Facebook com brasileiros: O fim do mundo

Mosaico do curtir do Facebook feito com elementos da própria rede.

por Vincent Bevins

Nota do editor: O post abaixo, publicado originalmente na FORM IV : THING 002, traz uma visão privilegiada de um estrangeiro que viveu no Brasil e costuma estar aqui, tem amigos brasileiros e conhece os meandros dos nossos hábitos. Ele fala sobre como nos comportamos em redes sociais, especialmente no Facebook. Caso você se identifique, não se preocupe: é o nosso jeitinho.


Quando Isabel me pediu para escrever algo sobre a forma como interajo no Facebook, senti-me grato por dois motivos. Primeiro, foi bom ter notícias dela. Não vivo próximo a ela ou de muitos outros bons amigos há anos. Só a tenho visto pelo Facebook.

O segundo motivo foi pela forma como ela descreveu as coisas que eu tenho publicado lá. Não foi exatamente um elogio e é um pouco constrangedor repetir o que ela disse, mas tive a sensação que ela entendeu mais ou menos o que eu queria dizer. Ela sabia discernir quando eu estava falando algo sério, ou somente quando estava fazendo piada.

Isto é muito bom e raro. Porque acredito que hoje, em 2015, a maioria das pessoas com quem interagimos online — ou seja, a maioria das pessoas com quem interagimos, ponto — não tem a menor ideia do que estamos falando. É impossível falar com tantos tipos de pessoas diferentes ao mesmo tempo, em contextos diversos, e ser compreendido por todos, a menos que a mensagem seja extremamente simples ou que as pessoas saibam de antemão sobre o que você está falando.

Acredito que na medida em que transportamos nossas vidas para as redes sociais, todos estamos no mesmo barco, mas acredito também que, em função de algumas escolhas geográficas e de vida que fiz, minha situação é ainda mais acentuada.

E sim, podemos rapidamente admitir o quanto é difícil e constrangedor falar sobre Facebook. Mas, ao mesmo tempo, provavelmente podemos admitir a nós mesmos, de maneira muito rápida também, que utilizamos essa ou outras redes sociais como principal forma de contato com um monte de gente.

Em função de onde estive nos últimos dez anos, meus amigos no Facebook são divididos em aproximadamente 30% de brasileiros e latino-americanos, 30% de norte-americanos e 30% de Londres/Europa. O restante é um grupo de uma série de outros lugares. Agora, já desconsiderando o fato óbvio que temos diferentes idiomas e diferentes faixas etárias e culturas, esses três grupos usam o Facebook de maneiras extremamente diferentes.

Página Pelado de tênis eu me sinto o Sonic.

No Reino Unido, pelo menos entre meus amigos, publicar muito é encarado como mau gosto a não ser que seja algo de utilidade, engraçado ou (em raros casos) muito importante. Nos EUA, as regras são em grande parte equivalentes, apesar de existir uma tolerância maior para posts do tipo: “veja que coisa incrível que fiz”.

Em contrapartida, brasileiros publicam o tempo todo. Se 30% dos meus amigos são brasileiros, é provável que 95% do meu feed de notícias seja brasileiro. E existem muitos e muitos posts de brasileiros que seriam vistos como inadequados ou que causariam vergonha alheia total no mundo anglófono. Por exemplo:

[foto] Veja como eu sou gostoso(a)! [5 vezes por dia]

[foto] Olha eu aqui, felizão com meus amigos! [diariamente]

[link para um artigo, provavelmente de uma fonte completamente falsa] Eu concordo com isso! Ou eu nããão concordo com isso!

E tem um formato especial, conhecido como “textão”, que normalmente é assim:

“Eu realmente não aguento que pessoas [[que eu não conheço]] estão falando [[algo que eu nunca ouvi falar]] sobre [[pessoas de um programa de TV? De uma banda?]]. E é por isso que eu acho que é errado [e o post continua por mais 40, 50 linhas]”
[8000 curtidas e 465 compartilhamentos]

Mas por que os brasileiros não usariam o Facebook de forma única? Eles possuem suas próprias regras. Na forma mais positiva do textão, por exemplo, eles debatem assuntos políticos vitais. Na verdade, esse tipo de coisa no Facebook levou uma enorme onda de protestos em 2013 a uma direção completamente nova (eu diria que para uma muito pior, mas isso é assunto para outro dia). Mesmo em seus momentos mais eficazes, este tipo de uso só funciona para aqueles que estão realmente inteirados. Essas mensagens são inevitavelmente disparadas a pessoas que não as entendem, ou então para uma série de outras às quais o autor do post, original e conceitualmente, não tinha a intenção de atingir.

