Quase fui atropelado
No início de junho, durante uma visita aos meus pais no interior do Paraná, decidi trocar a ida à musculação por uma passada na farmácia à luz dos primeiros sinais de uma crise de enxaqueca, o melhor momento para tomar um remédio e evitar uma piora.
A farmácia mais próxima fica a cerca de 1,5 km. Calcei o tênis de corrida para unir o útil ao agradável: uma caminhada leve para buscar o remédio.
Saindo da farmácia, decidi mudar a rota para dar algumas voltas em uma pracinha onde, quando morava lá, costumava ir para caminhar.
Quase chegando à casa dos meus pais, atravessei uma avenida movimentada, sem sustos. Do outro lado, tive um lapso e, por um momento, imaginei que a rua transversal fosse de uma mão só. (Ela de fato é do outro lado da avenida.)
Olhei para um lado, nenhum carro ou moto à vista. Fui.
Durante a travessia, ouvi uma barulho alto, de batida de carro. Olhei para o outro lado e vi uma picape pequena a menos de um metro de mim. Por muito pouco não fui atropelado. O barulho veio da batida do carro atrás da picape. Arrebentou a parte frontal deste porque o carro que freou tinha um “rabicho”.

A situação foi tão surreal que demorei alguns segundos para registrar o que acabara de acontecer. (Mais sobre isso abaixo.) Ao ouvir o barulho e me virar para ver o que tinha acontecido, foi como se o acidente tivesse ocorrido longe de mim. Foi só do outro lado da rua que a ficha caiu.
Pura desatenção minha, sim, só que potencializada por um dispositivo digital: os fones de ouvido. Estava com o cancelamento de ruído ativo e, não bastasse isso, ouvindo música. Eu só ouvi a batida porque o barulho de batidas é bem alto.
Minha sensibilidade a barulhos é conhecida por quem acompanha este Manual do Usuário. Por isso, o cancelamento ativo de ruídos de fones como os AirPods Pro foi uma revelação. De repente, podia andar na rua sem ter os ouvidos agredidos por motores automotivos ruidosos.
Tudo que é demais, porém, fica ruim. Talvez se não tivesse suprimido a audição, um dos dois sentidos vitais no trânsito, teria ouvido os carros descendo na mão que julguei não existir. Poderia ter evitado a batida e a experiência de quase atropelamento.
É senso comum e tem comprovação científica — embora, para minha surpresa, os poucos estudos que encontrei sejam de uma década ou mais atrás. (Lichenstein et al., 2012, IAG/DGUV, 2012, Mwakalonge et al., 2015. Se souber de um estudo mais recente, avise-me!)
O uso de fones de ouvido na rua gera dois problemas: eles suprimem o barulho dos veículos e diminuem a atenção ao entorno porque nos concentramos na música ou no podcast.
Em um comunicado à imprensa, a Dekra, empresa alemã líder global em inspeção e certificação de veículos, trouxe algumas informações atualizadas. Por exemplo, que “fones de ouvido com cancelamento de ruídos são especialmente perigosos” porque, mesmo com a música baixa, eles retardam a reação do pedestre. A minha reação teve um atraso grande o bastante para que eu notasse.
O texto também alerta para o maior risco a pedestres desatentos proporcionado carros e motos elétricos e ciclistas, elementos menos barulhentos que ganham cada vez mais espaço no asfalto.
O ser humano tem a tendência de ignorar recomendações que julga, pelo instinto, como excessivas. Acho que era o meu caso com os fones de ouvido na rua.
Horas depois do susto, peguei-me pensando no transtorno que teria sendo atropelado. Hospital, família preocupada, possíveis cirurgias, recuperação longa, talvez sequelas. A gente se esquece que vida é frágil.
Desde o incidente, troquei os fones de ouvido na rua por um abafador de ruídos, o Loop Engage. Ele reduz o som em apenas 16 decibéis, o suficiente para mitigar motores estourados e de veículos de grande porte, sem me isolar do mundo ao redor.
Embora a Apple não divulgue esse dado, especialistas estimam que os AirPods Pro 2 — modelo que estava usando no quase fatídico dia — reduz 27 dB. Vale lembrar que a escala dos decibéis não é linear, é logarítmica, logo a redução de 11 dB é muito maior do que os números por si só aparentam.
