A rede social não está apenas fragmentando sua atenção, mas também te anestesiando para a vida

Esta história começa com um lado macro e um lado micro. O macro: toda geração se acha melhor que as gerações anteriores à sua. A do seu pai achava. A do seu avô achava. E a sua também acha. A incapacidade de ver o futuro, aliada à possibilidade de analisar o passado nos mínimos detalhes, nos coloca na confortável possível de saber como os antigos viviam e não entender como algumas armadilhas tão óbvias não eram vistas pelo seu pai, sua mãe ou seus avós como… bem, armadilhas. O problema é que, enquanto damos risada de como os nossos pais caíram no papinho da indústria tabagista de que fumar era glamouroso, por exemplo, a gente mesmo está caindo em outro papinho ainda pior.

O micro: eu tenho uma mania há anos de tentar encontrar quais são as armadilhas que as gerações nascidas a partir de 1980 (a minha) caem sem perceber. E acho que, pelo menos uma destas armadilhas, já está bem clara. Espere só até seus filhos terem idade suficiente para olharem para o passado, entenderem como essa geração nascida depois de 1980 caiu no papo mole do Facebook e olharem com o maior desprezo possível para você. Ser pai ou mãe é decepcionar sua criança a cada curva da vida dela. Enfim. No nosso caso — e eu uso a primeira pessoa do plural assumindo que existe uma grande chance de você ter entre 20 e 40 anos — fica óbvio que vivemos na era das distrações.

Na era das distrações, você tem centenas de grupos usando centenas de milhões de dólares e algumas das cabeças mais brilhantes da nossa geração para criar serviços ou conteúdos interessantes o suficiente para fazer você gastar cada vez mais horas do seu dia neles. Nem que isso signifique rever “ad infinitum” o mesmo vídeo, ter que conviver com anônimos em ambientes tóxicos ou ser exposto a conteúdos ou comportamentos que colocam em perigo a sua saúde mental. O bônus no fim do ano de milhares de executivos de vida já bastante confortável depende de bilhões de pessoas mundo afora que concordam em participar deste teatro. Na era das distrações, você é apenas uma planta no latifúndio das grandes empresas e o fruto destas plantações é a sua atenção.

Se a metáfora agrícola está um pouco confusa, deixe-me esclarecê-la. Tim Wu, um dos pesquisadores no altar do Tecnocracia, tem um livro chamado Os mercadores de atenção [Amazon]. Existe um verbo em inglês que ele usa muito no livro: “harvesting”, ou colheita. No inglês, “harvesting” tem um uso mais amplo do que o agrícola — é uma forma de designar algum esforço em juntar o máximo de itens ao mesmo tempo. A questão é que o sentido de colheita faz muito sentido na discussão sobre o modelo de negócios das redes sociais.

A publicidade como principal método de sustentar financeiramente um veículo nasceu no fim do século XIX pelas mãos de um sujeito chamado Benjamin Day, então com apenas 23 anos. Day queria lançar um jornal e percebeu que não competiria com o New York Times e o Wall Street journal, por exemplo. O que ele fez: baixou o preço do jornal para um centavo (bem mais barato que os concorrentes) e encheu o jornal de matérias de forte apelo popular. Relembra Wu:

“Day dependeria de um modelo de negócio diferente, mas historicamente significativo: revender a atenção da sua audiência, ou publicidade. Day entendia — de forma mais clara e contundente que qualquer um antes dele — é que, enquanto seus leitores pensavam ser seus clientes, eles eram, na verdade, seu produto.”

Os jornais em circulação até então tinham tentado publicidade, ainda camuflada como notícias, mas a receita que sustentava suas operações era a venda em banca. Para atingir seu objetivo, Day precisaria “juntar um grupo enorme de leitores. Isso significaria fazer o seu jornal ter apelo para o segmento mais amplo da sociedade — custe o que custasse”. Em 3 de setembro de 1833, chegou às bancas o New York Sun, custando US$ 0,01 (1/6 do que seus rivais cobravam), com anúncios publicados à revelia — os donos dos negócios não pediram, mas Day imprimiu para tentar convencê-los que o investimento era uma boa — e cheio de notícias popularescas. A primeira manchete lia, ipsis literis: “SUICÍDIO MELANCÓLICO – O senhor Fred Hall colocou um fim à sua vida no domingo passado ao tomar láudano (um analgésico a base de ópio)”.

