Kindle Unlimited, a Netflix dos livros, não resolve o maior problema do leitor moderno: a falta de tempo

Pessoa lendo um Kindle deitada na beira do lago ou rio.

Esqueça a pirataria por um momento. Considerando apenas o mercado formal, endossado por produtoras, estúdios, editoras, todos os envolvidos no caminho que a obra faz do autor até o consumidor, hoje é possível ouvir, assistir e ler quantidades absurdas de conteúdo gastando menos de R$ 50 por mês.

É uma conta fascinante. Com a entrada da Amazon na onda dos “Netflix de [insira aqui um mercado de consumo]”, as três frentes se fecham. Não que o Kindle Unlimited seja pioneiro; Oyster e Scribd oferecem planos similares há mais tempo. Juntas, porém, elas não têm o peso da Amazon, que nos EUA domina 65% do mercado editorial. Daí a repercussão do anúncio.

Dentro da Amazon, o Kindle Unlimited não é a primeira oferta de e-books pagos indiretamente. Assinantes do Amazon Prime, um plano de benefícios pago anualmente nos EUA, podem usufruir do Owners’ Lending Library, um sistema de empréstimo de livros para dispositivos Kindle (não funciona com apps ou na web) e limitado a um por mês. Outra frente, também nos EUA, são as bibliotecas públicas que oferecem o aluguel gratuito de e-books. Sendo assim, para quem então se destina o Kindle Unlimited, que cobra US$ 10 por mês pelo acesso liberado a uma fatia do acervo de e-books e audiobooks da Amazon?

O primeiro impulso é pensar em leitores ávidos. Afinal, aquela teoria de que uma porcentagem pequena, fiel e gastadora suporte o resto do bolo se aplica em vários nichos e mercados. Por que não aqui? Segundo a consultoria CIRP, proprietários de dispositivos Kindle gastam US$ 443 a mais por ano, na Amazon, do que aqueles que não têm um e-reader ou tablet da marca. Menos gente lê do que, comparativamente, aqueles que assistem a filmes e séries, ou ouvem música, daí a importância de ter uma base nuclear/financiadora bem forte, como parece ser o caso.

Se essa estatística gera uma expectativa positiva, os bastidores políticos jogam contra a iniciativa da Amazon. Para levar os livros que todo mundo quer ler ao Kindle Unlimited, é preciso ter o aval das editoras que detêm seus direitos. E aqui a coisa complica, bastante.

Nos EUA, cinco maiores editoras1 respondem por 2/3 dos livros vendidos. Elas parecem não ver com bons olhos essa mudança no modelo de negócios, embora algumas apoiem Oyster e Scribd — mais como um experimento do que uma grande aposta. A situação piora ainda mais para a Amazon: ela está travando uma guerra violenta por conta de preços contra uma das cinco grandes, a Hachette. Outra do grupo, a HarperCollins, já declarou que não participará do programa. O clima não é dos mais amigáveis.

Quem assina o Kindle Unlimited, hoje, tem acesso a obras renomadas com destaque aos livros da série Harry Potter, O Senhor dos Anéis, livros de Stephen King e alguns clássicos, e muitas do Kindle Direct Publishing, a ferramenta de auto-publicação da Amazon. A página do Kindle (dispositivo) diz que são 180 mil títulos exclusivos (presumivelmente através do KDP), e a do Unlimited, que são 600 mil livros disponíveis no total para o programa. No total, a Amazon americana vende 2,7 milhões de e-books. Resumindo: é bem provável que alguns livros da sua lista de leituras pendentes não estejam disponíveis pelo Kindle Unlimited. O Paulo assinou para conferir de perto e, de fato, encontrou muitos buracos no acervo.

Essas lacunas podem ser suprimidas com o tempo. Lembra como era a Netflix no começo? No Gizmodo, Pedro Burgos disse que “a maior parte do que aparece no Brasil nesse primeiro momento é de velharias”. Não que ele tenha muitos lançamentos hoje, mas o acervo cresceu, ganhou sustância e até alguns filmes bem contemporâneos.

Mas além do custo-benefício para o consumidor, é importante pensar também no faturamento de quem produz e mantém essa estrutura. Poucos são, proporcionalmente, os artistas e escritores bem pagos. Estar na lista dos mais vendidos da Amazon, ao contrário do que pode se pensar, não é sinônimo de nadar em dinheiro. Músicos reclamam, justificadamente, que serviços de streaming pagam uma mixaria por execução. Os caminhos mais populares, se nada mudar, não são sustentáveis a longo prazo.

O modelo do Kindle Unlimited, como citado, premia livros lidos. Caso haja uma boa adoção, pode impulsionar artistas desconhecidos, ou aqueles que sempre tivemos curiosidade para ler e que, por um motivo ou outro, nunca chegaram de fato às nossas mãos. Esse modelo fomenta a serendipidade, ainda que ao sacrifício de outras porções importantes da estrutura mercadológica onde se insere.

Só que nada disso importa muito ante o golpe de misericórdia do ramo “leitura”: todo o conteúdo do mundo está disponível, mas temos tempo e paciência para consumi-lo? Qual foi o último romance que você leu? Quantos já terminou em 2014?

No fim das contas, como pontuou com bom humor Benedict Evans, o Kindle Unlimited pode ter o mesmo fim da mensalidade da academia de ginástica: mais um gasto que, além de não aproveitado, ainda gera aquele peso na consciência.

Foto do topo: Ines Njers/Flickr.

  1. Hachette, HarperCollins, Macmillan, Penguin Random House e Simon & Schuster.

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5 comentários

  1. Livros eu não sei, mas quadrinhos mais de 400 com certeza. Eu pagaria fácil 10 dolares por mes para ter tos os lançamentos na hora…. ahhhhhhhh quem sabe no futuro :)

  2. Eu até que li bastante livros esse ano, 14 pelas minhas contas. Mesmo assim, não achei tão interessante essa ideia.

    Não acho que afeta a forma como eu consumiria livros e a questão financeira não me incomoda muito. Em outras palavras, comprar livros não é um peso no meu orçamento, então prefiro ter a posse (mesmo que limitada) dos e-books.

    Fora isso, acho que deve agravar ainda mais os problemas das editoras e não vejo isso com bons olhos.

    1. Eu li bem menos que você este ano, cerca de metade. Para mim, a questão do custo dos ebooks também não é muito relevante. Comprei alguns na loja Kindle, outros em outros sites. O mais caro custou uns R$ 30, e pode ser considerado barato já que é um livro técnico nem mesmo tem DRM.

      Pela quantidade que eu leio, certamente não compensaria pagar US$ 10 por mês para ter acesso ao acervo da Amazon, mas talvez para quem lê bastante compense.

      1. Você tocou um ponto interessante: livros técnicos.

        Eles são bastante caros e, normalmente, eu gosto de olhar vários trechos pequenos deles sobre um mesmo assunto. Alguns conceitos complexos, eu leio em vários livros para entender. Nesse contexto, um serviço desse tipo se torna mais interessante.

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