Smartphones à prova d’água, o legado de 2014

Água e eletrônicos, regra geral, não combinam. Se você alguma vez, por descuido no banheiro ou alguma brincadeira à beira da piscina deixou seu smartphone mergulhar em H2O ou outro líquido qualquer, é bem provável que aquele tenha sido um salto fatal. Felizmente, a grande tendência entre os smartphones em 2014 torna essas tragédias coisas do passado: os modelos à prova d’água vieram para ficar.

Como tudo começou

Casio Canu 502S, talvez o primeiro celular à prova d'água.

Essa onda de smartphones à prova d’água não é nova. De acordo com algumas escavações virtuais que fiz, já em 2005 tínhamos modelos capazes de tomar banho sem pifar. O Casio Canu 502S, lançado no Japão com incríveis 256 MB de RAM e uma câmera de 1,3 MP foi, se não o primeiro, um dos primeiros do tipo.

Posteriormente outras grandes fabricantes se aventuraram nesse campo: Sony, Nokia, Fujitsu e Samsung. Os aparelhos eram mais simples e o facilitador de não terem touchscreen, ou seja, usavam teclados físicos na interface com o usuário. Como veremos a seguir, até hoje, graças à forma como as telas sensíveis a toques funcionam, é impossível mandar uma mensagem no WhatsApp estando submerso.

Motorola Defy, de 2011.

A leva atual de smartphones amigos da água começou com o Defy, um smartphone da Motorola duro na queda, de 2011 — ele ainda vinha com Motoblur, para você ter ideia. Ele também não se intimidava com poeira e prometia aguentar alguns tombos antes de pedir arrego.

É importante notar, porém, que o Defy era resistente à água. Há diferenças entre ser à prova e ser resistente à água. O que determina o grau de tolerância dos componentes modernos a líquidos é uma classificação chamada “código IP”. Mas não aquele famoso, o Internet Protocol. Esse outro IP vem de Ingress Protection ou International Protection, dependendo a quem você pergunte.

A classificação IP de resistência à água e poeira

Pobre Xperia Z...

A classificação IP é um padrão publicado pela International Electrotechnical Commission (IEC) que “classifica e avalia o grau de proteção oferecido contra [elementos] intrusos”.

Você já deve ter visto a classificação IP na lista de especificações de alguns smartphones, algo como “proteção IP58”. Esses dois números são independentes; o primeiro indica o tamanho mínimo do material sólido (geralmente poeira) a que o gadget resiste e o segundo, que pode ser complementado por uma letra, a intensidade do banho que ele aguenta. No PocketNow, Joe Levi compilou os graus de proteção de cada número da classificação IP.

Começando pelo primeiro, que determina o tamanho dos sólidos a que o gadget é tolerante (o texto é meio estranho, mas preferi manter o sentido original em vez de simplificar):

  • 0: Não há proteção contra contato e a entrada de peira.
  • 1: Maior que 50 mm, incluindo grandes superfícies do corpo (como a palma da mão), mas sem proteção contra contatos deliberados com uma parte do corpo (exemplo: enfiar seu dedo onde ele não deveria estar).
  • 2: Maior que 12,5 mm; proteção contra dedos e objetos de tamanho similar.
  • 3: Maior que 2,5 mm; proteção contra ferramentas, fios grossos e objetos de tamanho similar.
  • 4: Maior que 1 mm; proteção contra a maioria dos fios, parafusos e objetos de tamanho similar.
  • 5: Proteção contra um pouco de poeira; a entrada dela não é completamente evitada, mas boa parte não consegue entrar e a que consegue não interfere com a operação satisfatória do item.
  • 6: Totalmente vedado contra poeira.

E agora, o segundo, relacionado à água:

  • 0: Sem proteção.
  • 1: Gotas d’água caindo verticalmente não causam quaisquer danos (chuva leve).
  • 2: Gotejamentos não podem causar danos quando a carcaça está inclinada em um ângulo de até 15º em relação à sua posição normal (chuva moderada).
  • 3: Spray de água em qualquer ângulo até 60º da vertical não deve causar danos.
  • 4: Borrifadas de água contra a carcaça de qualquer direção não deve causar danos.
  • 5: Água projetada por um bico (jatos d’água) contra a carcaça, de qualquer direção, não deve causar danos.
  • 6: Água projetada em jatos poderosos contra a carcaça, de qualquer direção, não deve causar danos.
  • 6K: água projetada em poderosos jatos contra a carcaça, de qualquer direção, sob elevada pressão, não deve causar quaisquer canos.
  • 7: A entrada de água em quantidade perigosa não deve ser possível quando a carcaça estiver submersa (até um metro de profundidade).
  • 8: O equipamento é adequado para submersão contínua na água (além de um metro de profundidade).
  • 9K: Proteção contra sprays próximos de alta pressão e a altas temperaturas.

Na Wikipedia inglesa a lista acima é complementada com a duração do banho, volume total de água e pressão, além de outras letras para casos bem específicos, como proteção contra óleo (f), condições climáticas (W) e dispositivos de alta voltagem (H).

