Cuidado para não virar o vovô Simpson gritando para nuvens

Quadro d'Os Simpsons em que a notícia de jornal do vovô Simpson gritando com a nuvem aparece.

Este Tecnocracia começa bem lúdico. Transcreverei duas notícias publicadas por um veículo de massa e um trecho de ensaio falando sobre a chegada de uma nova tecnologia e você vai pensando sobre o que o sujeito está falando:

1. “A tecnologia fez algum bem? Acabou com algum mal, mitigou alguma tristeza? É de alguma consequência que você, de Nova York, deva saber na terça-feira em vez de quarta-feira que Jones amassou o nariz de Thompson no Congresso na segunda-feira? Algum dinheiro a mais é ganho ou perdido pelos especuladores de algodão em Nova Orleans e Nova York por que eles sabem das variações de ambos os mercados em cinco minutos, não mais cinco dias, antes que sua operações passem a valer?”

2. “A informação está se movendo tão rapidamente que estava se tornando descuidada. Sobre a influência dos jornais nas mentes e morais do povo, não pode existir dúvida racional de que a tecnologia causou vastos danos. Superficial, de repente, não filtrada, muito rápida para ser verdade, deve ser toda a inteligência desta tecnologia”.

3. “Temos muita pressa em construir uma tecnologia entre o Maine e o Texas; mas o Maine e o Texas, talvez, não tenham nada de importante sobre os quais se comunicar… Estamos ansiosos para fazer um túnel sob o Atlântico e fazer o velho mundo ficar algumas semanas mais perto do novo mundo, mas, por acaso, a primeira notícia que vazará para a ampla orelha americana será a de que a princesa Adelaide tem uma tosse convulsa”.

Nos três trechos, troquei o nome da tecnologia pelo termo “tecnologia”. Talvez nem precisasse deste cuidado, pois você já deve ter entendido a razão de eu ter escolhido estes trechos para começar esse episódio. Todos eles dizem respeito ao telégrafo, uma tecnologia inventada no século XIX para transmitir pulsos eletromagnéticos por um cabo de cobre e que foi profundamente revolucionária quando introduzida. Em vez de semanas, agora qualquer notícia demoraria minutos de um ponto do mundo ao outro, desde que um cabo conectasse ambos.

Hoje é fácil olhar para trás e enxergar o telégrafo com uma mistura de assombro e admiração. Assombro por que as rede estabelecidas atualmente, com conexões imensamente mais rápidas que a do telégrafo, fazem nossos antepassados parecerem trogloditas, assim como nossa tecnologia atual fará seus tataranetos darem risada da sua cara quando souberem como você vivia em 2019. Admiração por entender como uma tecnologia razoavelmente simples teve um impacto tão grande e apontou a humanidade para essa era de hiperconectividade em que vivemos hoje.

O que os três trechos deixam claro para nós — os dois primeiros são do New York Times e o terceiro, do ensaísta Henry David Thoreau — é como, lá na primeira metade do século XIX, a sociedade encarou a introdução de uma tecnologia com argumentos bem parecidos com os que ouvimos e até falamos hoje para explicar a popularização da tecnologia pessoal, dos smartphones, da internet móvel e afins. Compararam-na a métodos anteriores, classificaram ela como inferior, alegaram que a tecnologia iria destruir a cabeça dos jovens, que não existia tanto assunto assim sobre o que falar, que o tecido que une a sociedade não aguentaria.

Como você bem sabe, o Tecnocracia nasceu com o propósito de contornar o discurso tecnoutópico que ainda permeia as conversas sobre os impactos sociais da tecnologia e mostrar algumas das suas consequências mais nefastas. Só que hoje ele vai ser um pouco diferente. Hoje, a gente vai colocar em perspectiva muitas das coisas sobre as quais falamos até aqui.

Você vai encontrar milhares de textos por aí falando sobre como a internet é incrível, mudou nossas vidas e o escambau, mas ainda não existe muita gente disposta a entender como a nossa vida piorou após a introdução de tecnologia em todos os espaços da sua rotina. É essencial entender as consequências, dado que nós deveremos conviver com elas durante décadas. E nem todas são boas. A grande ironia do meu discurso é que, neste episódio, a gente vai parar para fazer exatamente isso. Quer dizer, não para reproduzir de olho fechado o discurso tecnoutópico que toda grande empresa martela nas nossas orelhas, mas lembrar quais foram as consequências positivas da internet e da proliferação dos smartphones nas nossas vidas. A ideia é tentar, ao fim, mostrar que o problema não é a tecnologia em si. O problema é como as empresas a usa para ganhar dinheiro.

