Do narrar para viver ao viver para narrar

Paris Hilton, no estilo pop art, repetida várias vezes na imagem.

Numa tarde de 1912, um sujeito chamado Adolph Zukor esperou durante três horas para ter uma reunião com um dos homens mais poderosos na indústria cinematográfica norte-americana: Jeremiah Kennedy, o presidente da Edison Company.

Zukor nasceu na Hungria e emigrou aos Estados Unidos após seus pais morrerem, quando tinha 16 anos. Depois de trabalhar consertando poltronas em seus primeiros anos nos EUA, Zukor achou uma carreira de sucesso consertando e vendendo peles de animais. Não era tão fã assim de cinema, mas quando um primo lhe pediu um empréstimo para abrir um cinema em Nova York, entrou como sócio. Gostou tanto que investiu US$ 18 mil (uma fortuna na época) do próprio bolso para levar aos EUA um filme francês chamado Queen Elizabeth. O sucesso do filme não apenas pagou o investimento, como capturou a atenção de Zukor. A partir daí, era óbvio para ele qual o caminho que o cinema deveria tomar.

Uma pausa para contexto. No começo do século passado, a partir de 1900, começaram a aparecer os primeiros cinemas comerciais no mundo, chamados nos EUA de “nicklodeon” — foi daí que o canal televisivo infantil tirou seu nome. Cinemas não eram dedicados a filmes, mas casas de espetáculos onde filmes se alternavam com apresentações circenses. A experiência de passar horas num “nicklodeon” era desgraçada, o que me faz questionar a escolha do nome do canal infantil, mas enfim. “Teria sido mais confortável ver o filme a bordo de um trem carregando gado que de onde eu sentei. Existiam 500 cheiros combinados em um. Uma jovem mulher desmaiou e teve que ser carregada do teatro”, diz um texto publicado em 1910 na revista setorial Moving Picture World. Ver um filme de duas horas em um ambiente confortável estava fora de cogitação, o que nos leva ao homem poderoso que Zukor estava esperando em 1912.

A Edison Company era a chefona de um cartel de dez empresas que, juntas, controlavam todas as patentes necessárias para se reproduzir qualquer filme. Ou seja, ainda que Zukor fosse dono do cinema, ele precisava de autorização do chamado Film Trust para passar os filmes. Este Trust controlava todo o processo cinematográfico — das poucas obras feitas nos EUA, sem muita qualidade, risco ou créditos, ao que era distribuído aos cinemas independentes. Ainda que tivesse sido um dos inventores por trás da tecnologia de projeção, os EUA não tinha muito poder no mercado cinematográfico global. Quem dava as ordens era a França, onde dois grandes estúdios, o Gaumont e o Pathé, faziam a maioria dos grandes filmes.

O Trust não tinha problema nenhum com isso. O grupo vendia filmes para os pequenos cinemas no esquema bandeja de iogurte: pacotes atrelando filmes de pouco apelo com os protagonizados pelas estrelas. Você levava os de morango, mas ganhava uns de ameixa também. Era isso que Zukor queria mudar e o que fez esperar três horas até que Jeremiah Kennedy aparecesse. Quando ele, de fato, apareceu, a reunião não durou muito. “O tempo não é de ‘features’ (os filmes mais trabalhados), se é que algum dia será”, disse o chefão antes de dispensar Zukor.

Foi a partir daí que o húngaro, dono de um cineminha e que havia trabalhado com peles de animais, percebeu que depender da aprovação do Trust não ia dar em absolutamente nada e que era preciso adotar um novo caminho, no qual os donos dos cinemas pudessem mostrar o que quisessem. A estratégia envolvia um pé no tribunal, já que o Trust tentaria (e tentou nas décadas seguintes) usar os poderes das suas patentes para sufocar Zukor, e outro pé no mercado criativo, já que, se quisesse mostrar “features”, ele mesmo teria que fazê-los.