Baseado num noticiário que reportava brigas conjugais, espancamentos, assassinatos, suicídios e casos curiosos nas cortes, o New York Sun não demorou um ano para que a receita publicitária cobrisse seus gastos. Ao se provar financeiramente, o jornal de Benjamin Day também criou a base na qual a maioria das grandes empresas de internet iam se apoiar.

Fechando o círculo

Se a história do New York Sun soa familiar, é por que ela é mesmo. Os ingleses têm uma expressão: “we have come full circle”, o que significa que, após uma série de eventos, tudo mais ou menos volta ao seu ponto inicial. A comparação entre o New York Sun e os gigantes de internet é quase um full circle, já que há uma diferença fundamental entre ambos: o New York Sun publicava uma quantidade limitada de notícias sensacionalistas por dia, enquanto Facebook, Google, YouTube, Instagram e afins têm, à sua disposição, um estoque praticamente infinito de suicídios, massacres, casos curiosos na Justiça, teorias da conspiração e bobeiras corriqueiras para fazer a máquina continuar rodando.

O que o Day fazia no século XIX e o que todas as empresas de web fazem hoje em dia numa escala consideravelmente maior é “cultivar” as atenções de um grupo cada vez maior de pessoas e revender a “safra” (ou as atenções agrupadas por perfis demográficos, atualmente) para quem estiver interessado em pagar mais. O título do livro do Wu acerta na mosca: tratam-se de mercadores de atenção. A sua atenção. Neste latifúndio, a parte que lhe cabe é só a de uma árvore, rendendo ao agricultor a maior quantidade de frutos possíveis (ou a maior quantidade de horas com a cara colada no celular).

Para atingirem o objetivo, as empresas de tecnologia apelam para técnicas sobre as quais já falamos aqui no Tecnocracia, emprestadas principalmente das indústrias do tabaco e dos jogos de azar. Consultorias contratadas a peso de ouro e profissionais internos muito bem pagos são responsáveis por mapear as interações dos usuários no serviço e descobrir qual o posicionamento do menu, a cor dos botões, a sequência de telas, os gatilhos integrados, os e-mails de lembrete e os conteúdos já consumidos que fazem as pessoas voltarem sempre querendo mais.

Na nossa metáfora agrícola, os testes A/B e os algoritmos de inteligência artificial são o adubo, a engenharia genética e os agrotóxicos usados para garantir um fruto maior e mais resistente a pragas. A construção de aplicativos viciantes virou padrão no Vale do Silício, a ponto de o mercado não se envergonhar de usar o termo “vício” para descrever aplicativos. Se você quer entender mais a fundo como funciona essa indústria multibilionária, ouça o terceiro Tecnocracia.

Não é aleatório que as notícias que levaram o New York Sun ao posto de maior jornal de Nova York seis anos após sua primeira edição sigam a linha de polêmicas que a gente vê hoje, por exemplo, pontuando o os vídeos em alta do YouTube ou as notícias mais compartilhadas no Facebook. O ponto aqui não é a tecnologia: é a gente. O ser humano, essencialmente, é fofoqueiro, cruel, abutre e imediatista. [Guilherme se distrai gravando podcast e deixa seu niilismo à mostra.]

Comecei minha carreira no jornalismo em um site pequeno de tecnologia chamado IDG. Um dia, eu e dois colegas preparamos um especial enorme sobre um assunto do qual não lembro. Estava combinado para ir para a capa do Uol, o que injetaria um tráfego enorme na matéria — centenas de milhares de pessoas navegando e lendo o título. Mas a imponderabilidade da vida não permitiu: nosso azar é que o especial foi publicado no mesmo dia em que o jogador de futebol Ronaldo Fenômeno e a apresentadora Daniela Cicarelli anunciaram seu divórcio. Óbvio que era aquilo que o público queria ler, não um especial de tecnologia. É uma lição que qualquer jornalista que já teve contato com a internet vai aprender: qualquer notícia da Anitta vai ter mais leitura que sua análise profunda sobre os desafios da lei geral de proteção de dados ou sobre como grandes empresas de bebidas alcoólicas sobrecarregam o SUS. Acostume-se. A vida é injusta e a gente ainda morre no final.

