Em 2019, a briga para manter os monopólios se tornou explícita

Mark Zuckerberg sentado em uma poltrona em uma sala com um quadro que diz "Os tolos esperam".

Roger McNamee é um dos sujeitos mais impactantes do mercado de tecnologia de quem você nunca ouviu falar. No seu primeiro trabalho na área, no começo da década de 1980, ele liderou investimentos na Electronic Arts. Quando foi trabalhar em um dos fundos mais tradicionais do Vale do Silício, o Kleiner Perkins, McNamee se envolveu em investimentos feitos em um navegador chamado Netscape e em uma loja online chamada Amazon. Ambos os negócios se tornaram gigantescos, mas é sempre bom frisar que quem começou o frenesi financeiro da internet foi o Netscape, o primeiro navegador gráfico para usuário final da história.

O histórico de acertos do McNamee era tão sólido que ele fez o que qualquer um com naquela posição faz em sua área: para que trabalhar para os outros se eu posso colher os frutos todos para mim? Em 1999, ele fundou a Silver Lake Partners com outros sócios e passou a farejar o mercado atrás de negócios com potencial.

Uma rápida explicação para quem caiu de para-quedas no assunto: nenhum sobrevive só com empreendedores. Para a ideia daquele ou daquela geninha com potencial dar certo é preciso de dinheiro para começar a fazer a operação rodar e também o mínimo de direcionamento para saber como um fluxo de caixa funciona, por exemplo. É aí que entram os veículos de investimento, sejam eles os anjos, os fundos, os VCs e por aí vai. São diferentes categorias para uma mesma atividade: identificar empresas nascentes com potencial, avaliar as informações financeiras, assinar um cheque, pegar um fatia do negócio em troca, aconselhar a estratégia e sair do caminho para que os fundadores executem a ideias. Uma alteração aqui, outra ali, é mais ou menos isso.

Na Silver Lake, McNamee se envolveu em investimentos na Dell, Alibaba, Skype e Symantec. Quando saiu da Silver Lake para montar outro fundo, o Elevation, ele conheceu um sujeito com uma rede social crescendo que nem um cavalo: Mark Zuckerberg. A Elevation colocou mais de US$ 200 milhões no Facebook antes do IPO, o que lhe conferiu uma taxa de retorno de dezenas de vezes quando o Facebook finalmente abriu seu capital. Mais que a grana, o maior ganho para McNamee foi ter virado tutor de Zuckerberg: foi ele quem sugeriu que o fundador do Facebook contratasse Sheryl Sandberg, a responsável por montar a máquina comercial que transformou a startup numa das maiores empresas do mundo.

Vale dizer que, entre seus pares, McNamee é conhecido por ser uma figura excêntrica. “Um guitarrista há muito tempo que ainda faz 50 shows por ano, ele fez tours por mais de duas décadas com um grupo composto por VCs, tecnólogos e músicos profissionais, como Pete Sears, da banda Jefferson Starship. Sob o nome artístico Chubby Wombat, McNamee gravou canções com sua banda Moonalice como o hino stoner ‘It’s 4:20 Somewhere'”, diz o ótimo perfil sobre o McNamee publicado pela revista The New Yorker na edição da primeira semana de dezembro.

Até o momento em que investiu no Facebook, McNamee defendia as intenções do mercado de tecnologia. Para ele, as empresas de tecnologia — tanto as nas quais investia como as que preferia deixar passar — tinham o objetivo nobre de resolver as mazelas do mundo usando tecnologia. Foi assim que nasceu o Facebook, não? Para melhorar nossas interações sociais e permitir que bilhões de pessoas pudessem se expressar livremente e atingir um público enorme. O Facebook não foi o único. Durante sua primeira década, o Google repetia incessantemente que seu objetivo era organizar toda a informação do mundo e torná-la disponível para todos, tirando as barreiras de acesso que dificultaram, durante séculos, a ascensão profissional dos excluídos. O Twitter seguia uma lógica parecida: ao resolver questões técnicas da onda dos blogs, a plataforma de Jack Dorsey deu uma ferramenta pronta com uma audiência enorme para todos se manifestarem.