Foto antiga de Adolph Zukor.
Adolph Zukor. Foto: Apeda Studio/Wikimedia Commons.

Adolph Zukor não era o único dono de cinema insatisfeito com o Trust a trilhar o caminho de um estúdio próprio. Existiam outros, como William Fox, Samuel Goldwyn e ps quatro irmãos Harry, Albert, Sam e Jack Warner. Se você é minimamente atento, deve ter percebido que esses sujeitos todos não são completamente desconhecidos; você já ouviu o nome deles em algum lugar.

A visão que todos tinham do cinema transformou a forma como os filmes são feitos e exibidos até hoje. Todos criaram estúdios que se tornaram as pedras fundamentais de Hollywood: William Fox fundou o que viraria o 20th Century Fox; Samuel Goldwyn está por trás da Metro-Goldwyn-Mayer (ele é o G da MGM); Harry, Albert, Sam e Jack construíram a Warner Brothers (“irmãos Warner”) e Zukor se tornou o dono da Paramount.

(Esta cena toda é descrita no quarto capítulo de Master Switch, do Tim Wu, um dos livros fundamentais para você entender o atual cenário de telecomunicações no mundo. Eu não me canso de aconselhar os outros a ler esse livro. Com o risco de tropeçar na mania hiperbólica atual, um assunto que discutiremos adiante, é excelente.)

Hollywood nasceu pelas mãos de um grupo de imigrantes que não entendia quase nada de cinema e lutou contra um cartel liderado por Thomas Edison porque queria implementar uma nova forma de fazer cinema. O nascimento de Hollywood promoveu algumas outras mudanças não atreladas diretamente ao ato de escrever, filmar e editar uma história em película (ou HD, agora). Junto a Hollywood nasceu a super-estrela, a atriz/ator que todo mundo é capaz de identificar. Até então, celebridades já existiam. Desde a Grécia Antiga, pelo menos, os principais atletas e atores de peças ganhavam até comida e presentes para endossar uma marca. (E você achando que os recebidos do Instagram eram uma novidade…) Mas a escala global do status de celebridade aparece só com o cinema.

A estratégia do Trust combatia exatamente isso. Nos filmes mudos, por exemplo, os nomes não eram atrelados aos rostos, o que levava o público a conhecer um rosto, mas sem ter ideia de quem era seu dono, tudo por que o Trust não queria que as estrelas pedissem salários maiores. Já Hollywood estava felicíssima e até incentivava essa idolatria ao ego por entender que isso servia tanto à atriz/ao ator como ao negócio. “Fazer filmes é uma atividade cara e de alto risco. Estrelas são usadas pela indústria do filme como uma forma de tentar controlar a demanda do público. Distribuidores usam a presença de estrelas para vender filmes aos exibidores domésticos e estrangeiros. E os exibidores, que são donos de cinemas, são atraídos pelas estrelas por acreditar que elas atraem o público. Neste circuito, a celebridade se torna uma espécie de capital, usada com a intenção de ter vantagem no mercado cinematográfico e ter lucros maiores”, segundo o livro The Star System: Hollywood’s Production of Popular Identities, do Paul McDonald.

Zukor sabia bem disto. Em 1916, já transformado em produtor de filmes, ele reverteu completamente a política do Trust ao contratar 16 atores e atrizes e estampar 16 estrelas no logo do estúdio para mostrar o quanto os profissionais eram importantes ao negócio. Hoje, a estratégia do Zukor é um mantra no ramo cinematográfico. As primeiras estrelas de cinema1 foram todas gestadas nesta era.

O cinema nos fez amar, nos acostumar e, mais que isso, aspirar em ser uma celebridade, essas pessoas que não parecem normais, que vivem em um andar acima da humanidade reservado a quem é incapaz de andar na rua em paz. Essa popularidade global de uma pessoa frente a outros está umbilicalmente ligada ao conceito de mídia de massa. O cinema fundou, a TV aumentou e a internet explodiu o conceito de celebridade.