Quando uma mãe aparece nos comentários do Facebook.
Via TechTudo.

O resultado de todos estes esquemas de interpretação que se misturam no Facebook é que, quando eles (ou eu) se sentam para publicar algo já se sabe claramente, algumas vezes até de forma dolorosa, que a publicação será vista por pelo menos 30% das pessoas como algo bem sincero ou brega, ou sarcástica e idiota demais, ou que a referência cultural será completamente perdida. Ou, ainda, que alguém tentará fazer piada com algo de ruim através do post e 15% das pessoas concordarão e darão um “curtir”, como se estivessem dizendo “kkkkk, é, isso é péssimo”, 35% entenderão a piada, mas não vão concordar, achando que é inapropriada ou cruel, enquanto que 50% clicarão em “curtir” com um sentido completamente diferente do primeiro grupo, dizendo “sim, eu gosto disto também”.

A minha situação é especial e talvez pessoalmente eu teste os limites mais do que deveria (Como a Isabel me mostrou, posso postar coisas como “Veja a investigação que publiquei, estou orgulhoso dela” e, logo em seguida, adotar a postura de uma adolescente americana e insistir em uma piada — provavelmente nada engraçada — sobre como estou sofrendo do efeito sanfona e preciso dicas para cortar os carboidratos. Como alguém pode decidir publicar esses dois posts no mesmo espaço e esperar ser compreendido? Não dá. Mas que espaços há para nós agora que vivemos em redes sociais?), mas eu aposto que você já viu isso acontecendo com seus amigos também.

até ai tudo bem
Via @poxaduduh.

Pense em um amigo que mora em East London, mas nasceu em uma cidade conservadora do Canadá. Ou pense em seus pais e tios. Ou naqueles amigos da escola. Não é só o fato de que eles não concordam com você. Eles fundamentalmente não entendem o que você está dizendo de fato. Você não diria pessoalmente a eles as coisas que publica no Facebook, nem mesmo no chat, em particular. Você se expressaria de uma forma completamente diferente.

Todos os melhores teóricos da linguagem chegaram à conclusão de que você consegue ouvir e compreender apenas assuntos que estejam dentro de um espectro limitado de coisas que você já espera ouvir. A ideia de que somos passivos ou confiáveis, observadores objetivos, já foi totalmente descartada, embora ainda seja aceita pela mídia de massa e pela política.

Não somos bons ouvintes, e isso é verdade não somente no nível conceitual, mas num nível fisiológico bastante básico. O seu cérebro se desfaz de todos os sons ou imagens que considera irrelevantes ou que não sabe como interpretar. E essa decisão é baseada em expectativas. Pessoas que falam mais de um idioma provavelmente já tiveram essa experiência. Se eu espero que uma pessoa fale em português, mas ela começa a falar em inglês, mesmo que perfeitamente, eu quase que invariavelmente não vou entender o que ela disse na primeira vez. Vou ter que pedir a ela para que repita o que disse, calibrando meu cérebro para o inglês, minha língua nativa.

Wittgenstein é provavelmente o melhor, ou meu favorito, para explicar como isso funciona. Nós não falamos no vácuo, nós participamos de um jogo de linguagem, diz ele. É uma ótima e singela representação. Nós não falamos simplesmente aquilo que queremos comunicar. Nós estruturamos a comunicação dentro das regras do jogo. E não jogamos sem uma base. Nós agimos a partir da última jogada realizada pelo adversário. Pense no tênis. Você só tem duas ou três opções para responder uma jogada; da mesma maneira, não existem muitas alternativas para responder uma conversa, se você quer ser compreendido. Você faz a sua jogada a partir do que o outro responderá. E eles reagem dentro desses três limites também (regras-última palavra-resposta esperada), e assim por diante.

Com o Facebook estamos tentando jogar de cinco a quinze jogos ao mesmo tempo e estamos jogando a bola para todos os lados. Com frequência, acertamos ela bem no meio dos rostos da nossa mãe ou de velhos amigos.

Há muito tempo, Sócrates defendeu que a fala não deveria ser escrita. É por isso que hoje lemos Platão, não Sócrates. Ele disse que o idioma escrito seria como um “órfão”, desconectado do pai que tinha falado inicialmente e que assim não poderia defender ou explicar o enunciado. Ele se perderia sem o contexto.