A raiva como combustível

Conteúdos de apelo mais popular buscam uma reação, porque a reação significa que as chances de o sujeito interagir com aquilo, seja para aplaudir ou para jogar pedra, são maiores. É um sentimento que vem do estômago, não da cabeça. Cria-se a tentação da raiva. A gente entra na internet, em suma, para passar raiva. Quem está no Twitter sabe muito bem: os que são contra o atual presidente retuítam suas mensagens absurdas com críticas, amplificando o alcance da mensagem original. Quem é a favor replica mensagens de críticos mais antigos do presidente ou de partidos das gestões anteriores alegando casos não cobertos pela mídia. A raiva é um grande motor para esse tipo de pêndulo. Os dois lados atravessam as trincheiras só para malhar o outro. Quanto mais raiva a gente sentir, pior para a nossa saúde mental, mas melhor para as plataformas. Porque a raiva, como um bom incêndio, consome tudo o que toca.

Quem tem raiva o tempo todo tem pouco tempo sobrando para pensar em outras coisas que não a própria raiva. O estado de paranoia constante, de ter a impressão de estar perdendo algo (o famoso “fear of missing out”, ou FOMO), trabalha na mesma direção. Quando tudo é urgente e merece uma reação escalonada, perde-se a capacidade de julgar o que realmente vale e o que é só ruído. É o Pedro e o Lobo digital. Não existe gatilho melhor para a distração do que a raiva.

Não à toa, o YouTube busca essa reação apresentando vídeos radicais na sua home para usuários deslogados. Faça o exercício que fizemos no oitavo Tecnocracia: entre deslogado no YouTube e conte quantos cliques são necessários até cair num vídeo de teoria da conspiração. Eu precisei de dois cliques. Mesmo logado, o algoritmo do YouTube mete na sua lista de sugestões vídeos políticos histéricos. Ele quer uma reação sua. Se esses vídeos (que você ainda não viu) não cumprem a tarefa, o algoritmo do YouTube se abriga no conhecido e te reapresenta o que você já viu e gostou. Quantas vezes você já caiu neste truque? Eu já caí muitas. Hoje, sempre que um vídeo repetido aparece, eu digo ao YouTube que não me interessa. Mas é trabalhoso ter que ficar fazendo isso individualmente para que eles não apareçam e te tentem. Seria melhor uma ferramenta padrão do YouTube para não mostrar vídeos que já foram vistos, independente se você gostou ou não, mas isso trabalharia a seu favor e contra o algoritmo do YouTube e, se você já ouviu o Tecnocracia outras vezes, sabe que a prioridade das empresas não é o usuário aplicando bem seu tempo, é o tempo que ele passou lá assistindo ou reassistindo qualquer coisa.

O jornalismo impresso sempre dependeu da publicidade. O televisivo também — todos os programas, em canais de TV aberta e fechada. As transmissão de jogos ao vivo no rádio. A mídia, de maneira geral, depende do modelo que Benjamin Day criou. Mas, de novo, todos eles têm um limite. Na TV, o limite é a grade da programação. Você não tem episódios infinitos do BBB para ver na Globo ou capítulos de As aventuras de Poliana no SBT (a novela infantil é um hit no “em alta” do YouTube). O Lance!, impresso esportivo, tem um número limitado de páginas. O YouTube, não. O Instagram, não.

Mais que isso: o BBB, As aventuras de Poliana e o Lance! não se adaptam ao seu gosto, eles passam por “gatekeepers” (o editor do jornal e o produtor da rede de TV, por exemplo) e, ainda que possa existir estudos sobre o público consumidor (os famosos grupos focais), eles são limitados em seu poder de moldar ou sugestionar o consumidor. A questão aqui é a escala: um jornal ou uma TV nacionais tinham o limite do próprio país. Facebook, Google e afins, não.

Há o argumento, repetido pelas próprias empresas e por gente que as endeusa [gente que endeusa empresa, jamais vou entender. É assunto para um Tecnocracia futuro], de que basta querer, ninguém está forçando ninguém a ficar com a cara colada no celular. É a mesma desculpa que as companhias de tabaco, bebidas alcoólicas e bebidas adocicadas usam há anos. Quando a sua desculpa é idêntica à de indústrias que usam substâncias químicas para manterem seus clientes consumindo os produtos, sua posição não é boa.

Você também pode argumentar que as gerações dos nossos pais e avós também tinham distrações. Então deixe-me eu te lembrar de novo da escala. Seu avô saia para dançar com sua avó, ia ao bar tomar uma cerveja gelada e sentava-se para tentar avançar no Germinal, do Émile Zola. Nada disso produzia métodos, alimentados pela coleta sorrateira de dados, para explorar gatilhos mentais como forma incentivá-lo a ficar dançando ou bebendo cerveja oito horas por dia. Ao contrário dos cigarros e seu efeito psicoativo, o gatilho agora é puramente psicológico. Você achou que décadas de desenvolvimento da psicologia resultaria em adultos mais conscientes de suas limitações e responsabilidades, mas a consequência de Freud que você mais tem contato no dia a dia são as plataformas que entendem suas fraquezas inconscientes para mantê-lo(a) na coleira. Terminamos todos espumando como o cachorro do Pavlov, com a cara enfiada no celular esperando quando virá o próximo “like”.