O cinema, o rádio e a TV criaram celebridades como uma via de mão única: do emissor (o filme, o programa de TV) para o receptor (você e eu). A gente, que estava na plateia e não no palco, olhava aquilo fascinado, cogitando como seria se fosse você ali na novela ou no palco tocando um instrumento, recebendo um prêmio, sendo pago para dar a sua opinião na TV. Quem nunca se imaginou agradecendo a meio mundo depois de ganhar um prêmio? É ridículo, mas essa sensação aspiracional — de ver e tentar se colocar no lugar em momentos de glória, de preferência — é humana. O ato de endeusar um outro humano por fazer bem sua atividade nasce na cultura e se espalha para todas as outras áreas profissionais: atrizes, músicos, atletas, executivas, jornalistas, youtubers e até assassinos (se você acha exagero, lembre-se das cartas apaixonadas que Charles Manson recebia na prisão).

Mas daí chegam a internet e os smartphones. A câmera, que antes estava voltada para um monte de gente que você nunca tinha visto ao vivo na vida, começa a se direcionar para você. Você mesmo faz isso. Nós, sempre acostumados a sermos plateia, começamos a brincar de celebridade — escrevendo em blogs, transmitindo o almoço, fotografando o programa de sábado à tarde. A vida não é tão interessante como a de um ator, por exemplo, mas eu quero contá-la. Até que alguns da plateia fazem tão bem o que se propõem que começam a ganhar projeção. Um humorista fecha contratos a rodo pela grande projeção online. Uma banda viraliza com uma canção e fecha contrato com a gravadora. E a plateia vê que não é mais, necessariamente, plateia. Que pode virar celebridade também.

A gente também pode ser o centro das atenções dos outros, desde que saibamos capturar aquela atenção. Empresas percebem que há um mercado enorme a se explorar aí. Quando marcas começam a se atrelar a gente que antes era plateia, o modelo ganha um carimbo de aprovação: está provado que o modelo se sustenta financeiramente. E há a lambida no ego também — todo mundo quer ser amado, gosta de ser amado. A celebridade é abraçada por uma multidão que ela não conhece, seja para enaltecer um trabalho, atenuar uma dor ou só apagar algumas inseguranças que sempre aparecem. Alguns começam a ganhar muito dinheiro contando a própria vida, ainda que, olhando bem de perto, você comece a suspeitar que aquilo não é bem a vida do cara, é um teatro de vida, um simulacro. Mas há dinheiro a ser feito e egos para serem alimentados imitando quem já deu certo e mostrando ao mundo sua própria vida.

Conforme os posts, os vídeos, os tweets, os textos vão angariando likes, comentários, compartilhamentos e boca a boca, a gente vai achando o próprio público e começa a desenvolver o formato mais condizente para atrair o máximo de atenção possível.
De propósito, começamos a narrar. E, sem perceber, aquilo vira um padrão na nossa vida. No começo, a gente narra para mostrar a nossa vida. Para as plataformas digitais, essa narração incessante é o melhor dos mundos — significa que você vai passar horas e horas do seu dia pensando em como posar para aquela foto, qual legenda colocar, o filtro a ser usado e, depois de publicada, como foi a reação do público a ela. Na busca por atrair a atenção do público para a narrativa que está sendo lapidada, a pessoa entrega sua própria atenção à plataforma.

Alguns dos narradores vão encontrar seu próprio nicho e conseguir pagar as contas. Outros, conseguirão se desgrudar da manada e virarão influenciadores que movimentam dinheiro suficiente para ter um entourage ao redor, como as estrelas de cinema ou do futebol. A maioria vai mostrar um cachorro, um prato de rabada e um ingresso de cinema e vai ficar por aí. Independente do balde em que você cair, há uma certeza: todas as plataformas vão ganhar.