Claro, nós resolvemos esse problema aprendendo a interpretar a escrita dentro do contexto em que nós a observamos. Isso gerou a necessidade de crítica literária e artística. Mas sempre existiu um contexto estrutural para se apoiar – existiam regras para, por exemplo, ler a Bíblia, da mesma forma que hoje existem regras para se ler o New York Times mesmo se você estiver lendo somente online, da mesma forma existiam estruturas contextuais específicas para o simulacro de Baudrillard, ou para a MTV — e isso é especialmente verdadeiro para a comunicação interpessoal.

Aleatório que foi ao velório do Cristiano Araújo.
Via Carinho de Fã.

Eu suponho que estou defendendo (talvez de forma um pouco ridícula, considerando as repercussões e o fato que eu acabei de inventar isto) que, na medida em que transportamos nossas identidades para as redes sociais, que são projetadas para ganhar a atenção do maior número de pessoas possíveis de uma vez só, estamos entrando numa terceira fase. Não precisamos só interpretar textos a partir de determinadas regras. As regras se subdividem, ou talvez, melhor ainda, uma série de regras que se sobrepõem entre si, reduzindo assim as possibilidades de discurso.

Não temos como desfazer isso e as consequências podem ser uma mistura de coisas boas e ruins. Por um lado, isto é uma explicação bem satisfatória para a diversidade de posts que vemos em todos os lugares nas mídias sociais. Precisamos escolher as mensagens mais simples para obter o máximo impacto, então as pessoas quase sempre dizem coisas como:

EU SOU GOSTOSO(A)

EU SOU LEGAL

ISTO É LEGAL

PQP, ESSA PESSOA É MUITO GOSTOSO(A)

o tempo todo. Por outro lado, suspeito que o mundo hoje demanda uma nova forma de comunicação, na qual algumas pessoas vão se sobressair enquanto outras vão somente humilharem a si mesmas. Nossos netos provavelmente acharão maluquice que nós, em algum momento, esperamos ser compreendidos da mesma forma que eu esperava ser compreendido quinze anos atrás.

Recentemente muitas celebridades e comediantes reclamaram sobre esse novo futuro. Mas o futuro será assim e nós vamos desenvolver uma linguagem para ele. E, claro, sempre existe a possibilidade de ser pior.

Mas e a estética? A única teoria estética que sempre me satisfez de verdade é a de Heidegger. Sem me estender muito, vou rapidamente e de forma errônea resumir Der Ursprung des Kunstwerkes ou A Origem da Obra de Arte. Uma obra de arte apresenta um objeto, algo material, Terra (claro, até mesmo som, vídeo e performances são materiais, e assim, Terra). A obra de arte define o Mundo em volta desse objeto material, e estabelece e ilumina todos os sistemas de significação em que ela existe — seu Mundo —, e ao ver como a Terra existe nesse Mundo, como a matéria retira seu sentido de seu lugar no mundo, somos capazes de compreender o mundo e a existência nela.

Tenho quase certeza que o mundo de que ele estava falando não existe mais na realidade. Pelo menos não da forma como ele o compreendia.

E uma pequena nota para os meus amigos no Facebook que talvez estejam lendo isto. Não estou de dieta. Estou em ótima forma. É que eu sou muito engraçado. Mas também sou muito gostoso e sarado.


Texto traduzido e republicado da FORM IV : THING 002 com autorização da editora. (Thanks, Isabel!)

Vincent Bevins é correspondente no Brasil do LA Times e escreve o From Brazil, na Folha de S.Paulo. Siga ele no Twitter: @Vinncent.

Tradução: Fabio Fiss.

Imagem do topo: Charis Tsevis/Flickr.

A newsletter do Manual. Gratuita. Cancele quando quiser:

Quais edições extras deseja receber?


Siga no Bluesky, Mastodon e Telegram. Inscreva-se nas notificações push e no Feed RSS.

35 comentários

  1. Que texto excelente. Tudo o que eu penso eu vi escrito aí. Eu odeio o Facebook. “Odiar” é a palavra correta. Eu não gosto do Facebook. Eu não sei se o Facebook molda as pessoas ou as pessoas que “pioram” — referente apenas a meu círculo social — mas, por exemplo, amigos que sabem de internet, conhecem internet, trabalha com internet, que antes postava coisas legais, hoje só posta porcaria. E eu tiro isso por eu não usar o Facebook, ou seja, tenho aquela extensãozinha de tirar o feed e não posto absolutamente nada, mas vez em nunca, acesso o Facebook Mobile e encontro algo assim. Me faz pensar se é isso o tempo todo. Mas eu não quero comprovar.