As intenções eram sempre as melhores possíveis e, se desse para ganhar um bom dinheiro no meio do caminho, melhor ainda. As coisas começaram a mudar em 2012, quando uma caravana da Uber tentou buscar um aporte da Elevation. “Esses caras todos querem ser monopolistas. Todos só querem ser bilionários”, diz ele para à New Yorker — e eu te aconselho muito a ler o texto.

O problema, vale deixar claro, não é só a Uber. As relações entre McNamee e Zuckerberg azedaram depois das eleições presidenciais norte-americanas de 2016, quando a Rússia interferiu no pleito para favorecer Donald Trump usando, entre outras ferramentas, o Facebook. McNamee entrou em contato com Zuckerberg e Sandberg. Os diálogos cordiais não esconderam que não havia interesse por parte do Facebook de mudar tudo aquilo que McNamee entendia como profundamente problemático. A relação se partiu e o investidor escreveu um livro no começo do ano chamado Zucked: Waking up to the Facebook catastrophe (algo como Zucked: Abrindo os olhos frente à catástrofe do Facebook, em tradução livre). “Zucked” aqui transforma o sobrenome do Zuckerberg em verbo de cunho pejorativo.

Estou começando com essa história para que a gente se situe onde estamos. Como último Tecnocracia de 2019, vamos parar um pouco para entender o que aconteceu em linhas gerais com a tecnologia durante o ano. Mas não é aquela retrospectiva com “empresa X lançou celular Y”. Dane-se essa retrospectiva. O que a gente vai tentar entender é como essa onda contrária ao ufanismo e ao positivismo da tecnologia avançou em 2019.

Caíram as máscaras

Existem brigas abertas e existem brigas que acontecem nos bastidores. Em 2019, a polêmica envolvendo o papel da Big Tech em alguns dos piores problemas da nossa sociedade saíram de trás da cortina e vieram para o centro do palco. A briga, que antes era brigada por advogados em gabinetes fechados, tomou as manchetes e as discussões na mídia. De novo, nenhuma empresa melhor personifica isso que o Facebook.

A rede social tentou, desesperadamente, assumir as rédeas da discussão sobre regulamentação. Ao depôr para o Congresso norte-americano, Mark Zuckerberg bateu insistentemente na tecla que o Facebook acredita que é melhor para todo mundo que exista uma regulamentação. Ele não foi o único — todos os seus executivos cantaram a mesma canção. É uma estratégia parecida com a de partidos políticos que, frente a uma CPI contrária aos seus interesses, tentam desesperadamente emplacar o relator. Quem comanda a relatoria ou dá o direcionamento para processos legais pode apontar a besta para onde quiser. A tentativa de tomar a dianteira da discussão pública seria vazia se não viesse acompanhada de algum movimento. No melhor modelo “entregar os anéis para não perder os dedos”, o Facebook lançou uma ferramenta para portabilidade de fotos para serviços rivais, como o Google Fotos.

Só em 2019, quatro órgãos norte-americanos iniciaram investigações contra o Facebook: a FTC (Federal Trade Commission, equivalente à Anatel nos EUA), o Comitê Judiciário do Congresso e o Departamento de Justiça em setembro e um grupo de procuradores estaduais em outubro. Dos quatro, só um se resolveu: em julho, Facebook e FTC fecharam um acordo para encerrar as investigações sobre o escândalo Cambridge Analytica por inacreditáveis US$ 5 bilhões, valor que pode parecer muito a você (e que o Facebook tentou explorar amplamente ao afirmar que é a maior multa já dada a uma empresa pela FTC), mas que representa horas de lucratividade da empresa. O Facebook só precisou direcionar algumas horas do seu lucro global para resolver uma investigação que poderia lhe trazer problemas — legais e econômicos — muito maiores. Foram os US$ 5 bilhões mais bem gastos na história do capitalismo, a ponto de um analista financeiro do Bank of America Merrill Lynch mandar um “I guess good news on the FTC settlement” em uma ligação de resultados no trimestre seguinte. Quando as ações de uma empresa sobem depois de ela receber uma multa por um órgão de controle federal, é que o número não foi grande o suficiente. Quem melhor definiu foi o professor da Universidade de Nova York, Scott Galloway: “Coloque mais um zero na multa e aí começamos a conversar”. Em dezembro, foi a vez da Comissão Europeia, tradicionalmente mais severa que os órgãos norte-americanos em punir empresas que pisam fora da linha, abrir outra investigação para analisar como Google e Facebook lidam com os dados dos consumidores. Historicamente, a Comissão Europeia não cobra troco de pinga como multa.