A gente sempre narrou

Há coisa de um mês eu fui ao Farol Santander, um museu organizado na Torre do Banespa. O estado de São Paulo teve um banco público durante décadas chamado Banespa que foi vendido em 2000 para os espanhóis do Santander durante a privatização bancária no Brasil. Em 1947, o Banespa inaugurou um prédio enorme no centro de São Paulo que serviu, durante décadas, como sua sede. Após a privatização, o Santander manteve sua sede em outro lugar e reformou a Torre do Banespa para virar um museu.

Existem exposições em alguns dos andares da torre e, lá em cima, é possível ter uma vista espetacular de São Paulo. Não é um lugar muito vazio, precisa marcar hora para subir e eu tentei comprar em três fins de semana até achar uma vaga. Isso significa que, ao chegar no mirante do 26º andar, é preciso paciência para trafegar e tirar fotos, não só por ter muita gente, mas porque uma boa parte dessa gente está ocupada fazendo poses e tirando (sem brincadeira, eu contei) 34 fotos em apenas um lugar. Com a paciência já meio gasta, você pega um elevador e vai ver as exposições. E tome paciência de novo, já que, para uma galera, a hora não é de apreciar ou admirar, mas de usar as obras como pano de fundo para as próprias poses.

Celular tirando foto de uma foto antiga do Edifício Farol Santander.
Foto: Governo do Estado de São Paulo/Flickr.

Entenda que isso não é uma acusação contra o Farol Santander. Esse hábito funciona também em museus mais tradicionais, como o MASP. A culpa não é do museu. É um “zeigeist”, é a época em que vivemos onde a narrativa é fundamental para se entender quem se é. Tanto que as próprias exposições estão se adaptando a esta realidade — um vídeo muito bom da Vox explica a popularidade atual das “Instagram traps”.

O foco que eu quero dar a este Tecnocracia não são as plataformas em si. Elas são veículos que se beneficiam claramente e, usando técnicas criadas de forma pioneira pelas indústrias do cigarro e dos jogos de azar, garantem que você passe horas e horas dos seus dias pensando em como aquele post “engajou” (para usar um termo que o mercado adora) e em como fazer para que o próximo post engaje mais. O foco deste Tecnocracia é do outro lado da corda: nós. Todo mundo narra a própria vida, mesmo antes do Instagram. Todo mundo olha para trás e tenta conectar os episódios de alegrias, tristezas, sucessos e falhas para tentar contar uma história mais ou menos coerente. E, ao narrar, cada um interpreta um ou outro episódio à sua própria maneira.

A gente vê isso se manifestando claramente, por exemplo, quando você ouve uma amiga(o), irmã(o) ou namorada(o) contar uma história da qual você também participou, que você conhece e da qual reconhece alguns detalhes exagerados ou completamente inventados. Para quem conta, foi essa a maneira encontrada para olhar para trás e dar o mínimo de sentido ao que ele viveu. A gente gosta de dar uma importância tremenda à própria história. Não é curioso como todas as histórias de regressões que supostamente revelam as vidas passadas mostram que o sujeito quase sempre foi um rei ou rainha de uma ilha X? Escravo ou plebeu, os dois maiores grupos sociais da época, ninguém nunca foi, é impressionante. Ninguém fala que foi, na vida passada, o limpador de latrina do vilarejo ou que viveu 20 anos empurrando bloco de granito para montar uma obra nababesca exultando a religião do seu mestre. Se for no modo automático, é provável que você pincele sua história com cores mais chocantes e atos mais heróicos do que, realmente, foram. Todo mundo narra para viver.

A impressão é que a narração da própria vida inverteu o vetor: em vez de ser algo que a gente faz para amarrar o passado, ela se torna o condutor. Em vez de ser um espelho do que está acontecendo na sua vida, a busca por likes, comentários e compartilhamentos começa a balizar o que a gente faz na vida real. As fotos que a gente tira, os vídeos que a gente grava, a forma como a gente conta determinados causos. Há algo de construção de identidade na forma como as pessoas se apresentam na internet e, se tantas pessoas gastam todo esse tempo para narrar, é porque elas querem lapidar da melhor forma como acham aquela figura própria que todo mundo vai consumir digitalmente. Em outras palavras: em vez de narrar para viver, a gente vive para narrar.

