Em entrevistas simuladas com especialistas, o nutricionista clínico imaginário Dr. Rafael Martins, mestre em nutrição humana, descreve esse movimento como uma extrapolação de uma recomendação correta.

Logo do portal Terra.Alguma IA?
Nesta matéria no Terra

Já era: Avisar que uma reportagem foi feita com auxílio da IA.

Já é: Citar especialistas imaginários em entrevistas simuladas.

Já vem: Jornalista imaginário simulando uma reportagem.

Obrigado pela dica, Berlim!

Atualizações

30/6, 20h27: Alguém do Terra lê este blog (oi!) e apagou a matéria dos especialistas imaginários. Substitui o link para o original pelo da cópia salva na Wayback Machine.

1/7, 14h: A Ctrl+Z encontrou um punhado de médicos imaginários no YouTube. Óbvio que o YouTube seria precursor de mais este golpe.

2/7, 8h50: A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) destacou a reportagem veiculada no Terra para reforçar o pedido por regulamentação da IA no jornalismo.

2/7, 11h: O Giro 10, responsável pela reportagem, publicou um “erramos”. O Terra emitiu uma nota de esclarecimento em que joga a culpa e suspende o Giro 10, mas assume parte da culpa pelo vexame porque “ele foi publicado em nosso ambiente”. O portal ainda afirma estar tomando “medidas adicionais de supervisão para reforçar nossos mecanismos de revisão, e garantir o cumprimento das diretrizes editoriais e de uso responsável dessas tecnologias”.

6/7, 9h45: A ombudsman da Folha de S.Paulo trouxe mais detalhes. O Giro 10, agência de notícias, surgiu em 9/2025, publicou 6,6 mil (!) materiais desde então e recebe R$ 2–3 mil por contrato. Eles têm três clientes: Terra, R7 e O Estado de Minas (esse último também publicou a fatídica reportagem dos especialistas imaginários). Quem poderia imaginar que daria problema?

Nada mudou no Instagram; Meta sempre leu suas DMs

Desde 8 de maio, o Instagram parou de oferecer a opção de mensagens diretas (DMs) com criptografia de ponta a ponta (e2ee, na sigla em inglês). O anúncio foi feito de maneira discreta, em uma página da documentação de ajuda da Meta, o que condiz com a importância desse recurso dentro do Instagram. Ao repercutir a notícia, porém, a imprensa fez um trabalho lamentável, esticando a verdade ou descambando para a desinformação mesmo, inflamando a opinião pública a troco de nada.

Sou o primeiro a criticar a Meta, e é por isso que devemos ser cuidadosos nas acusações, sob o risco de enfraquecermos os reais argumentos contra ela e suas práticas.

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Jogo pode ter sido confirmado

A cobertura de tecnologia de consumo depende muito de rumores que se alastram como fogo em palha, replicados por inúmeros veículos sem qualquer reflexão. Confirmação? Aí é pedir demais para redações pressionadas para gerar Grandes Números de audiência.

Os de que mais gosto são aqueles em que alega-se uma alteração de planos que sequer foram anunciados previamente (“Apple adiou o iPhone que supostamente seria lançado em novembro”; exemplo fictício) e os que noticiam certezas que carecem de confirmação. Pode ser que sim, pode ser que não… quem sabe?

Na ronda matinal desta quinta (30), topei com esta pérola: “Injustice 3: Jogo pode ter sido confirmado em vazamento.”

O verbo “confirmar” é binário: confirma-se ou não algo. “Pode ter sido confirmado” é uma maneira amalucada de dizer que ainda não foi confirmado. É, pois, uma não notícia.

Outro veículo, pegando carona no mesmo rumor, cometeu o mesmo deslize: “Injustice 3 pode ter sido confirmado acidentalmente.”

(Injustice 3 é um jogo de lutinha com bonecos da DC Comics. Acho.)

Essas pérolas são recorrentes no Google Notícias, que ainda insisto em visitar na esperança de catar alguma coisa útil na sofrida editoria “Ciência e tecnologia”. O nome não poderia ser mais enganoso. Em vez de ciência e tecnologia, o pobre leitor é ofendido por uma pororoca de rumores descabidos e/ou insossos, notícias de video games e publicidade disfarçada de conteúdo (“celular tal está com desconto histórico!!”).

