Estes homens bregas com óculos ridículos querem que você também os use
A Meta, mesma empresa que afirmou em 2021 que hoje você estaria vivendo no “metaverso”, vendeu alguns poucos milhões de óculos com câmeras para pervertidos e, de repente, o novo futuro vislumbrado pela mente doentia de Mark Zuckerberg é da gente usando óculos com câmeras e “inteligência artificial”.
Sim, os CEOs do Vale acreditam que a melhor maneira de mitigar a compulsão por telas a 20 cm do rosto é colocar telas a 20 mm dos olhos.
Como o Vale do Silício é o equivalente digital de uma cidadezinha do interior, as “modinhas” se espalham rápido. Ninguém quer ficar para trás. A diferença é que, lá, qualquer “modinha” significa a incineração de bilhões de dólares e ameaças à humanidade de futuros caricatos da literatura que cinco ou seis caras sem imaginação leram na infância, interpretaram errado e até hoje não se deram ao trabalho de revisitá-los.
Muitas dessas ideias erradas esbarram na cultura. Mesmo que os desafios técnicos sejam superados com o trabalho dos melhores engenheiros vivos, a parte difícil é convencer pessoas normais a passarem horas, todos os dias, com um capacete de realidade virtual acoplado aos olhos, por exemplo.
Por algum motivo, a Apple, que costuma ser a última a embarcar em novos mercados, entrou nesse. Deve ter sido a última, porque o lançamento do Vision Pro coincidiu com o tímido sucesso dos óculos Meta Ray-Ban, que redefiniram a corrida pela próxima interface de computação da humanidade. Agora vai…?
À parte a utilidade (que é em si questionável), proponho uma argumentação fashionista/cultural no sentido de que a tendência dos óculos “inteligentes” é, também, uma correria que não irá a lugar algum.
Trata-se apenas de um punhado de homens bregas sem ideias originais que decidiram pensar outra vez, o que é sempre perigoso.
Antes de entrarmos nos óculos, acho que vale um registro da (talvez única?) foto do CEO da Apple, Tim Cook, vestindo o ridículo Vision Pro para um perfil na revista Vanity Fair:

Você pode procurar por outras fotos de Cook com o Vision Pro nos materiais de divulgação da Apple, incluindo o vídeo de apresentação do dispositivo. Não tem. Pergunto-me por quê.
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O sonho de acrescentar uma camada digital sobre a realidade — tecnologia chamada de realidade aumentada — vem de longe. Diz muito que o maior sucesso de algo do tipo tenha sido não um par de óculos, mas um aplicativo de celular, o coletor de coordenadas para treinar drones assassinos chamado Pokémon Go, de ~2015.
Alguns anos antes, o Google foi pioneiro na oferta de óculos feios. O Google Glass trazia apenas a armação e um pequeno bloco transparente no olho direito para exibir informações. Larry Page e Sergey Brin, os co-fundadores do Google:

Você verá apenas CEOs usando óculos ridículos neste texto. Faço uma exceção ao Google Glass. A foto abaixo, do blogueiro promotor de startups Robert Scoble usando os seus nu debaixo do chuveiro, foi a gota d’água (!) nas pretensões do Google de massificar seus óculos esquisitos:

Mark Zuckerberg, CEO da Meta e arquétipo de homem brega, pode ser considerado o líder da nova investida para popularizar óculos com câmeras. Porque, sejamos francos: embora todas essas empresas vendam esses óculos como “inteligentes”, “com IA”, a real mesmo é que quem compra os Meta Ray-Ban está mais interessado na câmera — seja para registrar as férias da família, seja para esconder a discreta luz da câmera a fim de constranger mulheres em público escondendo.
Em sua segunda geração, mesmo com a EssilorLuxottica e os desenhos célebres da Ray-Ban, os óculos continuam feios:

Como a miniaturização ainda não avançou o suficiente para esconder os chips e bateria na armação de óculos normais, todos eles têm essas grossas. Lembram os óculos do saudoso Shelley Berman no papel de pai do Larry David em Curb you enthusiasm. Para referência:

