O fim das utopias

Homem com máscara do Mark Zuckerberg ladeado por pessoas usando máscaras com o emoji de raiva e camisetas com os dizeres "conserte o Facebook".

Nota do editor: A partir de hoje, Guilherme Felitti passa a manter a coluna/podcast semanal Tecnocracia, voltada ao mercado de tecnologia, no Manual do Usuário. O podcast está se propagando pela na internet, então os links para assiná-lo ainda estão indisponíveis. Acompanhe o blog para saber quando eles estiverem prontos.

Bem-vindo ao Tecnocracia. Você sabe o que quer dizer o termo? Tecnocracia vem da junção dos radicais tecno e cracia. Tecno, do grego, técnica ou habilidade, e cracia, também do grego, governo de. No seu sentido literal, tecnocracia é a forma de governo no qual quem dá as ordens são os mais aptos tecnicamente em suas próprias áreas. É como um governo democrático deveria ser, mas no atual modelo de governo de coalização que persiste desde a redemocratização do Brasil em 1984 não é bem assim que funciona.

Mas o nome do podcast é uma brincadeira com o sentido literal do termo. Nas últimas 2 décadas, o radical “tecno” virou sinônimo de um setor que construiu seu poderio a partir da computação e invadiu todos os espaços da sua vida. Hoje, a tecnocracia em que vivemos não é o governo dos mais aptos, como o grego sugere, mas uma realidade em que poucas grandes empresas de tecnologia dão as cartas. Elas são 7 das 10 empresas mais valiosas do mundo e metade dos dez humanos mais ricos do planeta fundou uma. Crianças endeusam youtubers, recém-formados saem da faculdade querendo criar suas próprias startups, conglomerados compram essas mesmas startups pelas dificuldades em inovar e os mais velhos, pegos de surpresa pela mudança radical, aceitam empregos nada abonados nas estruturas gigantescas das pontocom.

O mundo está hoje nesta fronteira e 2018 foi um ano emblemático nesse sentido. Foi um ano que nos deu um volume enorme de evidências das consequências ruins de se viver nesta tecnocracia. E para aprofundar no assunto, é preciso entender como a percepção sobre as grandes empresas de tecnologia mudou e, com ela, a cobertura da imprensa. Se você começou a acompanhar o mercado de tecnologia nos últimos cinco anos, pega uma cadeira e senta que eu vou te contar como um discurso utópico ajudou na ascensão dessas empresas.

Lá por 2008, a tecnologia tinha um potencial enorme, mas não tinha se “metastasiado” para todas as camadas da sociedade. Era uma fase mais simples, não tinha tanto tom de cinza. Aos olhos de todos, as empresas de internet pareciam boas, bem intencionadas. Você conseguia mandar e-mail para um dos fundadores do Twitter e ele respondia (tenho até hoje uma troca de emails com o Biz Stone), o Google ainda era enaltecido na mídia global pelo objetivo de organizar as informações do mundo e Mark Zuckerberg era só uma figura em ascensão — o senhor redes sociais na época era Thomas Anderson, o fundador do MySpace que virava amigo de todo mundo que se cadastrava no site.

Google, Twitter, Facebook e afins se popularizaram ajudados por uma imagem de bom-mocismo. Para o Google, era representado pelo mote “don’t be evil”, não seja mau. O Facebook e o Twitter repetiam ad infinitum que, usando seus serviços, você poderia reatar laços com quem ficou esquecido no passado. Era muito tentador e isso fez o mercado de tecnologia se encher de um otimismo enorme. Eram empresas novas que desbravavam um mercado e iam salvar os consumidores (nós) de empresas estabelecidas com serviços horríveis — ou não foi assim que o Skype foi anunciado para o mundo, como uma alternativa melhor às operadoras de telecom?

