Três relógios da Apple.

Eu esperava menos do Apple Watch


10/9/14 às 9h26

Ontem a Apple se lançou em uma categoria inédita tendo como parâmetro de comparação apenas produtos das concorrentes, desenvolvidos a toque de caixa e lançados ante a mera especulação de que ela estaria criando algo nesse segmento, nenhum deles definitivo em forma ou função. Um relógio, um relógio inteligente.

Nada do que Samsung, Google, LG e Motorola fizeram, até agora, é interessante. São gadgets curiosos, sem dúvida, mas sobram deficiências para afastar tanto quem gosta de telinhas brilhantes quanto os que usam relógios estilosos e estão à espera de um assim que, por acaso, também tenha alguma inteligência.

O Apple Watch tem apps, sensores, compartilha até as batidas do coração com outros usuários. Tem funções para a prática de exercícios físicos. Oferece indicações curva a curva do GPS (via Apple Maps e usando o módulo do iPhone) e puxa fotos para exibi-las numa tela incapaz de mostrar muita coisa.

Em sua construção, a Apple usou materiais nobres e anunciou dezenas de pulseiras, ainda que esse número empalideça perto das zilhões em formato padrão que smartwatches como o Moto 360 usam. Pontos bônus por terem diminuído a caixa (existem duas versões, uma com 38 mm de diâmetro), mas pelas fotos dos hands-on ainda parece algo grande e grosso. E o fato de ninguém ter falado, no palco ou no comunicado à imprensa, sobre a autonomia da bateria, diz alguma coisa.

Mas esqueça tudo isso. Se você não assistiu à apresentação ontem, pare e veja Jony Ive falando, ou melhor, se declarando ao Apple Watch durante 10 minutos:

https://www.youtube.com/watch?v=ktujsc4ZUTo

É hipnotizante. Tudo parece (e é!) muito lindo. E o site do Apple Watch? *Suspiros*

Mas não convence.

Recentemente expus os motivos que me levam a crer que essa primeira leva do Android Wear é um amontoado de fracassos. O Apple Watch, mesmo mais bonito (questionável) ou funcional (a conferir), não foge desse paradigma. Não é um gadget vestível inovador, ou mesmo aquele relógio elegante que por acaso faz uma ou outra coisa mais elaborada. É um mini-smartphone, uma sucursal do iPhone no pulso que faz muito quando não precisaria de tanto.

Tentei, mas não consegui fugir do discurso da decepção. Só que é pelo motivo contrário ao que comumente se manifesta pós-evento da Apple: no fundo, o que eu queria era um relógio inteligente que fizesse menos do que o Apple Watch promete.

Como, exatamente? Algo não tão preso à ideia clássica de um relógio seria um bom começo. Quem disse que todo smartwatch precisa simular um relógio analógico? Por que a caixa precisa ser quadrada ou redonda? Por que  não pode ser retangular, como o Gear Fit? Por que precisa fazer tanta coisa quando o básico (mostrar as horas) e mais uma ou outra função já seriam bem legais e justificariam, talvez até mais do que as ofertas atuais, uma compra, além de estenderem a autonomia da bateria? Para que replicar todas as funções do smartphone? Por que eu quereria ver fotos numa tela de 1,5 polegada?

Vindo da Apple, que não teve pudor em ignorar o que era convencionado como smartphone e tablet antes do iPhone e iPad a fim de fazer coisas melhores, mesmo que num primeiro momento fossem mais limitadas, a expectativa era por algo diferente, no mínimo. O que vimos foi um Android Wear mais refinado e com apelo fashion. Meh.

A indústria da moda curtiu o Apple Watch.
Olivier Zahm, fundador da revista Purple. Foto: ozpurple/Instagram.

Custando US$ 349 e com lançamento previsto para o começo de 2015, não duvido que o Apple Watch venderá horrores. A Apple tem muito crédito junto a seus clientes e se até um reloginho Casio de US$ 20 com uma maçã atrás as pessoas compram, por que não esse, todo high-tech e com a bênção da indústria da moda? Veja: não é uma crítica, “olha os iSheep”, que bando de babacas. Não, é mérito total da Apple, que conseguiu ganhar a confiança do consumidor num nível tal que eles se sentem seguros em comprar qualquer coisa vinda de Cupertino, sem questionar.

Mas, a princípio, o Apple Watch não é para mim. Talvez nas próximas gerações, talvez jamais.

Colabore
Assine o Manual

Privacidade online é possível e este blog prova: aqui, você não é monitorado. A cobertura de tecnologia mais crítica do Brasil precisa do seu apoio.

Assine
a partir de R$ 9/mês

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

27 comentários

  1. Concordo plenamente! Esperava algo próximo de uma smartband, como a GearFit ou Nike Smartband. Algo nesse design.

  2. Pode ser uma total falta de sensibilidade, mas meu interesse por esse apple watch foi tão grande que cochilei durante esse vídeo…… Mas também acho que vai vender muito….

  3. ”É hora de morfar!”
    Design horrível,nunca que eu pensei que a APPLE iria fazer algo assim(feio).
    Na questão DESIGN,o MOTO 360 mandou abraços.

  4. Sinceramente? Eu não acho que o grande problema seja o número de funções, a mais ou a menos, dos smartwatches.

    Acho que, de novo, as pessoas não sabem o que querem e parece que estão procurando 1001 motivos pra não comprar.