A Snap, dona do Snapchat (que ainda existe), merece crédito por ter apostado na atual tendência anos atrás. Os primeiros óculos com câmera da empresa, os Spectacles, foram lançados em 2016. Não tinham nada de “smart”. Era só uma câmera conectada ao Snapchat no celular. Não por acaso, é o menos brega de todos listados aqui:

Corta para dez anos mais tarde e vemos Evan Spiegel, co-fundador e CEO da Snap, aparecer em público com a atrocidade abaixo, os SPECS Augmented Reality, ou a sexta geração dos óculos da marca, o primeiro do tipo com realidade aumentada. Pena que eles esmaguem as suas orelhas, a bateria só dure quatro horas e… bem, sejam ridículos:

E o Google? Claro que o Google, precursor da categoria, não ficaria de fora. No Google I/O deste ano, a empresa anunciou, em parceria com a Samsung, os seus próprios óculos movidos pelo Android XR, uma plataforma para realidades aumentada e virtual. Sem surpresa e mesmo com o desenho assinado por empresas do setor (Gentle Monster e Warby Parker), são óculos feios:

Na condição de alguém que viveu sem óculos por 30 anos e passou a ter que usá-los no dia a dia, somente vantagens muito grandes são capazes de convencer alguém colocá-los no rosto o dia todo. Por exemplo, enxergar direito.
Para além dos benefícios (limitados e/ou questionáveis) a quem usa esses óculos, a bateria ainda dura poucas horas e eles são um pesadelo de privacidade do outro, como os Meta Ray-Ban hoje e o Google Glass em 2012 exemplificam. Não era à toa que os donos do Google Glass eram chamados de “glassholes”, neologismo em inglês que junta as palavras “óculos” e [CENSURADO].
Bem, de início isso é interessante.
Tive sim a ojeriza a tal quando o vi, mas rolei todo o texto lendo e os comentários também.
Como alguém que tem “grau” de 4.5×4.75, logo pra mim o dia sem tal é… quase impossível. Tal necessidade me fez usar óculos de aro completo, tal como os da foto, para a lente ser mais fina.
Conforme fui mudando o texto fui lembrando minhas ex e suas famílias. Elas todas necessitavam óculos, mas as com menor necessidade o evitavam sempre que possível, já quem tinha maior necessidade aceitava sem lutas. Vi também que muito é compartilhado em família e recordei que o aprendizado vem muito de assimilação de da repetição de comportamento. O mesmo poderia ocorrer com tal óculos.
Comecei o texto e os comentários pensando que podem serem úteis a muitas coisas. Minhas profissão o adquiria rapidamente. Seria utilíssima.
Se, no futuro, possuir ou integrar uma simples IA, seria uma maravilha. Mesmo que com assinatura.
Então sim, creio que pode haver uma mudança de comportamento.
E termino o texto e os comentários pensando nas preocupaçãos diversas com privacidade e vulnerabilidades…
Como contraponto. O produto está vendendo muito bem. A EssilorLuxottica revelou que vendeu mais de 7 milhões de unidades de óculos inteligentes em 2025 com previsão de 20 milhões em 2026. Lançaram inclusive o Oakley Meta que é certamente mirando o mercado da GoPro.
Você sempre escreve uns textos bons, mas esse ficou demais!
Parabéns.
> Na condição de alguém que viveu sem óculos por 30 anos e passou a ter que usá-los no dia a dia, somente vantagens muito grandes são capazes de convencer alguém colocá-los no rosto o dia todo. Por exemplo, enxergar direito.
Mesmo assim, quando se tem problema de visão, é possível usar lentes de contato, que são muito mais confortáveis (e caras) do que óculos. Eu nunca usei óculos escuros e sempre evito usar o meu de grau porque eu fico absurdamente nervoso e desconfortável com algo no meu nariz. Esse tipo de tecnologia vai ter nichos (como VR) onde será adotada e usada, mas eu chuto que jamais vai ser popular.