Talvez a crise do jornalismo seja auto-infligida.

Fadiga de notificações, ou seria de jornalismo?

O Guardian pescou um dado interessante (dentre os muitos interessantes) da edição 2025 do Digital News Report, talvez a maior pesquisa sobre a imprensa do mundo, produzida anualmente pelo Instituto Reuters:

Análise do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo descobriu que 79% das pessoas pesquisadas sobre o assunto ao redor do mundo disseram que não recebem atualmente nenhum alerta [notificação] de notícias durante uma semana comum. Mais importante, 43% daquelas que não recebiam alertas disseram que os haviam desativado deliberadamente. Elas reclamaram de receber muitos alertas ou de não achá-los úteis, de acordo com a pesquisa, que abrangeu 28 países.

Houve uma época, ali por volta de 2014, em que as notificações do celular eram encaradas como “área VIP”, local de disputa pela atenção das pessoas, àquela altura já saturadas pelo volume de informações do digital.

Sem surpresa, a área de notificações também acabou saturada e descartada como mais um lixão digital. Suspeito que muita gente nem ligue para o que tem ali, acumulando dezenas, centenas de notificações não lidas, ignoradas.

O enfoque óbvio da pesquisa do Instituto Reuters, o jornalismo, me fez lembrar de um textinho ótimo do Ricardo Fiegenbaum, pesquisador do objETHOS, da UFSC. Um texto nada acadêmico (no melhor sentido), em que ele pensa alto o lugar do jornalismo hoje:

É nesse terreno minado, paradoxal, complexo e incerto que adentro quando penso o jornalismo. E cada questão que se apresenta neste cenário – lógicas, ideológicas, pragmáticas, tecnológicas, discursivas, etc. — leva-me sempre à pergunta fundamental: do que estamos falando quando falamos de jornalismo?

É uma boa pergunta.

Suspeito que a fadiga transcende as notificações e que boa parte do que se entende por “jornalismo”, hoje, escapa a uma das definições mais nobres do ofício, uma que o Ricardo menciona: atender às necessidades de informação das sociedades.

Do arquivo: em 2022, à luz da edição daquele ano do Digital News Report, me perguntava — ecoando Caetano — quem é que lê tanta notícia.

Tudo bem se você usa o ChatGPT para escrever

Cabeça robótica, toda branca, sobre um teclado de computador.

Eu não me importo se você usa o ChatGPT ou qualquer outra IA generativa para escrever. Não faz diferença, no fim das contas. O preciosismo com que muitos tratam o assunto (incluindo eu, até pouco tempo atrás), como se houvesse alguma qualidade intrínseca digna de preservação no texto puramente humano, é infundado.

Sei que é uma opinião polêmica. Peço, além da sua paciência, que a encare num sentido estrito, ou seja, que desconsidere outras questões que orbitam o assunto, como a ética e a ambiental. Dito isso, a seguir tentarei justificá-la.

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Mulher loira de óculos escuros, segurando duas caixas de pizza, com outras pessoas alucinadas ao fundo. Imagem sintética, gerada por IA.
Imagem: InfoMoney/Reprodução.

O InfoMoney republicou uma nota da agência de notícias do Estadão informando que a cantora Lady Gaga distribuiu pizzas a fãs acampados em frente ao hotel onde ela está hospedada. (Link do Marreta para não dar visualizações.)

Até aí, tudo bem, é a expressão mais pura do jornalismo “Caetano estaciona seu carro no Leblon”.

Como nada é tão ruim que não possa piorar, alguém lá dentro achou que seria boa ideia gerar uma imagem, numa IA, da própria Lady Gaga entregando as pizzas em mãos aos fãs. Colocaram a legenda “Foto feita com IA/ ChatGPT”, quase ilegível no rodapé da “foto”.

A nota foi atualizada, agora sem a “foto”, na manhã desta sexta (2), quase 24h depois de ir ao ar. A Wayback Machine mantém o registro dessa vergonha.

