Como o Vale do Silício criou o conto de fadas para adultos

Ilustração vintage de Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau disfarçado de Vovozinha.

Qual é a música mais bonita já escrita no Brasil? Você pode até chutar um monte, mas a minha eu já escolhi. É uma música escrita em parte por um dos maiores brasileiros a ter pisado nessa vida. Paulo Emílio Vanzolini fez uma carreira de enorme sucesso na biologia — médico formado pela USP com doutorado em Harvard e décadas como diretor do Museu de Zoologia da USP, o mais importante do país. Mas você não conhece Paulo Vanzolini por sua carreira de inegável sucesso na biologia. Fora da expediente, Vanzolini compunha músicas baseadas no que observava quando estava em São Paulo ou mergulhado no Pantanal por semanas fazendo seus estudos. Você provavelmente já ouviu Ronda e Volta por cima. (Se não está lembrado, pare de ler este Tecnocracia e vá ouvi-las, de preferência nas interpretações da Maria Bethânia. Uma regra de vida: se a Maria Bethânia cantou, é improvável que você ache uma interpretação melhor.)

A música mais bonita da MPB não é nem Ronda nem Volta por cima. Em uma das várias viagens que fez ao interior do país para observar, estudar e recolher espécimes para o museu, Vanzolini ouviu de dois pescadores uma música simples sobre saudade. Vanzolini ouviu, anotou e, quando chegou em casa, compôs versos que faltavam. Nasceu o Cuitelinho, com aquela ingenuidade e melancolia que só a música tradicional caipira atinge.

A tua saudade corta / Como aço de navaia.
O coração fica aflito / Bate uma, a outra faia.
Os óio se enche d`água / Que até a vista se atrapaia.

Tudo no jeito capiau de falar — a troca de “olhos” por “zóio”, “navalha” por “navaia”. Se você ainda não ouviu, pare a leitura novamente e vá ouvir Pena Branca & Xavantinho cantando. Só não ouça se estiver meio triste ou for entrar numa reunião, que o coração da gente pesa.

O mérito de Vanzolini foi não apenas completar os versos, mas registrar uma canção popular que, não fosse por ele, certamente ficaria restrita a algumas centenas de pessoas. O compositor biólogo registrou a sabedoria popular, o folclore, e isso tem um valor enorme.

Desde que os primeiros Homo sapiens saíram da região da Etiópia ou do Marrocos na África (há uma discussão motivada por descobertas recentes) e passaram a povoar o planeta, a humanidade vive de contar histórias. As pinturas nas cavernas de Lascaux, na França, foram uma tentativa rudimentar de registrar o que acontecia com aquele grupo específico — a busca por comida, as relações sociais… As histórias cumprem alguns papéis primordiais para a humanidade. Elas criam ídolos ao redor dos quais aquele grupo orbita, dão forma ao que foi vivido para que entendamos o sentido (ou a falta de) daquilo tudo e ajudam a manter a coesão em grupos que foram se complexificando socialmente. As religiões são, essencialmente, apanhados de histórias com uma moral, um direcionamento embalado.

A gente não precisa mais fugir de um tigre dente de sabres, mas as histórias continuam a cumprir esse papel. Até o desenvolvimento da escrita, a maioria dessas histórias se perdeu. Algumas resistiram pelo trabalho árduo de arqueólogos e antropólogos que interpretaram as pinturas e inscrições tribais e as contextualizaram com outras informações sobre como aqueles humanos viviam a fim de entender o que os registros poderiam significar.

É no papel das histórias como guias morais que a gente vai se concentrar neste Tecnocracia. Parece um tema distante da tecnologia, mas fica comigo que daqui a pouco você vai entender como o Vale do Silício inventou um novo tipo de fábula, com as mesmas situações delirantes e uma moral totalmente invertida.

A origem das boas fábulas

Um tipo de história que sobreviveu durante séculos e continua viva até hoje é a fábula. A fábula costuma ser uma história curta com a participação de humanos e animais interagindo, muitas vezes com os animais assumindo comportamentos humanos, como a fala. No fim de toda fábula há uma lição de moral que amarra o episódio que se desenrolou antes. Essa moral se chama epimítio, uma palavra que, surpreendentemente, não foi inventada pelo Seu Creysson (nossa, que piada boa…).

