Nem Material Design, nem iOS 7 são herdeiras da linguagem Metro


26/6/14 às 9h00

Toda vez que alguém mostra um retângulo de uma cor só ou uma tipografia grande na tela, em menos de três segundos alguém no fundo da sala grita “metro!” Com seu aspecto plano, bastante espaço para respirar e visual peculiar, a linguagem Metro (ou moderna, ou seja lá como chamam ela hoje) conseguiu um feito não intencional, não sei se desejável, mas digno de nota: ser atribuída como precursora de uma tendência da qual ela nem é parte.

Na Google I/O desse ano, a linguagem visual Material Design chamou a atenção. E com mérito: é uma proposta ousada, muito bonita e que consegue o feito raro de ser praticável na mesma medida em que é ambiciosa. É só ver as reações no Twitter e em blogs de tecnologia, incluindo aí a de muitos críticos contumazes do Google, para ver que o trabalho liderado por Mathias Duarte foi bem feito.

A Material Design é a primeira reforma geral no visual do Android desde o Ice Cream Sandwich, de 2011. Vai além do sistema, chega à web e tem potencial para “contaminar” outras plataformas. A beleza, a fluidez, a sensação de movimento… Tudo legal e bastante moderno.

E então, no meio da apresentação, aquele mítico cara descrito no começo desse texto se personificou em Tom Warren, editor do The Verge:

A linguagem Metro (chamemo-na assim) tem méritos. Foi um sopro de novidade quando a metáfora esqueumórfica da Apple reinava e o Android ainda estava perdido, sem ter sequer diretrizes de design próprias. O Zune HD, gadget em que esse padrão visual estreou, era um deleite. Em poucos lugares a Metro foi tão bem implementada como ali, e desconfio que a limitação do sistema, que praticamente só tocava música, tenha sido um fator determinante para que ele fosse bem sucedido nesse aspecto.

Existem outros exemplos de bom emprego da linguagem Metro, mas são escassos. No geral, ela fica bem em imagens de divulgação ou trabalhos mais conceituais, como naquele famoso livro distribuído na MIX10.

Trecho do livro Metro.
Foto: Long Zheng/Flickr.

Já em apps, no Windows Phone e no Windows 8, toda essa beleza raramente se sustenta. A minha teoria para tentar explicar isso é que a linguagem Metro compartilha o dilema das interfaces conceituais.

Há pouco mais de um ano um redesign não solicitado do Facebook criado por Fred Nerby viralizou. É lindo, mas passado o deslumbre inicial vieram os questionamentos. Onde estão os anúncios, o ganha-pão do Facebook? Se eu receber várias mensagens, ou não tiver fotos suficientes para preencher aquela página inicial, como essas lindas telas se comportarão? Aliás, como ver esses conteúdos de maneira organizada?

Apesar de fins diversos, o conceito de Nerby e a linguagem Metro padecem do mesmo mal: ambos não funcionam no mundo real.

A Microsoft, tarde para variar, se tocou disso e vem fazendo concessões. A ideia de usar blocos dinâmicos a fim de prover atualizações e informações não vingou, motivo pelo qual veio a central de notificações no WP8.1. Alguns apps, o do Facebook feito pela Microsoft como o caso mais emblemático, jogou para o ar as invencionices e passou a usar o mesmo layout de outras plataformas, só que todo quadrado.

Isso não é legal.
Apps para Windows Phone.

Mesmo ficando no aspecto puramente estético é difícil comprar a ideia de que a linguagem Metro é a mãe dos sistemas modernos. O iOS 7 é tudo, menos plano: há profundidade, transparência, camadas de software que dão consistência à interface. A Material Design do Google até engana em fotos, mas em ação é algo que o Windows Phone jamais foi. Tem movimento, parece viva. Dê uma olhada nestes exemplos da web para ter uma ideia melhor. As cores chapadas, a parte mais superficial da Metro, é tomada como parâmetro para tudo o que veio depois dela. Com o perdão do trocadilho, encará-la assim é ter uma visão superficial da situação como um todo.

A Microsoft tinha uma promessa nas mãos que, na prática, não floresceu como esperado. A linguagem Metro não estabeleceu tendências; no máximo, ela apontou um caminho que outras empresas souberam explorar melhor.

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