Com a tempestade iminente, o Facebook decidiu complicar qualquer movimento que tente quebrá-lo. Em janeiro, Zuckerberg anunciou que a prioridade do Facebook seria integrar todas as ferramentas de mensageria da empresa, principalmente WhatsApp e Instagram, em uma única infraestrutura. A justificativa oficial era a privacidade e a interoperabilidade. Qualquer um com o mínimo de bom senso sabia que, debaixo da camada de PR, o Facebook tentava costurar seus principais ativos externos — Instagram e WhatsApp — ao seu serviço original de rede social para alegar que quebrar a empresa colocaria em risco a existência dos aplicativos, como se todos já não existissem de forma independente. Numa metáfora à la Frankenstein, é como transformar dois irmãos separados em xipófagos (ou siameses) e alegar que a cirurgia necessária para separá-los poderia matar ambos.

Não foi só na parte técnica. Zuckerberg, como um filho que sabe que fez coisa errada, também foi buscar guarida com o pai ou mãe que o protege. Durante o segundo semestre de 2019, o fundador teve reuniões a portas fechadas e fora da agenda oficial com figurões ligados a Donald Trump e o partido Republicano, incluindo jornalistas. Em uma rodada de jantares em Washington DC, o The Intercept apurou e não conseguiu encontrar um político identificado com a esquerda norte-americana1.

É sempre bom lembrar da proximidade que o Vale do Silício teve com os Democratas, incluindo Zuckerberg. Em 2011, um Zuckerberg solto entrevistou Obama na sede do Facebook, com transmissão ao vivo pela rede social. “Estou um pouco nervoso”, disse Mark. “Meu nome é Barack Obama e eu sou o sujeito que fez Mark usar terno e gravata”, respondeu Obama. Não houve uma entrevista parecida com Mitt Romney, o candidato Republicano derrotado por Obama na eleição do ano seguinte, 2012.

Isso não significa que Zuckerberg, apoiador irrestrito do casamento gay, tenha mudado sua clara preferência política. Amigos, amigos, negócios à parte. A decisão não é ética, é empresarial. Em 2019, chegamos à parte da briga sem escrúpulos. Sem mais se preocupar com o que pode parecer. Tempos de desespero exigem medidas desesperadas. Os donos das grandes empresas de tecnologia, frente à reação negativa do público, a esse sentimento de tecnofobia, vão tomar as decisões que garantam o melhor futuro para suas empresas e para si mesmos, o que, em grande parte, não significa ter como prioridade os interesses da sociedade.

É o fim de um caminho muito longo que começou lá trás, com o protagonista cheio de boas intenções e energia para, frente as bifurcações, escolher sempre a que leva ao caminho do bem (alô, Tim Maia). Na escala Walter White, todas as grandes de tecnologia nos últimos dois anos deixaram a faceta do pacato professor de química para virarem senhores do tráfico cheios de dinheiro, poder e sangue nas mãos2. E não custa repetir o que já foi falado em outro Tecnocracia: isso não é exclusividade de Zuckerberg. Google, Twitter, Microsoft, Amazon e afins se beneficiam de como o Facebook, com uma cagada atrás da outra, não tira o foco do mercado de si mesmo.

