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Uma web mais acessível

Foto de uma tela, com tema escuro, de um editor de HTML mostrando trechos do código-fonte de uma página.

A régua da acessibilidade na internet é tão baixa que um trabalho simples, quase trivial, feito por este Manual do Usuário — a descrição das imagens veiculadas no site e na newsletter —, suscitou elogios do leitor Gustavo Torniero. Por que, em um país com 17,9 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, esse assunto é tão escanteado?

“Você, com uma estrutura pequena e, até onde eu sei, com apenas você na gestão do conteúdo, coloca todas as descrições de imagem — no site e na newsletter”, explicou Gustavo Torniero, jornalista, leitor do Manual e uma pessoa cega. “Com a estrutura que você tem, com um projeto que é grande mas que se encaixa em uma pequena mídia, fica complicado para grandes veículos dizerem que não conseguem colocar acessibilidade (embora o volume de publicações seja muito maior).”

Pessoas com deficiência visual, como é o caso do Gustavo, recorrem a leitores de telas para ler a web. Quando chegam a imagens, esses leitores procuram por um atributo do HTML, o texto alternativo. Embora existam inteligências artificiais capazes de criar descrições, os resultados ainda são rudimentares, de modo que o trabalho humano, manual, segue sendo a melhor alternativa. Imagens podem conter nuances e subjetividades que a IA tem dificuldades ou mesmo é incapaz de entender.

O cuidado com a acessibilidade é (ou deveria ser) uma questão básica de humanidade. Desde 2016, lembra a jornalista Larissa Pontes, também é obrigação legal — o artigo 63 da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (lei nº 13.146) determina que a acessibilidade é obrigatória a sites “mantidos por empresas com sede ou representação comercial no País ou por órgãos de governo”.

Em 2018, Larissa fundou, ao lado de Marconi Barkokebas, o Eficientes, uma publicação digital independente e sem fins lucrativos, gestada como trabalho de conclusão de curso na faculdade de jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco, em Recife. Inicialmente, o objetivo era cobrir a inclusão da pessoa com deficiência no mercado de trabalho. “Depois a gente sentiu a necessidade de falar da pessoa com deficiência na sociedade, de modo geral”, diz Larissa.

Para ela, é importante trazer o tema acessibilidade à tona. “De certa forma, quando a gente não se preocupa com a acessibilidade da informação, estamos excluindo um grupo de pessoas a ter acesso àquele tipo de informação”, explica. No caso dos sites de conteúdo e jornalísticos, Larissa acredita que a conscientização deva começar já na faculdade, ensinada em paralelo às técnicas próprias da área, “para que os próximos jornalistas já venham com esse pensamento de inserção”.

Embora custos e entraves técnicos possam ser obstáculos relevantes — o próprio Eficientes ralou para encontrar um sistema de linguagem de sinais que coubesse no orçamento —, é possível avançar muito sem gastos exorbitantes, apenas seguindo boas práticas e atentando aos padrões web.

O projeto a11y é “um exemplo vivo de como criar experiências digitais bonitas, acessíveis e inclusivas”. O site oferece recursos e uma lista de verificação para sites. O W3C, consórcio que rege os padrões web, também dedica um espaço em seu site à acessibilidade. Há muito material de apoio e orientação, o que leva a crer que a falta de acessibilidade em muitos sites é fruto de desconhecimento ou descaso. Também existem serviços especializados em adequação de sites, como o Web Para Todos. O Eficientes está desenvolvendo um programa voltado a empresas para adequações gerais da rotina corporativa às boas práticas em acessibilidade.

Por si só, melhorar a experiência de pessoas com deficiência já seria motivo suficiente para justificar atenção e investimentos, mas os incentivos são ainda maiores, com potencial de beneficiar a todos. “É a mesma coisa quando a gente diz ‘vamos deixar a cidade acessível’”, exemplifica Larissa. “Não será bom só para a pessoa com deficiência. Será bom para pessoas idosas e até para quem não tem deficiência circular dentro da cidade. É muito mais do que trazer acessibilidade só para um público. É garantir o direito a todos, de todos terem acesso.”

Ainda há muito a ser feito no Manual, em áreas onde a “estrutura pequena” apontada (corretamente) pelo Gustavo é, de fato, um entrave. Nossos vídeos não são legendados, embora o recurso esteja disponível; as imagens no Telegram não são descritas por limitações da plataforma; e não contemplamos a linguagem de sinais. O elogio do Gustavo veio acompanhado de uma crítica e sugestão de melhoria: a newsletter do site era enviada com o cabeçalho em inglês, o que tornava o leitor de telas dele bilíngue. O problema, na ferramenta de disparo da newsletter, foi corrigido após ser apontado.

Na coluna do Gustavo, no Yahoo: Ele é dono de um site de tecnologia e descreve todas as imagens para pessoas cegas.

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Foto do topo: Ilya Pavlov/Unsplash.

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9 comentários

  1. Os desenvolvedores tem bastante culpa nessa questão também.

    O que vejo é pessoal “formando” profissonais sem nenhum conceito de web semântica e seus princípios. Infelizmente.