O que nos leva a um processo que eu carinhosamente chamo de “parishiltização”. Como você, ouvinte mais esperto, já deve ter se atentado, o termo faz referência à atriz, cantora, escritora socialite Paris Hilton. Por que Paris Hilton é famosa? Você pode até alegar que foi a sextape que vazou há alguns anos, mas dezenas de sextapes de desconhecidos vazaram e eles sumiram tão rápido quanto apareceram. Paris Hilton é conhecida por ser famosa. No meio do caminho, ela tentou arrumar alguma atividade que justificasse sua fama — foi atriz (medonha), cantora (medonha), empresária (medonha). O cerne é que ela é famosa por ser famosa. Neste atual modelo de narrar a própria vida online em busca de uma brecha que te torne famosa, todo mundo tenta um pouco se abrigar no mesmo nicho da Paris Hilton, o da fama pela fama. Alguns têm habilidades tão especiais e poderosas que vão virar famosos nas costas do próprio talento. Mas já tem uma galera hoje que não é nada de especial e se tornou famosa porque estava lá.

Em meio a essa manada de Paris Hiltons, como se sobressair? Radicalizando. Fazer algo diferente, que quase ninguém é capaz de fazer, seja por covardia ou bom senso. E dá-lhe “digital influencers” dando bolacha com pasta de dente para mendigo, destruindo uma formação rochosa milenar ou filmando e fazendo piada com o cadáver de um suicida. Em nome dos “views”, o sujeito perde a humanidade, o bom senso.

Na Califórnia, visitantes do Antelope Valley California Poppy Reserve ignoram os avisos para se manterem na trilha pela necessidade de tirar uma foto com as papoulas florescendo. O problema é que as flores das papoulas são extremamente frágeis — uma pisada é suficiente para matá-las, o que não impede uma multidão de youtubers e instagrammers de sair das trilhas para deitar, pular ou colocar um cavalo sobre as flores em nome das fotos para atrair likes. O vídeo da Vice mostrando essa conferência de imbecis é daqueles que te deixam com raiva pelo resto do dia. Quase 150 mil fotos no Instagram carregam a tag #superbloom, em referência à floração das papoulas californianas. Um comentário no vídeo da Vice foi na mosca: “espero que as flores se adaptem e se tornem venenosas”. Eu também.

Essa radicalização não serve só para ações, mas também para palavras. Pela forma como foram feitas, as redes sociais tendem a dar mais projeção a quem radicaliza o discurso. Um estudo do professor de psicologia da New York University, Jay Van Bavel, mostrou que o uso de “termos morais e emocionais”, como “ódio”, “vergonha”, “medo” e “culpa” aumenta em 20% por palavra (!) a taxa de engajamento de um tweet. Não à toa, vivemos numa época hiperbólica2. Baseado no estudo de Van Bavel, a hipérbole é uma forma de “engajar” (de novo esse termo horrível). Se você for elogiar este podcast, por exemplo, pode escrever “O Tecnocracia é um podcast de análises equilibradas” e ganhar um like. Ou apelar para o “O TECNOCRACIA É BOM PRA CACETE, MELHOR PODCAST DE TECNOLOGIA DO ANO, QUEM NÃO ACHAR VAI TOMAR NO **” e ganhar dez likes e ainda sair com a pecha de louco entre seus amigos por ofender geral só por causa de um podcast.

O exemplo é meio exagerado (olha lá a hipérbole…), mas você entendeu. A moderação é engolida pelo extremismo na internet. A “hiperbolização” do discurso online significa que, sempre que você entra no Twitter ou no Instagram, tem alguém falando, muitas vezes numa linguagem exagerada, que viu o melhor filme da vida, riu do melhor meme de todos os tempos e leu o livro que mais lhe abriu a cabeça, ainda que, muito provavelmente, as pessoas não se lembrem mais direito do filme, do meme e do livro na semana seguinte.