Fábulas são métodos excelentes de passar valores e lições para quem ainda não tem um vocabulário muito extenso — as crianças. Em vez de explicar o conceito de credibilidade e sobre a dificuldade de recuperá-la após episódios de picardia ou até os riscos envolvidos com sua falta, é mais fácil contar que num vilarejo existia um menino chamado Pedro que, todo dia, assustava a todos falando que um lobo estava vindo para devorá-los. Nos primeiros dias, a brincadeira de Pedro enganou muita gente, mas, conforme se repetia, a piada perdia a efetividade até o dia em que o lobo realmente veio, Pedro gritou, todo mundo cagou para o Pedro e o lobo destroçou os habitantes daquela vila pacífica. Fim e lição passada: só fale algo grave quando for real.

O sujeito que transformou a fábula num estilo próprio de literatura foi um grego chamado Esopo, ainda que não exista um consenso sobre partes fundamentais da sua história. Principalmente se ele existiu ou se foi um personagem para quem creditaram centenas de fábulas. “A maioria dos pesquisadores modernos acredita que Esopo foi um nome inventado já na antiguidade para prover atribuição a um conjunto de histórias orais cujos autores foram vários contadores de histórias anônimos”, escreve D. L. Ashliman, um professor da Universidade de Pittsburgh que dedicou sua carreira a estudar manifestações folclóricas, como as fábulas.

Se Ashliman tem razão, então a história de vida que inventaram para justificar Esopo é digna da melhor literatura. Segundo ela, Esopo era um escravo horrendamente feio que, de tão esperto, ganhou a alforria e virou conselheiro de reis na Grécia do século V antes de Cristo. De tanta sabedoria vieram centenas de fábulas que a gente continua contando até hoje para as crianças e, em alguns casos, para adultos. Na obra de Esopo existem fábulas “em que crianças se embebedam (O menininho que vomitava tripas), velhinhas são violadas (O rapazote e a velha), raça é fator de discriminação (O carro de Hermes e os árabes, O etíope) e que aludem à pederastia e à prostituição (Zeus e a vergonha)”, segundo a professora de literatura grega Adriane Duarte para introdução de uma versão das fábulas de Esopo publicada pela Cosac Naify em 2013. Do que se tira que fábulas servem a adultos também, embora seja bom esclarecer que algumas do Esopo são preconceituosas e puramente escrotas.

Real ou criado, Esopo foi o primeiro, mas não o único. Os Irmãos Grimm — Jacob e Wilhelm (ou seja, meu xará) — também passaram grande parte de suas vidas coletando histórias do folclore popular e publicando-as em edições voltadas para crianças. Basicamente, quase toda história infanto-juvenil que a gente consome até hoje saiu dessas fontes.

As fábulas de Esopo já serviram de base e foram reprocessadas em milhares de filmes, livros, músicas e ditados que a gente repete diariamente — a história da lebre que aposta corrida com uma tartaruga e perde ou o lobo fantasiado com pele de cordeiro ou a formiga trabalhando enquanto o gafanhoto curte a vida ou a raposa comendo uvas azedas (descanse em paz, Reginaldo Rossi). Bilhões de crianças tiveram o primeiro contato com conceitos fundamentais para se viver em sociedade, como ética, respeito, decência e a busca incessante pelo que te define, pelas palavras do Esopo.

O impacto dos Irmãos Grimm é mais pontual: muitas das histórias infantis que continuam hipnotizando crianças até hoje são versões dos contos orais compilados pelos irmãos. Chapeuzinho Vermelho, A Bela Adormecida, Branca de Neve e os sete anões, João e Maria, Rapunzel, O Flautista de Hamelin, O Pequeno Polegar — só desta lista você entende, por exemplo, o quanto a Disney se apoiou nas histórias dos Grimm para estabelecer seu império atual. A primeira animação da Disney foi Branca de Neve e os sete anões, de 1937. (Aliás, é inacreditável a qualidade da animação para 1937! Quem viu o filme nos cinemas na época deve ter ficado de queixo caído.) A Wikipedia tem uma lista enorme com todas as animações da Disney e as obras da literatura mundial nas quais elas foram baseadas.