  5. As funções do Gear S são muito mais atraentes, ao meu ver e uso. A proposta desse AW não me atrai em nada.

  6. Por isso que o Peeble ainda é um sucesso. Bem mais barato, bateria que dura, no mínimo uns 5 dias, e cumpre o básico com alta eficiência: Notificações e horas.

  7. A grande verdade é que ninguém sabe muito bem o que esperar dos smartwatch.

    As melhores funções que poderiam existir, consomem muita bateria ou ainda não existe um meio para torná-las reais.

  8. Ótimo texto Ghedin!
    Na minha opinião, relógios inteligentes são feitos apenas para o nicho fitness/sport, fora isso, é inútil.

  9. Acredito que a única coisa que eu tenha para falar bem sobre são as pulseiras, o resto eu achei bem feio.

    Até o design dos relógios mostrados…. porque eles não seguem o contorno do relógio? eu achei muito feio simplesmente estes desenhos de relógios circulares no meio da tela quadrada.

    Outra coisa que eu li em outro blog é que o relógio nem a prova d’água é, apenas contra respingos na tela. Algo meio complicado, já que a concorrência oferece resistência até 1 metro de profundidade por 30 minutos.

    E aquela interface… não gostei dela. Me pareceu um retrocesso do que ia se pregando. Acho que esta imagem resume bem tudo:

  10. Interessante o título e o texto. Boas escolhas. Lendo
    eu esperava mais elogios, algo como uma surpresa bastante positiva do produto. Ótima
    a duplicidade. Parabéns!

    Quanto ao relógio em si, veio-me à cabeça os carros
    da Honda (Civic) e Toyota (Corolla). Sem sombra de duvida os dois modelos citados
    não são os melhores da categoria. Em avaliações de revistas especializadas,
    outros já estão na frente em relação ao custo-benefício. Os modelos citados não
    são os mais completos e pecam em não oferecer coisas simples para o preço
    (exorbitante) proposto, algo que a concorrência já oferece e algumas vezes a um
    bom tempo. Qualquer semelhança é mera coincidência no mundo da tecnologia não?
    Não. Assim é em minha opinião com os produtos Apple. A marca certamente
    conquistou território e é sinônimo de produtos confiáveis e bons, ainda que
    tenha em seu catalogo alguns fiascos poucos se lembram disso e o que vigora é a
    boa aceitação do mercado. Vide as enormes filas em tempos de inauguração de Iphones,
    agora no plural, pois, ao que me parece, empresa aprendeu que ocupar nichos é importante,
    rentável e que ela já vinha perdendo espaço por não oferecer uma gama maior de
    produtos. O relógio by Apple é mais do mesmo, não inova, nem em design, mas tem
    linguagem própria, o que é bom, e certamente vai vender para modistas, curiosos
    e apaixonados, até fanboys.

  11. Concordo com o texto, o mas interessante para meu m foi ver que os concorrentes não erram como alguns fãns falavam aos quatro vendo, o Apple watch faz tudo que os outros já fazem, até as coisas bizarras. Um viva a concorrência.

  12. Tenho a mesma opinião do Ghedin: O Apple Watch não é para mim, e talvez jamais será.
    Eles enfiaram tantas coisas (a maioria gimmick) nesse gadget que ele virou um legítimo frankstein. A imagem que deixo define bem uma inutilidade para se colocar num relógio:

  13. não gostei do formato, não gostei da interface do sistema, não gostei do entulhado de funções que tem nesse relógio. na verdade eu não consigo imaginar algo realmente útil a se fazer com um trem desses no pulso. quanto ao tamanho, acertada a decisão de oferecerem dois tamanhos, muito embora não o tenha achado grande (alguns relógios masculinos da Fóssil, sim… são gigantes)

    claro, vai vender como água, tanto quanto o novo iPhone. vi por aí um comentário: “achei o novo iPhone feio e grande, mas mesmo assim vou comprar”. fazer o que, né?

    1. Eu acho que as pessoas se surpreenderão com o quão pouco, para os padrões Apple, esse aparelho venderá. Temos mania de achar que quem compra Apple são idiotas seguidores de manadas, mas os casos pontuais de relativos ou absolutos fracassos no passado recente desmentem isso. Podemos pegar o exemplo do Apple TV que nunca disparou como eles gostariam. Ou do iPhone 5C. Ou do malfadado Ping.

      1. não penso que Apple compradores são manadas, mas você há de convir que sempre que é lançado um produto novo ou a reformulação de um, o que antes era criticado no mercado em geral agora é mágico e revolucionário.

        ok, há muitos fracassos na história da empresa, de fato – e também outros produtos que não venderam tanto quanto eles esperavam. você deu bons exemplos, mas o iPhone 5c não se encaixa aí. as pessoas simplesmente não o compraram em detrimento do lançamento do 5s, que, diga-se de passagem, vendeu como whisky e energético em balada sertaneja.

  14. Eu só queria um relógio que mostrasse algumas informações em texto (notificações), avisos de chamada pra recusar/atender, navegação GPS, talvez não muito mais do que isso… Entulhar de sensores ou funções complexas que não fazem sentido tentar olhar pelo relógio quando se tem um celular no bolso, é triste, torna mais complexo, pesado, lento, caro, e de bateria menos duradoura.

    1. Eu também! Algo sem firulas para receber notificações e monitorar minhas atividades físicas, talvez aparecer um controle para músicas, e como uma boa bateria. Mesmo assim, talvez não compraria, porque me sinto incomodado usando relógios.