  2. “O Brasileiro é ruim…”, “O brasileiro é uma porcaria…” “BRBRHUEHUE”…

    Admito que uso generalizações, mas quanto mais a gente ofende nosso próprio país, mais estamos sendo estúpidos conosco…

    Fico me perguntando se nosso jeito de agir em comunidade não é diferente de algumas sociedades no mundo que tem características semelhantes. Países africanos (acho que Angola, também de linguagem portuguesa) por exemplo, onde lá há muito a valorização da própria comunicação com a comunidade vivente; Índia, Itália, Portugal…

    As pessoas hoje “falam demais” no Facebook pois sentem essa falta de estar com o próximo se comunicando… Se bem que não discordo que hoje falamos mais online do que olho no olho.

    Nós que falamos direto aqui nos comentários, as vezes até uma besteira ou outra, não somos tão diferentes. Só usamos outra mídia que julgamos agradável a comunicação. Ou quando blogamos, escrevemos uma matéria, gravamos um vídeo.

    1. “As pessoas hoje “falam demais” no Facebook pois sentem essa falta de estar com o próximo se comunicando… Se bem que não discordo que hoje falamos mais online do que olho no olho.”
      Acredito que, na verdade, as pessoas tem a necessidade de falar e ter uma opinião própria sobre tudo e todos. E geralmente essa opinião é bastante crua e não embasada.
      Para falar com outros bata usar o chat lá do lado. Postar algo publicamente é querer firmar seu “marco opinatório”.

      1. Em partes concordo. Noto que as pessoas as vezes botam o papo no “público” pois querem também uma segunda opinião, não para impor um marco opinatório. De marco opinatório, posso dizer que isso noto que até e comum na comunicação online – principalmente quando as pessoas comentam e fecham os argumentos sem possibilidade de discordar destes.

        Vai muito do meio onde a pessoa está também. Se eu ligasse meu feed, o que eu mais veria era imagens de gatinhos, fotos com poses falando “olha que legal isso que fiz”, um monte de foto de mulher casada :'( e as coisas de sempre que muitos reclamam – o “velho” coxinha vs. reaça e outros. Poucos amigos no feed tem opiniões legais ou textos compartilhados com algo relevante à mim.

  3. Desde sempre o brasileiro é o gafanhoto virtual, que vaga pela internet como aquela praga, aquela nuvem que tudo consome e tudo destrói. É terrível. Quer acabar com um serviço online qualquer que envolva qualquer grau de interação? Traga para o Brasil.

    Isto posto, esse negócio de querer estabelecer como referência a opinião de um estrangeiro, seja ele qual for, me perdoem mas é muito complexo de vira-lata. Somos uma cultura diferente, ponto. Ruim em alguns aspectos, vergonhosa em outros e superior em vários. E acabou. Vocês todos gostaram do texto porque ele fala o óbvio, beleza. Mas, e daí? Nossa etiqueta social é diferente. O brasileiro, como bicho social, se desenvolveu de uma forma muito peculiar, e que só funciona aqui.

  4. Se as pessoas acham caótico as atualizações postadas no facebook, imagina então no Twitter. É um assunto diferente a cada post.
    Mas Facebook é esse reduto mesmo. Não posto nada por lá, não vejo graça na rede em si. Novidades eu vejo no Twitter mesmo, fotos no Instagram. O que me mantém são os poucos grupos que sigo. Há quem goste, e para esses a ferramenta é muito boa.

    1. Também to pensando em migrar as notícias pro twitter. Passo muito tempo no FB.

      1. Eu organizei uma lista com os feeds de notícias e dou uma olhada no fim do dia. Assim evita-se cair nos perigos da linha de tempo infinita do twitter.

        1. O bom do twitter é que eu posso continuar onde parei. Sei até quantos tweets tenho para ler. O facebook não tem todo esse controle. Assim que fizerem o Aeries pra desktop eu migro pra la.

  5. Usando Facebook (e rede social em geral para se comunicar) em pleno 2015 ao invés de usar o bom e velho correio eletrônico ou enviar cartas físicas para se comunicar, e pior ainda, para ver o que o dono da rede quer que você veja… lamentável.

    Mas falando sério, povos diferentes, culturas diferentes, expectativas diferentes.
    O que cada um vê como utilidade de uma rede social varia. Aqui é só um local público para todo mundo “bostar” o que quiser, daí o resultado. Não é bem uma ferramente, conveniente, para pessoas importantes como em outros locais.

    1. Apesar de eu sempre generalizar, entendo que no final é a pessoa que faz o que quiser. Depende se a pessoa está de acordo com o restante do meio onde ele quer participar.

      Quando a seção dos comentários não estava do meu agrado, reclamei, vi que não era o que eu esperava e sai fora. Hoje está melhor e agora estou aqui participando. Vale para tudo.