    1. Deus me livre defender programador, mas acho que dessa vez na real a culpa é das empresas que não veem a web acessível como requisito para contratar profissional de tech. Fosse esse o caso, o desenvolvedor estudaria web semântica e acessibilidade tranquilamente.

      1. Mas precisa a empresa exigir para um profissonal ter algo que seria o básico para qualquer pessoa que trabalha com web? Esse é o ponto.

        O que vejo é que muitos profissionais ñ tem diferencial. Aprende um framework da moda, usa um editor da moda e pronto, já acha que está bom.

        Infelizmente, pra mim o comodismo e esse boom de “escolas” de programação ñ está adicionando ao mercado profissionais com a qualificação adequada.

        1. Você pareceu o Fabio Akita agora, amigo. As “escolas” de programação estão abrindo portas para pessoas que, não fossem elas, não teriam sequer a oportunidade de ingressar na área. Quem dita a nota de corte para ingressar em tech — felizmente — não é o nosso conceito particular de moralidade, e sim a necessidade objetiva do mercado.

          Todo mundo começa leigo. Eu comecei leigo e você também. Você deixou o ponto mais importante passar: o problema não está no dev iniciante; o fato de gente com menos senioridade estar entrando em tech é uma peculiaridade do mercado, que precisa colocar gente pra dentro.

          Relacionar a falta de acessibilidade com o momento em que muitos devs juniores estão beira a desonestidade. Esse monte de gente leiga hoje vai ser sênior um dia. Sua crítica não faz o menor sentido.

          1. E quem falou de dev iniciante? Tem muita gente que se diz experiente que não sabe nem o que é web semântica.

            Em relação a a11y, no meu caso, só passei dar mais importância porque em uma empresa no qual trabalhei tinha um desenvolvedor que era evangelista e tinha uma didática muito boa. Se não fosse por isso, ficaria no básico do básico. Hoje passei a ler mais e pesquisar mais sobre e também aplicar (seja em code review, ou quando estou escrevendo algo)

            Minha crítica sobre as escolas de de programação não é o trabalho que elas estão realizando, mas sim a forma que elas estão fazendo. Participo de entrevistas e posso te dizer com propriedade que muita gente não sabe como que funciona o HTML, por exemplo. Culpa das escolas? Pode ser. Culpa do profissional? Pode ser também.

            Nos dias de hoje, com o conteúdo que temos disponível, não é uma escola de programação que vai ensinar a realidade do mercado.

          2. @Tiago

            É que você pareceu estar definindo um iniciante quando mencionou as escolas e o uso de frameworks e editores hypados.

            Tenho a mesma impressão que você: a barra está mais baixa e estão entrando mais pessoas com menos skills ~fundamentais hoje do que há 5-10 anos. Então é aquilo: se o conjunto de skills necessárias para conseguir o primeiro emprego como dev não inclui saber a11y, então é infelizmente o que veremos continuar acontecendo.

            Mas sim, agora entendi o que você quis dizer. Posso te dizer que, embora me interesse tornar a web mais acessível, só passei a me preocupar com a11y recentemente, justamente porque recentemente a empresa onde trabalho chegou em um nível de estabilidade que nos permite investirmos tempo pesquisando e aprendendo sobre o assunto. Neste caso, uma questão de demanda.

  2. Sempre lembro da história do Dosvox
    https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Dosvox
    Que foi simplesmente quando um aluno com deficiência visual passou no Vestibular da UFRJ então teve apoio dos professores pra fazer o software que foi um dos mais usados no Brasil por muito tempo(não sei como está agora)
    Super interessante conhecer ele e essa história

  3. Excelente! Acessibilidade é um trabalho constante que comumente é deixado de lado em nome de outras “prioridades” no processo de desenvolvimento de um produto digital.

    Existe no Brasil um bom movimento de desenvolvedores web que advogam por uma melhor acessibilidade na web. A Talita Pagani e o Reinaldo Ferraz são grandes nomes desse movimento.

    Em tempo, deixo uma humilde contribuição do transcript de uma talk que fiz sobre como construir uma web melhor pensando em acessibilidade: https://medium.com/@mariaclarasantana/construindo-uma-web-melhor-ferramentas-e-testes-de-acessibilidade-20200f2a3739

  4. tenho um amigo daltônico que é programador, a gente já foi a evento que não tinha como ele identificar o conteúdo dos slides porque as cores escolhidas eram justamente as que ele não conseguia identificar

    quando lá no final do artigo falou que preocupação com acessibilidade é algo com um alcance enorme, lembrei dele e de pessoas com baixa visão onde a qualidade do zoom (aumentando apenas o texto) e a escolha das cores nos sites para favorecer o contraste do texto com o plano de fundo são fundamentais para a experiência, e ao menos me parece que o Manual do Usuário também acertou nisso, escolhas simples e muito acertadas porque para fazer direito não é preciso fazer coisas mirabolantes

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