Essa capacidade que histórias bem feitas têm de atrair a atenção durante anos, criar ídolos e influenciar o comportamento de multidões jamais passaria despercebida por sistemas econômicos e políticos. Ainda que ambos dependam um do outro e tenham vários pontos de interseção, a gente vai focar na economia.

O poder do storytelling

Há algumas décadas, o capitalismo percebeu que poderia aumentar a margem de lucro se, junto ao produto vendido, viesse uma história edificante que convencesse o consumidor que comprar aquilo com um preço maior era, na verdade, um ótimo negócio. A necessidade de contar uma história sobre como a empresa se formou, a motivação dos seus fundadores, o porquê de ela ser melhor que seus concorrentes e como o consumidor ajuda uma causa maior ao comprar o produto ou serviço se tornou tão premente que criou o mercado do “storytelling”. Neste momento, milhões de consultores de storytelling estão ganhando rios de dinheiro convencendo donos e diretores de que só vender não é suficiente — é preciso pegar o cliente pela mão e contar aquela bela historinha. Não basta comprar, tem que amar. E isso não é um problema.

Narrar, todo mundo narra. A gente já falou sobre isso no episódio “Do narrar para viver ao viver para narrar”:

Todo mundo narra a própria vida, mesmo antes do Instagram. Todo mundo olha para trás e tenta conectar os episódios de alegrias, tristezas, sucessos e falhas para tentar contar uma história mais ou menos coerente. E, ao narrar, cada um interpreta um ou outro episódio à sua própria maneira.

Isso também vale para o mundo corporativo. Contar a história da sua empresa não é crime nenhum e, se ela realmente tem uma história edificante, melhor ainda. O problema, assim como nas nossas vidas pessoais no Instagram e no Facebook, ocorre quando o storytelling cruza o limite da realidade e entra no mundo da ficção.

Não precisa nem ir muito longe para encontrar exemplos de empresas que cruzaram esse limite. O Conselho de Autorregulamentação Publicitária (Conar), órgão responsável por ficar de olho em campanhas enganosas no Brasil, abriu investigação em 2014 a partir da suspeita de que a empresa de sucos Do Bem e a de sorvetes Diletto estavam enganando os consumidores. Ambas contavam histórias que, depois descobriu-se, não eram exatamente verdadeiras.

A Diletto alegava em suas propagandas que seus sorvetes tinham sido inventados por Vittorio Scabin, um italiano que emigrou ao Brasil fugindo da II Guerra Mundial e com quem o neto, dono da marca, aprendeu a arte de fazer sorvete. Já a Do Bem dizia que comprava as laranjas do seu suco de um produtor chamado Francisco no interior de São Paulo. O anúncio sugeria que as frutas eram fornecidas só pelo tal Francisco, o que dava à marca uma aura de exclusividade, de produto artesanal.

Texto da Do Bem falando do sr. Francisco.
Imagem: Do Bem/Reprodução.

O problema, nos dois casos, é que nem o avô italiano, nem o tal Francisco existiam. Eram armas de storytelling. A revista Exame publicou uma reportagem (que desencadeou a investigação do Conar) revelando que, além de dezenas de fornecedores, a Do Bem também comprava laranja da Brasil Citrus, uma das maiores empresas do setor, ou seja, diametralmente oposto ao sentimento artesanal que queria passar.

Numa era em que a autenticidade é tão valorizada pelas marcas, exagerar no storytelling tem suas consequências frente ao público, ainda mais quando sua empresa é posicionada como única em um setor apinhado de rivais não por alguma inovação ou processo radicalmente diferente, mas pela historinha. Em dezembro de 2014, o Conar arquivou o o caso da Do Bem e sugeriu alterações nas campanhas da Diletto, mas o estrago estava feito.

Esse é um tipo de historinha corporativa: os produtos são bons (pessoalmente, acho que são), mas as empresas criam uma narrativa que as diferenciam em relação aos rivais, o que permite margens maiores. Às vezes, não é nem questão de lucro direto, mas de emular Ícaro. A estratégia serve para pessoas também.