      No Facebook, só tenho jornalista ativo no feed. Amigos, parentes e demais eu desativo o feed e de vez em quando passo no feed deles para dar uma olhada.

  6. Já chego pontuando o seguinte: gostei demais do texto! Aparentemente ele foi traduzido, mas olha: CLAP CLAP CLAP CLAP

    Quem sabe tenham sido as referências filosóficas que ele tenha feito, enfim…

    O autor do texto já começa pegando um ponto de partida que eu julgo ser similar ao do Paul Ricoeur: temos hoje uma “consciência de pertencer a uma única civilização” (RICOEUR, Paul. Leituras 1 — Em torno do Político, Tradução de Marcelo Perine, São Paulo: Edições Loyola, 1995, p. 147). É um abraço inevitável a globalização e a complexidade que meandra a nossa vida e um assumir de que estamos, como humano, cada vez mais conectados. Existe uma questão de alteridade permeando todo o texto – para mim, a alteridade de que falo é a do Lévinas ( http://pensamentoextemporaneo.com.br/?p=1246 ). Nossas relações sociais – depende de cada pessoa, claro – estão cada vez mais envolvidas com a variedade de atores advindos de n locais do planeta e isso nos força a buscar uma linha de comunicação (ou como o próprio autor coloca, baseado em Ludwig Wittgenstein, dentro de regras do jogo).

    O autor segue sua linha de raciocínio com um gancho na forma de interação que o brasileiro realiza no Facebook. Acho que já é impossível negar. Por mais que o brasileiro tenha uma forma peculiar de se expressar na internet, algo parece ser realmente bem geral: geramos MUITO conteúdo. Eu pessoalmente vejo isso como uma questão de reatividade intrínseca a personalidade do brasileiro e de termos – consciente ou inconscientemente – uma capacidade até certo ponto inata de gerir públicos na internet. Se você for parar para pensar, a relação publicação excessiva + gerência de público gera como resultado a questão de que nossas vidas são minimamente importantes o suficiente para que o conteúdo gerado em cima dela valha a pena o retorno, ou seja: mais do que apenas ganhar curtidas, comentários e compartilhamentos a torto e direito, o que se efetiva nesse fenômeno (no sentido kantiano: https://pt.wikipedia.org/wiki/Fen%C3%B3meno) é a celebração dos acontecimentos mais próximos de nós. É o auto-trolling (http://pontoeletronico.me/2014/auto-trolling-como-forma-de-blindagem/) como comportamento básico das interações básicas e zoerísticas que o brasileiro empreende no Facebook, é o nosso perfil como revista de fofoca personalizado para as nossas tias costureiras, enfim: como bem está na descrição no Zing de número 11 é a “forma como as narrativas de nossas vidas viraram o conteúdo que entretém os outros. Por meio de posts, selfies, interações, nós somos a nova cultura pop. E viemos para ficar” (http://www.b9.com.br/59945/podcasts/zing/11-nos-somos-a-cultura-pop/).

    Tal viés de cultura pop que as nossas simplórias vidas tem hoje mostram que a sociedade do espetáculo (http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/socespetaculo.pdf) realmente se reajustou a nova realidade e hoje nos impõe outras possibilidades de celebração da nossa vida e a do outro. É como se existisse um imperativo, uma força, uma corrente social que nos escapa de nosso simplório entendimento e que condiciona todos os atores a participarem dessa espetacularização da vida. Claro: eu não sou muito desses de jogar a culpa dos nossos problemas para a sociedade – por mais que seja praticamente inegável desconsiderar a força condicionante que os valores e modelos sociais podem ter. Por isso também fiz referência a “reatividade intrínseca a personalidade do brasileiro” (http://www.papodehomem.com.br/a-rara-virtude-do-ostracismo-ativo/). Como o autor do texto logo coloca, se o uso do textão como expressão dos conjuntos de argumentos e entendimentos que contemos sobre determinado assunto ou tema hoje nos é comum, isso se deve – como ele bem apontou – as influências que as narrativas in loco realizadas naquele momento de efervescência política impactaram em nós (Jornadas de junho de 2013! https://pt.wikipedia.org/wiki/Protestos_no_Brasil_em_2013). Atualmente o textão, aos poucos, se torna um formato de comunicação mais aceito e estabelecido nos meios mais próximos de comunicação que temos.