Qual a diferença entre a “foto” que o InfoMoney publicou e oportunistas que geram imagens de Jesus feito de camarões nas redes sociais? Nenhuma. Ambos apostam na desinformação para tentar faturar uns trocados.

O InfoMoney publicou uma errata em que classificou o uso da imagem como “indevida” e que está “adotando medidas internas para evitar que situações como essa se repitam, incluindo treinamentos específicos sobre o uso ético da inteligência artificial e a checagem de imagens geradas por esse tipo de tecnologia em nossos processos editoriais”. No LinkedIn, Matheus Lombardi, CEO do InfoMoney e XP Educação, pediu desculpas pelo ocorrido.

Nosso combinado para 2025

A parte que eu mais gosto das pesquisas anuais com quem lê o Manual são as perguntas abertas. Mesmo opcionais, muita gente dedica algumas palavras para elogiar o que funcionou ao longo do ano e, mais importante, tecer críticas pertinentes e dar ótimas sugestões.

Para ~abrir os trabalhos em 2025, achei que seria uma boa aproveitar os comentários da galera para passar a limpo dúvidas frequentes, fazer alguns anúncios e firmar um compromisso entre a gente.

Tentei ordenar os assuntos por importância. Alguns foram mencionados várias vezes; para não deixar o texto repetitivo, limitei cada assunto a um comentário dos leitores, ok?

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Marreta, novo quebrador de paywalls do PC do Manual, está no ar

O PC do Manual, nosso servidor de aplicações de código aberto, ganhou um novo serviço: o quebrador de paywalls Marreta.

O Marreta substitui o antigo Parede, que era baseado em um projeto pronto, o Ladder. (O novo nome faz mais sentido, né?) Desenvolvido pelo Renan Altendorf, traz mais recursos, é mais informativo e está em desenvolvimento ativo e acelerado.

“Embora o Ladder seja uma alternativa open source interessante, senti a necessidade de explorar soluções em uma linguagem de programação que que tivesse mais confortável”, diz Renan. “Além disso, estava em uma fase de aprendizado com projetos como o Lerama e o Sintoniza, que me inspiraram a criar novas abordagens para resolver desafios similares.”

O Marreta é uma aplicação em PHP. Segundo seu criador, ela “faz uma requisição nos sites simulando alguns bots, com headers específicos, DNS, user agents — o mais próximo de um usuário comum — e, em seguida, guarda todo o código HTML original dessa pagina de forma compactada”. Algumas dessas palavras não estão na Bíblia, mas funciona!

Ele continua: “Ao acessar a página, existe um sistema de regras globais e específicas por domínios que remove elementos, scripts, classes, IDs e até mesmo escreve novos códigos personalizados.”

O mais importante é que funciona lindamente.

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O jornal britânico The Guardian e o espanhol La Vanguardia anunciaram, nesta semana, que deixarão de interagir no X, a rede social do bilionário, troll e futuro secretário de “eficiência governamental” (rs) dos EUA, Elon Musk. theguardian.com (em inglês), lavanguardia.com (em espanhol)

Os motivos, você deve imaginar, giram em torno dos níveis elevados de teorias da conspiração, desinformação e conteúdo perturbador na plataforma, parte do chorume disseminada pelo próprio Musk.

Este Manual abandonou o então Twitter em dezembro de 2022.

Passo por uma fase menos ~ativista, priorizando a sanidade mental no lugar de comprar qualquer briga. Sinal mais forte disso foi a mudança recente do grupo de assinantes do Manual do Signal para o WhatsApp, plataforma de outro sociopata do Vale do Silício.

(Relato do front: o pessoal está curtindo o Zap. O lance de comunidades é confuso, mas funciona. As conversas estão frenéticas.)

O que me leva à reflexão do permanecer fora do X. Para além do meu desprezo por Musk, não é como se estivesse perdendo alguma coisa ao ignorar o X. Deixar aquela plataforma, hoje, é uma decisão muito mais pragmática que ideológica.