Se tivesse morrido, eu ia chamar de suicídio.
Quando eu era adolescente fui salva por outro pedestre que me agarrou e não me deixou ir quando comecei a atravessar uma avenida muito movimentada sem olhar, num ponto sem sinal. Estava de fones, com meu moderno discman, dançando, alheia ao mundo. O pobre do anjo da guarda do momento ainda tomou um xingo porque na hora eu não entendi o gesto.
Você citou no texto en passant os veículos elétricos e eles na verdade são um baita problema porque nosso hábito andando na cidade é usar todos nossos sentidos, nunca só a visão (mesmo que a gente não perceba). Elétricos são silenciosos o bastante pra, onde são mais comuns, ter aumento do número de atropelamentos.
Junta a isso o aumento da altura da frente dos carros, que hoje atingem adultos na região do abdômen e torna os atropelamentos mais perigosos que antigamente, quando atingiam pernas.
Que bom que você não foi atropelado!
Infelizmente, as cidades brasileiras estão cada vez mais barulhentas, seja por entregadores com motos adulteradas, carros de grande porte ou obras sem controle de construtoras produzindo cativeiros gourmet por valores proibitivos. Isso sem falar a velocidade absurda que os carros trafegam, a falta de respeito dos motoristas com pedestres e ciclistas. Quando uma pessoa entra num carro, ela se esquece que é pedestre, ela toma pra si um poder mesquinho. Uso Beats Fit Pro desligado, o que já isola bem, já me ajudou a não ser atropelado quando um ônibus passa raspando quando estou de bicicleta. A redução de ruído ajuda que você não se assuste nessas horas e aconteça o pior. Resumindo esse comentário, o problema não está nos fones. As cidades já deveriam ter tomado um rumo mais voltado para pedestres e ciclistas, como acontece em lugares que estão gerações à frente. Enfim, desliguem seus fones, não usem no modo cancelamento de ruído, já isola bem.
Eu estava estudando, pra mim mesma, mobilidade urbana, e ontem meu marido me enviou que o Pita, ex-prefeito de SP, um dia foi “escoltado/cercado” por ciclistas, durante todo seu trajeto casa-prefeitura, em protesto pela falta de ciclovias. Não lembrava disso e achei genial!
Na rua eu sempre uso somente um dos lados do fone.. na real até em casa é comum haha sei lá, me agonia um pouco não ouvir alguém chamando, etc. Mas super entendo, aqui na minha cidade é barulho de obra todo dia o dia todo.
Eu sei que não tem muito a ver com
A história, mas só queria lembrar que por mais que você tenha causado uma parada brusca de um carro, o que bateu atrás é 100% culpado de bater.
Ou ele estava mais rápido do que deveria e não deu tempo de brecar, ou ele não estava mantendo a distância correta ou não estava prestando atenção (ou os 3 juntos, oq acontece muito).
Por mais que não fosse você ali, poderia ser uma criança, um animal que correu pra rua ou até algum outro obstáculo que faria o carro da frente parar e o resultado seria o mesmo, o cara cacetando a traseira.
De resto, gosto bastante do cancelamento de ruído do meu fone, ele bloqueia os sons mais graves que incomodam mais principalmente quando estou no metrô ou ônibus, mas não me isola 100% do ambiente. São Paulo tá cada dia mais barulhenta, difícil andar por aí sem eles.
A pergunta que não quer calar: esse acidente de trânsito gerou um grupo de Whastapp?
Não, hahaha! O cara da frente meio que lavou as mãos, aí só passei meu contato para o que bateu na traseira.
Além da rua, há ambientes que também demandam esse cuidado de não isolar tanto a audição. Academia é um lugar que aparentemente é controlado mas, considerando os acidentes que ocorrem nesses espaços, é bom se precaver e evitar fones ou ao menos manter um nível que você possa ouvir ao seu redor. Até hoje não consigo usar fones por isso, pesos batendo ou caindo a todo tempo e até movimentos bruscos de exercícios podem ser o limite entre a endorfina e a morfina.
Presta atenção, Rodrigo.