    Entretanto, toda essa gigantesca produção de conteúdo feita pelos brasileiros tem sua consequência. A primeira dela é a peneirarmos cada vez mais todo esse conteúdo, de filtrarmos para acompanhar apenas aquilo que queremos. Isso, claro, pode ser resultado de nossa heurística digital já bem desenvolvida desde os tempos de Orkut e a nossa já familiaridade com as configurações do Facebook (http://www.papodehomem.com.br/deficientes-tecnologicos-wtf-14/), mas pode ser também um sinal de cansaço, onde já se assume o ruído (http://www.papodehomem.com.br/por-que-a-internet-tem-tanto-ruido) que esse tanto de conteúdo produzido gera em nossos feeds. O próprio criador desse site já nos mostrou uma saída: o Slow Web (http://www.papodehomem.com.br/movimento-slow-web-a-diferenca-entre-uma-namorada-possessiva-e-um-bom-amigo/). No fim, em hipótese, estamos sendo forçados a, cada vez mais, agir como descrito no título de um texto do Pedro Burgos: “Ser inteligente, hoje, é saber ser seletivamente ignorante” (http://www.papodehomem.com.br/ser-inteligente-hoje-e-saber-ser-seletivamente-ignorante).

    Logo começam as inferências filosóficas que o autor elabora no texto. Sua referência sobre a escrita através de Sócrates e Platão é excelente! No fim, considerando todo o texto, o que ele coloca aqui é um ponto de virada. O que, no fundo, ele quer nos dizer aqui é que o desejo do sujeito de transferir seu puro e único entedimento sobre algo pode ser turvado ou desconfigurado pela linguagem ou por um de seus formatos. Complemento esse ponto através do que Saussure compreende como linguagem. Esse linguista “explica bem” o que entende sobre isso através do seu Curso de linguística geral (http://monoskop.org/images/1/1f/Saussure_Ferdinand_de_Curso_de_linguistica_geral_27_ed.pdf). “A linguagem é, ao mesmo tempo, um fato individual e social; é um sistema estabelecido e em evolução, é uma associação de sons e idéias”, ou seja: “A fala é um fenômeno individual. A língua o é, em nível social” (http://lacan.orgfree.com/textosvariados/lacanteoriadosujeito.htm). É uma questão de hermenêutica! (http://dialogica.ufam.edu.br/PDF/no3/Rosa_Britto_Hermeneutica.pdf). Filosoficamente a hermenêutica já está minimamente bem desenvolvida, pois não se deve ler um texto filosófico de qualquer forma (https://distropia.wordpress.com/2013/07/31/a-guisa-dos-comentarios-uma-proposta-de-classificacao/). Logo, o que o autor do texto coloca é a questão de desenvolvermos uma hermenêutica específica para a comunicação realizada no Facebook e na internet (algo particularmente intrínseco, pois se a internet é uma TIC, uma hermenêutica para o seu uso seria uma consequência de seu amadurecimento como meio de comunicação).O próprio autor do texto já nos mostra que esse desenvolvimento hermenêutico já está em andamento ao afirmar que “Precisamos escolher as mensagens mais simples para obter o máximo impacto”.

    Claro: destaco aqui que essa espetacularização cada vez maior de nossas vidas na internet e a gerência de um público de conhecidos próximos aliada a reatividade que temos perante os fenômenos da vida brasileira (vida brasileira essa cheia de desgostos, problemas e outras coisas mais), consequentemente, entrelaça nossa vida em sua camada pessoal – de foro intimo – com a camada social. Indiretamente nos é exigido um discurso quase sempre público nesse modelo de celebração dos nossos atos internéticos, exigindo de alguns capacidades cada vez mais sagazes de driblar essa Força (a do Star Wars, que é invisível mas de consequência no real. https://pt.wikipedia.org/wiki/For%C3%A7a_(Star_Wars)). Esse entrelaçamento entre esses dois campos, essas duas esferas, necessita de maiores reflexões! Precisamos entender melhor, a princípio, nossa relação entre o público e o privado (aqui eu me baseio em Hannah Arendt) para a partir dos conhecimentos dessa relação começarmos a compreender quais as consequências dessa nossa celebração pública da vida na internet ([1] http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=647 [2] http://www.revistas.ufg.br/index.php/interacao/article/view/20717 [3] http://www.bocc.ubi.pt/pag/antunes-marco-publico-privado.pdf). Por fim, o que está sendo exigido de nós – mas que poucos de nós enxergamos – é uma análise mais profunda de nosso caráter (http://www.papodehomem.com.br/o-que-e-carater/) na rede, de nosso sujeito digital (entendo por sujeito digital, por um viés prático, não definicional, todo e qualquer representação do nosso ser ou sujeito [perfil ou avatar] no ciberespaço). Para mim, já é impossível fugir desses dilemas advindos da internet que perpassam a ética, moral, estética, política, ontologia, metafísica, hermenêutica e epistemologia.

