Em 2019, a briga para manter os monopólios se tornou explícita

por Guilherme Felitti

Roger McNamee é um dos sujeitos mais impactantes do mercado de tecnologia de quem você nunca ouviu falar. No seu primeiro trabalho na área, no começo da década de 1980, ele liderou investimentos na Electronic Arts. Quando foi trabalhar em um dos fundos mais tradicionais do Vale do Silício, o Kleiner Perkins, McNamee se envolveu em investimentos feitos em um navegador chamado Netscape e em uma loja online chamada Amazon. Ambos os negócios se tornaram gigantescos, mas é sempre bom frisar que quem começou o frenesi financeiro da internet foi o Netscape, o primeiro navegador gráfico para usuário final da história.

O histórico de acertos do McNamee era tão sólido que ele fez o que qualquer um com naquela posição faz em sua área: para que trabalhar para os outros se eu posso colher os frutos todos para mim? Em 1999, ele fundou a Silver Lake Partners com outros sócios e passou a farejar o mercado atrás de negócios com potencial.

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O governo deveria proteger seus dados, mas é excelente em expô-los

por Guilherme Felitti

Toda profissão depende de informação, mas algumas dependem mais do que outras. Um cirurgião, por exemplo, precisa conhecer os novos métodos e equipamentos na sua área, mas a maneira como ele vai operar se mantém mais ou menos a mesma. A informação é importante, mas não é o eixo ao redor do qual a profissão gira.

Existem profissões onde o principal capital é a informação. Jornalismo, por exemplo. Você vive para buscar, contextualizar e reportar informações. Não é a única atividade que segue a regra. Investidores também precisam consumir vorazmente informações para tomar decisões sobre o que fazer com aquela ação — vender por que a perspectiva é uma merda ou comprar mais já que o futuro tende a ser brilhante. Quer outra? Vigaristas, estelionatários e bandidos.

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A sina do Brasil é exportar commodity e a internet não vai mudar isso

por Guilherme Felitti

No final do século XVII, Portugal tinha um problemão nas mãos.

Em 1695, ano da morte de Zumbi dos Palmares, o outrora grandioso, aventureiro e rico Império Colonial Português parecia estar com os dias contados. Sessenta anos de União Ibérica (a fusão com a Espanha por falta de herdeiros do trono português) e quase um século de guerra contra os holandeses haviam dilapidado os recursos, aniquilado o comércio de especiarias no Oriente e reduzido substancialmente a vastidão dos territórios ultramarinos do reino. A economia do açúcar no Nordeste brasileiro (até então a maior fonte de receita na colônia) estava em crise devido à concorrência dos novos engenhos ingleses, franceses e holandeses na região do Caribe. Os preços caíam em virtude do excesso de oferta. Havia também novos concorrentes no tráfico de escravos, atividade na qual Portugal tinha sido virtualmente monopolista até um século antes. Por toda a costa da África despontavam agora novas fortificações e feitorias de outros povos europeus, incluindo até mesmo suecos, dinamarqueses e alemães.

O trecho vem de Escravidão, um livro fundamental em que Laurentino Gomes mergulha no processo que mais profundamente impactou e moldou a sociedade brasileira. O livro deveria ser leitura obrigatória a todos os brasileiros.

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A incrível estupidez da geração que glamourizou o excesso de trabalho

por Guilherme Felitti

Existe um mito na física chamado “máquina do movimento perpétuo”. Uma máquina do movimento perpétuo seria capaz de, após começar, criar sem ajuda externa uma quantidade de energia suficiente não apenas para garantir seu funcionamento, mas também para fornecer o extra para consumo externo. Em outras palavras: uma fonte de energia infinita que não precisa de nenhum estímulo além daquele no começo.

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Como o Vale do Silício criou o conto de fadas para adultos

por Guilherme Felitti

Qual é a música mais bonita já escrita no Brasil? Você pode até chutar um monte, mas a minha eu já escolhi. É uma música escrita em parte por um dos maiores brasileiros a ter pisado nessa vida. Paulo Emílio Vanzolini fez uma carreira de enorme sucesso na biologia — médico formado pela USP com doutorado em Harvard e décadas como diretor do Museu de Zoologia da USP, o mais importante do país. Mas você não conhece Paulo Vanzolini por sua carreira de inegável sucesso na biologia. Fora da expediente, Vanzolini compunha músicas baseadas no que observava quando estava em São Paulo ou mergulhado no Pantanal por semanas fazendo seus estudos. Você provavelmente já ouviu Ronda e Volta por cima. (Se não está lembrado, pare de ler este Tecnocracia e vá ouvi-las, de preferência nas interpretações da Maria Bethânia. Uma regra de vida: se a Maria Bethânia cantou, é improvável que você ache uma interpretação melhor.)

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Cuidado para não virar o vovô Simpson gritando para nuvens

por Guilherme Felitti

Este Tecnocracia começa bem lúdico. Transcreverei duas notícias publicadas por um veículo de massa e um trecho de ensaio falando sobre a chegada de uma nova tecnologia e você vai pensando sobre o que o sujeito está falando:

1. “A tecnologia fez algum bem? Acabou com algum mal, mitigou alguma tristeza? É de alguma consequência que você, de Nova York, deva saber na terça-feira em vez de quarta-feira que Jones amassou o nariz de Thompson no Congresso na segunda-feira? Algum dinheiro a mais é ganho ou perdido pelos especuladores de algodão em Nova Orleans e Nova York por que eles sabem das variações de ambos os mercados em cinco minutos, não mais cinco dias, antes que sua operações passem a valer?”

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A tecnologia prometia diminuir a desigualdade entre brancos e negros, mas periga aumentá-la ainda mais

por Guilherme Felitti

Este Tecnocracia começa com uma explicação básica para quem não viveu a era da fotografia analógica: nas câmeras do tipo, a foto era “impressa” pela luz em um filme fotográfico, que ia se enrolando a cada pose tirada num tubinho. Os filmes não eram praticamente infinitos como os cartões de memória de hoje; cada um tinha entre 12 e 36 fotografias. Acabadas, o fotógrafo tinha que tirá-lo da câmera e deixá-lo em um estúdio fotográfico, que usaria máquinas caras na época para “transformar” aquele filme em imagens de papel.

Basicamente, as máquinas liam a imagem no filme, imprimiam ela no tamanho que você queria e um sujeito, por fim, colocava as fotos em um pequeno álbum. Procure na casa dos seus pais ou avós e você deverá achar um monte desses álbuns com capas medonhas (a Fototica, uma época, colocava uns peixes lisérgicos na capa) e uns adesivos constrangedores para colar nas fotos.

Esse foi o modelo que durou mais de 50 anos. A partir da década de 1940, quem quisesse montar um estúdio fotográfico precisava comprar os equipamentos e o papel fotográfico onde o filme seria impresso. Junto com o filme fotográfico, a Kodak, maior empresa do setor e case da líder que foi destruída pela própria petulância, mandava também um cartão colorido chamado Shirley Card. O Shirley Card estampava uma mulher sorridente e maquiada, olhando para a câmera, cercada de quadrados com mais de dez cores, dos tons de cinza às cores primárias. Era com ele que os donos de estúdios calibravam as máquinas que faziam a revelação — era preciso fazer pequenas alterações para garantir que o amarelo que saía nas fotos era o amarelo mais vivo possível.

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Em nome do lucro, o YouTube abriu os portões do inferno da desinformação

por Guilherme Felitti

Em uma manhã de novembro de 2007, eu estava sentado no confortável sofá do hall de um destes hotéis de luxo da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, esperando para entrevistar um dos sujeitos responsáveis por essa mídia chamada internet.

Rápida recapitulação: a internet como conjunto de redes conectadas que formam uma única rede global foi criada por um norte-americano chamado Vint Cerf. A “internet” como a mídia onde a gente passa horas e horas do nosso dia (ou seja, a aplicação que roda sobre a junção das redes), conhecida como web, foi inventada por britânico chamado Tim Berners-Lee.

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A misoginia é um problema fora do controle no mercado de TI

por Guilherme Felitti

A história mais popular envolvendo tecnologia fora da linha de frente na II Guerra Mundial explica como um matemático britânico chamado Alan Turing criou uma metodologia capaz de decifrar os códigos alemães e como a Inglaterra conseguiu reverter um quadro ruim nos campos de batalha a partir dos códigos interceptados.

A chamada “Bletchley bombe”, a máquina construída por Turing e sua equipe no Bletchley Park, automatizava e acelerava a quebra das mensagens codificadas pelo sistema Enigma dos nazistas. A bombe é a mais conhecida máquina de guerra, mas não é a única. Do outro lado do oceano Atlântico, os Estados Unidos também estavam correndo para desenvolver uma máquina capaz de calcular rapidamente trajetórias balísticas — os arcos descritos por projéteis e balas do momento em que eles saem da arma ao impacto. Humanos demoravam, em média, 30 horas para completar uma trajetória balística. Como os exércitos precisavam de dezenas por dia, o jeito era procurar alguma forma de automatizar.

Em 1942, o professor John Mauchly, da Moore School of Engineering, na Filadélfia, propôs a construção do que chamou de “calculadora eletrônica”: um hardware que usasse tubos a vácuo, a tecnologia mais moderna da época, para calcular. No ano seguinte, o governo aprovou o projeto e financiou o chamado Project PX. Só em novembro de 1945, quando a guerra já tinha terminado, o projeto foi concluído e ganhou o nome de Electronic Numerical Integrator and Computer, o Eniac.

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Como o governo pode ajudar no fomento à inovação em tecnologia

por Guilherme Felitti

Na década de 1940, um pediatra chamado Sidney Farber teve uma ideia quando estava tentando encontrar uma forma de tratar crianças com leucemia linfoide aguda (LLA), uma das formas mais agressivas de câncer no sangue. Farber deu aos pequenos pacientes ácido fólico, o que desengatilhou o contrário da sua meta: a doença avançou ainda mais rápido. A partir desta informação, Farber teorizou que, se ministrasse uma substância “contrária” ao ácido fólico, talvez a doença pudesse ser freada ou curada.

A lógica de Farber estava correta. Em um teste, 16 crianças com leucemia receberam doses de uma substância chamada aminopterina. Dessas 16, 10 entraram em remissão, ou seja, o câncer não só parou de evoluir, como retrocedeu. Farber não sabia ainda, mas tinha criado a forma mais eficiente de combater à maioria dos tumores humanos: a quimioterapia.

Pelas décadas seguintes, o uso de substâncias e a combinação entre elas evoluiu muito, mas a ideia permanece a mesma: introduza uma substância tão potente na corrente sanguínea capaz de matar as células cancerígenas. A solução de Farber funcionava, mas não estava completa. Muitas das crianças tratadas no teste inicial melhoraram no começo, mas voltaram a passar mal. Novos exames mostraram que o câncer tinha voltado e todas, eventualmente, morreram. Faltava uma peça.

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Do narrar para viver ao viver para narrar

por Guilherme Felitti

Numa tarde de 1912, um sujeito chamado Adolph Zukor esperou durante três horas para ter uma reunião com um dos homens mais poderosos na indústria cinematográfica norte-americana: Jeremiah Kennedy, o presidente da Edison Company.

Zukor nasceu na Hungria e emigrou aos Estados Unidos após seus pais morrerem, quando tinha 16 anos. Depois de trabalhar consertando poltronas em seus primeiros anos nos EUA, Zukor achou uma carreira de sucesso consertando e vendendo peles de animais. Não era tão fã assim de cinema, mas quando um primo lhe pediu um empréstimo para abrir um cinema em Nova York, entrou como sócio. Gostou tanto que investiu US$ 18 mil (uma fortuna na época) do próprio bolso para levar aos EUA um filme francês chamado Queen Elizabeth. O sucesso do filme não apenas pagou o investimento, como capturou a atenção de Zukor. A partir daí, era óbvio para ele qual o caminho que o cinema deveria tomar.

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A improvável aliança entre os bilionários do Vale do Silício e Eduardo Suplicy sobre o futuro do trabalho

por Guilherme Felitti

Qual é a invenção mais importante da história da humanidade? Se você falou o smartphone, pode passar no guichê, tomar seu remedinho e voltar para o fim da fila. A roda? O motor — primeiro a vapor, depois a combustão? Pólvora? Vacina? Eletricidade? Os tipos móveis de Gutenberg? Todos ótimos candidatos e, como isso não é uma competição, a gente vai deixar a resposta em aberto. (Quando a discussão sobre fofocas das celebridades acabar na mesa do bar, jogue esse assunto e você verá uma interessante conversa florescer — ou não.)