Concentração e autoconhecimento

Como fica a cabeça da gente frente a tanta distração? É o que mais me interessa nesta discussão: os efeitos que as técnicas para criar serviços viciantes têm na nossa cabeça. Para você, qual é a maior habilidade que as gerações nascidas depois de 1980 podem ter na vida? Eu chutaria que é a capacidade de abstrair as distrações e se manter focado no que se pretende fazer, em como você pretende gastar as horas de vida que lhe restam.

O uso exagerado de serviços online nos cria a ilusão de que é necessário estar sempre acontecendo alguma coisa. O Twitter tem sua rolagem infinita, a aba “Explore” do Instagram é praticamente infinita e o YouTube tem um repositório infinito. Há sempre novidades. Você pula de um para outro e depois para seu e-mail e de volta para o Twitter e de novo para o Instagram e depois para o Facebook sempre atrás daquela gostosa dopamina liberada ao encontrar uma nova notificação ou novo e-mail ou uma resposta de mensagem. O estado padrão da sua mente é estar sempre em alerta, nunca relaxada. É tanto impulso, tanta distração, que você, pulando de plataforma em plataforma, se convence a aplicar sua atenção apenas a quem lhe traz novidades constantes.

Spoiler: a vida não traz esse ritmo de novidades. Ainda bem! Imagine que cansativo essa lógica do Twitter aplicada ao mundo real. Estar pronto sempre para agir significa que sua atenção — no sentido de uma tarefa na qual você vai dedicar seu olhar e seu raciocínio — se fragmenta em mil pedaços, o que faz a concentração atrofiar. Concentrar-se mais profundamente se torna mais difícil. Quando a atenção fragmenta, é difícil colá-la de volta. Mas é possível.

O livro que li no ano passado que mais trouxe mudanças reais para minha rotina chama Deep Work, de um pesquisador chamado Cal Newport. No livro, Newport argumenta que a atenção é um músculo e, como seu abdômen ou seu bíceps, você precisa treiná-lo. Não tem outro caminho para treinar a não ser abandonar o que causa a fragmentação e concentrar-se em atividades que desfragmentam. Parece fácil falando. Na prática, há uma dificuldade tremenda.

A avalanche de distrações exerce um efeito ímã: você pode estar tentando avançar naquele livro denso. A cada pausa, vem o impulso de checar se existe algo mais interessante acontecendo online. Sempre existe e é sempre mais fácil ceder à raiva de ver o Twitter de algum político imbecil ou rever, pela oitava vez, aquela edição no YouTube dos melhores momentos do seu humorístico preferido na adolescência. Para escrever este Tecnocracia, quantas vezes eu abri o Twitter? Perdi a conta na vigésima vez. Focar-se é, com o perdão do meu francês, foda, principalmente no começo.

O estado de alerta constante que o FOMO introjeta na nossa cabeça exige novidades constantes. Focar para ler um livro, escrever um texto ou ver um filme exige uma mudança brusca de ritmo. O carro que vinha a milhão pela estrada reduz para a segunda marcha. Você não passa incólume pelo processo. Estar alerta não é um problema. O problema é ficar reagindo constantemente a algo. A volta a um estado mental de “alerta relaxado” demora. É preciso resiliência.

O livro do Newport explica muito bem como o modelo de negócio das empresas depende desse estado de atenção constante e depois mergulha em dicas práticas para quem está de saco cheio do FOMO. A primeira delas é organizar a própria agenda e ambiente de trabalho para que você tenha nacos de uma hora e meia de concentração total na tarefa intercalados com trinta minutos de descanso.

De novo, o começo é horrível.

Existem plugins do Chrome que te ajudam a bloquear distrações online e cronometram a quantia de tempo em concentração. Como todo bom exercício, a capacidade de mergulhar com toda sua atenção em uma tarefa depende da prática. Lá pelo fim do primeiro mês, com tentativas diárias, melhora muito. Passar pelo quebra-mar é a pior parte, mas não é a única dificuldade. O problema da era das distrações é que elas não dormem. E aí eu vou me valer de um relato pessoal.