No Google, por exemplo, a movimentação de funcionários insatisfeitos com ações dos diretores (como vender machine learning para o Departamento de Defesa e dar um bônus milionário a um executivo demitido por assédio sexual) criou uma situação tensa entre empregador e empregados. Insatisfeito com a organização de milhares de funcionários por dezenas de escritórios pelo mundo, o Google criou uma ferramenta interna para espioná-los. Documentos vazados mostram que dezenas de funcionárias, principalmente, foram alvos de retaliação após reportarem para o RH casos de abuso, sexual inclusive. O time de investigação do Google interrogou dois funcionários por mais de duas horas. Em novembro, o Google demitiu quatro funcionários envolvidos com a organização de protestos internos.

Os casos “representam uma incrível reviravolta para a empresa que foi considerada o padrão para o ambiente de trabalho moderno. O Google introduziu muitas das vantagens corporativas que hoje são comuns no Vale do Silício, e a maneira transparente como defendia as relações entre trabalhadores e a gerência influenciou uma geração de startups”, diz a reportagem do New York Times sobre a demissão dos quatro funcionários. Aquele discurso de “queremos o melhor para nossos funcionários” não fica mais de pé. Acabou a espuma, o discurso na mídia mostrando as comidas, os serviços de lavagem de roupa e babá, o congelamento de óvulos. É preciso uma acrobacia argumentativa nível Daiane do Santos para sustentar, depois de 2019, que o objetivo primordial do Google é o bem-estar dos funcionários, e não os dividendos que paga aos acionistas no fim do trimestre. E, dado que estamos falando de uma empresa privada, é totalmente direito deles. O que é passível de crítica é, ao criar uma cultura de transparência entre seus funcionários, o Google não imaginava que corria esse risco, de ser questionado internamente?

A Amazon seguiu os passos do Google: funcionários e acionistas pressionaram a gigante de varejo a tomar ações mais drásticas contra o aquecimento global e para parar de vender tecnologia de reconhecimento facial a governos. Em ambas as questões, o conselho negou e seguiu adiante. Soma-se a isso seu histórico terrível de acidentes e exploração de funcionários nos centros de distribuição – o CD de Nova York teve um índice de acidentes de 15,2 em 2018, mais que o dobro do índice em serrarias (6,1). Há uma crescente preocupação sobre o uso dos dispositivos Ring, da Amazon, que compartilham, sem consentimento dos usuários, imagens com o governo. E, não menos importante, a isenção total de impostos pagos todo ano atrai cada vez mais atenção.

No Brasil, tendo achar que a onda de tecnofobia ainda não chegou com força por algumas razões, a começar pelo atraso brasileiro em importar tendências tecnológicas norte-americanas e europeias. Mais que isso: numa economia em frangalhos há anos, qualquer função que ofereça trabalho — não emprego — é abraçada sem titubeio. Num cenário como esse, o governante não vê a precarização do trabalho, com dezenas de milhões de pessoas ganhando pouco e trabalhando muito sem benefícios, como problema, mas como solução.

Todo mercado de tecnologia caminha em direção ao monopólio, seja lá fora ou no Brasil, já mostrou o Tim Wu no livro The master switch. Hoje, o cenário que temos já é de monopólios. Apple domina smartphones nos EUA, Google controla buscas, vídeos, mapas e sistemas operacionais móveis, Microsoft controla sistemas operacionais tradicionais e ferramentas de produtividade, Amazon controla o varejo online e a computação em nuvem, Facebook controla mensagens e fotos e vídeos no celular. Todas vão alegar que não são monopólios por existirem outras opções — o Walmart para a Amazon, o Bing para o Google, o Ubuntu e o macOS para a Microsoft, a Azure e o Google Cloud para a Amazon Web Services, o iOS para o Android e vice-versa, Signal e Telegram para WhatsApp —, mas ninguém acredita realmente que todas as alternativas são rivais à altura.

O cenário pode ser considerado também um apanhado de monopólios, por mais esquisito que seja atrelar pluralidade ao conceito de “monopólio”, pela forma como todas impedem inovação. O Facebook pode ser mestre na arte, como já mostrou ao desossar o Snapchat e tentar o mesmo com o Tinder copiando funções, mas toda a Big Tech se destaca por comprar empresas menores com o intuito de neutralizar quem pode, um dia, virar um problema. É a lógica de Cronos, o titã da mitologia grega que, avisado de que um filho tomaria seu lugar, devorava todos assim que saiam do útero da esposa Reia. Nesse cenário, a chance de um novo Facebook aparecer é nula.