E se a gente limitar a maior invenção — ou a que mais impactou a vida das pessoas — dos últimos 100 anos? A internet parece ser uma aposta certeira. O semicondutor, também. Mas existe uma terceira muito menos óbvia que dita a forma como você consome diariamente e para o qual você não dá a menor bola: o contêiner.

Se você bebe um macchiatto italiano no café da manhã, mastiga um filé uruguaio no almoço e come uvas argentinas de lanche da tarde, é por que, em todos esses países, os produtores colocaram os produtos dentro de uma caixa de metal que veio flutuando num barco até chegar à sua mesa. Atualmente, 95% de todas as importações e exportações são feitas usando navios carregados de contêineres. É o tipo de ideia que hoje a gente nem para para pensar direito por que parece tão óbvio, mas nem sempre foi assim.

O transporte de produtos pelo mar começa, ainda de forma rudimentar, lá em 3 mil a.C. pelos austronésios, um povo que dominava o Sudeste Asiático, ali ao lado da Austrália — quem viu Moana vai lembrar da história. De 3 mil a.C. até 1956, o transporte marítimo ganhou escala, tanto em rotas como no tamanho dos navios, mas a forma de acondicionar o que precisava ser carregado se manteve, mais ou menos, a mesma. Eram usados grandes sacos de pano e barris de madeira colocados no porão do navio. Para para pensar um pouco nisto: os portugueses estocavam e organizavam os saques ao Brasil da mesma maneira como os navios que ajudaram a alimentar seu bisavô e, talvez, seu avô.

Como não existia uma esquematização, o trabalho de encher e esvaziar um navio era um grande bumba-meu-boi: atraca o navio e deixa as centenas de estivadores entrarem para tirarem, no braço, toneladas de carga. Era um trabalho brutal. O máximo de tecnologia que existia era algum sistema de roldanas e cordas. O resto, era tudo no muque.

O processo era tão caótico que o navio ficava mais tempo atracado para carregar e descarregar do que singrando os oceanos. Era um desperdício de dinheiro não apenas para quem comprava e vendia os produtos, mas também para os donos dos barcos e os caminhoneiros que transportavam os produtos. Foi um destes caminhoneiros que notou uma possível oportunidade de melhorar o processo no começo da década de 1950. Dono da oitava maior empresa de caminhões dos EUA, o norte-americano Malcom McLean começou a experimentar com a ideia de embarcar direto no navio um pacote inteiro junto com a carreta que o transportava. Dentro do pacote de metal estariam todos os produtos, organizados, e o método abarcaria o processo inteiro, da saída da fábrica à chegada ao varejo. Quando finalmente arrumou capital e parceiros para fazer o primeiro teste, McLean desistiu das carretinhas e decidiu embarcar só o invólucro de metal. Nasceu o contêiner. Em 26 de abril de 1956, um navio chamado Ideal X saiu de um porto de Nova Jersey em direção a Houston com 58 contêineres criados por McLean.

“Para McLean, o triunfo real só apareceu quando os custos foram calculados. Carregar carga solta em um navio de médio porte custava R$ 5,83 por tonelada em 1956. Os especialistas que trabalhavam para McLean calcularam que o custo para carregar o Ideal X era de 15,8 centavos de dólar por tonelada. Com número como esses, o contêiner parecia ter um futuro”. Nasceu aí a globalização como a gente conhece hoje.

O trecho acima é de um livro excelente sobre o surgimento do contêiner e seu impacto na economia global intitulado The Box e escrito por um economista chamado Marc Levinson. É uma leitura surpreendentemente cativante sobre uma caixa de metal, muito embora descrevê-la assim seja como falar que o Machado de Assis só empunhava uma pena e o Ayrton Senna só dirigia um carrinho.

Levinson mergulha tanto nos detalhes — por exemplo, no faturamento da empresa de McLean quando ainda eram poucos caminhões em circulação — que, em certo momento, você se entedia e pede para ele acelerar. Uma das descrições mais fascinantes no livro é como o método até então tradicional de carregar e descarregar navios criou um ecossistema inteiro nos portos. Nenhum dos carregadores era contratado, então cabia a uma espécie de gestor indicar quais seriam os funcionários responsáveis pela carga daquele dia. Num ambiente de extrema pobreza e insalubridade profissional, esses gestores tinham um poder enorme e, conforme escolhiam os funcionários, iam colhendo uma rede de favores devidos que, mais à frente, poderiam usar para intentos, digamos… não legais.

Os gestores viraram, por exemplo, agiotas, emprestando dinheiro a taxas chocantes para quem não tinha o que comer, e passaram a se organizar em grupos paramilitares para manter a ordem1.

A diferença entre os custos tabulados por McLean pintam um clássico cenário de disrupção: um serviço ou produto tão melhor que não deixa espaço para discutir a manutenção do antigo serviço ou produto. A questão não é só econômica. Trafegar bens pela água usando módulos pré-configurados derrubou em 85% o tempo necessário para o transporte. Mais que isso: o frete se tornou rastreável. Era possível saber que um navio descarregado chegaria às docas ao lado da sua indústria daqui a três dias exatamente, o que ajudou a transformar a indústria como um todo. O contêiner deu previsibilidade ao escoamento de produção e derrubou o custo total por diminuir os gastos com estoque. O dono da fábrica não precisava mais pagar tanto em estoque para guardar seus produtos enquanto o navio estava sabe-se lá Deus onde.

Com tantas vantagens, o mercado logístico passou por uma profunda transformação nos últimos 60 anos. Transatlânticos começaram a ser fabricados tendo não humanos, mas contêineres em mente. Por isso, os barcos começaram a espichar para acomodar ainda mais. (Pense numa pessoa que cresce no dorso sem que os membros e a cabeça sigam a mesma escala.) Em 1956, o Ideal X levou 58 contêineres. O maior contêiner ship do mundo hoje, o Hong Kong da operadora OOCL, leva quase 21,5 mil a cada viagem. O YouTube tem vídeos fascinantes (e com músicas heróicas de trailers da Marvel) do Hong Kong navegando, uma parede com 23 contêineres de espessura e 8 de altura — só no convés. No ano que vem, espera-se dois navios que acomodam 23 mil. Com barcos mais compridos e, principalmente, amplos, canais de grande circulação marítima, como o de Suez ou do Panamá, tiveram que ser reformados para os navios conseguirem passar. Com navios maiores, o frete de cada produto cai. Um iPad fabricado na China chega à Europa com preço de frete de R$ 0,05 por peça. Uma TV que também sai da China chega aos EUA por menos de R$ 2.

Atritos

Em 1956 o primeiro navio com contêiner navegou. Três anos depois, veio a peça final. Em São Francisco, foi instalada a primeira grua capaz de carregar e descarregar sozinha contêineres do navio. Todas as peças estavam postas para a revolução que vivemos hoje, com a indústria estabelecida. Mas, ainda que seja tentador, é errado achar que tudo estava resolvido pela questão técnica.

A aceitação do sistema de contêineres foi imediata apenas junto às fabricantes e aos donos de navios. Nas duas décadas seguintes, o setor enfrentaria milhares de greves e negociações tensas com os sindicatos que representavam os direitos dos estivadores, muitas vezes apoiados por gangues. Nenhum outro lugar representa melhor o nó que Nova York. “Entregar um caminhão significava se engajar com um ‘carregador público’, um tipo de fornecedor que só existia em Nova York. O carregador era, na verdade, uma gangue, que exigia o direito único de carregar e descarregar caminhões em um píer particular, apoiada pelos músculos do sindicato local, a Associação Internacional dos Estivadores”.

A briga entre o mercado, representado pelas Associações de Transporte Regionais, e os sindicatos, foi longa e tensa, com ambos os lados concordando em novas regulamentações que introduziam uma pequena novidade por vez. Nenhum dos dois lados parecia satisfeito com esses acordos: o mercado queria colocar fim à norma que exigia a contratação mínima de trabalhadores, enquanto os sindicatos queriam aumentar esse número ou introduzir salários fixos para cada um deles.

Só em 1960 chegaram à primeira versão de um pacto que liberava parcialmente a automação nos portos ao mesmo tempo em que instituía indenizações milionárias do mercado para os estivadores. Os prestes a se aposentar ganharam um bom dinheiro cada e os em idade produtiva ganharam um salário mínimo de 35 horas trabalhadas, ainda que não houvesse muito o que fazer. O chamado “Mechanization and Modernization Agreement” destravou o uso de contêineres nos EUA e, ainda que greves fossem registradas mais de 15 anos depois, instituiu um padrão a partir do qual as relações trabalhistas entre empresas e funcionários no mercado automatizado de contêineres seriam balizadas.

O ponto principal, que vale para esse Tecnocracia, é que um mercado que antes empregava milhões de pessoas pelo mundo foi profundamente alterado por uma inovação tecnológica que dizimou a imensa maioria destes postos de trabalho. Um navio de contêineres hoje emprega 20 pessoas por viagem. Um porto, em vez de milhares, se vira com, no máximo, centenas. É um processo que já vimos se repetir pela história algumas vezes: em vez de contar a história do contêiner, eu poderia ter falado da linha de produção introduzida pelo Henry Ford. Tecnologia segue um padrão: primeiro, é inevitável que a inovação destrua postos de trabalho. Com o tempo e o mercado estabelecido, surgem outras funções que assimilam os que perderam seus empregos anteriores. É sobre esse “gap” que vamos falar. Por que você já deve ter percebido que a gente está chegando a um ponto de inflexão no que diz respeito a tecnologia e trabalho. Desta vez, não são só os estivadores ou os funcionários da Ford que sofrerão as consequências. Seremos todos nós.

Todos os empregos em risco

Para começo de conversa, vamos definir o que é inteligência artificial. Existem uma série de exemplos práticos que são abarcados pela definição. É mais ou menos como Big Data: você pergunta para 30 pessoas e tem, no mínimo, umas 15 respostas diferentes. Inteligência artificial é usado para designar, mais comumente, dois tipos de aplicação:

  1. Na primeira, você tem um banco de dados enorme com observações que indicam, por exemplo, se um cliente pagou ou não uma conta. Com esses dados, você pode “ensinar” os algoritmos de aprendizado de máquina a reconhecer padrões inerentes àquele banco de dados ou deixar que eles tirem suas próprias conclusões. É a distinção entre aprendizado supervisionado e não supervisionado. Com os padrões reconhecidos, é possível extrair “insights” e até calcular a probabilidade em um percentual daquele cliente repetir um comportamento. Exemplo: baseado nos clientes que não pagaram, quantos dias de atraso em meses seguidos indicam que um outro cliente possa estar considerando cancelar seu serviço?
  2. Na segunda, você tem um algoritmo mais complexo e o apresenta a um cenário e um objetivo. Usando alto poder de processamento, esse algoritmo vai tentando avançar em direção ao objetivo. No começo, o humano se comporta como o pai de uma criança, punindo ações erradas e recompensando passos que o levem mais para perto do objetivo. A partir de certo momento, o algoritmo começa a andar sozinho, ainda baseado em tentativa e erro, até que chega ao resultado final. É o que o setor chama de “reinforcement learning”.

A inteligência artificial, principalmente por meio de um dos seus campos de estudo chamado “deep learning”, já é capaz de aprender — por enquanto — tarefas razoavelmente simples. Ache sem muito esforço no YouTube algoritmos aprendendo como jogar Super Mario Bros, por exemplo. Ou, se você entende de programação, encontre facilmente tutoriais mostrando como criar seu próprio sistema de “reinforcement learning”.

Replicar os dois casos é simples, se a gente estiver falando, de novo, de tarefas simples. Em vez de ter que fazer a codificação de equações matemáticas complexas, bibliotecas já prontas tiram grande parte do esforço de limpar, preparar e “treinar” os dados em algoritmos que possam identificar padrões e indicar possíveis resultados futuros. Isso já seria uma baba. Mas o cenário é ainda mais simples. Gigantes de tecnologia que estão há anos utilizando em suas próprias operações aprendizado de máquina começaram a empacotar serviços prontos para uso que exigem, cada vez menos, a necessidade do cliente saber programar.

