O fediverso valoriza a acessibilidade nas descrições de imagens — e isso é bom para todos

por Augusto Campos

Nota do editor: Há quase exatos três anos, em maio de 2023, publiquei um texto meio rabugento reclamando da “polícia da descrição de imagens” no fediverso/Mastodon. Eu sempre defendi a prática e descrevo imagens no blog do Manual há muitos anos. Minha rusga, na ocasião, era com a natureza quase persecutória de alguns participantes proeminentes, incluindo donos de grandes instâncias brasileiras, com quem não descrevia imagens, mesmo que por esquecimento ou desconhecimento.

Dia desses, trocando uma ideia (pelo Mastodon) com o Augusto Campos, ele se lembrou daquele texto meu e pediu para revisitar o tema aqui no blog, contando o que mudou nesse intervalo de três anos e, nas palavras dele, “remover um espinho atravessado na garganta” desde 2023 (o espinho, no caso, a minha opinião). Fiquei feliz com a proposta! Feita essa devida contextualização, segue o texto do Augusto.


Descrever imagens para pessoas com algum tipo de deficiência visual é um recurso de acessibilidade valioso, que demanda pouco esforço e é suportado em boa parte das plataformas sociais da atualidade.

Mas ser suportado não basta: para uma rede ser acessível às pessoas com deficiência visual, a oferta do recurso de acessibilidade precisa ter adesão ampla.

É como na mobilidade urbana. Pouco adianta ter rampa de acesso ao meio-fio de um dos lados da rua mas não do outro, pouco adianta um morador instalar em sua calçada o pavimento tátil padronizado se o vizinho ao lado não fizer o mesmo, e assim por diante.

É que acessibilidade não tem seu fundamento na tecnologia. É uma questão humana e social, cuja solução vem quando uma população ou comunidade cria a cultura de assumir coletivamente o esforço e o custo de incluir as pessoas que não tem o mesmo acesso aos recursos ou ambientes.

Com as descrições de imagem, a questão é similar à das rampas de meio-fio: as pessoas que tem demanda de seu uso ficam acolhidas quando a presença é frequente e a qualidade é suficiente.

Descrevendo suas imagens

É melhor uma descrição curta e super resumida (acessibilidade limitada, mas presente) do que a ausência de descrição. Em especial, é melhor essa descrição curta do que deixar de compartilhar a imagem (acessibilidade negativa) por não se achar apto a dedicar o esforço e tempo necessários a incluir a descrição.

Se não souber o que escrever, pense em como descreveria essa mesma imagem para uma pessoa com quem está falando sobre ela numa ligação por áudio — personagens, objetos, cenário, a dinâmica, o texto que consta na imagem, as impressões que causa, as conclusões que provoca.

Em geral, essa operação é feita durante a criação ou edição do seu post. Clique na imagem e selecione a opção de preencher a descrição.

⚠️ Caso você vá usar algum recurso automatizado de geração de texto a partir da imagem, tenho uma sugestão adicional: revise! É muito frequente (e aqui falo como alguém que acompanha as descrições atentamente) o texto gerado por ferramentas automatizadas incluir informações erradas, ou até mesmo opostas, em relação ao que um humano vê na mesma imagem. Essa dica vale especialmente para imagens expressando dinâmicas e interações, para fotos de bichinhos, e para memes.

No fediverso, acessibilidade nas imagens é compromisso coletivo

Já vimos que o sucesso da inclusão depende de esforço coletivo. No fediverso isso é política da rede, a começar pelos desenvolvedores dos softwares.

Nota do editor: Entenda por “fediverso” o conjunto de plataformas federadas pelo protocolo ActivityPub, incluindo (mas não só) Mastodon, PeerTube, Pixelfed e tantos outros serviços.

No caso do Mastodon, que é o mais visível desses softwares (ao menos aqui no Ocidente), desde o início de 2025 passou a ser padrão exibir um lembrete ao usuário que tenta postar uma imagem sem a descrição.

Print do popup que o Mastodon exibe para posts com imagem sem descrição: “Adicionar texto alternativo? Seu post contém mídia sem texto alternativo. Adicionar descrições ajuda a tornar seu conteúdo acessível para mais pessoas.”, com as opções “Cancelar”, “Publicar mesmo assim” e “Adicione texto alternativo”.
Popup que o Mastodon exibe antes de um post com imagem sem descrição ser publicado.

Além do cliente oficial do Mastodon, o mesmo recurso está presente (mas nem sempre ativado por padrão) em vários dos apps e clientes alternativos, e também em outros serviços do fediverso.

Quando o criador do Mastodon, Eugen Rochko, anunciou essa nova configuração, ele também justificou: “Descrição textual é crucial para a acessibilidade, mas também tem outras vantagens, como tornar muito mais fácil pesquisar sua postagem ou filtrá-la.”

Não era uma novidade. A defesa intensa, concreta, clara e ativa da inclusão e da acessibilidade por meio das descrições de imagem faz parte da cultura do fediverso (embora com variações, afinal é uma comunidade plural) há bastante tempo, o que é especialmente verdadeiro no caso das instâncias que reúnem a comunidade de brasileiros federados, muitas das quais tem esse ponto incluído em suas regras e políticas oficiais.