Nada exemplifica essa histeria melhor do que a hashtag YOLO, corruptela para “You only live once” (entra a sessão Luciana Gimenez do episódio: você só vive uma vez). O YOLO virou uma espécie de mantra para dizer que a vida é curta e, portanto, todos temos que aproveitar ao máximo. Até aí, nada de errado. É mesmo. Temos mesmo. O que o YOLO sugere para combater isso é um estilo de vida um pouco limitado, apinhado de baladas, clubes, viagens e algumas celebridades. Se você acha exagero meu, dê uma olhada na hashtag YOLO no Instagram — não tem ninguém sentado na poltrona lendo Anna Karenina, por exemplo. Eu vou ter um filho um dia e publicar no Instagram com a hashtag YOLO, porque, puta merda, não existe coisa melhor para meter o selo YOLO do que combater a própria mortalidade colocando outra pessoa que carrega 50% dos seus genes no mundo. Enfim. A vida é de cada um para cada um fazer o que quiser com ela, mas é óbvio que o YOLO é produto desta hiperbolização da vida, como se todo mundo fosse obrigado a ter uma vida “interessante” (cheia de aspas). Em qual molde de interessante, cara pálida?

Se a gente não consegue tornar nossa vida mais interessante, então a solução é aumentar a intensidade para o nível 11.Tudo é lindo, tudo é transformador, tudo vai ficar gravado na cabeça, qualquer passeio ou episódio corriqueiro é pintado com cores super fortes e carrega uma mensagem importante sobre empreendedorismo, dar a volta por cima, se aceitar e o escambau. O sujeito vai comprar uma Coca-Cola na padaria e, na volta, escreve um roteiro do Almodóvar. Nem tudo na vida é excitante. Para falar a verdade, são poucas as coisas que são de verdade e você pode tentar pintar aquilo como algo impactante e arrebatador, o que não muda a natureza daquela experiência. No fundo, além de a gente morrer afogado (piada do tio do pavê), a gente sabe que não tem essa importância toda. Em outras palavras, a gente sabe que está se enganando. Fica uma coisa meio vazia, uma figura de papelão, com uma excelente apresentação para os outros, mas sem nada por trás.

É muito cansativo viver assim. Gasta-se muita energia narrando para os outros e tentando arrancar de qualquer episódio da vida algum tipo de lição. Às vezes tem lição. Na maioria das vezes, não. A vida é meio besta mesmo e a compulsão em narrar, em construir uma narrativa que traga suas aspirações para o mundo real, ceifa totalmente a espontaneidade da vida. Todo mundo quer ser Gabriela Pugliesi, todo mundo quer ser Dan Bilzerian, um ex-soldado que ficou milionário supostamente jogando pôquer e que aparece no Instagram todo sarado em sua mansão cercado de beldades de biquíni fazendo esportes radicais. Se você construísse uma máquina para destilar toda a aspiração do homem hétero médio, sairia o Dan Bilzerian de lá. Só que a vida dele não é a tua. Nunca vai ser e isso vale para todos esses outros influenciadores que esfregam na nossa cara a narrativa da vida perfeita. Se você acredita nisso, sério, sem piada: procure ajuda, porque isso provavelmente está nublando sua capacidade de julgar as prioridades da vida.

Presos no personagem

Um risco óbvio que esse excesso de narrativa nos coloca é nos enclausurar no personagem. Porque o que você mostra para os outros no Instagram e no YouTube é um personagem que você criou, seja pela impostação de voz ou pelo que você escolhe mostrar. São poucos os caras que fazem sucesso mostrando a vida não editada (o melhor deles é um sujeito baiano chamado Hawk no YouTube e no Instagram). O Lulu Santos já dizia na década de 1980 para não levar o personagem para a cama que pode acabar sendo fatal. É mesmo. O personagem é uma versão limitada sua.