Bel Pesce tinha currículo suficiente para arranjar emprego onde bem entendesse: passou por gigantes de tecnologia e se formou no prestigioso MIT, nos Estados Unidos. O dono de uma agência de comunicação viu o potencial da garota e resolveu transformá-la em produto. (Eu sei disso por que ouvi a história do próprio dono da agência, que esperava, com isso, ganhar clientes assim que ela virasse estrela. Até hoje eu guardo o release que jornalistas receberam anunciando aquela menina que se vendia como inovadora e genial.) Uma parte do jornalismo comprou e a máquina passou a se auto-alimentar. Quando o youtuber Izzy Nobre fez um trabalho jornalístico que toda a imprensa se negou por preguiça ou desinteresse (e eu me incluo nessa, já que ainda era jornalista) e mostrou que trabalhos e cargos eram inventados, as asas de cera do Ícaro derreteram — o currículo era bom, mas, mesmo sem precisar, Bel exagerou. Ícaro voou perto demais do sol e dali despencou, junto com sua credibilidade. Seu nome virou sinônimo de mentira. Ela não é a única. Conheço alguns executivos que exageram ou mentem descaradamente sobre seus feitos. Não é nada difícil achar.

Todas essas histórias até aqui têm uma coisa em comum: os sucos e os picolés sozinhos eram bons, o currículo sozinho era excelente, mas o tempero usado para deixar a história ainda melhor cobrou seu preço e deixou marcas nos envolvidos. Esses personagens pecaram pelo exagero. Mas e quando a historinha é a única coisa por trás de uma pessoa ou negócio? Aí é coisa do Vale do Silício.

Fábulas para adultos

Startups passam anos com o capital fechado, sobrevivendo financeiramente de investimentos de fundos privados até que o negócio tenha se estruturado de forma que a receita cubra os gastos. Ou, pelo menos, é assim que deveria funcionar. A falta de transparência e controle sobre o que a empresa faz e os resultados atingidos significa que muitos fundadores forjam uma história pública que não tem qualquer relação com a realidade e os clientes, investidores, jornalistas e interessados em geral engolem na maior felicidade. Isso dá as condições ideais para que algumas empresas construam histórias sobre si mesmas que são o puro creme do delírio. Na metade de agosto, a gente viu um dos piores casos deste tipo desabrochar.

Adam Neumann sentado em um palco durante evento em Nova York.
Adam Neumann, cofundador e ex-CEO da WeWork. Foto: TechCrunch/Flickr.

A WeWork é uma empresa de coworking. Quem não tem um escritório onde trabalhar paga uma grana para ter uma baia em prédios comprados, reformados e mantidos pela WeWork. Os espaços de trabalho da empresa, espalhados por 32 países do mundo, são muito bem decorados, na esteira dos escritórios moderninhos de Google, Facebook e afins.

Qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento de economia a classificaria como uma empresa no ramo imobiliário — ou de “real estate”, se a Luciana Gimenez tiver baixado em você. Não é o que os fundadores da WeWork defendem nos documentos enviados à SEC para abrir seu capital na Nasdaq. A WeWork, segundo eles, é uma empresa de “space as a service”, adaptação para o mercado imobiliário do conceito de “software as a service” que a tecnologia tornou padrão na última década. Segundo o fundador Adam Neumann, a missão do WeWork — e isso não é piada — é “elevar a consciência do mundo”.

Simultaneamente à WeWork, outra startup no caminho para abrir capital também demonstrou o poder da historinha. A Peloton vende bicicletas ergométricas com um monitor acoplado que te auxilia a pedalar seguindo treinamentos customizados. Não é barato: a bicicleta custa mais de US$ 2 mil, fora os US$ 40 mensais para ter acesso às aulas especiais. É, em suma, uma aula de spinning individual, com direito ao instrutor gritando nos vídeos enquanto toca um remix de This is the rhythm of the night da Corona ao fundo (a parte do remix da Corona, provavelmente, é ficção). Para o CEO da Peloton, John Foley, é outra coisa. Nos papéis do IPO, ele defende que a Peloton “é muito mais que uma bicicleta” e que a empresa vende “felicidade”.

O que separa a historinha do WeWork da historinha do Peloton? O negócio por trás.

A Peloton é um negócio com meio milhão de assinantes e margem de 40%, o que garante uma receita recorrente, ainda mais que muitos dos assinantes também compraram a bike de US$ 2 mil, o que torna cancelamentos improváveis. A receita mais que dobrou em um ano, para US$ 915 milhões, mas o prejuízo quadruplicou para US$ 245 milhões num momento de investimento em marketing e produto. A tendência de crescimento da receita recorrente e a queda nos gastos em produto tendem a fazer o prejuízo diminuir e fazer a empresa atingir o break even.