Nos últimos três anos, ficou claro para Amazon, Microsoft e Google que computação em nuvem era commodity — ganhava quem cobrasse menos. Era preciso acoplar àquele servidor que você alugou alguma funcionalidade que justificasse a escolha por ele. Então AWS, Azure e Google Cloud começaram a pendurar nos servidores ferramentas de inteligência artificial tão poderosas quanto simples de usar. Pelo Google, por exemplo, você consegue decupar áudios em português em minutos. A AWS fornece um dos serviços de reconhecimento facial mais poderosos do mercado. O jornal New York Times resolveu colocar o serviço à prova e publicou, em abril, como foi fácil montar um sistema privado de monitoramento de espaço público. Durante alguns dias, três câmeras captaram e identificaram mais de 2,5 mil rostos únicos que passavam em uma praça de Nova York. Tudo custou US$ 60, não exigiu um PhD e nem mesmo ter uma câmera: a reportagem usou um feed de câmeras públicas disponível online.

Estou me alongando um pouco nas explicações técnicas para você entender o impacto que isso terá no mercado de trabalho. Seu trabalho envolve procurar documentos? Então atinge. Seu trabalho envolve preencher planilhas? Atinge também. Seu trabalho envolve dirigir de um lugar a outro? Também. Seu trabalho é ler resoluções jurídicas e encontrar qual é a jurisprudência? Seu trabalho envolve atendimento telefônico? Gerenciar estoque ou almoxarifado? Escrever notícias curtas sobre eventos factuais, como balanços de empresas e placares esportivos? Tentar vender produtos? Editar e colorir fotos antigas? Tenho más notícias.

Se o seu trabalho envolve repetir rotinas, ainda que sejam minimamente criativas, é muito provável que um algoritmo já seja capaz de fazê-lo melhor que você. Um estudo feito em 2013 por dois professores da Universidade de Oxford, chamados Carl Frey e Michael Osborne, apontou que 47% dos cargos atuais são altamente passíveis de serem automatizados por um algoritmo. Quando Frey e Osborne escreveram isto, a AWS ainda engatinhava, “big data” era um termo que começava a ser envolvido por hype e não existiam ferramentas tão prontas e baratas para criar algoritmos autônomos. (As profissões seguras, segundo o estudo de Oxford: cuidar de velhinhos e crianças. É sério.)

Para voltar à história que abre o Tecnocracia, enquanto o contêiner é uma arma específica, o aprendizado de máquina é uma categoria inteira. O que isso quer dizer? O contêiner dizimou um mercado de trabalho (tirar e colocar coisas num navio) e alterou toda a cadeia de suprimentos e, consequentemente, a indústria global. O aprendizado de máquina vai dizimar todas as categorias de trabalho. Não pense que minha posição é ludista: os estivadores perderam seus empregos, mas o mercado global de bens foi revolucionado. Existe sempre uma troca. Ser contra a aplicação cada vez mais popular de aprendizado de máquina no mercado de trabalho é como o papai Simpson gritando contra uma nuvem: você pode até tentar, mas não vai mudar em absolutamente nada o resultado.

Quadro de "Os Simpsons" de uma notícia de jornal com a manchete "Idoso grita com nuvem".
Via Know Your Meme.

Não é que a gente esteja próximo a esse cenário: ele já está aí. Hoje, qualquer um com um cartão de crédito e um mínimo de interesse e conhecimento pode ter ferramentas automatizadas com um poder gigantesco. E esta mudança vai passar como um trator — ou um transatlântico — no mercado de trabalho, principalmente porque, desta vez, a concentração de mercado tende ser ainda maior. A disrupção da linha de montagem ou do contêiner se distribuiu por algumas dezenas de grandes empresas que, com o tempo, foram se consolidando. Desta vez, várias profissões devem ficar concentradas em um grupo que cabe nos dedos de uma mão: as donas da infra-estrutura, dos algoritmos e, direta ou indiretamente, dos dados.

Como aconteceu no caso dos estivadores, a tecnologia que tirou empregos deve, em médio prazo, criar novos. Mas apostaria meu braço direito (e eu sou destro) que não será na mesma escala. Havia uma teoria, quando as primeiras máquinas a vapor foram introduzidas, que a tecnologia serviria para livrar o ser humano do trabalho — com tudo automatizado, ficaríamos livres para passar os dias dormindo, lendo, comendo, transando, estudando, pintando… O economista inglês John Maynard Keynes previu que, com a resolução dos problemas econômicos vigentes na década de 1930, nossa rotina de trabalho se limitaria a 15 horas semanais, com uma renda de até oito vezes mais nos países desenvolvidos.

Para o desespero de todos, a visão se mostrou equivocada em várias frentes. A mecanização trouxe um aumento nas horas trabalhadas e jamais estivemos perto desta utopia do tempo livre. Nesta onda de automação com algoritmos, a tendência é o fim de camadas gerenciais, a concentração de riqueza em pouquíssimas empresas e executivos, o encolhimento ainda maior da classe média e a entrada de centenas de milhões na miséria.

O que fazer então com essa multidão de miseráveis?

Antes que o primeiro “liberteen” abra a boca, um pequeno esclarecimento: o Tecnocracia não é adepto da teoria do capitalismo selvagem. Há uma corrente de pensamento, abraçada com fervor pelos libertários mais radicais, de que, ecoando o que Ayn Rand escreveu, o homem é livre para criar suas próprias oportunidades. E não me parece por acaso que, durante minha carreira, 95% das pessoas que conheci que defendiam essa tese tinham tido uma infância de classe média alta. Sempre achei curioso que quem defende que não é preciso fazer nada parece viver em uma realidade isolada, como se a maior concentração de renda não significasse impactos na própria vida — vide segurança, para ficar no exemplo mais óbvio. Tal qual a relação trabalhista de Robin Hood às avessas criada pelos apps de transporte e delivery, você pode achar que esse desemprego em massa alimentado por algoritmos não vai te atingir, até ver as contas públicas arrombadas não apenas pelos casos de corrupção, mas também pelos crescentes gastos com saúde pública, segurança e previdência, todas consequências diretas da miséria. É seu dinheiro de imposto que está indo (e não está conseguindo) tapar esse buraco.

A falsa solução do ensinar a programar

Quando ficou claro que esse iminente gap entre o que o mercado de trabalho pedia nas últimas décadas e o que pede hoje viraria um problema, o Vale do Silício apostou em uma primeira alternativa: ensinar todos os desempregados a programar. Você tem um uma profunda falta de profissionais técnicos de um lado (no Brasil, ainda mais) e um contingente de pessoas sem emprego. Na teoria, parece lindo. Artigos martelam que a ciência de dados oferece empregos com salários anuais na casa das centenas de milhares de dólares e o setor não consegue contratar gente tão rápido como gostaria. Sites oferecem cursos de graça. “Basta ter vontade”, soa aquele slogan na cabeça dos otimistas. Até que você cai na real.

Aprender a programar não é uma tarefa fácil. Não caia no blablablá de que você consegue aprender em uma semana. Esses cursos mágicos que prometem conhecimento total em três meses são ciladas para pegar gente desesperada para mudar de área. O básico você cumpre, mas as tarefas que você vai precisar executar atendendo clientes ou trabalhando na produção de uma empresa são radicalmente mais complicadas do que os exercícios passados pela imensa maioria dos cursos. É o tipo de coisa que você faz feliz na presença de um instrutor, mas que, quando precisa resolver um problema real sem nenhuma ajuda, não sabe bem por onde começar direito.

Falo isso com experiência. Full disclosure: eu fui jornalista durante 13 anos da minha vida e, desde que fui demitido da Editora Globo, no fim de 2016, mudei de carreira. Comecei a aprender Python em 2015. Mesmo depois de incontáveis horas lendo livros, fazendo cursos, criando sistemas, fazendo análises e codificando, ainda acho que meu nível técnico tem que melhorar muito.

Eu tive um colchão financeiro que me permitiu parar por alguns meses só para estudar programação e começar a colocar de pé uma empresa própria focada em análise de dados. Quantas pessoas podem fazer o mesmo? Imagine o sujeito da linha de montagem demitido pelo aumento na automação, sem qualquer referência de linguagens de programação e com o aluguel vencendo daqui a duas semanas. É irreal imaginar que a solução para acolher os demitidos pela automação seja um intensivão de programação.

E não por que a galera é vagabunda, como gostam de pensar muitos dos libertários. É por que: 1) aprender a codificar é difícil; e 2) a qualidade da educação recebida durante os anos de formação por esses trabalhadores no Brasil sempre foi uma merda. Um dos pilares fundamentais da programação é a matemática. Ainda que linguagens de programação e bibliotecas ofereçam serviços e funções já prontas, qualquer um que se aventure a analisar dados para arranjar um emprego em ciência de dados tem que saber o mínimo de estatística. O nível educacional brasileiro é baixo e, em matemática, é ainda pior. Segundo o estudo “The Learning Curve” da Pearson, feito a partir de dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil ocupa a penúltima posição entre 40 países sobre a proficiência dos seus estudantes em matemática.

Não é de agora — de modo geral, o Brasil nunca foi uma potência científica. Casos de jovens pobres que vencem as dificuldades para faturar prêmios em competições internacionais de matemática, por exemplo, são idênticos às medalhas que o Brasil ganha nos Jogos Olímpicos em categorias não tradicionais, como remo e salto com vara. São “outliers”, não frutos de uma fábrica, de um projeto de longo prazo. Quem consegue se desgarrar, provavelmente apoiado por excelentes escolas particulares e as melhores universidades públicas do Brasil, ingressa numa restrita elite de programadores que ganha dinheiro para a sua e as próximas gerações.

O Brasil tem mostrado um histórico excelente em perder ondas tecnológicas e, ao que tudo indica, já estamos vendo o bonde da inteligência artificial partir de lencinho branco na mão. Com um ensino falho em matemática e sem a mínima noção técnica, é difícil continuar. Mesmo quem começou na área (fez um técnico em Cobol, por exemplo) e fez cursos de reciclagem enfrenta dificuldades. É difícil encontrar gente no comando na área de ciência de dados, por exemplo, que esteja satisfeita com a qualidade dos profissionais que os cursos disponíveis hoje despejam no mercado. Os funcionários chegam em pouco número e sem conhecimento prático ao mercado. Ouvi até de um professor de um desses cursos que ele, diretor numa startup, não contratava quem se formava ali.

As gerações mais novas vão, aos poucos, sendo moldadas tendo em vista essas novas funções. A explosão no uso de dados, por exemplo, já emprega engenheiros de dados, cientista de dados, engenheiros de aprendizado de máquina e deverá criar outros perfis de empregos, como o editor de banco de dados. Há uma geração de trabalhadores, porém, que foi moldada para preencher cargos que estão prestes a expirar. São trabalhadores a partir dos 40 anos, com uma carreira que já dura duas décadas e para quem arrumar um novo emprego é muito difícil. Para a maioria, aprender a programar não é uma opção. Muitos vão se virar como podem, a começar entregando comida ou dirigindo para desconhecidos por meio dos apps de delivery e transporte. Mas até isto tem um limite. O que fazer com quem, ainda assim, não tem vaga?

O pai do Supla

Quando o Vale do Silício caiu na real e percebeu a utopia que era ensinar todo mundo a programar, se enamorou por um outro conceito: a “universal basic income”. Ou a renda básica universal. Entra na história Eduardo Matarazzo Suplicy, um paulistano de 77 anos membro de uma das famílias mais tradicionais da elite de São Paulo.

Nas suas quatro décadas como político no Senado, na Câmara dos Deputados, na Assembleia e, atualmente, na Câmara de Vereadores de São Paulo, Suplicy se tornou uma figura folclórica, mais falado por ter cantado Racionais e Bob Dylan dentro do Congresso do que pela atividade parlamentar. É dessa atividade parlamentar que surgiu o projeto de lei 10.835/2004, que instituiria, a partir de 2005, a renda básica da cidadania, um valor mensal pago a “todos os brasileiros residentes no País e estrangeiros residentes há pelo menos 5 (cinco) anos no Brasil, não importando sua condição socioeconômica”.