    E com relação a obra de arte, eu prefiro Walter Benjamin à Heidegger. Sou mais o cara da aura benjaminiana à relação Terra-Mundo estabelecida por Heidegger por sua metafísica. :)

    1. Gostei das referências! Desdobrando seu comentário, há leituras e mais leituras possíveis!

      Acréscimo: do texto eu particularmente não gostei muito e, não sei até q ponto, ele não faz muito sentido com o uso q eu dou ao facebook e as demais redes sociais… Essa de enquadrar ou extrair um determinado tipo q usa a internet é algo bem comum nas reuniões sobre usabilidade q já participei e sempre saio desconfiado de q esses usuários e modos de uso como são classificados não existem de modo amplo como creem.

      1. Ele, claro, foi se baseando em modelos e personagens gerais, mas foi a partir desses que ele pode desenvolver seu raciocínio. Então, por ele ter seguido essa estrutura, dei essa deixa. :)

        Por isso comentei em cima do texto e trazendo links para aprofundar o meu entendimento do que ele quis dizer :)

        1. Claro, claro. Esse texto não me diz muita coisa e nem muito sobre os outros com os quais tenho contato e mesmo numa formulação genérica q posso fazer. Não faço muito uso do face para contato com amigos, então já não vejo o feed deles há anos – nem por curiosidade. Tenho baixíssima tolerância com memes, besteirol e piadinhas, além da tendência a me inflamar em determinadas discussões – q evito pra não passar raiva. Abstenho-me e não me encaixo nesse perfil – algo bem típico do Roberto Damatta, saca? Naquele livro “O q faz o brasil, Brasil?”, onde ele tipifica o brasileiro… Isso é impossível de fazer e tem a ver com aquelas discussões de identidade nacional já bem superadas…

          “É certo que eu inventei um “brasileiro” e um “americano” que o acompanhava por contraste linhas atrás, mas quem me garante que aquilo que disse é convincente para definir um brasileiro foi a própria sociedade brasileira. Ou seja: quando eu defini o “brasileiro” como sendo amante do futebol, da música popular, do carnaval, da comida misturada, dos amigos e parentes, dos santos e orixás etc., usei uma fórmula que me foi fornecida pelo Brasil. O que faz um ser humano realizar-se concretamente como brasileiro é a sua disponibilidade de ser assim. Caso eu falasse em elegância no vestir e no falar, no gosto pelas artes plásticas, na visita sistemática a museus, no amor pela música clássica, na falta de riso nas anedotas, no horror ao carnaval e ao futebol etc., certamente estaria definindo outro povo e outro homem. Isso indica claramente que é a sociedade que nos dá a fórmula pela qual traçamos esses perfis e com ela fazemos desenhos mais ou menos exatos.”

          Qdo um texto parte disso, mesmo q com pitadas de citações filosóficas, eu tendo a ver problemas. Q sentido faz partir dessas premissas se elas são impossíveis de se dar!? A forma iracunda com a qual eu me deparo no comentários de um página de um jornal no facebook, por exemplo, não é uma amostragem significativa pra determinar, por exemplo, q todo mundo quer a cabeça da presidente ou q todos querem redução da maioridade penal – e coisas do tipo q demonstraram e demonstram o baixo nível do debate nacional.

          Bom, dei atenção especialmente as referências aos textos da Hannah Arendt q vc fez; essa autora q muito me interessa!

          Abs!

    2. ps: quando colocar um link, coloque um espaço antes de fechar o parenteses, senão o link fica quebrado ;)

  7. Não nego o Facebook como uma boa rede social que cumpre bem o seu papel de comunicação, mas não tenho conta.
    Acompanho o Facebook pelos outros (todo mundo tem) e a cada dia me convenço de não criar a conta. Serve, basicamente, para a postagem de fotos e comentários irrelevantes.
    Sei da existência de perfis sérios e das comunidades, mas, pelo sim e pelo não, acompanho o que me interessa pelo Twitter, pois assim me livro 100% de qualquer conteúdo indesejado.

  8. Não nego o Facebook como uma boa rede social que cumpre bem o seu papel de comunicação, mas não tenho conta.
    Acompanho o Facebook pelos outros (todo mundo tem) e a cada dia me convenço de não criar a conta. Serve, basicamente, para a postagem de fotos e comentários irrelevantes.
    Sei da existência de perfis sérios e das comunidades, mas, pelo sim e pelo não, acompanho o que me interessa pelo Twitter, pois assim me livro 100% de qualquer conteúdo indesejado.