Não tem história melhor para amarrarmos alguns destes pontos que a forma como a humanidade teve a sua primeira experiência com comunicação global em tempo real. A história começa com um funeral. Em fevereiro de 1825, um pintor que morava em Connecticut chamado Samuel Morse recebeu um convite para pintar um retrato em Nova York, uma viagem de quatro dias na época (hoje, leva duas horas de carro). Sua esposa, Lucrécia, estava grávida do terceiro filho do casal e o parto poderia acontecer a qualquer momento. Ainda assim, Morse tinha boletos a pagar e aceitou o trabalho.

Dias após chegar a Nova York, Morse recebeu uma carta com a infeliz notícia de que Lucrécia tinha morrido de infarto logo após o parto. Consternado, Morse teria que encarar a viagem de volta, de quatro dias, urgentemente. Quando chegou, Lucrécia já havia sido enterrada. Morse não conseguiu dar o seu adeus pessoalmente. Então com 34 anos, Morse era um pintor mediano, sem grande sucesso ou dinheiro. A morte da esposa lhe inspirou a vontade de estudar uma forma de comunicação mais rápida que uma carta numa bolsa carregada por um humano transportado por trem a vapor ou no lombo de um cavalo.

Isso foi, vamos lembrar, em 1825. A partir daí até o fim da sua vida, Morse viajou, estudou, pesquisou e firmou parcerias para desenvolver uma forma mais rápida de comunicação. Dezessete anos depois, um protótipo estava pronto. Este protótipo criava uma rede em um fio de cobre por onde trafegariam sinais em uma linguagem que ele também criou junto a Alfred Vail, composta por pontos, traços e espaços. Era o código Morse.

Em 1842, Morse foi ao Congresso dos Estados Unidos fazer uma demonstração e pedir um investimento de US$ 30 mil para construir uma linha de demonstração. Os congressistas não entenderam a ideia de Morse, acharam que ele era um completo maluco e negaram o pedido financeiro de Morse. Ele não desistiu. Eventualmente, Morse levantou dinheiro suficiente e criou uma linha conectando Washington a Baltimore. É aí que a história começa a ficar interessante, não apenas porque nos primeiros anos ninguém parecia interessado em usar o telégrafo, mas porque após essa resistência inicial, o telégrafo ganhou popularidade e a sociedade de então começou a levantar dúvidas parecidas com as que temos atualmente.

Assim que Morse ganhou sua patente e o modelo de negócio do telégrafo se provou, empresas começaram a criar conexões até então inexistentes entre cidades. Dois passinhos para trás: o modelo de negócio encontrado exigia o pagamento de centavos por cada palavra transmitida. Quem quisesse usar o serviço tinha que ir a estabelecimentos onde, na maiorias das vezes, mulheres passavam ou recebiam as mensagens, num modelo antecessor da LAN house. A malha ganhou tamanho, o que ajudou a derrubar o preço, o que incentivou mais gente a usar o telégrafo, o que criou novos mercados ou alterou profundamente outros.

Um dos mercados impactados pelo telégrafo era o jornalismo. Foi uma parceria com a Western Union, uma das maiores provedoras de serviços telegráficos, que acelerou o crescimento de um grupo de jornais de Nova York chamado Associated Press. A AP é, até hoje, uma das maiores agências de notícias do mundo, dona de 53 prêmios Pulitzer. No começo, só notícias mais impactantes eram retransmitidas usando o telégrafo. Dado que o acordo já estava fechado e os negócios da Western Union ainda não eram suficientes para entupir as redes instaladas, as agências de notícias passaram a retransmitir também notícias menos bombásticas, mais triviais. E daí começaram as reclamações de que, ao distribuir notícias triviais, o telégrafo estava acelerando demais o ritmo de vida e desperdiçando o potencial das pessoas.