pra você ver como é questão de gosto. eu não usaria lente de contato nem que me pagassem muito dinheiro. tenho pavor a ter que colocar algo no meu olho, até colirio. óculos pra mim além de uma ferramenta para me ajudar a enxergar, eu considero como um acessório para combinar com a vestimenta. devo ter uma dezena de oculos aqui, entre grau e sol e vou alternando de acordo com o “dress code”.
Se for pensar, acho que a sua visão é mais fora da curva – gostar de óculos – do que o oposto. Não julgo, tem óculos bonitos mesmo. mas eu chuto que imensa maioria das pessoas evita usar óculos (de sol e de grau) até onde der. Os de grau mesmo, são sempre anti-práticos porque embaçam, removem uma parte do campo de visão e impedem/dificultam o uso de alguns outros acessórios (como capacete).
Agora pegue o conjunto das pessoas que gostam de usar óculos (vamos dizer 30%) e refine mais ainda esse conjunto com pessoas que gostam de usar óculos de sol (vamos lá, 20%) e com pessoas que aceitariam usar um smart-glass como esse (chuto uns 5%, no máximo) e refine ainda mais com as pessoas podem pagar por esse equipamento (aqui deve ser menos de 1%).
Tudo chute sem dados, baseado no achismo, mas acho que fica fácil imaginar que é um aparelho vestível de nicho.
Um amigo meu levantou a questão que isso nunca foi para vender e sim para testar tendências e tecnologias novas. Se vender, blz; senão, blz também. Pode ser isso também (e acho que faz mais sentido ainda, a Apple sempre flertou com AR, VR e tecnologias de imersão, por exemplo).
eu acho que você está partindo de um ponto muito pessoal. óculos de grau eu concordo que muita gente não gosta, mas usa. já óculos de sol a maioria das pessoas usam. eu não gosto muito porque nem todos meus óculos de sol tem grau. talvez você more em uma região mais fria, com menos sol, e não seja tão comum. mas a maior parte do Brasil faz sol em boa parte do ano (alguns lugares faz sol o ano inteiro), e óculos de sol são obrigatórios. há marcas inteiras dedicadas a isso, como Mormaii, Chilli Beans, etc. o mercado de óculos no Brasil é gigantesco.
de toda forma concordo que Rayban Meta não vai virar item popular, é um mercado de nicho, mas a forma que você falou fez parecer que ninguém usa óculos hahaha
Ah sim, eu moro em Porto Alegre, faz 4 dias que não tem sol. E quando viajou vou pra Curitiba.
Mas a maioria das pessoas não gosta de óculos mesmo, tem dados sobre isso. Nem de sol. Mas pelo que eu li era fortemente sazonal e direcionado (pra ver melhor no sol forte). São dados dos EUA, claro.
Esse pulo de óculos de sol -> Smartglass é, como você falou, algo super de nicho. E não é porque as pessoas usam óculos de sol (digamos que 80% use) que existe esse mercado de fato.
(off topic) nova sessão: “o que tem no rosto de klinsmann?”, uma sessão onde vc apresenta seus óculos hahah…
Se conseguiram miniaturizar fones de ouvido, conseguem miniaturizar a tecnologia para os óculos. Só precisamos de tempo e paciência, duas coisas que o mercado da tecnologia não tem haha
O klinsmann falou da aplicação de uso nos bastidores, e eu concordo que é mais prático ter uma câmera-óculos no rosto, do que acoplar uma câmera de ação com uma faixa enorme na testa e filmar com ela. Fora que esses óculos enviam o vídeo direto pro celular, o que facilita ainda mais o uso da mídia.
Eu particularmente gostaria de ter esses óculos para algumas aplicações específicas, como filmar enquanto dirijo moto/kart, mas no dia a dia prefiro meus óculos analógicos. Tenho 6.5 graus de miopia no olho esquerdo e 2.5 graus no olho direito, fora os 3 graus de astigmatismo, então um óculos “inteligente” desses com bateria de 6 horas é muito limitante pro meu caso, que só tiro os óculos para tomar banho e dormir.