Lembra do Defy? A classificação dele era IP67, o que significa que não entrava poeira em seu corpo e ele resistia a até um metro de profundidade na água. Aliás, detalhe importante: toda essa proteção se refere à água doce, ou seja, nada de levar o celular no bolso do calção para dar um mergulho na praia. A Sony, que é quem tem mais experiência nesse recurso, deixa bem claro no manual do usuário do Xperia Z3, por exemplo:

Jamais submerja seu dispositivo em água salgada ou deixe a porta micro USB ou o conector de fone de ouvido entrar em contato com água salgada. Por exemplo, se você estiver na praia, lembre-se de manter seu dispositivo longe da água do mar. Além disso, nunca exponha o dispositivo a quaisquer produtos químicos líquidos. Por exemplo, se você estiver lavando a louça à mão com um detergente líquido, evite o contato do aparelho com o detergente. Após a exposição à água que não seja doce, enxágue seu dispositivo com água doce.

Há exceções, como este Xperia Z2 que ficou seis semanas perdido no mar e quando foi reencontrado ainda estava funcionando. Mas é isso: exceção. A definição de “água” quando se fala em gadgets resistentes a ela é no sentido mais restritivo possível.

Um efeito colateral da proteção contra água é que, submerso, a sensibilidade a toques fica maluca (veja o Vine acima). Isso acontece porque as telas que dominam os gadgets atuais usam a tecnologia capacitiva. O corpo humano, como bem sabemos, é um ótimo condutor de eletricidade. Quando encostamos o dedo em uma tela do tipo, uma pequena carga elétrica é transferida ao dedo fechando o circuito. Esse toque é interpretado pelo controlador e ele, por sua vez, o passa ao sistema, que retorna um resultado na tela, tudo isso muito rapidamente. Dá para imaginar como a água, outro bom condutor de eletricidade, atrapalha esse processo.

O vídeo abaixo explica essa e a outra tecnologia, resistiva, que nos primórdios da computação móvel divida as atenções mas hoje só é encontrada em tablets xing-ling de baixa qualidade:

Algumas empresas contornam essa limitação com botões físicos. Os smartphones da linha Xperia, da Sony, por exemplo, contam com um botão dedicado à câmera e uma opção, no app, de travar o registro dos toques na tela. Então você mergulha e controla a câmera pelo botão físico, viabilizando a experiência — que, convenhamos, é empurrada com bastante estardalhaço pela publicidade da fabricante.

Os atuais smartphones à prova d’água

Um problema dos primeiros smartphones modernos à prova d’água era o tamanho e peso. Tanto o Defy quanto o Galaxy S4 Active, da Samsung, cobravam o preço da proteção contra água nas suas dimensões e peso. Era um pouco trambolhos, mesmo para os padrões das suas respectivas épocas.

O Xperia Z1 é à prova d'água.
Xperia Z1 molhado.

Isso mudou com o Xperia Z, anunciado em janeiro de 2013. Ele tinha proteção IP57 e, mesmo assim, era fino (7,9 mm de espessura) e relativamente leve para seu tamanho de tela, de 5 polegadas (146 g).

A Sony aprendeu a técnica e a melhorou nos modelos seguintes da série. Os Xperia Z1 e Z2 ganharam proteção IP58 e a nova linha Z3, IP68 — inclusive o Z3 Compact.

https://www.youtube.com/watch?v=wbCD6w8WBUc

São todos modelos caros, uma tendência que se repete na concorrência. A proteção à água ainda é um item de luxo, mas é algo que já começou a descer na hierarquia das fabricantes. Recentemente a Sony lançou uma variação do Xperia M2, o Xperia M2 Aqua, certificado como IP68. Esse modelo é um intermediário no line-up da empresa e, no Brasil, foi lançado com preço sugerido de R$ 999 — hoje, pode ser encontrado por até R$ 850. Segundo a fabricante, é o smartphone à prova d’água mais barato vendido no Brasil.

Essa portinhola é chata.

A Samsung apresentou o Galaxy S5 certificado como IP67 este ano. E o mais curioso é que, ao contrário dos modelos da Sony, ele não é totalmente lacrado, ou seja, continua com a tampa traseira removível. É imprescindível que ela (e a porta microUSB) esteja totalmente vedada antes de qualquer mergulho, da mesma forma que, nos modelos da Sony, as portinholas do SIM card, cartão microSD e saída microUSB estejam fechadas. Se um desses aparelhos cair na água com essas entradas à mostra, não há garantias de que o resultado não será trágico.

Smartphone do Rambo.

A variante Active teve sequência com o Galaxy S5. A diferença? Ela tem proteção de nível militar. A certificação  MIL-STD-810G atesta que o aparelho, visivelmente mais robusto que seu irmão convencional, resiste a “sal, poeira, umidade, chuva, vibrações, radiação solar e choques térmicos e durante o transporte”. Parece, até no visual, um celular que o Rambo usaria.