Estamos navegando nos mesmos mares da Microsoft na década de 1990 antes do processo antitruste do governo norte-americano. Não fosse a ação que obrigou a Microsoft a parar de matar no ninho novos rivais, hoje você estaria lendo isto no Internet Explorer 6.5. Zeus só foi capaz de sobreviver porque Reia o escondeu assim que nasceu. Durante uma década, as empresas de tecnologia surfaram no discurso ufanista para dominarem o mercado. As intenções eram positivas, então deixa passar que mal não vai fazer. Agora que todos estão sentados no topo da montanha, fica claro que, junto ao bem, a ascensão trouxe um monte de problemas. O objetivo dessas empresas não é resolver esses problemas. A prioridade é continuar em cima da montanha e, de preferência, jogar esses outros caras que estão aqui no penhasco. Se der, faz um bem para humanidade no caminho, no melhor estilo do “vamô combiná” que você manda quando encontra um colega da faculdade no metrô. Spoiler: vocês nunca vão combinar.

A notícia mais impactante do ano

Tem notícia boa, Guilherme? Tem uma excelente: a economia do compartilhamento, ou gig economy, esfarelou com a vergonha pública do WeWork. Por que isso é bom? Baseadas numa premissa completamente furada, Uber, WeWork e afins levantaram bilhões de dólares em investimento sem nunca conseguirem ter dado lucro. Numa lisergia coletiva entre empreendedores e investidores, muita gente caiu no conto de que o futuro do capitalismo seria a divisão dos seus pertences com os outros. Uber nunca foi isso, WeWork menos ainda. Empresas que exploravam a ideia, como o TaskRabbit, nunca saíram do chão.

Embaladas por uma mentira, WeWork e Uber conseguiram enganar o público, o mercado e os empregados até a hora em que o conto do vigário derreteu frente à realidade dos dados financeiros do IPO. Mesmo no prejuízo e em reestruturação, a Uber ainda tem uma marca amplamente reconhecida em todo mundo, o que tem um valor enorme. Já a história do WeWork está pronta para ser adaptada pelo Esopo em conto de fada. Alimentada pelo sucesso estrondoso do seu aporte no Alibaba, a SoftBank acreditou que não poderia errar e saiu jogando dinheiro em startups com valuations gigantescas. Seduzida pelo próprio perfume, a SoftBank fez vista grossa a claras manobras contábeis e a comportamentos amalucados de fundadores. O WeWork planejava abrir capital avaliada em US$ 80 bilhões. Com a polêmica que seu S1 desengatilhou, teria sorte se chegasse a um décimo disso. O fundador do WeWork foi limado depois de receber centenas de milhões de dólares, a SoftBank entubou todo o prejuízo e milhares de funcionários com ações do WeWork tiveram que engolir os planos de comprar casas.

E isso é notícia boa por que mesmo, Guilherme? O mercado de tecnologia sempre passa por momentos de lavagem, em que uma ideia estapafúrdia incensada por um grupo pequeno e poderoso rui (do verbo “ruir”) aos olhos do público e se transforma em uma memória ridícula, um lembrete para gerações futuras. A bolha da internet foi exatamente isso. Depois de muitas falências, o que saiu do outro lado foi um mercado mais real, com os pés no chão, sem tanto delírio incentivado pelos rios de dinheiro e as promessas sólidas como castelos de cartas. Ícaro voou perto demais do Sol, as asas derreteram e ele se esborrachou no chão.

Os dois maiores investimentos do Vision Fund, fundo da SoftBank que contou com bilhões de dólares da Arábia Saudita, foram exatamente na Uber e no WeWork. Com o Vision Fund totalmente comprometido, já que as crises em ambos significam que dificilmente o fundo terá o retorno esperado originalmente, a SoftBank perdeu o toque de Midas que o Alibaba lhe deu. Sem mais (tantas) fórmulas mágicas e promessas descabidas, o mercado se ajusta e passa a operar na lógica do padeiro: se não tem farinha, não tem pão. Até que apareça outro fundo que acredita ser tão bom que não erra para convencer todo mundo do contrário. Como muita coisa na vida, trata-se de um movimento pendular.