Já a WeWork é um culto à personalidade que queima dinheiro com delírios e se camufla de negócio sério. Primeiro, aos números: a receita do WeWork também dobrou, para US$ 1,8 bilhão em 2018, enquanto o prejuízo chegou a US$ 1,9 bilhão. Não bastasse o rombo, as perspectivas também são bem ruins, a começar com os empréstimos previstos: a WeWork tem mais de US$ 47 bilhões em obrigações de leasing imobiliário pelo mundo. Quando você tem um modelo de negócio que exige investimentos pesados a longo prazo enquanto seus clientes podem te abandonar amanhã e nunca mais voltar, há um grande risco de você ficar sozinho com um boleto gigantesco para pagar (é o “miss match duration”, explicado pelo Scott Galloway no podcast Pivot). E o que justifica o valor de mercado pretendido de US$ 47 bilhões (que, coincidência, é o mesmo valor dos leases em longo prazo) quando seu principal rival em coworking, a belga IWG, vale cerca de US$ 3 bilhões?

A historinha da WeWork é uma tentativa desesperada de convencer o mercado de que a empresa não é uma imobiliária, mas uma startup de tecnologia, ainda que seja preciso muita forçação de barra para convencer alguém dos benefícios do efeito de rede (algo que Facebook, Instagram, WhatsApp e afins inegavelmente têm) no aluguel de escritórios. Os US$ 47 bilhões de valor de mercado representam 26 vezes a receita anual da empresa. O valor da Amazon na bolsa é quatro vezes sua receita anual. Algo não cheira bem. A questão financeira já seria preocupante com uma administração adulta. Não é o caso.

Fundador da WeWork, Adam Neumann é um dos sujeitos mais malucos da tecnologia atual — e não falo isso como elogio. Todas as pessoas que construíram empresas de base tecnológica com grande impacto têm algo de pirado, mas, no caso de Neumann, a loucura passa do limite. Ele patenteou a marca “We” e sua própria empresa lhe paga milhões de dólares para usá-la. Ele tem prédios que sua própria empresa lhe paga milhões de dólares para usar. Ele vendeu US$ 700 milhões em ações semanas antes do IPO. Quando o fundador e CEO de uma empresa vende esse volume de ações antes de abrir o capital, é um sinal péssimo. Péssimo. Uma reportagem da semana passada no Wall Street Journal descreve a seguinte cena:

Algumas semanas depois de Neumann ter demitido 7% dos funcionários, em 2016, ele sobriamente abordou a questão em uma reunião na sede durante a noite, dizendo aos presentes que a movimentação era dura, mas necessária para cortar custos e que a companhia ficaria melhor. Então, funcionários carregando bandejas de copos plásticos com shots de tequila entraram na sala. Logo após, Darryl McDaniels, membro do influente grupo de hip hop Run-DMC, também entrou na sala, abraçou Neumann e cantou algumas das suas músicas. Alguns funcionários dançaram ao som do hit It’s Tricky enquanto mais bandejas com tequila circulavam; outros, ainda concentrados nas demissões, disseram estar assustados e confusos.

Se estivesse nas séries Silicon Valley ou The Office, a cena certamente seria encarada como exagerada. É inacreditável. A reportagem do WSJ também diz que a esposa de Neumann tem tanta influência na WeWork que chegou a demitir funcionários (no plural) após conhecê-los por cinco minutos. Ela justificou as demissões dizendo que não havia gostado da energia deles.

Como isso é possível? Como empresas de investimento tradicionais como o SoftBank dão tanto dinheiro assim na mão de um sujeito claramente louco?

Enquanto o capital da empresa está restrito aos investidores originais, toda “bullshitagem” é tolerada e, até certa medida, incentivada. Sem outra fonte de informação, o mercado engole feliz e passa a endeusar empresas e executivos(as) que só estão ali pela capacidade de falar bonito em reuniões fechadas e palcos. Taí Elizabeth Holmes, fundadora da Theranos, que não me deixa mentir.