Timidamente, a Motorola também deu alguma proteção aos últimos aparelhos lançados. O novo Moto G tem um “nanorrevestimento” que ajuda a proteger a tela da água. Não é que ele seja resistente à água, é só uma camada extra de proteção caso o pior aconteça. Então, mesmo que você tenha visto alguns malucos mergulhando Moto G em vídeos no YouTube, não repita o procedimento em casa.

Celular afundado no arroz.
Foto: Lisa Norwood/Flickr.

Mas caso isso aconteça com o Moto G ou outro smartphone que não conta com proteção contra água, existe uma pequena chance de recuperá-lo. O mais comum é afundá-lo novamente — só que desta vez no arroz. Os grãos têm propriedades absorventes que, dizem, secam com eficiência gadgets. Só que tem um problema, ou melhor, dois: grãos menores podem entrar em buracos do smartphone e o atrito entre eles pode riscar o corpo e a tela do gadget.

Se estiver ao seu alcance, dessecantes sintéticos são mais adequados. Particularmente nunca vi esses à venda no Brasil, mas a Wired americana tem uma lista de alguns modelos. Eles são basicamente sacos absorventes em que você coloca o smartphone e, 24 horas depois, o retira totalmente seco.

Com sorte, em breve esse tipo de emergência será coisa do passado. Da mesma forma que telas que riscam com facilidade são bem mais difíceis hoje, graças a revestimentos como Gorilla Glass e Dragon Tail, a tendência é que a proteção à água seja incorporada em cada vez mais smartphones. Nós, humanos desastrados como somos, agradecemos.

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25 comentários

        1. Não sei especificamente (não sou químico, haha), mas os manuais que consultei alertam explicitamente para não levar os dispositivos à água salina do mar. Imagino que o poder de corrosão do sal seja mais elevado, mas é só achismo mesmo… (Se algum leitor químico estiver entre nós e puder elucidar a questão, seria legal!)

          1. Além da salinidade ser grande e podendo causar corrosões, a pressão submersa é maior, por isso não recomendam

  1. Meu primeiro smartphone foi o Defy, um bom aparelho, apesar do Motoblur e o comprei exatamente pela característica de proteção à água e poeira. Após ir mudando de aparelho, sempre senti falta da não preocupação como aparelho em mesas de bar e na hora do almoço no trabalho.
    Espero muito que o Moto X de terceira geração siga esse “padrão” de proteção, pois espero que ele seja meu próximo aparelho.

  2. “Há exceções, como este Xperia Z2 que ficou seis meses perdido no mar”

    A notícia diz ‘six weeks’ (seis semanas), não ‘six months’.

  3. Meu moto x caiu do bolso na enxurrada e ficou por meia hora dentro da água, encontrei ele submerso ainda funcionado, desliguei imediatamente, abri, soprei com secador usando ar frio, e deixei no arroz por dois dias, e mais dois dias desligado, depois desse tempo coloquei pra carregar e ele voltou a funcionar perfeitamente.

  4. Minha dica pra recuperar gadget molhado. Primeiro lavar com alcool isopropilico, depois colocar em um local morno, dentro de uma caixa, pote ou vidro vedado, colocando junto um daqueles anti-mofos que vende em mercado, ele vai absorver a umidade.

      1. Sempre usei pra limpar eletrônicos, inclusive telas, é muito usado para isso, ele “lava a água” e seca muito mais rápido sem deixar resíduos.

      2. Pensei a mesma coisa, ele já tá molhado, eu vou molhar mais ainda? Sim, mas… qual o motivo mesmo de lavar ele com alcool? Limpar da água?

        1. No trabalho ( reparos em geral na area da informatica inclusive de varios smartphones ) usamos muito alcool isopropilico que é um alcool com teor alcoolico enorme de facil e rapida secagem, é muito usado para limpeza de peças e equipamentos eletronicos, só não se pode usar ( obviamente ) com o aparelho ligado a energia, logo eu indicaria o mesmo que o eduardo, Molhou? desligue, lave com o alcool isopropilico e depois pode fazer como ele disse com anti-mofos ou utilizar o famoso pote cheio de arroz ^^

    1. Sério? Não é mais facil fazer o mais conhecido guardar em um pote cheio de arroz?

      Muito mais fácil de achar em qualquer mercadinho.

  5. Ghedin, sensacional, muito bom todas essas informaçoes, o que todo mundo anda procurando hoje em dia, boa sacada.

    Mas, faz um favor, você assistiu o vídeo do touch, que explica como funciona?

    Você viu que ele fica o vídeo todo alertando que fez outro video com uma narraçao melhor? Você chegou a ver o outro?

    https://www.youtube.com/watch?v=FyCE2h_yjxI

    Fora que é do mesmo criador a narração e animação é muito melhor, dá para entender muito melhor mesmo. Dá uma olhada.

  6. Espero que o legado de 2015 seja a prova de atualizacoes pq o Lollipop lerdou boa parte dos Nexus 5, assim como o ios 8 fez com boa parte dos iphones.

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