No começo deste Tecnocracia, eu apresentei três trechos. Os dois primeiros falam exatamente sobre isso:

“O telégrafo terrestre fez algum bem? Acabou com algum mal, mitigou alguma tristeza? É de alguma consequência que você, de Nova York, deva saber na terça-feira em vez de quarta-feira que Jones amassou o nariz de Thompson no Congresso na segunda-feira? Algum dinheiro a mais é ganho ou perdido pelos especuladores de algodão em Nova Orleans e Nova York por que eles sabem das variações de ambos os mercados em cinco minutos, não mais cinco dias, antes que sua operações passem a valer?”, publicado em agosto de 1858.

“A informação está se movendo tão rapidamente que estava se tornando imprudente. Sobre a influência dos jornais nas mentes e morais do povo, não pode existir dúvida racional de que o telégrafo causou vastos danos. Superficial, de repente, não filtrada, muito rápida para ser verdade, deve ser toda a inteligência telegráfica”, uma frase escrita por um correspondente do jornal ao comentar a troca de mensagens entre Estados Unidos e Europa.

A velocidade da troca de informações acabou resultando em outro problema bastante atual: o das mentiras. Na véspera de Natal de 1863, o New York Times publicou uma checagem de fatos, uma das primeiras da história da imprensa mundial, alertando que uma notícia que tinha supostamente vazado por telégrafo de um acidente em uma base militar era, na verdade, um boato. O erro da imprensa na época alimentou a teoria de que reportar usando telégrafo representava um risco, que a velocidade aumentava a probabilidade de publicar o que o jornalismo chama de “barrigas” — informações erradas. Lembra de alguma época?

As discussões no século XIX, bem como as no século XXI caem na armadilha de acreditar que o canal por onde você trafega a informação determina a qualidade do conteúdo. É um erro repetido incansavelmente na mídia brasileira com a internet. Havia uma crença, que perdurou durante mais de 15 anos, que internet era espaço de informação curta, rápida. Como se o Twitter tivesse balizado o que era possível ou não fazer online. Internet é mídia, você coloca nela o que quiser, seja uma notícia curta e maliciosa ou um texto longo, aprofundado, pesquisado e bem escrito.

Por fim, a introdução do telégrafo também teve impactos na forma como seres humanos interagem para cumprir seu papel primordial nesta encarnação: se reproduzirem. Assim como qualquer tecnologia, o telégrafo também foi usado para namoro e sexo. As centrais onde era possível enviar e receber mensagens eram operadas, majoritariamente, por jovens mulheres, o que fazia com que o tempo ocioso da rede fosse ocupado com mensagens pessoais. Sem nenhum cliente, o telégrafo era o antecessor do chat.

Muita gente conheceu novos parceiros, casamentos foram desfeitos, pais ficaram horrorizados de saber que suas filhas e filhos estavam arrumando um catraco por impulsos eletromagnéticos em um fio de cobre e houve até uma comoção ultraconservadora questionando se uma mulher, por exemplo, poderia aceitar as mensagens de um homem desconhecido. Toda essa tensão desaguou na literatura quando, em 1880, a novelista Ella Cheever Thayer escreveu um romance sobre um homem e uma mulher que se conhecem e se apaixonam usando um telégrafo, sem nunca terem visto o rosto dos outros. O livro chama Wired love e, sim, você já ouviu essa história em algum lugar: é um tema reciclado de como uma nova tecnologia permite que dois desconhecidos se apaixonem perdidamente um pelo outro sem nunca terem trocado um olhar. Tom Hanks e Meg Ryan passaram pela mesma coisa usando os serviços da America Online em 1998 no filme Mensagem para você. E você achando que seu casinho arranjado no Tinder era moderno… É tudo reprise, a gente já ouviu todas as histórias.

A estrutura toda deste episódio, com muitos dos exemplos e histórias, foi tirada de um podcast excelente chamado Pessimist Archive sobre o telégrafo. Ele se propõe a analisar o horror e as críticas da sociedade da época ao lançamento de produtos e tecnologias que, hoje, a gente se assustaria ao ler sobre qualquer choque. Os episódios mostram como os romances, os elevadores, a luz elétrica e até a bicicleta foram alvo de descrença, campanhas contrárias e ações na Justiça. Os romances desgraçariam a juventude, introduzindo histórias fantasiosas incoerentes com a realidade. Os elevadores nos tornariam preguiçosos e extremamente dependentes de máquinas. As bicicletas arruinariam a estrutura de transporte das cidades.