Quando a plataforma voltou ao ar no Brasil, após um mês suspensa por determinação do STF, loguei no meu perfil pessoal para… sentir o clima. Pareceu-me terra arrasada: virais apelativos, anúncios de golpes dos mais variados tipos a cada dois posts, maluquices para todos os gostos.

Ignorar é a melhor arma de que dispomos na guerra por atenção. Dito isso, vale o registro de que até mesmo jornalistas, os últimos crackudos de Twitter, estão abandonando o barco. Já não era sem tempo.

E fica a pergunta: qual será o primeiro grande jornal brasileiro que fará tal movimento?

É verdade que o arsenal que sites dispõem para se defenderem da pilhagem da OpenAI, Google e outras empresas de inteligência artificial é bem fraco. Ainda assim, chama a atenção o fato de que 99% de ~4 mil veículos jornalísticos brasileiros não fazerem o mínimo — bloquearem o acesso via robots.txt. / nucleo.jor.br

Migalhas do iOS 18.1 e gravação de ligações nativa no iPhone

A Apple atualizou seus sistemas operacionais nesta segunda (28). O iOS 18.1 e macOS 15.1 focam na Apple Intelligence, os recursos de IA que, por ora, estão disponíveis apenas em dispositivos definidos no idioma inglês estadunidense. / apple.com

As novas versões são tão insignificantes que o comunicado à imprensa sequer foi publicado na sala de imprensa brasileira da Apple.

Há alguns detalhes (migalhas?) no iOS 18.1 para quem fala outros idiomas:

  • O seletor de emojis agora mostra emojis maiores;
  • Na tela de bloqueio, notificações agrupadas de um mesmo app passam a exibir um contador do total de não lidas;
  • A Central de Controle ganhou novos controles, incluindo botões individuais de conectividade.

Deve ter uma ou outra coisa perdida ali que não encontrei. Detalhes.

Não sei se isso é do iOS 18.1 ou se já tinha no iOS 18: agora é possível gravar ligações no iPhone. (Print, outro print.)

Colegas jornalistas, regozijai-vos!

Durante uma chamada, basta tocar em um novo botão no canto superior esquerdo da tela. Uma mensagem de voz anuncia ao interlocutor o início da gravação e o áudio é salvo no aplicativo Notas.

Nos iPhones em inglês estadunidense, a Apple Intelligence transcreve o áudio. Só de ter a gravação, porém, já um adianto — e existem ótimas ferramentas externas para transcrevê-lo.

O fim do Leia Isso

Logo do “Leia Isso” estilizado como se fosse uma fotografia antiga.

O Leia Isso, um site popular que oferecia a leitura de artigos de outros sites em uma interface agradável e burlava paywalls porosos, saiu do ar no dia 21 de junho. Conversei com o fundador, que pediu para permanecer anônimo, a fim de entender o que houve e se existe alguma chance do Leia Isso voltar.

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O Diário Popular, jornal que cobria a região Sul do Rio Grande do Sul, encerrou suas atividades no último dia 12, após 133 anos de história. No mesmo dia em que a última edição impressa circulou, o site do jornal saiu do ar, sumindo com ~20 anos de história e gerando indignação entre colaboradores e leitores. (Soube do caso pelo Luís Felipe dos Santos.)

A indisponibilidade do site não foi planejada pela direção do jornal, segundo uma fonte que pediu para não ser identificada. Ao saber do encerramento da edição impressa, a empresa responsável pela hospedagem tirou o site do Diário Popular do ar.

O site voltou ao ar cerca de quatro dias depois. Até quando ficará disponível, não se sabe — ainda que os custos de hospedagem de um site estático sejam irrisórios.

O episódio é um lembrete de que é preciso pensar formas de preservar as versões digitais de jornais brasileiros.

Breve análise do Irineu, a IA que resume textos do jornal “O Globo”

O jornal O Globo lançou o Irineu, um projeto para injetar inteligência artificial no periódico carioca. A primeira ferramenta é “um botão nas matérias do site do jornal que oferece aos leitores um resumo curto do texto”.

Não resisti ao exercício simultâneo de dois papéis que detesto (adoro) fazer: ombudsman de jornal alheio e porta-voz do ceticismo com tecnologias fajutas que prometem mais do que entregam.

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