Fissurados em narrar a própria vida como algo super interessante, a gente periga deixar de ser uma manada de Paris Hiltons para virar uma manada de Caubys Peixotos. Cauby foi um dos cantores de maior sucesso do Brasil que acabou engolido pelo personagem. Ninguém descreve melhor essa relação que o jornalista Fred Melo Paiva num perfil escrito para o jornal O Estado de São Paulo. “Cauby Peixoto é um personagem. Acontece que ele nunca desce do palco. Digamos que, já faz muito tempo, sua pessoa física foi engolida pela jurídica. Um exemplo para entender esse estranho processo: quando chega ao quarto do hotel, fecha a porta e fica sozinho ele continua sendo o mesmo Cauby Peixoto, preocupado exclusivamente com música, acocorado sob suas perucas importadas”. O perfil, o melhor já escrito sobre o cantor, faz parte de um livro chamado Bandido raça pura que junta 36 perfis escritos pelo Fred, um dos melhores textos do Brasil. Te aconselho fortemente a ler.

Você pode alegar que essa síndrome de Cauby torna as redes sociais insuportáveis, mas que o responsável pela escolha das contas que compõem seu feed sou eu, no que eu te dou 100% de razão. Uma das razões que me afastaram de redes sociais é não aguentar mais viver nesse mundo irreal. Pessoalmente, é só não abrir o Instagram ou parar de seguir umas pessoas que o problema se resolve parcialmente. Por que parcialmente? A partir do momento em que você não está mais interessado em mostrar para seu séquito do Instagram como passou a tarde de um sábado, você começa olhar ao redor e perceber o quanto de energia se gasta para contar a própria história online e como a insistência de alguns desses narradores digitais cruza umas linhas e tem consequências para todo mundo. E isso não vale só para a vida pessoal. Um dos setores hoje mais dominados pela necessidade de lapidar narrativas nem sempre relacionadas com o mundo real é a política.

O tipo de política feita pelo atual presidente do Brasil envolve desacreditar as instituições tradicionalmente ligadas à divulgação de fatos, como centros de pesquisa e jornais, e a construção de narrativas delirantes que mantêm eleitores e correligionários sempre na ponta dos cascos, com medo e prontos para agir. O político constrói, aos poucos, um mundo onde cada vez mais dos seus eleitores se sentem confortáveis para acreditar em coisas que qualquer pessoa com bom senso vira os olhos quando escuta (estou falando de você, mamadeira de piroca). Este mundo digital, lapidado pelo político com ajuda de um turbilhão de assessores e alimentado pelas narrativas delirantes, se descola da vida real e engrossa o caldo que leva à polarização. Problemas que não existem na realidade, como a doutrinação comunista em escolas, viram questões urgentes no mundo digital. Os problemas reais passam, então, a coadjuvantes: o Brasil tem 13 milhões de desempregados, com uma economia prestes a entrar em recessão de novo, mas nada disto frequenta as narrativas digitais. São problema reais, palpáveis. Ainda que claramente o atual presidente tenha se beneficiado muito mais do que se prejudicado pelos boatos divulgados online, é bom esclarecer que a construção de narrativas delirantes não é exclusividade do seu espectro político: no lado oposto, um ex-presidente duvida da facada que o atual presidente levou. É estarrecedor.

A política exemplifica brutalmente o perigo de se ficar preso a esse mundo construído pela narrativa digital, principalmente porque os afetados não são só os que ajudaram a construir a narrativa. A compulsão acaba impactando a todos nós, que vivemos fora dela, na realidade.


  1. O mais famoso do grupo é o Rodolfo Valentino. Pergunte para sua avó (ou avô, sei lá) e ouça os suspiros da velha.
  2. Na língua portuguesa, hipérbole é uma figura de linguagem que se destaca pelo exagero e pelo drama empregados na hora de classificar alguma coisa.

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