Que bom que você está bem.
Que susto, em, Ghedin! Que bom que ficou tudo bem e que serviu pra mudar um hábito.
Não uso fones, mas tô me reeducando a não confiar na audição depois dos carros elétricos (ter ficado um tempo com a audição prejudicada ajudou nisso também).
Oi Rodrigo! Caramba, que susto! Como mencionou, vida é isso, escapa pelas mãos. Eu já fui atropelada, há mais de 30 anos, mas é perrengue até hoje! Atravessei a rua para ir a um aniversário; detalhe: tava com o presente da aniversariante, a filha da minha madrinha que ia completar um ano. Um carro em alta velocidade me pegou com tudo! Resultado: o presente voou, acabou-se a festa, dois meses acamada, 7 fraturas, a maioria de quadril, e nem preciso dizer que não aprendi a dirigir, mas tô viva e a filha da minha madrinha não ficou com trauma de festas, rsrs!
Eu também tenho ouvido hipersensível, mas só uso protetor na rua se estiver insuportável e é aquele EPI simples.
Ainda bem que tudo terminou bem!
Relaxa. Já fui atropelada sem estar com fones, acontece! Hahah q bom q vc está bem
O que mais me impressionou foi a farmácia mais próxima ficar a 1,5 km. Quase impensável hoje no Brasil, com uma a cada esquina.
O mais bizarro é que nesse local, uma rotatória, tem *três* farmácias, uma de frente para outra, hahaha.
Falam-se que seria lavagem de dinheiro: https://www.bahianoticias.com.br/municipios/noticia/32244-feira-mp-ba-cumpre-12-mandados-em-acao-que-apura-lavagem-de-dinheiro-em-farmacias
Em Belo Horizonte eu começo a desconfiar de especulação imobiliária, dado o que estão demolindo e onde.
Gente, que perigo! Quando saio na rua quero todos os meus sentidos me ajudando a não ser atropelado. Cancelamento de ruído só em casa.
Sempre acho uma temeridade andar/correr/pedalar com fone de ouvido, nem musica no carro escuto mais, só quando tem algum carona.
Essa isolamento do mundo me dá mais ansiedade que o mundo em si, e não sei se modo transparência da conta, nunca testei e nem pretendo.
No mais, que bom que entre mortos e feridos todos se salvaram!!
Não consigo correr sem música. No meu caso, eu não gosto de correr na rua quando ñ é em eventos de corrida. Eu corro no calçadão da orla da minha cidade (salvador), que preciso só me preocupar com os irresponsáveis que andam de bike e ñ usam a ciclovia.
Eu tenho fones de cancelamento de ruído, KubaMali2 e AirPods. Usei AirPods na rua uma vez e não gostei. Eu me senti totalmente alheia ao que acontecia ao meu entorno. Os fones da Kuba são menos potentes no cancelamento, mas ainda assim também não gostei. Isolar-me do mundo sonoramente me incomodou profundamente, pois percebi justamente que corria riscos de todo o tipo. Seria como andar às cegas ou com baixíssima visão. Eu, assim como o Paulo que aqui escreveu, tenho aflição de não ouvir os meus arredores, embora ruídos desnecessários (como os de grande parte da cidade grande) me irritem.
Voltei para minha espuma laranja da 3M que diminui bastante os ruídos urbanos, mas não me deixa tão desconectada do mundo ao redor.
Costumo usar os fones de cancelamento apenas em casa – para ouvir música ou me concentrar nos trabalhos no computador. Na rua – nunca.
Bom saber que você está bem, Ghedin!
E a enxaqueca? Passou ou piorou com o susto?
O susto não ajudou em nada, mas depois que tomei o remédio, passou 🙌
Pelo mesmo motivo, em 2020 fui atropelado pelas costas por uma moto. Eu estava correndo pela rua vazia e pouco movimentada no mesmo sentido da rua. Nem eu, com fone, ouvi o motoqueiro vindo, nem ele, talvez mexendo no celular, me viu correndo.
Bati com a parte da frente da cabeça no chão e perdi o olfato por completo, rompi ligamentos do joelho e tornozelo, e um dos músculos isquiostibiais da perna esquerda.