O bom-mocismo também era uma forma ótima de atrair trabalho gratuito — o Google pede até hoje ajuda para traduzir vídeos, não? — e talento. Com a boa vontade da mídia que repetia o que era passado, as grandes empresas de tecnologia partiram embaladas nessa tecnoutopia. Tudo era bom, o futuro parecia brilhante e não havia possibilidade de erro, como a velha máxima do adolescente que, prestes a ir para a faculdade, tem certeza que não vai repetir os mesmos erros dos pais.

O ano da virada

Como quase sempre acontece a quem fica cego por um otimismo brutal, deu errado e num nível pior que o imaginado. Basta olhar a cobertura da imprensa de tecnologia em 2018. Saíram os anúncios de produtos e conteúdos majoritariamente favoráveis às empresas, entraram denúncias, protestos internos, investigações criminais e escândalos de privacidade. Para se manter na metáfora da adolescência, as empresas de tecnologia, 12 anos depois, notaram que cometeram erros piores do que seus pais jamais conseguiriam.

O principal destaque, neste aspecto, foi o Facebook. Desde março, com a revelação do escândalo Cambridge Analytica, Mark Zuckerberg e Sheryl Sandberg não saíram mais do noticiário. Quando você achava que o pior já tinha passado, uma nova notícia vinha e mostrava que o inferno ainda tinha alçapão. Foi assim com o vazamento de dados de 50 milhões de usuários em setembro, com o avanço da investigação criminal contra o presidente Donald Trump mostrando como a Rússia transformou a rede social e o Instagram em armas para atrapalhar a eleição norte-americana, com a divulgação de documentos mostrando que o Facebook cogitou vender acesso aos dados pessoais dos seus usuários para terceiros (algo que o Facebook sempre negou) e com a revelação, já no fim do ano, de que, na verdade, algumas empresas nem precisaram pagar, já que o Facebook deu acesso de graça. Em qualquer outra empresa, já seria motivo suficiente para uma revolução interna, com CEO demitido e consultoria externa calculando os prejuízos. Não no Facebook. Zuckerberg reina com poderes praticamente totalitários e a chance de ele sair é a mesma de o próximo Facebook sair do Brasil: praticamente nula.

Chamar isso de trapalhada seria muita gentileza com o Facebook. A empresa foi extremamente despreocupada com os dados alheios — os seus, basicamente — no seu intuito de devolver retorno financeiro aos acionistas. Mais que despreocupada, a empresa pode ter quebrado algumas leis e deverá enfrentar os tribunais com frequência nos próximos anos pelas revelações de 2018.

Foto de uma aglomeração de funcionários do Google no escritório da empresa no Vale do Silício, durante os protestos de 2018.
Funcionários do Google protestam na sede da empresa no Vale do Silício. Foto: Grendelkhan/Wikimedia Commons.

O Google tem a sorte imensa de ter o Facebook como escudo. Ainda que lide com um volume parecido de informações pessoais e já tenha sua cota de escândalos de privacidade, é impressionante como Larry Page e Sergey Brin não aparecem no olho do furacão. Quem está lá sempre — com Justiça, há de se dizer — é Zuckerberg e Sandberg. Mas a sorte não foi suficiente para desengatilhar o maior protesto feito pelos próprios funcionários na história da tecnologia, quando 20 mil “googlers” espalhados pelo mundo entraram em greve por algumas horas por escândalos sexuais envolvendo diretores que foram acobertados pelo Google. Foi a maior demonstração, mas não foi a única: meses antes, funcionários de Google, Amazon e Microsoft já tinham pressionado seus empregadores a não venderem tecnologias de reconhecimento facial para o governo norte-americano e inauguraram um novo tipo de pressão: a do assalariado contra o gigante digital.

O inferno também fez o papo sobre intervenção do governo no Vale do Silício crescer. Paira sobre todos a sombra da Microsoft na década de 1990, punida em bilhões de dólares por usar a popularidade do seu Windows para esmagar a Netspace. Os gigantes de tecnologia sabem e não gastaram bilhões de dólares na última década com lobby à toa. Quem está à frente entre as potenciais vítimas de quebra por parte do governo é o Facebook/Instagram/WhatsApp. Mas Google/YouTube é um potencial alvo.