Notou que usei o futuro do pretérito na frase anterior, né? O projeto foi aprovado no Senado e na Câmara, sancionado pelo então presidente Lula e só. Naqueles cenários dignos de Brasil, a lei não pegou. Desde 2005, Suplicy se empenha em uma jornada quixotesca para tentar fazer a lei que ele já propôs e já aprovou ter algum impacto prático. Sempre que tem uma oportunidade de dar entrevista, cita a bendita “renda básica da cidadania”. Para a Folha, durante a corrida eleitoral do ano passado, deixou claro que vai ser seu grande projeto de vida. A excentricidade ao redor de Suplicy fez com que ele não fosse levado muito a sério. Até que, numa parceria acidental das mais esquisitas, o Vale do Silício começou a testar na prática o que o pai do Supla vem defendendo há anos.

Em 2016, a Y Combinator, uma das aceleradoras mais relevantes do mercado de tecnologia (Airbnb, Dropbox e Reddit já passaram por lá), anunciou um piloto para distribuir um “salário” mensal entre mil e dois mil dólares para famílias em Oakland, uma das regiões mais pobres e violentas da Califórnia.

“A motivação por trás do projeto é começar a explorar alternativas à rede social de proteção existente. Se a tecnologia elimina empregos e empregos continuam a se tornar menos seguros, um número cada vez maior de pessoas será incapaz de pagar suas contas.” A frase é da diretora do projeto dentro da incubadora, a Elizabeth Rhodes, em uma entrevista ao Quartz. O valor não é aleatório; os EUA definiram a linha da pobreza em US$ 12 mil anuais (ou US$ 1 mil por mês). O piloto limitado (um relatório preliminar pode ser lido online) ajudou a alimentar um teste ainda maior, com mil famílias, que estaria programado para começar em 2019.

A Y Combinator não é a única a testar a renda básica universal no Vale do Silício. Chris Hughes, o cofundador do Facebook que escreveu um texto brutalmente honesto sobre a quebra da rede social no New York Times, ajudou a financiar o The Economy Security Project. O lema é cristalino: “é hora de acabar com a pobreza e reconstruir a classe média. Acreditamos que dinheiro é um jeito efetivo de fazer isso”. Na prática, o projeto vem distribuindo desde o começo do ano US$ 500 mensais para 100 famílias em Stockton, também na Califórnia.

Na verdade, o projeto de distribuição não se restringe ao Vale. A Finlândia está testando distribuir US$ 660 mensais para cerca de dois mil desempregados e a Suíça flerta com um projeto parecido desde 2016, quando a população rejeitou em um referendo distribuir US$ 30 mil anuais a cada um dos seus residentes.

Tal qual o projeto de Suplicy, os testes da Y Combinator e do The Economy Security Project envolvem repasse de dinheiro sem contrapartida. O Bolsa Família tem regras de recebimento: os pais de crianças devem garantir, por exemplo, que elas não atinjam um número de faltas escolares e que tomem vacinas. A distribuição “livre” de dinheiro parte do pressuposto de que, ao não ficar preso às exigências financeiras do fim do mês, o sujeito teria uma maior estabilidade para explorar ao máximo seu potencial, o que ajudaria a nivelar, na teoria e em parte, a sociedade.

Não precisa ser um gênio para concluir que a renda básica está longe de ser uma unanimidade, não apenas pela estranheza de receber dinheiro sem fazer nada (a gente, independentemente da religião, sempre aprendeu que dinheiro é coisa difícil, que precisa ser suado, o que leva muitos a torcerem o nariz de cara para a ideia), mas também pela suspeita de que Vale do Silício esteja a usando como um escudo.

“A renda universal básica se torna um prêmio de consolação para aqueles cujas vidas foram ‘desruptadas’. Os benefícios continuam indo para os criadores e donos das tecnologias, mas agora com menos culpa e cobranças sobre danos colaterais. Em vez de direcionar a tecnologia para o progresso social ao promover projetos que contribuem para o benefício público e o desenvolvimento humano, as elites do Vale do Silício podem ignorar os críticos apontando a renda básica como solução e uma solução que ainda não restringe o motivo para o lucro”. Essa chicotada é do pesquisador Jathan Sadowski em um artigo para o The Guardian. Em outras palavras: a renda básica não resolve a questão da concentração de renda que continua galopante com o crescimento do Big Tech, mas dá o mínimo de paz de espírito para que os pouquíssimos bilionários e os milhares de milionários possam dormir à noite com o mínimo de culpa.

Fica no ar também como funcionaria um programa do tipo em escala nacional, como Suplicy sugeriu. Nos testes nos EUA, são bilionários e fundos de investimento que estão pagando a conta. Com contas públicas extremamente combalidas, como seria possível implementar a ideia teórica de Suplicy sem pensar no desmonte de outras redes de proteção, como o Sistema Único de Saúde (SUS)? Neste aspecto, Sadowski tem razão quando afirma que o projeto de renda básica, sem qualquer planejamento transparente, parece enveredar pelo caminho de ser não um complemento, mas um substituto à rede já em voga.

Ainda teremos uns bons anos até que os testes em curso nos EUA e na Europa produzam dados e análises suficientes para mostrar as consequências positivas e negativas da renda básica. Mas o fato de o Vale do Silício abraçar a ideia (até Mark Zuckeberg já citou a alternativa) enquanto tenta, de qualquer maneira, atrasar ou impedir a regulamentação do mercado, é uma luz amarela gigantesca.

Foto de Jeff Bezos, fundador e CEO da Amazon.
A pessoa mais rica do mundo. Foto: Steve Jurvetson/Flickr.

Uma última história para terminar, levantada pelo professor da Universidade de Nova York, Scott Galloway. Quanto de imposto o homem mais rico do mundo paga? Zero. Para começo de conversa, Jeff Bezos não vende suas ações da Amazon e por isso não desengatilha o imposto sobre ganho de capital. Para financiar a vida, o bilionário pega emprestado dinheiro de bancos como JP Morgan a uma taxa de 1,9% e continua rolando a dívida. Ao mesmo tempo, 17% de todos os subsídios públicos dados à Amazon (para instalar novas sedes da empresa, como quase aconteceu em Nova York, ou a isenção de impostos para a empresa em 2019) vão direto para seu bolso.

Entre os subsídios ganhos e os impostos evitados, Galloway classifica Bezos como “o rei dos benefícios públicos”. Segundo o Bloomberg Billionaires Index, sua fortuna pessoal chegou a mais de US$ 160 bilhões no ano passado, um número que Bill Gates, Warren Buffett ou Carlos Slim, os três homens mais ricos do planeta nos últimos 20 anos, jamais atingiram. Com essa grana toda e cheio de benefícios públicos, pagar dezenas de milhões de dólares por ano para famílias carentes é um troco de bala excelente.

Mal aí, Suplicy, mas antes de distribuir o dinheiro você tem que descobrir quem é que não está pagando sua parte.


  1. As milícias não nasceram na última década, mas ganharam uma força inédita, principalmente com a ajuda de políticos como o sujeito que hoje vive no Palácio do Planalto.

Os bancos estão sob ameaça, mas não pelas fintechs que você imagina

por Guilherme Felitti

Você já leu a Bíblia? Eu ainda não. Independentemente da sua religião e das barbaridades que muitos religiosos tenham cometido — e continuem cometendo — em seu nome, é inegável o impacto que o livro ainda tem na nossa vida. Se você for à Itália, por exemplo, e visitar os museus de Florença, Roma e do Vaticano, é sempre bom ter em mente que os maiores mecenas de artistas como Michelangelo Buonarotti, Leonardo da Vinci, Rafael Sanzio e Caravaggio foi a Igreja Católica e que os temas das obras de arte eram, majoritariamente, histórias bíblicas.

Alguns deles, inclusive, eram contratados exclusivamente por papas ou pelo Vaticano. Rafael, por exemplo, dedicou quase a carreira toda para dois papas, Júlio II e o Leão X, e Michelangelo foi perseguido até o fim da vida por ter recebido uma encomenda também do Júlio II e não ter entregue as estátuas do seu túmulo.

Essa é uma história que mostra o tamanho da megalomania eclesiástica da época: Júlio II queria um túmulo com 40 estátuas de mármore numa estrutura de 7 metros de altura dentro da Basílica de São Pedro. O trabalho seria tão gigante que, antes de instalar o túmulo, foi preciso reformar as estruturas da igreja, que sucumbiria caso o projeto original com toneladas de estátuas fosse instalado. Júlio II morreu, Michelangelo entregou algumas das dezenas de estátuas e seus herdeiros perseguiram o artista até que os dois lados concordaram em um túmulo bem mais modesto, fora da Basílica. Júlio II está até hoje enterrado na igreja de San Pietro in Vincoli e hordas de turistas vão até lá não pelo legado do seu papado, mas pelo Moisés de mármore que Michelangelo esculpiu. Enfim.

Muitas das histórias que contamos ou ouvimos são baseadas em situações e arquétipos de personagens bíblicos. Independentemente da sua religião, são histórias e paráfrases que a gente repete diariamente, sem se dar conta. Por exemplo: quando queremos contar a história de alguém brigando contra outro claramente mais poderoso, vêm à mente a história de Davi e Golias.

Você, provavelmente, já a repetiu em algum momento da vida, talvez sem saber exatamente como se desenrolou a história por trás do ditado. Foi assim: os israelitas estavam numa luta sangrenta contra os filisteus. Um dia, o maior soldado dos filisteus, um gigante chamado Golias, confrontou o líder dos israelitas e exigiu uma luta um a um com qualquer guerreiro inimigo. Nenhum soldado israelita tinha coragem para tanto — dependendo de qual manuscrito você lê, a altura do Golias varia entre 2 e 3 metros. O único sujeito que se prontificou foi um pastor franzino chamado Davi, que estava no campo de batalha para levar comida aos seus irmãos soldados. O rei dos israelitas percebeu que as chances não eram grandes, mas mesmo assim topou e tentou emprestar seu elmo, seu escudo, sua espada e sua armadura para Davi, mas a diferença de tamanho entre ambos era tão grande que tudo caía no chão. Davi resolveu encarar Golias com a sua própria roupa de pastor e, antes da batalha, passou num riacho perto e selecionou cinco pedras redondas submersas.

No dia da batalha, os filisteus riram com aquela figura magricela em frente ao gigante. Antes que Golias sacasse sua espada, Davi pegou uma das pedras recolhidas no riacho, colocou em seu fundíbulo (uma arma que parece um estilingue giratório) e mirou no oponente. A pedra atingiu Golias na cara. Ele caiu no chão desacordado. Davi andou até ele, sacou sua espada e lhe cortou a cabeça, o que fez com que as tropas inimigas fugissem desesperadas. A história é um dos temas mais populares na arte, junto com a Pietá e o nascimento de Cristo. Você certamente já ouviu falar do Davi do Michelângelo, uma estátua de mármore com mais de cinco metros de altura retratando Davi completamente pelado, olhando para Golias momentos antes da luta com seu fundíbulo apoiado no ombro.

Foto da estátua de Davi de Michelangelo.
A estátua de Davi esculpida por Michelangelo. Foto: Brian Dooley/Flickr.

Pois bem. Neste exato momento, há uma briga do nível Davi e Golias rolando no mercado de tecnologia no Brasil que envolve os bancos. Você, meio apressado, vai falar: “Ah, Guilherme, falar das fintechs agora? Que novidade tem isso?” No que eu vou concordar 100% com você. Essa pauta seria excelente se estivéssemos em 2015, quando havia um futuro brilhante para o Parque Olímpico do Rio de Janeiro e “milícia” era uma palavra que mais relacionada a bairros pobres do Rio de Janeiro que ao Palácio do Planalto. O Tecnocracia de hoje não vai falar sobre fintechs. Quer dizer, não das fintechs que você está acostumado a ouvir falar em pautas do tipo. A briga realmente interessante rolando no mercado de tecnologia no Brasil tá em outra área. O Tecnocracia de hoje vai falar sobre o mercado de adquirência. Traduzindo: maquininhas de cartão.

