndio de espaço você jamais precisaria apagar um e-mail novamente; no máximo, arquivá-lo, um conceito interessantíssimo que, infelizmente, ainda passa batido por muita gente. (Se você não arquiva mensagens no Gmail, está usando errado.)

E não era só no espaço que o Gmail se destacava. A interface, baseada em AJAX, uma técnica que permite carregar partes da página sem recarregá-la por inteiro, dava uma sensação de velocidade típica dos serviços da empresa. O Gmail era extremamente ágil, anos-luz à frente do Hotmail, na época ainda preso ao visual esquisitão do MSN, e do Yahoo! Mail com suas pastinhas a la Windows 3.11.

Hoje, aquela interface beira o ridículo, como o Mashable nos mostra nesta galeria:

Como o Gmail era em 2004.
Gmail em 2004. Imagem: Google.

Mas acredite, era um negócio simples e interessantíssimo naqueles dias mais ingênuos na web. Disso aí em cima, chegamos ao visual atual, na imagem abaixo devidamente ornamentado com uma “shelfie”:

Shelfie, a nova moda do Gmail.
Gmail Shelfie, a brincadeira de 1º de abril em 2014. Imagem: Google.

Sem falar, claro, nos apps móveis. Em 2004 não existia iOS, Android ou Windows Phone. O mercado era dominado por Symbian, BlackBerry e Windows Mobile e o estado dos apps, deprimente. Já em 2014…

App do Gmail em um tablet Android.
Gmail em um tablet Android. Imagem: Google.

Ao longo dos anos o Gmail mudou um bocado, nem sempre de forma positiva. Alguns redesigns foram duramente criticados (incluindo o atual), o uso da sua popularidade para emplacar serviços sociais do Google, como Buzz e Google+, sempre ganhou a rejeição da maioria maioria dos usuários e a concorrência, ainda que atrasada, avançou e hoje oferece serviços equivalentes — especialmente o Outlook.com, da Microsoft, que ficou bem bom depois que largou o nome “Hotmail” e passou por um banho de loja.

Se toneladas de giga bytes não são mais suficientes para prender alguém ao serviço, o Gmail apostou em outras frentes para manter sua posição de vanguarda. Ele é onipresente, acessível e continua um tanto rápido. O app para Android é exemplar e com o aumento na importância da Conta Google, inclusive servindo para login em sites e serviços de terceiros depois do Google+, um @gmail.com é passou a ser mais do que um endereço de e-mail, é uma identidade na Internet.

A lista de brincadeiras de 1º de abril do Google tem crescido ano após ano. Mas por mais malucas, surreais ou simplesmente bobas que sejam, é difícil superar a do Gmail, de 10 anos atrás. O que chega a ser irônico: a verdade, afinal, foi a maior surpresa já criada pelo Google para o Dia da Mentira.