Dois mil e dezoito foi o ano que a gente percebeu que o bom-mocismo da década passada tem consequências bem sérias, algumas jamais imaginadas e outras que a gente ainda não consegue ver. Demorou algumas décadas até que uma onda de tumores de pulmão mostrasse que o glamour em fumar, martelado pela publicidade a partir da década de 1960, era só um elã falso, já que a ciência não tinha ideia do que as substâncias contidas ali poderiam causar. A história é lenta — passos de formiga e sem vontade, como diz o Lulu Santos. E só agora, 20 anos depois da fundação do Google, a gente é capaz de ver o quebra-cabeça por cima e entender algumas das consequências mais nefastas.

Muitas dessas consequências passam, necessariamente, por decisões das grandes empresas: o modelo de negócio baseado na atenção, com métodos de máquina de cassino para manter todo mundo grudado o máximo possível; o aumento nos diagnósticos de ansiedade e no uso de tarja pretas por essa obsessão com mídia social — aí entra a culpa do uso de métodos de cassino; a lacuna entre ricos e pobres se aprofundando, alimentada em muito pela automação no lado dos pobres e poucos sujeitos donos de empresas de tecnologia muito ricos; o escritor da Sports Illustrated que já entrevistou cinco presidentes, virou motorista da Amazon e é obrigado a mijar numa garrafa de Gatorade na caçamba do veículo; o renascimento online do nazismo, repaginado e de cabelo penteadinho sob o nome “alt-right” e com a anuência e vista grossa do Twitter; empresas fazendo o que quiserem com seus dados sem qualquer tipo de regulamentação e saindo ilesas caso o resultado do fim do trimestre seja bom… A lista é longa.

Não é uma realidade bonita, não.

Não tem mais espaço para o bom-mocismo na tecnologia. Em vez de torcer, é preciso considerar a ética por trás de decisões que, gostando ou não, vão impactar sua vida.
Por que o que talvez muita gente não entenda é que o Facebook não vai ser quebrado por um “novo Facebook” tão cedo. Todas essas empresas de internet que viraram impérios hoje competiam há dez anos com empresas analógica — Amazon e Walmart, por exemplo. A próxima Amazon não vai ter essa boiada. Ela vai ter que bater a própria Amazon! A gente deve ficar com essas empresas gigantescas — e todos os problemas decorrentes da administração dessas empresas — durante muito tempo, décadas provavelmente. Essa ideia de que sua startup fundada no centro de São Paulo vai derrubar todas elas é puro delírio; sugiro procurar um médico. Vide o que o Instagram fez quando copiou uma função do Snapchat e lançou o Stories. Em vez de um rival do Facebook, o Snap caiu para a “série B” da tecnologia, onde também está a Electronic Arts e a GoPro.

É sobre isso que nós vamos falar nesta coluna. A forma de cobrir o mercado de tecnologia mudou muito porque o mercado de tecnologia mudou muito. É essencial entender o impacto e esse entendimento vem devagar — por isso faz sentido o Tecnocracia estar agora no Manual do Usuário e seu estilo “slow journalism”.

Uma das áreas que mais vai impactar sua vida na próxima década é a inteligência artificial e há uma piada entre até quem não é do mercado que diz que, em algum momento, as máquinas vão tomar o controle da sociedade. Pode até ser — ainda que o nível do aprendizado de máquina hoje esteja longe disso. Mas, agora, a gente precisa prestar atenção e notar os passos não das máquinas, mas de quem as controla.

Se você quiser ler algum mais completo sobre o tema, sugiro fortemente um livro lançado no fim do ano no Brasil chamado Big Tech: A ascensão dos dados e a morte da política [Amazon], do Evgeny Morozov. Ele pode ser considerado o pai do “tecnoniilismo”. Na última década, enquanto estava todo mundo soltando rojão, ele era o chato que alertava que a “tecnoutopia” poderia dar merda. Deu.

Foto do topo: Avaaz/Divulgação.

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