Considerada uma gênia na faculdade e extremamente hábil em convencer os outros de que seu projeto de empresa tinha futuro, Holmes construiu ao redor de si a aura de empreendedora inovadora que revolucionaria o mercado de exames laboratoriais. Pelo seu medo infantil de agulhas, ela supostamente havia inventado uma máquina que fazia todos os exames de sangue usando gotinhas em vez de pipetas. Uma picadinha no dedo era suficiente para saber como iam seus triglicérides ou se você tinha uma DST. Fascinados pela figura e com medo de perderem o bonde da história, investidores tradicionais investiram bilhões de dólares na empresa e abriram dezenas de portas para a empreendedora.

Era tudo mentira, storytelling puro: Holmes nunca chegou perto do protótipo que anunciava estar quase pronto. Engenheiros bioquímicos talentosos eram contratados e demitidos por não conseguirem executar os delírios da chefe. Pressionada a obter resultados, a Theranos comprou máquinas tradicionais e as escondeu no porão da sua sede. Sempre que precisava fazer os exames, técnicos colhiam o sangue do dedo, colocavam em uma máquina da Theranos falsa e levavam a amostra para ser diluída e analisada nas máquinas tradicionais.  Holmes chegou a fechar um acordo comercial para colocar suas máquinas na rede de farmácias Walgreens. Centenas de pessoas reais fizeram testes com resultados cientificamente imprecisos para doenças como câncer, por exemplo. Ela era celebrada como a principal bilionária “selfmade” do mundo e frequentava eventos da alta sociedade ao lado de gente como Bill Clinton.

A verdade só apareceu em 2015, quando um jornalista chamado John Carreyrou começou a publicar uma série de reportagens no The Wall Street Journal. Com a Theranos exposta, Carreyrou escreveu também um livro sobre a ascensão e queda da empresa, Bad Blood — é um dos melhores livros de negócios que já li; se você tiver que ler um livro só sobre negócios no ano, é esse. O livro rendeu um bom documentário da HBO e vai ser transformado em longa metragem, com Jennifer Lawrence no papel da Elizabeth Holmes.

Os casos da WeWork e da Theranos são emblemáticos de como a cultura do Vale do Silício criou as condições para o surgimento de empresas em que as historinhas não temperam a estratégia: elas viram a estratégia. A prioridade é fingir ao mundo que tudo vai muito bem, independentemente dos custos. Até a hora de honrar compromissos, inventa-se outra desculpa. É o “fake it until you make it” num nível 11. A historinha vira a alma do negócio e, em pouco tempo, ela conduz o mercado a uma alucinação coletiva. É a fábula para adultos: tem criaturas e situações tão irreais como uma formiga conversando com um gafanhoto que toca violino, e a gente acredita como qualquer criança acredita no antropomorfismo em todos os animais. Em vez de ter uma moral que ensina valores, como as fábulas infantis, a fábula para adultos do Vale do Silício tem o único objetivo de fazer o mundo inteiro de otário.

Defesas

Há duas formas de derrubar esse delírio.

A bolsa trouxe a WeWork para a realidade. As análises financeiras mais sóbrias colocaram pressão sobre a empresa, que começou a recuar. Os US$ 47 bilhões de valor de mercado caíram para US$ 20 bilhões e depois chegaram aos atuais US$ 10 bilhões, ainda três vezes acima do valor da principal rival. O SoftBank, que colocou mais de US$ 10 bilhões na WeWork, pressionou tanto que não só adiou o IPO como também tirou Neumann do comando da empresa.

Quando (se) chegar à bolsa, a WeWork enfrentará um cenário desanimador. A Amazon criou a ideia de que empresas de capital aberto não precisam dar lucro desde que mantenham os negócios crescendo. Desde que Jeff Bezos publicou a primeira carta aos investidores afirmando que o objetivo da Amazon é atender bem os seus clientes, o mercado comprou a história (olha o storytelling aí de novo) e lhe deu carta branca para reinvestir todo o dinheiro sem precisar fechar trimestres no azul. Um monte de empresas resolveu tomar a mesma rota e sobreviveu bem até abrir o capital, mas a bolsa é implacável com quem não dá resultado e, até agora, a Amazon continua sozinha no panteão das que têm essa carta branca. (Também porque a empresa descobriu na AWS uma mina de ouro potencialmente maior que a Amazon.) Uber e Lyft pegaram carona e estão enfrentando a realidade: desde que abriram capital, acumulam quedas de quase 20% (Uber) e 40% (Lyft). Não só elas: todos os IPOs de tecnologia estão passando por um choque de realidade no mercado público.