As origens do duopólio

Nos últimos três anos, o que parecia um duopólio tranquilo de empresas controladas pelos dois maiores grupos bancários no Brasil de um setor bilionário que cresce anualmente a taxas de dois dígitos, mesmo com crise, virou uma guerra aberta, com dois players novos vindos (quase) de fora do setor bancário. A forma como Stone e UOL invadiram a festa de Rede e Cielo vai ser estudada em livros de história econômica do Brasil. Principalmente por que ambos não são ameaças potenciais; eles são realidade, com valor de mercado na casas dos bilhões de dólares e capital aberto na bolsa norte-americana. Ambos mudaram a maneira como o mercado opera e pressionaram os líderes.

É a história clássica de disrupção que você lê nos livros: o líder folgado e um pouco arrogante está deitado em berço esplêndido até que aparecem duas ou três novas empresas com uma nova abordagem. Inicialmente, o líder as desprezam dada a diferença de tamanho. Eventualmente, as novatas conseguem impactar o grande a ponto de fazê-lo rever sua estratégia para perder só os anéis, não os dedos. O que a gente tem visto nos últimos meses são os dois grupos bancários usando seu tamanho para tentar responder a dois desafiantes. Pior: a rachadura na armadura dos líderes incentivou outros bancos enormes, até então convencidos de que não valia mergulhar ali, a pularem de cabeça na disputa.

Para entender melhor a briga, como é padrão no Tecnocracia, vamos dar dois passinhos para trás. Primeiro, a gente vai entender quem são os Golias.

Como toda economia capitalista no mundo, a brasileira se apóia nos bancos. O mercado bancário no Brasil é extremamente concentrado: cinco bancos concentram mais de 80% dos ativos totais. Na categoria, o Brasil só perde para a Holanda, onde há quase 90% de concentração bancária. O Nexo tem um ótimo conteúdo comparando muitos países do mundo. O que são esses ativos? Basicamente, dinheiro. Os bancos oferecem uma série de serviços financeiros e o estudo do Banco Central que mede essa concentração avalia a participação de todos os bancos em categorias de serviço, como, por exemplo, crédito para pessoas físicas, jurídicas e rural, contas correntes, investimentos, emissão de cartões, seguro, financiamento, título de capitalização… A lista é enorme.

Os cinco bancos que dominam o mercado brasileiro são três privados (sendo que dois deles são nacionais) e dois públicos. Em ordem de total de ativos: Itaú Unibanco, Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal e Santander. Neste Tecnocracia, a gente vai se concentrar nos bancos privados, já que os públicos têm um incentivo do governo para atingirem esse tamanho todo. Se o Banco do Brasil quebra, por exemplo, isso quer dizer também que a União quebrou. Você teria problemas mais sérios que o destino da sua previdência que está guardada lá.

Isso quer dizer que a gente vai falar dos dois maiores bancos privados do Brasil: Itaú e Bradesco.

Ambos tomaram esse tamanho todo com uma mistura entre aquisições de rivais e quebras de bancos menores, o que significa que o problema da concentração bancária vem piorando com os anos. Se você viveu na década de 1980, deve se lembrar de alguns outros bancos que hoje não existem mais. Por exemplo, o Ayrton Senna era obrigado por contrato a usar um boné azul de um banco mineiro chamado Nacional quando fosse dar entrevistas. Algumas das cenas mais clássicas do piloto mostram ele com o famoso bonezinho. Na década de 1990 também fez sucesso um comercial do Bamerindus com um jingle insuportavelmente chiclete (e eu agora estou com esta maldita música tocando em looping na cabeça). Se você já ouviu um tio cantar que “o tempo passa, o tempo voa”, mas alguma coisa continua numa boa, agora você sabe de onde vem. Bamerindus e Nacional quebraram.

A economia brasileira, principalmente antes do Plano Real, era instável o suficiente (e os donos de alguns bancos irresponsáveis em igual medida) para tornar a administração de um banco difícil. É, eu sei. Não era toda operação nacional de bancos estrangeiros ou banqueiros nacionais que conseguiam singrar estas águas. Como conheciam o mercado brasileiro, não se arriscaram em negócios com alto risco e tiveram o mínimo de administração, Itaú e Bradesco não só sobreviveram, mas foram englobando todos os outros. Lembra do Nacional? O Banco Central negociou a compra da massa falida pelo Unibanco. O melhor exemplo de concentração, porém, aconteceu há pouco mais de dez anos, quando o próprio Unibanco e o Itaú se uniram. As conversas sobre uma possível fusão aconteciam desde a virada do século, mas só foram concretizados após a crise econômica de 2008, quando o Unibanco estava numa posição delicada de liquidez. Juntos, se tornaram o maior banco do hemisfério sul do planeta.

A concentração bancária significa que, historicamente, toda introdução de tecnologia para pagamentos no Brasil dependeu da anuência dos grandes bancos. Na década de 1990, a principal tecnologia de pagamento que tínhamos eram folhas de papel onde você escrevia o valor e firmava com sua assinatura. Os cheques eram uma forma fácil de transacionar grandes quantias de dinheiro sem precisar de malas (alô, Geddel!), mas eram também uma mídia que convidava à fraude. Bastava uma assinatura falsificada para roubar um bom dinheiro de alguma conta. Em 1999, por exemplo, 62% das transações financeiras no Brasil eram feitas por cheque.

Mão preenchendo um cheque do Itaú.
Aos jovens: isto é um talão de cheques. Foto: Gadini/Pixabay.

Até que chegaram os cartões. Os bancos, muito interessados em diminuir as perdas com fraudes (afinal, quem acaba pagando a conta é o próprio banco), resolveram investir em cartões. A lentidão do começo era consequência do processo analógico. Tudo era mecânico, não eletrônico. Os primeiros cartões, sempre de crédito, precisavam de um equipamento, apelidado de reco-reco, que imprimia os dados do clientes em uma folha carbono. Por isso que os cartões mais antigos tinham os dados da conta e o nome do dono em alto relevo. O varejo mandava a cópia de carbono para o banco, que realizava a operação financeira. Vantagens sobre o cheque? Não muitas, na verdade. As fraudes continuavam.

O cartão como método de pagamento já existia no Brasil desde 1954, mas faltava uma peça até ele ganhar massa crítica: a rede eletrônica de pagamento. Ainda nos anos 1990, começaram a aparecer as primeiras. Os bancos, àquela altura, tinham passado por um processo de informatização pesada na década de 1980. Com a rede fazendo a comunicação em tempo real da transação entre o varejo e o banco, não havia mais motivos para ter reco-reco ou office boy correndo a cidade para levar comprovante de carbono de cima para baixo. O potencial de fraude era tão menor que os bancos resolveram jogar seu peso nesta transição.

Aqui vale um esclarecimento. Quem não cobre (ou cobria, no meu caso) economia pode achar que banco só serve para ter conta, sacar dinheiro e reclamar na hora de ligar para o SAC para habilitar ou cancelar um cartão novo. Os serviços B2C, digamos assim, são só a ponta do iceberg. O Itaú e o Bradesco são grupos enormes que controlam outros tantos negócios com relação indireta com o saque que você faz toda semana para pagar sua balada. Entre 1995 e 1996, quando estava claro que o futuro dos pagamentos era o cartão, os dois bancos, ainda aliados a outros bancos, fundaram as duas empresas líderes no setor até hoje. De um lado, o Itaú, junto com o Citibank, o Unibanco (antes da fusão, lembre-se disto) e a bandeira Mastercard criaram a Redecard, que viraria Rede; do outro, Bradesco, Banco do Brasil, Banco Nacional, Banco Real e Visa criaram a Visanet, que viraria Cielo. Parece festa de adolescente: o grupo de meninas de um lado, o grupo de meninos de outro, ambos se entreolhando, todo mundo parado no lugar1. Nos dois grupos, Itaú e Bradesco assimilaram todos seus sócios (com exceção das bandeiras de cartão e do Banco do Brasil, sócio do Bradesco no grupo Elo) e viraram os donos de fato de Cielo e Rede.

A partir de 1996, o mercado de cartões começou a crescer como um cavalo. Em 2000, as compras usando cartões de crédito e débito atingiram R$ 59 bilhões. Uma década depois, o valor das transações cresceu quase dez vezes. Em 2018, foi R$ 1,3 trilhão, mais de 20 vezes de aumento em relação a 2000, segundo os dados consolidados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (ABECS). Nada indica que esse número vá diminuir nos próximos anos, já que cerca de 50 milhões de brasileiros ainda não têm uma conta bancária, segundo o Banco Central (quinta página do estudo). Mesmo os que têm um cartão ainda não o usa constantemente. E estima-se que quase metade de todas as compras no Brasil são feitas em dinheiro.

Durante os primeiros 15 anos deste mercado, Cielo e Rede surfaram essa onda praticamente sozinhos. Como faziam parte de uma estrutura muito maior, todos os fatores necessários para ganhar o jogo estavam postos. Os bancos que as apoiam têm milhares de agências e milhões de clientes pelo Brasil, emitem os cartões e têm dinheiro de sobra para oferecer o financiamento por trás do parcelamento. O segredo do jogo de adquirência é capilaridade, a capacidade de atingir não só a rede enorme de mercados, mas até o boteco de esquina na cidadezinha do interior. O dono deste boteco precisa ter uma conta no banco e é bem provável que ele seja cliente de um dos dois maiores bancos. Com as dezenas de milhões de clientes dos seus donos e sem qualquer concorrência séria, a Cielo e a Rede nadaram de braçada. Houve, sim, um rival: a GetNet, que acabou comprada pelo Santander em 2014 por R$ 1,1 bilhão. Mas a GetNet estava longe de ser uma ameaça.

No ápice da dominação, Cielo e Rede tinham mais de 90% de um mercado bilionário crescendo a ritmo acelerado. Como quase sempre acontece com quem domina um setor por tempo demais, a liderança começou a soar como uma garantia. Um dos fundadores da Intel, um húngaro chamado Andy Groove, cunhou uma frase que, anos depois da sua morte, seus sucessores parecem não ter entendido totalmente: “só os paranóicos sobrevivem”. O que poderia dar de errado para Cielo e Rede?

Os Davis

Entram os Davis. O primeiro deles você conhece muito bem. O UOL nasceu antes do estouro da bolha de 2000 como uma iniciativa do jornal Folha de S.Paulo para tentar se adaptar àquela mídia nascente chamada internet. Com a Folha e, posteriormente, as revistas da Abril, o UOL virou um gigante online baseado na força do seu conteúdo. Junto ao iG, ao Terra e à Globo.com, o UOL dominou a internet brasileira durante o que chamamos de era dos portais. Portais, jovens, eram sites que se propunham a concentrar todos os serviços e conteúdos de que o sujeito precisasse online. Durante um bom tempo, as maiores pontocons da internet no Brasil eram os portais, inspirados pelo modelo da America Online2.

Print de uma chamada do UolKUT, o clone do Orkut lançado pelo UOL.
O finado UolKUT. Imagem: UOL/Reprodução.

Houve um momento em que milhões de brasileiros entravam pela primeira vez na internet e, sem familiaridade, guardavam dois ou três sites maiores onde sempre entravam. Junto ao Orkut, o UOL virou uma dessas portas de entrada, o que lhe garantiu uma audiência tremenda desde sempre. O público ele já tinha; faltavam os serviços. Desde sempre, o UOL se notabilizou por uma estratégia de copiar serviços que faziam sucesso e oferecer para sua base. Em 2006, quando o MSN Messenger era um fenômeno, o UOL lançou seu UOL Messenger. Antes disso, quando o mensageiro mais popular era o ICQ, o UOL veio com o ComVC. Quando o Orkut dominava as redes sociais brasileiras, o UOL lançou o desavergonhado UOLKut. E não, não é piada.

Foi uma dessas cópias que colocou o portal no jogo de adquirência. Durante boa parte da primeira década dos anos 2000, os portais eram praticamente os únicos beneficiados pela receita publicitária online. O período pós-estouro da bolha foi ingrato para empreendedores digitais. Foram anos polpudos para UOL, Terra, Globo.com e iG. A onda começaria a mudar em 2005, quando o Google chegou oficialmente ao Brasil. Seis anos depois, seria a vez do Facebook. Quando os dois gigantes colocaram o pé no Brasil, o mercado publicitário mudou o alvo dos seus canhões. A fonte publicitária dos portais secou e todos foram obrigados a encontrar outras fontes de receita. O UOL apostou em duas frentes: computação em nuvem e pagamentos digitais. Pelo primeiro, começou a comprar startups e empresa estabelecidas da área. Juntas, elas formaram o UOLDIVEO. Pelo segundo, notou que o brasileiro estava se acostumando a comprar online e que o PayPal, pioneiro em pagamentos digitais no mundo, ensaiava uma operação local. Nasceu o PagSeguro.