As formas de reforço positivo a essas políticas são várias, e incluem a publicação de tutoriais, o destaque a esse tópico em guias voltados a usuários recém-chegados, o uso de recursos de leiaute para alertar sobre imagens publicadas sem descrição, e até a publicação de estatísticas sobre o percentual de posts da instância contendo imagens sem descrição, cuja meta é, naturalmente, zero (e frequentemente chega bem perto disso).

Nota do autor: No interesse da transparência, informo que os dois links no parágrafo anterior são de páginas mantidas por mim.

Quando os reforços positivos (incluindo os lembretes dos apps) não bastam, a comunidade também atua na promoção ativa da conformidade dos posts que chegam às suas linhas do tempo, incluindo medidas como a rejeição espontânea, mas persistente e bastante difundida, a promover posts sem acessibilidade (tanto em nível dos reposts individuais, como em perfis como o @TrendsBR), ou alguns usuários que se dedicam a buscar o contato de esclarecimento com quem é contumaz em não usar o recurso de acessibilidade.

Esse tratamento das exceções é, naturalmente, bem menos eficaz do que a prevenção. Inclusive porque frequentemente desagrada o envolvido, assim como acontece com o motorista que decide parar seu carro “só cinco minutinhos” em frente a uma rampa de meio-fio. Ele raramente vai ter reação positiva imediata a qualquer abordagem a respeito.

Mas a sociedade (ou a comunidade) decidiu que aquele recurso de acessibilidade é para estar à disposição de quem tem a demanda, e prefere que o motorista fique insatisfeito do que se sinta validado para continuar a dar preferência a alguma outra conveniência sua.

Exceções a essa regra? Existem, e podem ser tratadas, mas não são muitas. Prosseguindo na analogia com a guia rebaixada do meio-fio, não seria razoável pensar que ela deva ser priorizada em relação a um veículo de emergência (ambulância, bombeiros) em atendimento naquele local, ou ao posicionamento de uma equipe de cinegrafistas que dali conseguiria transmitir ao vivo uma emergência de evidente interesse público. E seria de esperar que todos os envolvidos procurarão prestar apoio a quem tenha demanda da guia bem naquele momento.

O mesmo raciocínio se aplica à acessibilidade de imagens: as exceções merecem ser validadas espontaneamente, mas o que as caracteriza não é a conveniência, a identidade ou a pressa de quem publica, e sim uma eventual incompatibilidade entre os dois interesses públicos ou da comunidade: compartilhar aquele conteúdo imediatamente e incluir imediatamente o recurso de acessibilidade.

No caso da acessibilidade de imagens, há uma alternativa que o bloqueio da guia rebaixada não permitiria: publicar “ao vivo” as imagens urgentes sem a descrição e logo depois retornar para inclui-las.

Que fica ainda melhor quando, como já vi acontecer, pessoas da comunidade se unem espontaneamente para redigir sugestões de descrição conforme os posts “ao vivo” vão sendo inseridos, para o autor depois retornar e inclui-los — sendo que as pessoas com necessidade de acesso que também estejam acompanhando o desenrolar do processo já se beneficiam desde o momento das sugestões publicadas.

Você pode ajudar

Felizmente, o sucesso das iniciativas de reforço positivo e de disseminação da cultura vêm reduzindo a demanda pelas abordagens voltadas a oferecer desincentivo a quem já deixou de incluir a descrição.

Acessibilidade é um quadro que demora a evoluir. As pessoas envolvidas trabalham anos a fio para conseguir tornar cada vez mais natural e fácil o ato de prover as medidas de inclusão a quem precisa.

Você pode ajudar, tanto na adesão individual, quanto no apoio à disseminação dessa ideia!

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5 comentários

  1. Excelente!
    Um efeito não intencional é que muitas vezes a descrição da imagem me ajuda a direcionar o olhar para aspectos que, mesmo sendo capaz de ver, eu não enxerguei a primeira vista.

  2. Para quem vem de redes centradas no visual, a descrição é atrito razoável.

    Para quem tira selfies e mais selfies, descrever cada uma é, convenhamos, bem desagradável. Como não acompanho ninguém do Pixelfed (o “clone” do Instagram) onde isso seria mais forte.

    Na minha bolha fediversal isto não é um costume (postar selfies em profusão), então não sei realmente o quanto isso é um problema real.

    Faço meu esforço de 100% de descrição de imagens, e se estou com preguiça, nem posto (acontece). E já pedi sugestão de melhoria no ALT TEXT, sempre recebida de forma positiva (você tenta seu melhor, e aprende com as sugestões).

    Só reforçando a dica do Augusto: pense como descreveria para alguém por telefone, ou num áudio. Funciona bastante bem para começar.

  3. Poxa, que legal o texto do Augusto, que sigo lá no Mastodon. Faço o possível para escrever um texto alternativo nas imagens que posto, mas também admito que muitas vezes eu não postei uma foto e optei por só deixar o link (geralmente, eu posto os links do blog que tenho), por pura falta de tempo. Eis a contradição; se tive um tempo para escrever um texto enorme, por que não teria tempo hábil para um breve descritivo? Não sei também se o pessoal não tem esse hábito por conta de ser mais trabalhoso via celular, sei lá!, mas bora melhorar isso (o que serve também para mim)! Obrigada pela reflexão, gente!

  4. Obrigado, Ghedin, pela oportunidade do contraponto. Espero que a argumentação tenha contribuído inclusive com o teu ponto de vista a respeito do contexto ampliado.

    Convido a todos: vamos contribuir com a acessibilidade e a inclusão, nas redes e fora delas!