      1. Tem nas coxas. Os grupos do facebook não chegam nem perto do que foram as comunidades do orkut. O conhecimento simplesmente não se acumula. As mesmas coisas sendo postadas um milhão de vezes.

        1. Depende do grupo.
          Tinham comunidades que tbm eram a mesma coisa: O conhecimento simplesmente não se acumulava. As mesmas coisas sendo postadas um milhão de vezes.

        1. Ter ou não ter é uma coisa.
          Ser desorganizado ou organizado é outra.

  9. Nossa, que texto perfeito!!!

    O Facebook, há muito, tem se tornado a rede social menos importante para mim. A maioria esmagadora dos meus amigos são brasileiros e vejo que, cada vez mais, esses postam apenas fotos (em 99,9999% dos casos com legendas irrelevantes, como por exemplo “sem comentários”) e piadinhas muitas das vezes com um certo grau de bullying.

    Tenho uma opinião que “brasileiro peca pelo exagero”. Em todas as áreas. Parece que tudo é sempre sugado até a exaustão, até ninguém mais aguentar isso. Até quando estourou aquela onda de protestos em 2013, massificaram tanto o tema que ninguém mais aguentava ouvir falar! Até protesto contra o preço do Whey Proteein tinha!

    Além disso, também percebo ao meu redor cada vez mais “preguiça de pensar”. As pessoas (brasileiras, ao menos) não têm paciência para discutir assuntos importantes, por exemplo sobre como a corrupção está enraizada na cultura brasileira e como enxergar esse problema de forma geral. O que a maioria quer comentar é sobre quem traiu quem na novela, quem saiu da casa do reality show, o cantor sertanejo que morreu, a mulher que teve suas fotos vazadas no WZP… Enfim, sobre a vida alheia.

    Já filtrei BASTANTE o meu feed do Facebook e mesmo assim do pouquíssimo que restou retira-se pouquíssimo conteúdo que pra mim é relevante.

    1. É basicamente o que eu penso também!

      PS: Vou começar a comentar “Aprende a escrever!” em todos os posts no meu feed. Ta foda achar algum sem erro…

      1. Aí você será considerado “o chato”. É difícil mesmo…

    2. Eu já limpei mt meu feed.
      Um dia desses descobri que fui o último a saber de um desses memes inúteis de facebook.
      Cheguei a conclusão que limpei da maneira correta meu feed.

      1. Mas não é só no Facebook… é em todos os lugares.

        Mesmo no Twitter, que é mais regrado, digamos assim, a coisa também desanda…

    3. hoje mesmo eliminei uma que compartilhou algo do tipo “voce não vai acreditar na reação dela”.

    4. “não têm paciência para discutir assuntos importantes, por exemplo sobre como a corrupção está enraizada na cultura brasileira e como enxergar esse problema de forma geral. ”

      O brasileiro não tem paciência para discutir nenhum assunto de forma intelectualmente honesta. Discutir de forma séria, sem apelações ou xingamentos, é chato, é entediante, requer pensar, requer estudo e pesquisa. Legal é sair agredindo todo mundo, partir para apelo emocional, ameaçar, ser preconceituoso.

      Prefiro gente que compartilha bobagem de novela e de BBB (ao menos esses são chatos mas inofensivos) à gente que classifica todo mundo em “bem” e “mal”, que acha que os LGBT querem destruir a sociedade, que vê conspiração até num bom-dia, etc…

      1. O problema q eu vejo é qdo dizem “o brasileiro” faz isso ou aquilo. Essa generalização é como aquela q diz q as pessoas q moram no interior são mais calmas etc. Outro dia lia comentários num site português e era similar qto as ofensas gratuitas e zero reflexão q se vê aqui com certa facilidade. Qdo vejo comentários em sites de outros países com outro idioma, até em fóruns específicos, a animosidade é perceptível e as agressões tb – mesmo q noutro tom diferente do nosso se houver um. Às vezes sinto q estamos sendo arrastados pra uma espiral de violência q é própria do meio q habitamos já tão mediado pelas máquinas mesmo. Qdo ando de bike por aí, encaro outros ciclistas e os cumprimento e geralmente a reposta é gentil. Já com parte dos motoristas a animosidade é de combate (tanto minha qnto deles)… Mas pensando bem, nada impede os linchamentos e as agressões nas ruas todos os dias qdo estão cara a cara. Sei lá, é realmente um tempo de violência, exibicionismo e baixa reflexão. Eis uma combinação infernal!

    5. Uso a dica do Ghedin, aquela extensão no Chrome q corta todo o feed. É o melhor pra evitar a poluição e TB a “tentação de ser bom”.