O segundo Davi veio de um cenário completamente diferente, a começar pela experiência na área. Antes de sair da puberdade, o carioca André Street já tinha fundado uma empresa processadora de pagamentos eletrônicos, a Paga-fácil. Depois de vendê-la, se juntou ao amigo Eduardo Pontes e fundou a primeira carteira digital brasileira, a BrasPag, lá em 2005, comprada quatro anos depois pelo Grupo Silvio Santos (!) numa das compras mais confusas da história da internet do Brasil. Até hoje, é difícil encontrar alguém fora do negócio que entenda a estratégia por trás. Quando o Banco Panamericano quebrou, a Cielo comprou o negócio, mas Street e Pontes já tinham a cabeça em outra ideia.

Até esse ponto da história, a dupla já tinha fundado e vendido quatro empresas de pagamentos eletrônicos. Para os dois era evidente que havia um mercado muito maior do que processar pagamento para o varejo: aquele duopólio no mercado de adquirência. A Stone começou a operar, oficialmente, em 2013 com um objetivo em mente: dificultar a vida de Cielo e Rede. Para isso, trouxe para debaixo do seu guarda-chuva startups de gente nova, como a Pagar.Me, fundada por dois amigos com 16 anos3, ou de gente com experiência no setor, como a MundiPagg, de ex-funcionários da Braspag. Ou seja: tecnologia e gente boa.

As histórias dos dois Davis se entrelaçam em 2015, quando as máquinas da Stone começam a chegar ao varejo e o UOL lança a Moderninha. O ataque é em dois flancos: de um lado, a Stone peitou de frente o mercado onde Cielo e Rede fizeram seu domínio, o varejo tradicional. Do outro, a Moderninha começou a desbravar o mercado dos profissionais liberais, gente que trabalha fora de um estabelecimento e precisava de uma forma mais barata para aceitar cartões. O UOL e tantos outros players, como iZettle, SumUp e Payleven, que ofereciam máquinas para transformar o celular em uma máquina de cartões (a chamada subadquirência) surfaram a onda dos motoristas de aplicativos, por exemplo, com um modelo novo: em vez de alugar a máquina, com a exigência de mensalidades, você a comprava e poderia até parcelar.

As grandes deram de ombros no começo. Um dos diretores da Cielo chegou a me falar num almoço que o modelo não colaria já que as máquinas dão muito problema e precisam de manutenção constante (que bela defesa do próprio modelo de negócios, hein?). O modelo pegou, a ponto de ambas o copiarem, com a POP Credicard (a Credicard é do Itaú) e a Cielo Zip.

É aí que aparece a primeira rachadura na armadura de Cielo e Rede. Pela primeira vez em tantos anos, elas não ditavam o que acontecia, mas seguiam o que os outros estavam fazendo. Faltava à Stone capilaridade (lembra?), mas a empresa ia aos poucos colocando sua máquina verde em cada vez mais varejistas com a ajuda de franquias em centenas de cidades brasileiras a fim de estreitar o relacionamento e personalizando a sua solução para os mais diversos setores. Os dois gigantes pareciam satisfeitos em “perder” o mercado de subadquirência, até que o UOL deu um cavalo de pau e resolveu entrar forte na adquirência com a Moderninha Pro. Para piorar, o banco Safra também entrou na briga com o Safra Pay. Durante uma década, você tinha três máquinas disponíveis no mercado ao lado da sua casa. Agora, são seis e contando.

A maneira como Stone e PagSeguro entraram chutando a porta de um setor que parecia resolvido ajuda a explicar por que ambas abriram capital nos Estados Unidos. A PagSeguro fez seu IPO em janeiro de 2018 na Bolsa de Nova York — captação de US$ 2,3 bilhões, valor de mercado de US$ 9,2 bilhões. A Stone fez em outubro do mesmo ano na Nasdaq — valorização de 30% no primeiro dia e valor de mercado também na casa dos US$ 9 bilhões. Ambas valiam, mais ou menos, o mesmo que a líder Cielo, ainda que transacionem bem menos dinheiro que ela. Tanto dinheiro quer dizer que todo mundo já pode comprar iate e encher piscinas com champanhe? Longe disto. Óbvio que tem uma saída financeira para a galera, mas o grosso do dinheiro deverá ser aplicado para conseguir segurar o contra-ataque de Cielo e Rede. Por quê?

Equipe da Stone comemora o IPO da empresa na Times Square, em Nova York.
IPO da Stone na Nasdaq, em Nova York. Foto: @aqui/Medium.

A disputa por mercado

Você consegue notar o nível de uma briga por um mercado pelo número de celebridades que tentam te vender os produtos ou serviços na TV. Nesta, a gente tem Luciano Huck, Tiago Leifert e Ivete Sangalo vendendo maquininha, três dos rostos mais reconhecidos (e caros) da publicidade nacional. Dado o escalonamento da briga, não me surpreenderia que alguma delas apelasse para o sujeito considerado o Santo Graal da publicidade brasileira, o apresentador Fausto Silva. (Fun fact: quando chegou ao Brasil, a montadora JAC Motors tinha diminuído sua lista de potenciais garotos-propaganda para dois nomes: George Clooney e Fausto Silva. O presidente Sergio Habib queria o galã, mas um outro Sérgio, o Amado, presidente da Ogilvy, a agência da JAC, o convenceu pelo apresentador. Anos depois, Habib admitiu que foi a escolha correta).

Nesta briga, hardware é commodity. Ganha quem oferece taxas melhores. Qual é o discurso repetido “ad infinitum” por todas as celebridades nos comerciais de maquininha? Abolimos as taxas. Neste aspecto, ter os dois maiores bancos do Brasil por trás é uma vantagem maravilhosa. Com os cofres cheios e, mais importante que isso, lucros trimestrais que não param de crescer mesmo na pior crise da história do capitalismo brasileiro, Bradesco e Itaú têm gordura suficiente para diminuir as taxas de forma a tentar “sufocar” os rivais menos capitalizados. É a estratégia de sangrar um pouco — não é agradável, mas não te mata, ao contrário do teu rival. E isso já começou.

Em abril, a Rede extinguiu a taxa cobrada para adiantar o dinheiro recebido na sua maquininha. Pode ter soado grego, mas é o seguinte: sempre que algum cliente passa o cartão para pagar uma compra na sua cafeteria, por exemplo, a dona da máquina dá um prazo até te entregar aquele dinheiro. Por padrão, as adquirentes no Brasil repassam o dinheiro das máquinas 30 dias sem cobrar taxa adicional. Se você tem muita urgência, pode antecipar o recebimento — até no mesmo dia, em alguns casos —, desde que pague uma taxa extra à dona da máquina. É essa taxa que a Rede zerou na antecipação para dois dias, mas com um porém: a isenção só vale para quem recebe em uma conta Itaú. Entendeu o que falei lá em cima sobre as vantagens que os bancos têm em usar o próprio tamanho e as dezenas de serviços disponíveis para vencer essa guerra?

“Fontes próximas a Stone e PagSeguro dizem que o Itaú está engajando em concorrência predatória ao oferecer, a custo zero, um produto que tem no mínimo um custo de oportunidade de 0,5% ao mês (a taxa CDI). Para as novas entrantes, a prática equivale a ‘dumping’. Além disso, ao oferecer estas condições apenas ao cliente que recebe numa conta no Itaú, o banco estaria fazendo uma “venda casada”, uma conduta ilegal.” Este trecho é da notícia do Brazil Journal. Ou seja: como toda briga que envolve empresas estabelecidas e entrantes, esta deverá ser resolvida, pelo menos em parte, com a ajuda dos tribunais. Num setor altamente regulamentado, deve levar vantagem não só quem programa melhor ou tem mais dinheiro no banco, mas quem consegue melhor navegar pelo tenebroso labirinto burocrático brasileiro.

Recuperando a nossa metáfora bíblica, o Davi já não é tão franzino e o Golias, nem tão gigante. É a primeira vez em duas décadas que a posição dos bancos em algum setor está sob ameaça e não é pelas fintechs — ou, pelo menos, não pelas fintechs a que você se acostumou a ler sobre.

Nos últimos três anos, você se cansou de ouvir ou ler sobre como as startups mudariam radicalmente a forma como lidamos como dinheiro e como os bancos, estas estruturas monolíticas e atrasadas, seriam enterrados por essas empresas ágeis. Deixa o tio Guilherme te contar uma coisa: o “tecno-entusiasmo” sobre o qual já falamos tanto aqui te enganou (de novo), amiguinho. Não porque o Nubank seja irrelevante — está bem longe de ser. Sem dúvida, a startup do cartão de crédito roxo criou um novo parâmetro de qualidade no atendimento, na facilidade em realizar serviços pelo app e na diminuição da taxa de juros cobrada dos clientes.

Anos depois de a febre Nubank estourar, fica claro que os grandes bancos, ameaçados, souberam muito bem se adaptar apelando para a estratégia usada pelo Facebook para desossar o Snapchat: para que comprar se eu posso copiar e colocar para meus clientes? As facilidades em serviços que o Nubank introduziu já foram replicadas por Itaú e, em menor grau, Bradesco. A grande diferença ainda é o atendimento — entre tomar um tiro na perna e ligar para o SAC de um banco, a única escolha lógica é se o tiro é na direita ou na esquerda. Tem um parênteses aqui: entre os dois bancos, o Itaú é mais dado a experimentações tecnológicas. Hoje, alguns dos cientistas de dados mais talentosos e melhor remunerados do Brasil trabalham para o Itaú. São dezenas deles na sede do banco, na zona sul de São Paulo. É um legado deixado pelo Roberto Setúbal, que saiu da presidência do banco em 2017.

(Aliás, um leve momento jabá: por uma coincidência do tamanho do lucro dos bancos no Brasil, essa discussão surgiu de surpresa no grupo exclusivo para assinantes do Manual do Usuário no Telegram, dias antes deste episódio do Tecnocracia ser gravado. O que significa que, ao assinar o Manual do Usuário, você tem acesso a um grupo de gente que discute tecnologia com pé no chão, não com a mão no Instagram. Assine. É barato).

A Stone e o UOL rivalizarem com uma divisão de um banco, vá lá. Mas fica cada dia mais claro que uma startup com centenas de funcionários engolir um banco inteiro soa um pouco exagerado. Principalmente porque o parâmetro da Nubank, o banco norte-americano CapitalOne, percorreu o mesmo caminho nos Estados Unidos no passado. Os bancos de hoje no Brasil já viram esta história e parecem atentos o suficiente para não apenas replicar o que startups menores fazem, mas também explorar tecnologias que, em médio prazo, deverão engolir os cartões.

Enquanto o Banco Central faz os últimos ajustes do sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, nesta semana o Itaú anunciou o iti, seu projeto de carteira digital para permitir o pagamento de compras usando um QR Code no celular. Quando o sistema começar a valer, deve chover fintechs querendo ser a “Venmo brasileira” e, com isso, DOC e TED devem se juntar ao cheque no museu dos meios de pagamento. Com o iti, o Itaú está “disruptando” a si mesmo antes que uma startup o faça e isso, vindo do maior banco privado do Brasil, é enorme.

Em entrevistas recentes, o fundador da Nubank, David Velez (pegou a coincidência do nome?), repete que cartão é DVD — uma hora ninguém mais vai usar. E ele tem toda razão. Mas, nesta briga específica, a impressão que dá é que o Golias não apenas aprendeu a usar o fundíbulo do Davi, como também já começou a jogar pedras em sua direção antes que o rival tenha tempo de alcançar sua própria arma.

Foto do topo: Thomas Hobbs/Flickr.


  1. Pelo menos eram assim as festinhas adolescentes na década de 1990. Com Instagram e Dua Lipa, deve ter mudado alguma coisa hoje. Sei lá, eu tenho 36 anos, virei o tio que fica entediado na festa e vai embora cedo para dormir antes das 10h da noite.
  2. você, que nunca perdeu dois dias da sua vida pela severidade da ressaca por ter o metabolismo rápido como o Usain Bolt, saiba que a Aol foi tão poderosa que comprou a Warner na maior aquisição da história. Spoiler: deu merda.
  3. Depois de ler isto você também se questiona o que tem feito da sua vida?