É mais ou menos (com várias ressalvas nas aplicações) a situação dos smartwatches: o equipamento faz muitas coisas a mais do que as versões analógicas/burras, mas são extremamente limitados pelas baterias. Tenho um Garmin forerunner (que me arrependo de comprar, porque não faço mais provas de corrida, só corro pela saúde mesmo) e apesar da bateria durar entre 7 a 10 dias, ainda prefiro os 2 a 10 anos de bateria dos relógios analógicos ou digitais “burros”, que têm menos funções, mas fazem cumprem a função principal com louvor. E ainda tem a questão do estilo, que esses equipamentos inteligentes não combinam com nada na maioria das situações haha.
Vamos ver até onde as empresas seguirão com essas tecnologias.
>Eu particularmente gostaria de ter esses óculos para algumas aplicações específicas, como filmar enquanto dirijo moto/kart, mas no dia a dia prefiro meus óculos analógicos.
Nossa, mas uma câmera de capacete normal vai ter um campo de visão e uma autonomia muito melhor que um óculos desses posicionado dentro do capacete.
O campo de visão, pra quem pilota, é mais interessante do óculos do que de uma gopro mega aberta. Fica mais fácil de ver quando o piloto tá trocando o olhar da entrada pra tangente e da tangente pra saída de curva, por exemplo.
Cabe o comentário que o CEO da Snap fez questão de ir ao Ex-Twitter pra dizer aos quatro ventos que as orelhas dele são ~~naturalmente~~ dobradas, não seria culpa do óculos
https://xcancel.com/evanspiegel/status/2067730052746490310#m
Fica a dúvida: é “naturalmente” assim de tanto usar os SPECS Augmented Reality??
Imagina precisar acionar a garantia disso.
há mercados em que esse tipo de óculos está se popularizando e sendo bem útil. em produções audiovisuais tem sido a melhor forma de registro dos bastidores, ajudando os profissionais a divulgarem o seu trabalho sem precisar de uma pessoa para filmar quem está filmando.
um outro uso legal que vi, foi para pessoas portadoras de deficiência visual, que ajuda pra praticamente tudo.
ainda não comprei, mas tenho alguns amigos que usam o modelo Rayban Meta Wayfarer Gen 2, e olha, não são feios não. apenas a haste que vai nas orelhas é realmente mais grossa, mas o visual frontal é bem aceitável. eu usaria sem problemas.
Obrigado, uma beleza de texto – crônica exemplar.
Mark Zuckerberg com esses óculos parece o Woody Allen. Ambos muito inteligentes, muito feios e de moral questionável.
Olha o Guedin do velho testamento ;)
O único uso aceitável pra esse tipo de tecnologia me parece ser a arbitragem da Copa. E é interessante que a Fifa escolheu outra abordagem nas câmeras. Será que eles testaram esse tipo de óculos e os resultados foram ruins?
Nunca se coloca nada no rosto de atletas e árbitros sem que isso seja de extrema necessidade (como Edgar Davids usando óculos para jogar) porque uma bolada pode causar um corte/lesão muito mais sério do que o se espera.Isso também pode atrapalhar a corrida do árbitro e limitar o campo de visão dele.
Bom ponto, não tinha pensado nisso.
Boa parte das inovações passam por uma fase de mico antes, a hora que deixar de ser zuado talvez funcione, enquanto isso vamos vendo CEOs serem humilhados, not bad.
BTW, estão ganhando bem pra pagar esse mico em público.
A essa altura e com toda a riqueza que têm, “ganhar bem” lhes é indiferente.
Se quiserem fazer a manutenção do nível de riqueza (em níveis absurdos) tem que continuar vestindo o “óculos” da empresa, mesmo que a revelia.