Olhando para trás, hoje todas essas reclamações soam estapafúrdias, absolutamente ridículas. As que envolvem o telégrafo também. E as críticas que a gente faz da tecnologia atual, como serão encaradas daqui a 20 anos? Quantas das críticas serão coerentes e quantas refletirão esse sentimento apocalíptico a respeito do telégrafo?

Há de se ter cuidado para que não terminemos como o vovô Simpson no episódio 13 da temporada 13 d’Os Simpsons. Nele, Abe Simpson precisa tirar uma foto para um documento com Selma, uma das gêmeas irmãs da Marge, mas pergunta se não pode usar uma foto recente. Ele mostra, então, uma notícia de jornal em que aparece gritando para uma nuvem, sob o título “Homem velho grita para nuvem”. O quanto não somos, hoje, versões atualizadas do vovô Simpson gritando para nuvens — literais e metafóricas?

Gritando para nuvens

O Pessimist Archive é um ótimo lembrete de como a sociedade tem uma tendência cíclica de criticar qualquer coisa de grande impacto que entra no nosso dia a dia. Eu contei essa história toda do telégrafo para ilustrar como, com a introdução de uma tecnologia, a vida de todo mundo foi profundamente impactada. Muitas mudanças foram positivas, outras tantas foram negativas. Olhando para trás, o balanço parece positivo.

Para começo de conversa, você tinha tempo para ser informado sobre a morte de parentes e amigos e chegar para o enterro, a razão que conduziu Morse a investir décadas da sua vida na criação do telégrafo. A comunicação em quase tempo real também encolheu o mundo — com agências de notícias e analistas financeiros, era possível saber o que se passava do outro lado do oceano e como uma seca que devastou a safra de café brasileiro impactaria seu negócio. Isso significava planejamento, capacidade de se antever e não ficar completamente rendido ao imponderável. De uma certa medida, mesmo as redes atuais não tiram o imponderável totalmente da nossa vida. Ninguém te avisa quando um tumor se desenvolve nas suas tripas ou um amigo é abalroado por um ônibus.

Uma das grandes gritarias contra nuvens de hoje é a ideia de que a internet está nos fazendo burros ou preguiçosos, que o volume de informação à disposição está tornando nossos cérebros incapazes de guardar dados. Há incontáveis facilidades que a metástase da tecnologia introduziu na nossa vida. Estamos vivendo num momento único em termos de conhecimento. Há uma boa quantidade de conteúdo gratuito para aprender a cozinhar feijão, dar nó em gravata, programar numa nova linguagem de programação e falar uma nova língua. Ainda que não haja nada excelente e de graça do que você quer, existem milhares de pessoas aptas a lhe ensinar por um preço. Encontrar um(a) parceiro(a) nunca foi tão fácil, com aplicativos de namoro dedicados a cada orientação sexual ou fetiche. Reclamar que a variedade é tão grande que dificulta arrumar um namoro sério é gritar para a nuvem. Aplicativos de namoro são marketplaces: você encontra pessoas distribuídas nesta escala que vai de quem quer construir uma vida junto sem nem conhecer direito (fuja) a quem só quer um catraco de uma noite e tá tudo bem. Nunca foi tão fácil organizar grupos baseados em interesses específicos, como fazer trilhas até o Pico do Jaraguá ou pular corda no fim do dia. Dá para saber onde estão seus parentes em tempo real e se aquele restaurante na cidade que você está visitando presta. Quase todas suas músicas estão no seu bolso e tocam instantaneamente. Para pegar um táxi na porta de casa, mesmo num dia de chuva, é abrir um aplicativo e chamar. E se guiar num bairro ou numa cidade onde você nunca esteve? Fácil, Waze. Em meio a tanta vaidade explícita, existem influenciadores de nichos nobres, como os que mostram seus tratamentos de saúde ou suas campanhas filantrópicas. Quantos parentes se reencontraram, quantas amizades infantis perdidas com o tempo terminaram em casamentos após um convite do Facebook, quantos receptores de órgãos entraram em contato com a família do doador? Quanta gente talentosa foi descoberta por ter publicado um vídeo no YouTube ou textos no Blogger?