Os apps de transporte criaram uma dinâmica de trabalho de Robin Hood ao contrário

por Guilherme Felitti

O cânone do Tecnocracia tem alguns autores que nunca escreveram uma linha sobre tecnologia. A vida é bem mais que gadgets e apps, ainda que, hoje, a vida seja moldada por eles. Um destes autores é um sujeito que só fez sucesso quando começou a contar os segredos da sua profissão. Em 1999, um chef desconhecido chamado Anthony Bourdain publicou um artigo longo na prestigiosa revista New Yorker detalhando como funcionavam restaurantes estrelados por trás da porta da cozinha. O título: “Não coma antes de ler isto”.

O artigo foi um sucesso e uma editora sugeriu que Bourdain encorpasse o texto para transformá-lo em um livro. Saiu dali o Cozinha confidencial. O livro é fundamental para qualquer um que não prepare em casa todas as refeições, ou seja, toda a humanidade com a exceção dos religiosos que vivem em comunidades fechadas, como os monges.

Além de uns casos escandalosos e fofocas corriqueiras (como a história da noiva que, durante seu casamento num restaurante, saiu da festa para chupar um cozinheiro ao lado da porta da dispensa), o interessante do livro do Bourdain é mostrar como os restaurantes criam métodos de reciclagem de comida para garantir que o que foi desperdiçado hoje não vire lixo, mas lucro, amanhã. Pelo parâmetro do Bourdain, um bom indicativo para entender a saúde financeira de um restaurante é observar se ele está começando a abrir para o brunch.

O brunch, essa refeição que não é nem um café da manhã por ter álcool, nem um almoço por só ter ovo e bolo, é um fenômeno muito mais popular nos Estados Unidos que nos Brasil (ainda bem), mas o exemplo se sustenta. Por quê? A real função do brunch é desovar todo o resto de comida comprada que, ao contrário do planejado, não saiu da cozinha nas noites de quinta, sexta e sábado, o filé mignon do horário dos restaurantes.

Se tem comida sobrando suficiente para justificar um brunch, é porque o dono não tem a menor ideia de como gerir um restaurante. Aliás, talvez a melhor lição do livro do Bourdain seja deixar claro que cozinhar bem não é incentivo nenhum para alguém abrir um restaurante. A primeira armadilha do dono de restaurante falido, diz o chef escritor, é acreditar nos amigos e familiares que dizem que seu prato específico é bom o suficiente para que alguém pague por ele. Isso enche o cozinheiro amador de esperança de largar as planilhas e a vida corporativa para passar as décadas que sobram da sua vida se dedicando à arte da gastronomia, sem chefe, cercado de amigos, dinheiro jorrando de pessoas desesperadas para provar seu prato específico que seus amigos e parentes tanto amam. O que o Bourdain conta é a realidade por trás do delírio.

Abrir um restaurante é uma experiência desgraçada. Você acorda muito cedo para receber fornecedores e dorme muito tarde, apenas depois de limpar a cozinha e o salão inteiros para que, quando você voltar de manhãzinha no dia seguinte, tudo esteja pronto para uso. Os melhores fornecedores já estão tomados por restaurantes maiores e mais antigos que os seus. Os melhores cozinheiros já estão empregados nestes mesmos lugares. E, além de fazer um único prato, você não entende nada de como gerenciar aquele monstro. Bourdain diz que os melhores donos de restaurantes que conheceu não sabiam fazer um arroz, mas manejavam planilhas lindamente. (Olha lá seu sonho de dizer adeus ao Excel dizendo adeus.)

Voltemos ao brunch. Para desovar comida que nem sempre está no seu melhor formato para consumo, o restaurante precisa apelar para estratégias que a deixem minimamente apetitosa. E dá-lhe manteiga e empanado. Empanar algo é a receita do sucesso: o que está dentro daquela crostinha crocante quase não importa, já que o gosto vai ficar soterrado em óleo e farinha. Além disso, quem não gosta de coisa frita? Empanar é tirar o foco da frescura do alimento. Você come um peixe ou um frango meio azedo sem perceber. Se Bourdain ficou pasmo com a estratégia dos brunches, lamento que ele tenha morrido sem conhecer a fundo os restaurantes a quilo no Brasil, onde a estratégia de reciclagem de comida está numa outra escala: filé na segunda-feira, carne desfiada do que sobrou na terça, croquete da sobra da sobra na quarta e um sopão para o jantar na quinta do que ainda resistiu no congelador. Se vivesse em tempos atuais, Antoine Lavoisier teria tornado o princípio da conservação da matéria ainda mais complexo depois de um mês comendo no quilo brasileiro. Enfim. O ponto principal do meu argumento é que, num brunch ou no quilo, você come feliz uma coisa que está quase passada e ainda paga a mais por isso. O dono do restaurante fica feliz. Seus triglicérides também.

Guarda na cabeça esse pensamento do empanado no brunch.

A bolha tóxica do empreendedorismo

Todo mundo tem seus “guilty pleasures”, aquela coisa que a gente sabe que não deveria fazer, mas tem prazer em fazer e por isso não nos aguentamos. Um dos meus é entrar no LinkedIn. Antes de entrar, eu preciso me preparar. Vou até a área de serviço e pego um galão de cândida, já que, no LinkedIn, você lê algumas coisas tão absurdas que tem que lavar os olhos com água sanitária depois.

Um desses absurdos apareceu na minha timeline há coisa de um mês. Um influenciador digital com um séquito no LinkedIn publicou uma foto de um entregador de aplicativo de delivery que não tinha uma perna. A imagem viralizou dentro desta bolha tóxica de empreendedorismo digital no Brasil, corroborando o discurso ufanista de “quem tem determinação não tem desculpas”. O post é um horror e eu não vou facilitar sua vida com o link. Agora, se seu dia está excelente e você quer uma razão para estragá-lo, pode ir atrás para ler os comentários reafirmando o absurdo.

A mídia foi atrás e deu um nome e uma história ao entregador sem perna. Ele se chama Carlos André, mora em Alagoas, tem 19 anos e perdeu a perna esquerda aos cinco anos depois de lutar contra um câncer. Ele sonha em ter dinheiro para comprar um carro adaptado a fim de trabalhar como motorista de aplicativo.

Alguém criou uma vaquinha online esperando arrecadar R$ 30 mil para ajudá-lo. A viralidade do post fez com que a grana juntada já tenha passado dos R$ 85 mil faltando ainda duas semanas para o fim da campanha de arrecadação. Ao que tudo indica, Carlos André poderá dar adeus às entregas de bicicleta e partir para o transporte passageiros em seu próprio carro.

É o tipo de história que apela para nossa humanidade: o sujeito vence um câncer e encara um trabalho físico para tentar pagar as contas. Do apelo à humanidade ao discurso motivacional no LinkedIn, como de fato aconteceu, é um pulinho. Carlos André assumiu a frase “Qual é sua desculpa?” em seu próprio Instagram, onde virou uma micro-celebridade com 11 mil seguidores. A vida, com o dinheiro da vaquinha e o status online, melhorou para Carlos André; isso é inegável. Mas e para os outros quatro milhões de brasileiros que dependem dos apps de corridas e entregas para pagar as contas todo mês?

Segundo um cálculo do Instituto Locomotiva com base em dados do IBGE, esses entregadores já representam um quarto de todos os trabalhadores autônomos do Brasil. Depender da bondade de estranhos é ótimo para terminar umas das peças de teatro mais famosas da história (Um bonde chamado desejo), não como um modelo de negócios.

A historinha que te contaram

A história do Carlos André é sintoma de um problema evidente: a ascensão de serviços de transporte mediados por aplicativos, seja o carro que te leva para a balada ou a bicicleta que traz teu jantar, é fundada em uma precarização enorme do trabalho. Engolir isso é difícil: quem vai querer admitir isso enquanto estamos pagando R$ 10 para atravessar a cidade? Ou quando trata-se do único emprego que o sujeito tem? É preciso de um lubrificante, uma historinha para deixar a situação mais palpável para os ouvidos de todos.

É aí onde entra o discurso oficial que todos esses apps de transporte usam para convencer novos motoristas ou entregadores, com os grilhões de empregos que pagam pouco ou esmagados pelo desemprego: baixe o aplicativo e tenha a liberdade de trabalhar quando quiser:

Os entregadores definem seus próprios horários de trabalho e se conectam ao aplicativo quando quiserem. Além disso, eles ganham por pedido entregue. Quanto mais você entrega, mais você recebe.

O trecho acima foi retirado do site oficial de uma das maiores empresas de entrega de comida e ecoa uma linha de argumentação que a Uber martela desde 2014, quando entrou no Brasil na véspera da Copa do Mundo. O discurso oficial é de um ufanismo que, se você lamber a tela do celular ou do computador, vai sentir o gosto do açúcar. Ou da farinha, já que, na nossa metáfora gastronômica, o discurso é o empanado que faz você colocar para dentro, sem questionar, algo não muito saudável.

O discurso oficial de “você trabalha o quanto quiser, faz seu salário e não tem chefe” é tentador, mas depende de uma pirueta argumentativa para esconder que, sim, quem dirige ou pedala tem chefe. E não é um humano, mas o algoritmo por trás do aplicativo que vai lhe enviar corridas, entregas ou vai limá-lo1 da plataforma. O algoritmo tabula o número de corridas feitas, avaliações recebidas, reclamações dos passageiros, problemas causados e decide, em tempo real, o que fazer com o motorista.

Na Uber, por exemplo, rejeitar muitas corridas seguidas pode bloquear temporariamente o acesso do motorista à plataforma. Para não frustrar o algoritmo e, consequentemente, perder trabalhos, é preciso seguir à risca as suas exigências e não desagradá-lo. É engraçado como a frase anterior parece ter sido escrita para um deus, e não a um apanhado de código. Há qualquer coisa de tribal em não desagradar algo que não se vê e, na sua cabeça, controla sua vida fazendo terrorismo psicológico. A transformação do algoritmo nas nossas cabeças como uma entidade superior com a qual não podemos nos entrever é um fenômeno a ser explorado num Tecnocracia futuro.

Como único ponto de contato entre a empresa e o prestador de serviço, o algoritmo serve como um escudo aos administradores. É comum ouvir, como desculpas para evitar mudança na forma como o sistema foi feito, que “o algoritmo que decidiu”, como se não fosse um ser humano que tivesse programado o bendito algoritmo. A frase sugere um processo de abiogênese tecnológica, como se o código do algoritmo, um dia, aparecesse do nada no desktop do programador. Culpar o algoritmo é também uma bela maneira para os humanos por trás deles lavarem as mãos.

Vencedores e perdedores

Quem ganha com esse de modelo de negócios são os clientes (que pagam muito barato por corridas), os executivos (com seus salários polpudos) e os investidores (que esperam uma taxa de retorno violenta no IPO). Só. Já dá até para dizer que nem para a próprio empresa ele é bom, depois que Uber e Lyft divulgaram seus dados financeiros para abrir capital na bolsa norte-americana. O resumo de ambos os documentos enviados à SEC, a CVM dos Estados Unidos: o mercado de corridas e entregas mediadas por aplicativos não é lucrativo hoje e pode nunca ser.

O principal prejudicado na história é o motorista/ciclista/motociclista. Neste modelo de alta rotatividade, o profissional se torna descartável. É muito fácil perder a vaga caso as vontades algorítmicas não sejam cumpridas. Então a maioria, sem muita opção, se sujeita a elas.

Temos então um batalhão de trabalhadores não apenas insatisfeitos, mas esgotados. Quem nunca pegou uma corrida de app com o motorista claramente virado da noite anterior? Muitos reportam problemas de saúde mental, como agressividade, ansiedade, ataques de pânico e burnout pelas horas excessivas. A responsabilidade pelas ferramentas de trabalho é 100% do fornecedor, o que faz com que as ciclovias de São Paulo estejam apinhadas de entregadores com as bicicletas laranjas do Itaú. Quando o app cria uma nova promoção ou serviços mais baratos, o espremido da história é sempre o trabalhador. Spoiler: quem custeia esse hambúrguer mais barato no seu prato ou a corrida com outras pessoas no carro? Raramente o app. É um jogo onde a banca sempre leva. Scott Galloway, professor da Universidade de Nova York, resumiu: os apps de transporte e delivery, com EBITDA negativo e sem prover qualquer benefício, são grandes programas de transferência de renda dos motoristas para os passageiros.