Já a Theranos ruiu pelo bom jornalismo. Por um repórter excelente que, após ouvir dezenas de fontes, foi o primeiro a gritar que o rei estava nu. (A roupa nova do rei é do Hans Christian Andersen, a outra metade dos contos infantis que a Disney usa em filmes, como A pequena sereia, O patinho feio e A rainha da neve, que virou Frozen.) O repórter ouviu ameaças e foi processado pela Elizabeth Holmes. Esse tipo de historinha vale muito para quem a propaga, já que a empresa a usa como pilastra, ela depende do blablablá para sobreviver. Historinha como modelo de negócios não presta. Uma hora ou outra, conforme o produto ou serviço faz sucesso e atrai atenção, a verdade por trás vai ser descoberta.

Além do Vanzolini, citado neste episódio, e do Anthony Bourdain e Millôr Fernandes, citados em outros episódios, faz parte do altar do Tecnocracia um comediante chamado Jon Stewart que apresentou, durante 16 anos, o The Daily Show, humorístico virou uma voz relevante do debate político pelos comentários sempre mordazes. Stewart se aposentou do programa há quatro anos, em uma fase de mudanças em todos os talk shows norte-americanos. O seu último monólogo no Daily Show falava sobre “bullshit” — e, na falta de uma tradução melhor, vai no original mesmo:

Bullshit is everywhere. Existem poucas coisas que você vai encontrar na vida que não foram infundidas com bullshit. Nem sempre é ruim. A bullshit orgânica e criada livre do dia a dia é normalmente necessária ou, no mínimo, inócua: “ah, que bebê mais bonito. Aposto que vai crescer nesta cabeça”. É o tipo de bullshit que fornece fertilizante para o contrato social e impede que as pessoas façam as outras chorarem o dia todo.

Mas há a bullshit mais perniciosa, a bullshit premeditada e institucional, criada para obscurecer e distrair. Ela vem em três sabores. 1) fazer coisas ruins soarem como boas: “cupcakes orgânicos e naturais”, já que “bolas de açúcar feitas na fábrica” não vende. (…) 2) esconder as coisas ruins sob montanhas de bullshit. Complexidade. (…) e 3) a bullshit de possibilidade infinita, segundo a qual não vale a pena fazer nada se tudo não estiver resolvido antes.

O monólogo do Stewart vale muito mais para questões políticas, sobre colocar restrições no mercado de armas nos Estados Unidos, por exemplo, mas serve também para a overdose de storytelling na economia atual. Hoje você sai para comer uma tapioca e, se bobear, vai ouvir a história do floco de mandioca saído da roça… Às vezes um produto ou serviço bom é só isso mesmo, algo que um sujeito ou um grupo fazem bem e colocam no mercado para ganhar dinheiro. Essencialmente, tudo é assim. E não tem problema nenhum.

Stewart diz que “a melhor defesa contra bullshit é vigilância” e, ainda que encha um pouco o saco ter que ficar constantemente atento porque uns malucos sentados numa pilha de dinheiro querem te enganar com uma fábula vagabunda, não existe outra opção. As historinhas não estão só em algumas empresas. É um problema generalizado, sintoma de uma era em o que vale é a narrativa, não a ação que a fundamenta. Como consequência, a gente frequenta um ambiente digital com desinformação galopante, influenciador que vende história no YouTube enquanto sua vida pessoal está um caco e governo que luta contra fantasmas dos anos 1960 em vez de resolver problemas reais.

Nessa era de gente de papelão — sorridente na frente, vazia por trás —, é muito valioso ter maturidade e desconfiança para não cair na mentira alheia. Você já passou da idade de acreditar que patos e ouriços falam com humanos, então por que acreditar em fábulas para adultos ainda mais inverossímeis?

Ilustração do topo: Arthur Rackham/Pixabay.

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4 comentários

  1. Adorei o episódio!

    Fiquei me perguntando se essa cena do rapper cantando na empresa foi tão constrangedora quanto estou pensando.

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