Três pontos para 2020

O que vai acontecer de mais importante em tecnologia em 2020? Três pontos:

1. Essas mesmas empresas interessadas em manter e aumentar o próprio monopólio vão entrar pesado em saúde. Amazon já lançou um serviço médico no mesmo modelo do lançamento da AWS, para uso interno e como quem não quer nada. A Apple achou o nicho do Apple Watch, o Google ressuscitou sua iniciativa Google Health e até o Facebook, a empresa com menor índice de confiabilidade, deu indícios de que vai se arriscar no setor. É claro que eles querem seus dados médicos. Se eles já são bons em te vender produtos baseado no seu histórico de likes e navegação, imagina o que eles conseguirão vender ao saber quando seu ciclo menstrual está atrasado ou quais remédios de uso contínuo você toma.

2. Tem eleição norte-americana para definir quem vai ser o presidente dos EUA entre 2021 e 2024. O melhor cenário para a Big Tech é a reeleição do Trump ou de algum Democrata como Joe Biden, Pete Buttigieg (Zuckerberg é um dos seus conselheiros) ou Michael Bloomberg (dono de uma empresa de tecnologia). O pesadelo seria Elizabeth Warren ou Bernie Sander (ambos já citaram nominalmente regulamentação de Big Tech) sejam eleitos. O(A) presidente vai determinar a velocidade com que o processo de regulamentação das grandes de tecnologia vai correr nos EUA. Eleição também é hora de checar se as grandes plataformas fizeram algo para atenuar ou banir a interferência de discursos radicais coordenados (no caso dos EUA, pela Rússia) com o intuito de influenciar o pleito. O Facebook já defendeu seu direito de deixar políticos mentirem e tomou porrada de todo lado, com toda razão. A chapa vai ficar tão quente em 2020 que Zuckerberg vai seguir os passos do Twitter e banir anúncios políticos, pode anotar.

3. E tem a China. O TikTok vai continuar ganhando espaço pelo mundo, o 5G chinês vai continuar a ser usado oficialmente pelas grandes economias e os métodos de controle e fiscalização digital do governo central chinês continuarão a parametrizar iniciativas governamentais para usar algoritmos na hora de lidar com os cidadãos. É uma guerra perdida pelo Ocidente; a China já levou.

Por fim, toda ação na vida tem consequências boas e ruins. Você consegue se enganar só isolando as coisas boas, tal qual um desenho da Disney, ou ruins, tal qual o diário de um adolescente. Na real, você só vai conseguir entender de verdade o fenômeno se misturar vantagens de desvantagens. Historicamente, é possível pescar fatos não medonhos de episódios horrendos. Adolf Hitler resolveu uma inflação galopante e devolveu o poder de compra aos alemães. O Estado Islâmico foi tão bem organizado que resolveu problemas sérios de infraestrutura, como o fornecimento de energia elétrica, em regiões da Síria. A Ditadura Militar no Brasil proporcionou um ápice de crescimento econômico de 14% em 1973.

A questão é que nenhum desses grupos e pessoais entraram na história pelas benesses proporcionadas. Domar a inflação não é nada perto do massacre de judeus, ciganos e outros grupos perpetrado pelos nazistas3. Fornecer luz elétrica para um vilarejo é fichinha perto das mortes horrendas e da escravização sexual de centenas de mulheres. O crescimento econômico forçado da Ditadura Militar alimentou a inflação, que cresceu como um cavalo até o Plano Real, concentrou ainda mais a renda e criou dezenas de casos de corrupção dentro do governo, além da tortura e morte de milhares de brasileiros, inclusive crianças, pelas mãos do Exército. O que nos faz lembrar desses episódios é o saldo entre o positivo e o negativo.