Nota-se a tese de Galloway por uma simples contraposição: o Uber está prestes a realizar um IPO na casa dos US$ 100 bilhões, e seus motoristas ganham um salário que, pelo menos nos EUA, está abaixo da linha da pobreza (!), segundo um estudo da Ridester. Pior: o modelo de contratação popularizado virou uma febre em outras áreas, o que deverá trazer consequências bem sérias em médio prazo. Em outras palavras: a tecnologia, alardeada como veículo para democratizar o acesso às oportunidades, está deixando os pobres ainda mais pobres.

Há um inédito movimento de resposta dos brasileiros. Em fevereiro, motoristas de Uber, 99 e afins promoveram, pelo menos, duas manifestações pelo Brasil — uma em Fortaleza, outra em São Paulo — para exigir melhores condições de trabalho. Em São Paulo, há uma movimentação para uma terceira na primeira semana de maio e, desde janeiro, fala-se em greve. Em suma, eles pedem que as plataformas aumentem os preços para os passageiros e diminuam a porcentagem tirada de cada corrida, o que aumentaria os ganhos dos motoristas no fim do mês. “A Uber mudou a forma de pagamento em setembro do ano passado e alguns motoristas, como a 99 pagava melhor, deixaram a Uber. Agora a 99 além de baixar o valor adotou o mesmo tipo da Uber, que é um valor por minuto e inferior ao que ganhávamos”, disse Paulo Reis, um dos líderes da manifestação ao Uol. Você deve ter cansado de ouvir, há três anos, sobre manifestações de taxistas contra os apps. É a primeira vez que os motoristas fazem manifestações contra as próprias plataformas.

Que resposta as plataformas podem dar? Como todos os motoristas e ciclistas são fornecedores dentro um marketplace, a plataforma não tem qualquer responsabilidade por eles. Não gostou das condições? Tchau e benção. Porta da rua, serventia da casa, já diria minha avó. E, em um país de desemprego galopante como o Brasil dos últimos quatro anos, o cenário é perfeito para que essas empresas tenham um repositório quase infinito de trabalhadores novos para substituir os insatisfeitos que saírem.

Esse modelo de contratação, com seus problemas embutidos, não se restringe a veículos terrestres. No fim de fevereiro, um avião caiu no Texas, matando os três tripulantes. O avião era contratado pela Amazon e carregava milhares de produtos. Uma apuração do Business Insider mostrou que pilotos já tinham alertado a empresa sobre riscos de queda pelo excesso de horas de vôo aliado à inexperiência de muitos contratados.

Condições precárias

Alguns empregos justificam rotinas extenuantes com benefícios, como forma de recompensar as dificuldades extras. Quem trabalha em plataformas de petróleo, por exemplo, tem um regime de trabalho de X dias em mar e Y dias de folga em terra.

Não é o caso da chamada “gig economy”, ou economia dos bicos. Este trabalhador, quando insatisfeito sabe que, sem qualquer direito, sai com uma mão na frente e outra atrás. Aqui, ele só é interessante enquanto produz. Quando enfrenta algum impedimento produtivo, é trocado por outro.

Há uma dinâmica do princípio de Pareto na base de motoristas, segundo um estudo da própria Uber. (O princípio de Pareto não tem relação com o “adevogado” Luiz Pareto — e só quem é velho da internet vai pegar a piada —, mas com o economista italiano Vilfrido Pareto, o primeiro a observar que, em muitos sistemas, 20% das causas são responsáveis por 80% dos efeitos.) Segundo dados de 2015, só 19% dos motoristas trabalham mais de 35 horas por semana, o que a gente poderia considerar um emprego em tempo integral. A maioria (51%) dirige de uma a quinze horas por semana, como se fosse um bico. Os dados sugerem que os apps de transporte são um “pool” interessante como complemento de renda. Como bem argumenta James Stainer, há uma relação de necessidade: quem precisa mais, dirige mais. Mas a história de trabalhar o máximo possível não é para todo mundo, principalmente porque o aumento nas horas dedicadas não vem acompanhada de algum benefício além da grana. Sempre bom lembrar que a gente não é robô: sob muito stress, o corpo humano, uma hora, pifa. E quando isso acontece, o app vê o motorista/ciclista/motoqueiro como um peso morto e abre espaço para quem possa ocupar produtivamente seu lugar.

Sem plano de saúde, previdência privada ou Fundo de Garantia sobre Tempo de Trabalho (FGTS), o trabalhador precisa continuar a agradar o algoritmo para conseguir pagar as contas do mês. Quando esse sujeito tiver problemas de saúde, quem vai manter as contas enquanto ele se trata? Libertários acham que, baseado na meritocracia, só deve ganhar quem produz e uma pessoa internada não produz nada além de gastos para o sistema de saúde. Só que a maioria de nós fica doente em algum momento da vida e os que escapam da doença, inevitavelmente, não escapam da morte. Onde vai desaguar essa crise? Nos sistemas públicos de saúde e previdência. Quando cair doente, é para no SUS que eles vão se abrigar. Quando sofrerem um acidente, é o INSS que terá que lhe cobrir financeiramente. Nas contas de união já severamente endividada e com problemas para honrar alguns compromissos.

Enquanto isso, você atravessa a cidade por R$ 10 e um punhado de executivos — na sua maioria branca — fica mais rico. Você acha que a explosão dos apps de transporte não têm nenhuma relação direta com você? Pense de novo.

Em termos econômicos, essa multidão de quatro milhões de brasileiros trabalhando em apps na hora do almoço para pagar o jantar também terá impactos no médio prazo. Quem não tem dinheiro guardado no fim do mês é um péssimo consumidor,  não por não querer, mas por não ter para comprar. Historicamente, o mercado brasileiro sempre foi muito baseado em consumo interno e o mercado imobiliário se apoiou muito nas últimas décadas no FGTS. Sempre que a economia dava uma desacelerada, principalmente nos últimos vinte anos, o governo de qualquer matriz ideológica apelava para duas estratégias: tirar temporariamente impostos de veículos novos para manter a indústria automobilística vendendo modelos antigos e caros para os brasileiros; e flexibilizar as regras para saque do FGTS para comprar imóveis. Um aumento do teto aqui, uma nova regra que permite sacá-lo no nascimento de um filho ali. Tudo como forma de injetar dinheiro em uma economia baseada majoritariamente no consumo das classes média e baixa.

Nos últimos seis anos, o número de microempreendedores individuais (MEIs) no Brasil mais que dobrou, de 3,6 milhões em 2013 para 8,1 milhões em abril. O aumento não vem de um ataque fulminante de empreendedorismo no brasileiro — o sujeito pula da cama e pensa: “quer saber? Vou perseguir meus sonhos de montar uma fábrica de biju gourmet” e a caminho do local de trabalho para pedir demissão toma um latte de meio litro numa cafeteria hipster. O aumento vem do desemprego. Sem carteira assinada, resta “empreender”. Note as aspas: a maioria destes novos MEIs desde 2013 não empreende; se vira.

Em médio prazo, essa multidão de MEIs e Pessoas Jurídicas (PJs) terá como consequência a diminuição do valor guardado (ainda que obrigatoriamente, como o FGTS) pelo brasileiro médio. É um argumento que vale não apenas para apps de transporte ou economia dos bicos, mas para a precarização do trabalho em todas as áreas. A tecnologia não criou o problema, mas lhe deu uma escala e uma velocidade que seriam impossíveis na economia analógica.

Há três anos anos, a China derrubou sua tradicional limitação de apenas um filho em cada família exatamente pelo motivo oposto. Como filho único, o jovem chinês tinha que custear a própria vida, sustentar os pais e, em alguns casos, a esposa e os pais dela. Ao final das longas jornadas de trabalho todo mês, quase não lhe restava nada para guardar. Quando a economia chinesa soluçou depois de uma década crescendo rápido como um trem (um processo que, incidentalmente, ajudou muito o Brasil lá por 2010), o governo percebeu que uma forma de tentar acelerá-la de novo era por meio do consumo interno. Ao permitir dois filhos por família, o jovem chinês agora poderia dividir os gastos com o irmão e poupar para gastar lá na frente e tentar fazer a economia girar.

As vagas nos apps de transporte formam um paliativo interessante quando a economia se encontra em frangalhos e não existe outra opção, como é o caso do atual estado econômico brasileiro. O problema é quando o paliativo se encaminha para virar constante. Já são, pelo menos, quatro anos de febres de apps de transporte no Brasil, com o setor absorvendo cada vez mais trabalhadores. Nenhum país fica rico com milhões de pessoas dirigindo ou levando comida para os outros. Ainda mais quando o dinheiro da plataforma não fica no Brasil— nos papéis do IPO, a Uber revelou que, no Brasil, só é reinvestido na operação local ganhos acima de US$ 500 milhões. Em outras palavras, o dinheiro que a Uber ganha no Brasil não fica por aqui, uma situação só aconteceu conosco, segundo o documento. O cenário é ainda mais preocupante em um mercado com falta aguda de profissionais técnicos, como engenheiros, programadores, matemáticos e estatísticos, caso do Brasil

O que o discurso utópico da “liberdade” e “seja seu próprio patrão” esconde é que a economia dos bicos produz em escala empregos pouco especializados, que pagam mal, rendidos às decisões das plataformas e sem uma rede de proteção para dezenas ou até centenas de milhões de pessoas no mundo. Isso tem consequências para a sociedade, inclusive para quem não é motorista ou ciclista. Para gerenciar tanta gente, o modelo secular de administração exigia uma camada intermediária. Essa camada, com os apps, não existe mais. Como são poucas as plataformas que concentram estes trabalhos no mundo, os beneficiados por empregos mais complexos e com benefícios excelentes despenca. O problema da concentração de renda se torna ainda pior: um grupo minúsculo de investidores e executivos e uma multidão de trabalhadores, organizados por algoritmos, correndo para atender o próximo passageiro ou levar a próxima refeição.

A projeção do Carlos André, o entregador sem uma perna, passa a corroborar o discurso dos influenciadores de empreendedorismo do LinkedIn, de que “basta querer”. “Se não aconteceu, é por que não quis o suficiente”. “Quais são as suas desculpas”. [Cadê meu galão de cândida?] A romantização recobre esse processo com uma crocante camada de “auto-ajuda motivacional”, ótima para ganhar curtidas no ambiente tóxico do LinkedIn, mas brutalmente desconectado da realidade.

Mais que isso: a maioria dos que repetem a baboseira não percebe que não faz parte do topo, mas da base da pirâmide. A maioria faz parte dos atingidos, não dos beneficiados. Mas, de novo, pagar tão baixo para atravessar a cidade ou ter alguém trazendo seu cheesecake com desconto é tentador demais. É como aquela casquinha crocante e quentinha de alguma milanesa que você pegou num restaurante de quilo. Agora está uma delícia, mas, lá na frente, o que está por baixo da casquinha vai ter trazer alguns problemas.


Foto do topo: Ricardo Amorim/LinkedIn.

  1. Aliás, você sabia que o verbo “limar” vem de músicos que enviavam — de mentira — substitutos quando não podiam estar numa sessão de gravação? Curiosidade aleatória do episódio. Aliás de novo, se você está de bobeira, esta entrevista do Serginho Leite no Jô em 1993 é de chorar de rir.

A rede social não está apenas fragmentando sua atenção, mas também te anestesiando para a vida

por Guilherme Felitti

Esta história começa com um lado macro e um lado micro. O macro: toda geração se acha melhor que as gerações anteriores à sua. A do seu pai achava. A do seu avô achava. E a sua também acha. A incapacidade de ver o futuro, aliada à possibilidade de analisar o passado nos mínimos detalhes, nos coloca na confortável possível de saber como os antigos viviam e não entender como algumas armadilhas tão óbvias não eram vistas pelo seu pai, sua mãe ou seus avós como… bem, armadilhas. O problema é que, enquanto damos risada de como os nossos pais caíram no papinho da indústria tabagista de que fumar era glamouroso, por exemplo, a gente mesmo está caindo em outro papinho ainda pior.

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