Alguém em sã consciência gostaria de voltar a viver há 100 anos?

Na década de 1990, a Folha de S. Paulo veiculava um comercial no qual um narrador falava maravilhas sobre uma pessoa enquanto a câmara ia tirando o zoom. No fim, o choque da publicidade era que todas as frases, factualmente corretas e positivas, descreviam Adolf Hitler. Ele, de fato, adotou medidas que tiraram a Alemanha de uma das suas piores crises econômicas da história. Tal qual esse anúncio, focar apenas nas vantagens e nos pontos positivos pode ser enganador.

O ponto do Tecnocracia não é malhar a tecnologia pelo exercício de malhar, mas indicar onde existem problemas sérios nas quais é possível mudá-la para melhorar nossa relação com ela. A vida não obedece à lógica binária da discussão online, do “ou é favor ou contra”.

Toda nova tecnologia atrai críticas, mais ou menos parecidas, majoritariamente de fundo moral. Não foi exclusivo do telégrafo ou da internet, nem será das que virão. A vida é inegavelmente melhor com cada nova tecnologia, mas novos problemas com consequências nefastas foram introduzidos por essas novidades. O ponto principal de analisar o passado é conseguir identificar padrões, dar de ombros para o chororô moralista que se repete (ou os velhos gritando para nuvens) e focar nos problemas novos e sérios. É para eles que a gente tem que direcionar nossa atenção.

O que a tecnologia de hoje se difere do telégrafo e de outras antecessoras? Dois pontos: escala e testes A/B. No telégrafo, a capacidade que a empresa dona de uma rede tinha de impactar o mercado todo era bem limitada e ninguém analisava como a tecnologia era usada para descobrir novas formas de nos fazer usar ainda mais. Na internet, isso tudo se inverte.

Na internet, são tão poucas as empresas que controlam os serviços que usamos que é justo dizer que Amazon, Apple, Google, Facebook, Tencent e Alibaba não compõem a internet; ela são a internet. Se você duvida, leia o ótimo relato da jornalista Kashmir Hill, do Gizmodo, tentando bloquear todos os serviços de Amazon, Facebook, Google, Microsoft e Apple, um por vez, para ver os impactos. Spoiler: é praticamente impossível navegar com a Amazon ou o Google bloqueados, de tão integradas na infraestrutura da internet as duas estão.

Na internet, todas as ações são registradas em bancos de dados e analisadas exaustivamente pelos provedores de serviços e alguns terceiros com acesso privilegiado para indicar padrões de comportamento que possam ser transformados em novas oportunidades de negócios. De teste A/B em teste A/B, todas as fraquezas e vícios da sua mente são mapeadas e os serviços espalham dezenas de gatilhos e armadilhas para te deixar sempre naquele gostoso estado de FOMO que impede de largar o celular ou relaxar quando se está longe do notebook.

Se quisesse saber o que o público gostava de ver ou ouvir, a TV ou o rádio dependiam de institutos como o Ibope e de grupos focais. As mudanças eram lentas e unas, ou seja, se o programa não funcionasse para a maioria, mas havia dois ou três amavam-no, azar desses dois ou três quando a emissora encerrasse a atração.

Escala e testes A/B são dois fatores muito relevantes para enquadrar a discussão porque invertem como deveria ser nossa relação tecnológica. A tecnologia não nos obedece, somos nós quem a obedecemos. Não com ordens explícitas, mas com gatilhos que vão nos guiando. E tudo isso com o objetivo final de aumentar o lucro no fim do trimestre. A gente já falou em detalhes sobre como o mercado de tecnologia “cultiva” a atenção de bilhões de pessoas para revender a anunciantes em outros Tecnocracias. Tendo como único incentivo manter os bons resultados trimestrais, as plataformas acabam fazendo vista grossa a qualquer limitação do seu uso, o que resulta na transformação de redes sociais em armas para interferir em eleições, como fizeram os russos nos Estados Unidos.