O Tecnocracia nasceu com o intuito de levantar os principais negativos da popularidade da tecnologia no nosso dia a dia, dado que o mercado nasceu embalado e continua ainda nessa inércia otimista. Muita coisa no nosso uso de tecnologia é ruim, prejudicial, preconceituoso, escroto. E, para conseguir ter um saldo para decidir para que lado da história esse cenário vai, é preciso compará-los. Só com o discurso oficial, florido, otimista e inocente, você não vai conseguir. É debaixo das camadas de relações públicas que se escondem as intenções reais.

Essas discussões todas são amarradas por um único nó: a lucratividade. O mercado fecha os olhos a qualquer tipo de comportamento execrável desde que o lucro no final do trimestre seja polpudo. Até agora, Facebook, Google, Amazon, Apple, Microsoft e afins não deram razões para o mercado se decepcionar. Guarde seu otimismo para a tal autorregulamentação. O mercado não vai mexer um músculo. A página só vai ser virada com a regulamentação externa.


  1. Tal qual o Brasil, a política dos EUA tem uma noção esquisita de direita-esquerda, já que Democratas dificilmente seriam enquadrados no espectro político da esquerda segundo os critérios de qualquer estudioso sério.
  2. Se você não sabe o que estou falando, aproveite seu recesso para assistir a Breaking Bad.
  3. Bom lembrar: nazista bom é nazista inconsciente no chão depois de apanhar.

Acompanhe

Newsletter (toda sexta, grátis):

  • Mastodon
  • Telegram
  • Twitter
  • Feed RSS

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

10 comentários

  1. Teorizo em minha mente que sempre estamos no final atrás de padrões – o que resulta em monopólios. Afinal, todo padrão tem referências, gestões próprias, etc.

    Quando falamos da internet pública, se não fosse o trabalho das fundações, que de alguma forma “monopolizam” o controle e as padronizações de uso, não estaríamos aqui (ou talvez até estaríamos, mas em menor número, dispersos em N padrões diferentes).

    Imagino que no final, brigas por monopólios também ignoram que o Estado, dado teoricamente o ente de gestão da população, também o é um monopólio – Vide China e sua tentativa (mezzo bem sucedida) de controlar a rede interna do país.

    Enquanto houver briga de poder, haverá briga de monopólios. Enquanto as pessoas não aprenderem a se organizar em rede, buscando mínimos consensos de sobrevivência, outros tomarão as rédeas e procurarão meios de sobrepor-se aos outros, tais como no passado surgiram reis e lideranças que se diziam “salvadores” ou “enviados por Deus”.

    Acho que no fundo temos que entender que há parte dos humanos que buscam lideranças, e isso significa monopolizar a atenção a esta.

    1. Monopólio != padrões. Padrões, como os que fundamentam o funcionamento da internet, são consensos, frutos de debates e discussões que envolvem uma pluralidade de interessados — do mercado, da academia, dos governos e da sociedade civil. Há o lobby, claro, mas o papel do capital, idealmente, é contido por outras forças. (Briga de poder não é, em essência, ruim. Entramos em micro-batalhas de poder o tempo todo, em casa, no trabalho, com os amigos; é parte da vida em sociedade e nos ajuda a avançar.)

      Já o monopólio, é apenas força bruta misturada com práticas no mínimo questionáveis e negligência dos poderes reguladores.

  2. ola

    tem algum roteiro no manual sobre como fugir desses monopolios e deixar de gerar lucros para essas grande empresas?

    é possível viver sem elas?

      1. Excelente indicação, Thiago. A série já foi citada num Tecnocracia anterior e mostra como as empresas de internet se confundem com a própria internet.

        1. Guilherme, suspeito fortemente que eu tenha visto essa matéria justamente aqui no Tecnocracia. Hahaha.
          Excelente texto, como de praxe! ;)

    1. é possível viver sem elas?

      Não, mas dá para amenizar a dependência. Como o Ligeiro disse, tem algum material espalhado aqui no Manual que tocam essa questão. No início de 2020, devo publicar algo mais pontual/consolidado.

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!