Desde que eu li o livro do Newport, instituí os blocos de tempo sem qualquer distração acompanhados de algumas mudanças: excluí os apps do Twitter e o Instagram do celular, bloqueei o feed do Facebook e apaguei todos meus posts do Facebook e Instagram. Comecei a sair de casa sem o celular — e se essa parte do relato te deu calafrios, é bom você considerar fazer o mesmo. Só saindo de casa sem o celular você percebe o quanto a mão vai, automaticamente, em direção ao bolso em situações de pequenos desconfortos diários, como o elevador que demora a chegar ou o cachorro cheirando demais uma planta.

A gente sempre fica na angústia de estar perdendo algo urgente e, na verdade, nunca está acontecendo algo tão urgente que mereça sua atenção constante. As mudanças me trouxeram uma capacidade de concentração que não tinha há tempos. Passei a meditar. De novo, o começo é ruim — você fica sentado e não sabe se está fazendo direito ou não. Mas tem que ficar. O importante é fazer. Procure vídeos no YouTube ou baixe algum app como o Headspace e, pelo menos no começo, se force a ficar 15 minutos sentado tentando não pensar em nada. Uma hora o prazer vem e você entende por que as pessoas meditam.

Tudo se resolveu para mim, então? Adoraria, mas não. Eu tenho uma relação de idas e vindas com o Instagram — instalo, excluo, instalo de novo, vejo um monte de mensagem que me mandaram, excluo…

A nossa cabeça sempre volta para onde experimentou conforto. Nada é melhor para nos distrair daquilo que nos machuca do que esses confortos digitais. No fundo, Instagram, Facebook, Google, YouTube e afins encontraram uma forma de ganhar dinheiro garantindo que a gente não tenha contato com a nossa parte que causa desconforto. É preciso estar confortável com as próprias ideias, com o próprio passado, o próprio corpo, com o que somos. E existem tantas distrações para nos entreter que a gente não precisa nem fazer força para fugirmos de nós mesmos.

O relato mais preciso sobre como serviços e apps digitais servem como cobertores confortáveis para a nossa miséria humana vem do Andrew Sullivan, um dos primeiros blogueiros políticos a ganhar relevância nos EUA, há mais de uma década. Em 2016, Sullivan começou a se incomodar com a forma como seu uso obsessivo da internet tinha moldado sua vida e sua atenção. Ele saiu das redes sociais, mas não foi o suficiente, o que o levou a fazer um retiro — dias sem celular, sem falar quase nada e meditando. Como era de se esperar, os primeiros dias foram horríveis.

“E então, inesperadamente, no terceiro dia, enquanto eu andava pela floresta, eu me senti sobrecarregado [não existe uma tradução boa para ‘overwhelmed’]. Não sei o que desengatilhou, mas o mais provável é que a floresta quieta e sombria, com riachos escorrendo pelas encostas e pássaros voando pelo ar úmido, invocaram memórias da minha infância. (…) Eu sabia que a cicatriz dessa formação traumática ainda estava na minha alma. (…) Mas eu nunca a senti de forma tão viva desde os primeiros anos em (a experiência) me engoliu e definiu quem eu sou. Era como se, tendo devagar e progressivamente tirado toda distração da minha vida, eu fosse repentinamente encarado pelo o que eu vinha me distraindo de. Descansando por um momento contra o tronco de uma árvore, eu parei e, de repente, me achei dobrado sobre meu corpo, chorando por uma dor nova e presente.”

O relato na íntegra, coerentemente entitulado “Eu costumava ser um ser humano”, vale ser lido.

A dor que o Sullivan sentia, a dor que eu sinto, que você sente, não tem, provavelmente, causa na internet. O modelo de negócio dos gigantes online se torna uma toca exageradamente confortável onde a gente vai se abrigar quando não quer encarar os problemas reais que nos afligem. A maioria das pessoas não sabe, mas, antes de abandonar Harvard, Mark Zuckerberg estudava ciência da computação e psicologia. Os apps e seus usuários fechamos um acordo tácito: eles ficam bilionários, nós temos distração suficiente para passar a vida com o mínimo de contato com o que provoca dor.

Se você não vê problema nisso, manda bala. Mas se você se preocupa com sua capacidade de concentração e de ter uma cabeça que não é lapidada pelos interesses corporativos de poucas empresas, comece o processo para resgatar sua atenção. Taí uma briga envolvendo internet — uma das poucas, se não a única — que vale a pena comprar.

Foto do topo: Ira Dulger/Pexels.

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