Ferramenta é o que a gente faz dela. Um martelo serve para pregar na parede os quadros que estão há meses acumulando poeira no chão do seu quarto. Mas um martelo também serve para abrir a cabeça de outra pessoa ou animal. O mesmo vale para tecnologia pessoal. Usar algoritmos e poder de processamento para entender em tempo real o comportamento humano é muito valioso, mas usar essas descobertas para deixar todo mundo vidrado na tela do celular é escandaloso, ainda mais quando pouquíssimas empresas concentram os ganhos disto tudo. É quando você vê esse cenário mais amplo que você entende como a escala e o teste A/B formam uma dupla maligna.

É este o novo problema sério introduzido pela atual onda tecnológica. Essa capacidade, ainda se desenvolvendo, de espionar e tentar “manipular” o público. (Coloco entre aspas já que ainda existem dúvidas honestas sobre o quanto essas sugestões são efetivas; a Cambridge Analytica defendia que conseguia algo MUITO preciso — mudar os votos de pessoas — com dados do Facebook, mas nunca provou. Por enquanto, é mais discurso corporativo do que comprovação científica.) Essa ideia de que privacidade é um conceito do passado. É algo que vão tentar te convencer exaustivamente, já que o discurso serve aos propósitos financeiros de todas essas empresas gigantescas.

A gente vive uma fase, principalmente no Brasil, em que não faltam problemas contra os quais gritar. Em tecnologia, especialmente, é bom a gente entender o que é delírio moralista, coisa que vai ser sempre repetida quando uma nova ferramenta chegar, e o que é problema real, daqueles que a humanidade nunca enfrentou nessa escala, a fim de identificar os impactos na sociedade e tentar mitigá-los. Regulamentação é um caminho óbvio dado o enorme poder acumulado por poucas empresas em setores sem quaisquer regras. Reclamar que a internet está nos deixando burros é se igualar ao vovô Simpson — um monte de velhos gritando para nuvens. O problema da internet não é fazer seu cérebro mais preguiçoso, mas deixá-lo extremamente ocupado para não produzir nada, girando em falso. É com isso que a gente tem que se preocupar.

Imagem do topo: 20th Century Fox/Reprodução.

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7 comentários

  1. O Tecnocracia é muito bom. Exemplo de que a tecnologia tem vantagens e pode deixar a gente mais inteligente e informado com discussões interessantes. Eu sempre me questiono sobre essa vigilância toda e o retorno financeiro que isso tem. Pode até ficar no meu inconsciente mas eu nem vejo os banners de anúncio nos sites nem lembro de ter gasto dinheiro por causa de alguma publicidade direcionada. Pelo contrário, quanto mais essas propagandas aparecem (como ifood no YouTube, que sempre aparece interrompendo os vídeos) menos eu tenho interesse na empresa. Será que esses dados todos tem esse retorno todo? Você já foi fisgado por algo?

  2. Este Foi o texto mais refrescante e impactante que eu li na internet em anos. Não sei como cheguei até aqui, mas foi um achado, uma mina de ouro. Parabéns pela pesquisa e pela reportagem tão bem costurada.

  3. Como pegar uma avenida, abre caminho diversos lugares, nela passam diversos tipos de veículos com diversos tipos de condutores. Caminhos, meios e condutores podem ser bons ou ruins.

    1. Mas a empreiteira não controla as estradas a ponto de criar formas para fazer com que você fique o maior tempo possível dirigindo e passando por pedágios…

      A metáfora não funciona 100%.

      1. Verdade, 100% só a original.
        O mercado/governo, ou quem tenha poder e interesse, talvez consiga exercer certo controle e aflorar a paixão por dirigir em nossos corações, com isso incentivar a venda de carros, combustível, manter a roda girando, mais pedágios, mais impostos :)
        Assim nem precisa de transporte público.

  4. Não que a mídia a tecnologia seja Rui,bom para médicos biólogos ciência e. Par estudos/ Mas na época do telégrafo era melhor de certa forma pois, não existia fak, pois a pessoa não sabia mesmo o rosto da outra por quem se apaixonva, e hoje existe muitas mentiras, mudam o rosto não mostram quem realmente são, enganam para emprego, adolescentes e crianças são enganados por pedófilos , notícias falsas e até obtos de que está bem vivo enfim…

    1. Pedofilia e abuso sexual sempre existiu. Eu acredito que a internet pode não acabar com isso, porém tem um poder muito maior de fomentar nas pessoas medidas de precaução.

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