Lendo os relatos aqui, me impressionei com a quantidade de incidentes ocorridos pelo uso de fones de ouvidos com cancelamento de ruídos.
Uma vez quase fui atropelado usando aqueles antigos fones com fio que vinham nos iPhones quando a Apple “não suportava tanto com natureza”. Estava no volume máximo e ouvindo alguma banda de rock. O motociclista me viu, mas eu não o vi. Dei um passo para trás rapidamente. Ele me xingou, eu xinguei ele (mesmo sem a razão) e vida seguiu.
Hoje, só uso fone com cancelamento de ruídos em casa e quando estou correndo em locais sem movimento de veículos automotores.
Primeiro: que bom que voê está bem. Eu já fui atropelado, quase com o mesmo cenário (fones de ouvido e desatenção à mão daquela rua), e a minha sorte foi o carro parar exatamente em cima, só esmagando meu dedão do pé.
Quero notar também como gosto desse texto Rodrigo. Não é supresa alguém que lê boa literatura (como notei acompanhando seu log de livros no outro blog) escrever bem, mas mesmo assim, foi o que mais chamou minha atenção, mais do que o fato narrado: o ritmo, a precisão e a objetividade.
A vida é mesmo muito frágil. Asisstindo The Pitt fiquei muito mais ciente dos erros perfeitamente evitáveis que normalmente subestimamos,e os enormes custos que trazem. Usar capacete ao andar de bike se tornou imperativo depois da segunda temporada.
Eu tenho uma aflição enorme de não ouvir os meus arredores. Mesmo sozinho em casa, uso fone em um só ouvido ou ligo uma caixinha de som. Eu fico impressionado em ver pedestres, ciclistas e, de vez em quando, até motociclistas de fone de ouvido.
A vida é frágil demais, um acidente besta pode matar e pode também te incapacitar por toda a vida. Até um simples osso quebrado pode causar sequelas para sempre.
Gente, fora de ambientes controlados nunca liguem o cancelamento de ruído. Ele é pra usar em casa, no escritório, no avião, na fila do dentista…
O modo transparência tá aí pra gente usar.
E o Ghedin bem belo vai embora como se nada tivesse acontecido, deixando ambos os motoristas com o prejuízo. Mais um dia no trânsito brasileiro.
Hahahaha! Eu fiquei quase uma hora lá conversando com os dois e analisando o estrago, e deixei meu telefone com o cara que bateu atrás do carro.
Ghedin, que situação!
Só compartilhando minha experiência, sem querer passar dica ou nada do tipo.
Costumo pedalar aos domingos usando fones de ouvido, mas sempre no modo de transparência (ou som ambiente dependendo da marca).
Redução da autonomia da bateria do fone, mas nada que comprometa o passeio.
Ghedin, você causou esse acidente, certo? A reflexão sobre fones é válida, mas achei que o relato ficou meio deslocado. A desatenção foi de quem atravessou, e isso quase causou o próprio atropelamento e ainda provocou uma batida com dano material a terceiros.
Eu achei que isso ficou bem claro no texto.
Sim, fui eu. Em momento algum, incluindo no pós-quase acidente, neguei a culpa, hehehe. E deixei meu telefone com o cara que teve prejuízo.
Como alguém mencionou acima a culpa não foi dele. O Código Brasileiro de Trânsito prevê preferência dos pedestres, por serem o elemento mais frágil na mobilidade. Para proteger vidas, existe um regramento, como por exemplo velocidade máxima e distância entre veículos, que ajudam a evitar esse tipo de situação.
Eu sei que é fácil culpar o Ghedin nessa história (e no texto ele diz que ele causou) mas não é bem assim que a leitura deve ser feita.
Eu deixei de usar fone de ouvido quando saio exatamente por isso. Eu prestava atenção na música ou podcast e não via mais nada ao redor. Eu causei um acidente de moto (o motoca freou em cima de mim e tinha areia no acostamento, ele derrapou e caiu) onde eu fui 100% culpado e, provavelmente, foi por conta de estar de fones (com cancelamento, o Galaxy Buds 2) e estar vivendo em outra vida.
No final, como eu saio pouco, é melhor o incomodo do barulho da rua/cidade do que causar acidentes.