A menos que você seja rico ou jornalista/blogueiro/youtuber de tecnologia, celular é um custo considerável e, preferencialmente, esporádico em sua vida. Por ser um objeto útil, até essencial, e ao mesmo tempo caro, a gente economiza, compra e cuida, faz ele durar. No Brasil de 2021, os “incentivos” para cuidar do celular ou de qualquer outro equipamento eletrônico se multiplicaram.
Há uma piada corriqueira sobre as relações próximas e perigosas entre grandes empresários e políticos no Brasil, contada pela primeira vez pelo engenheiro Henrique Guedes no livro Histórias de empreiteiros. Conta a história: durante a ditadura, houve um evento no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual de São Paulo, para empossar o novo governador. Presente à posse estava um político antigo que já tinha ocupado cargos altos na administração pública. Andando pela solenidade, o tal político antigo se encontrou com Sebastião Camargo, fundador e presidente da construtora Camargo Correia, que, àquela altura e durante muitos anos, foi a maior do Brasil. Desenrolou-se o seguinte diálogo curto, iniciado pelo político velho: — Olá, Sr. Sebastião, o senhor também por aqui? — Eu estou sempre aqui. Os senhores é que mudam.
Toda semana, o Manual do Usuário publica o post livre, um post sem conteúdo, apenas para abrir os comentários e conversarmos sobre quaisquer assuntos. Ele fecha no domingo por volta das 16h.
Signal rebate críticas ao recurso de pagamentos com criptromoeda
Novidades na investida em pagamentos com criptomoeda do Signal. Em um post no blog oficial, a fundação falou, falou e não disse muita coisa. Sobre as críticas, argumentou que a maioria não testou a solução e “está imaginando o pior”, e que não será um recurso obrigatório, mas sim opt-in, ou seja, “usa quem quiser”. Via Signal (em inglês).
Navegadores e extensões anunciam bloqueio ao FLoC, do Google
Não é só o DuckDuckGo que bloqueará o FLoC, novo método de rastreamento de usuários do Google. Nos últimos dias, os navegadores Brave e Vivaldi (ambos baseados no Chromium) e as extensões AdGuard e uBlock Origin também já anunciaram que bloquearão o FLoC.
Por ora, o Google está testando o FLoC em um pequeno grupo de usuários (0,5%) em alguns países, Brasil entre eles. A Electronic Frontier Foundation (EFF) publicou um site que verifica se o FLoC está ativo no seu navegador. Clique aqui para conferir.
Toda quinta, na newsletter do Manual (cadastre-se gratuitamente), indico leituras longas/de fôlego (artigos, reportagens, ensaios) publicadas em outros sites.
Seria o máximo se esse trabalho fosse colaborativo, feito com a sua ajuda.
Indique nos comentários uma leitura longa da última semana, relacionada aos temas que costumam aparecer aqui no site, que você acha que deveria ser lida por mais gente. Vale em português ou inglês.
O site Quando vou ser vacinado?, criado por um grupo de voluntários que coleta e acompanha os dados do coronavírus no Brasil, viralizou. Ele se baseia no histórico recente do ritmo de vacinação de cada estado e na idade do usuário para fazer uma estimativa de quando chegará a sua vez de alguém de tomar a aguardada injeção no braço.
Algumas pessoas próximas comentaram comigo seus resultados, e também vi muita repercussão nas redes sociais. Quase sempre, o comentário veio em tom de desalento porque, para os mais jovens, os prazos estimados são de meses, chegando até a 2022. (Até para os não tão jovens; a minha estimativa, neste momento, é de 1 ano e 2 meses de espera.)
A vacinação segue a passos lentos no Brasil, mas há motivos para ser um pouquinho otimista. Conversei com o Renan Altendorf, um dos voluntários do projeto, para entender a lógica da ferramenta. Um detalhe que me chamou a atenção, por exemplo, é que ela se baseia em dados retroativos, dos últimos sete dias de vacinação em cada estado, ou seja, desconsidera futuras remessas de vacinas já contratadas pelo governo federal, como as 138 milhões de doses da Pfizer e da Jansen que devem chegar ao Brasil até dezembro. (Ou assim esperamos.)
Renan confirma essa lacuna: “A gente até queria levar em consideração o que irá chegar, mas tanto em março quanto em abril os cronogramas [de entrega das vacinas] não foram cumpridos pelo governo. Tem um déficit de 20 milhões de doses até momento. E, para piorar, o governo não irá mais divulgar cronogramas, então ficamos no escuro e estamos tentando coletar essas informações diretamente com os laboratórios.”
Ele prossegue: “A gente sempre coloca a fórmula e os dados que foram utilizadas no cálculo. Sabemos que não é a melhor previsão possível, mas estamos acompanhando sempre com os estados e municípios.”
Spotify lança o Car Thing, seu primeiro produto físico
Foto: Spotify/Divulgação.
Este é o Car Thing, primeiro hardware (produto físico) do Spotify e forte candidato a gadget mais inútil do ano. Pensado para carros sem sistemas de entretenimento compatíveis com o Spotify (quantos?), ele se conecta ao celular por Bluetooth e precisa se conectar, também, ao sistema de som do veículo, por fio ou novamente via Bluetooth. Por que alguém preferiria isso a conectar o celular com o app do Spotify diretamente ao sistema de som do carro? Apesar da tela de 4 polegadas, o Car Thing só roda o Spotify. Aquele botão giratório parece bem legal, mas é pouco para justificar os US$ 80 que a empresa pede pelo Car Thing nos EUA. Via Spotify (em inglês).
O Instagram Lite chegou ao Brasil nesta quarta (14). Com apenas 2 MB e disponível apenas para Android, o aplicativo é uma versão mais leve e que consome menos dados do Instagram. E traz outro benefício, sacado pelo Canaltech: não tem anúncios. Via Canaltech.
O Pix está em risco porque o orçamento federal para 2021, que ainda não foi aprovado e está recheado de erros e absurdos, zera o orçamento da área de tecnologia do Banco Central, responsável por operar o sistema de pagamentos instantâneos. Via O Globo (com paywall).
Para gravar o último vídeo do site, sobre organização de newsletters, criei uma conta descartável no Gmail. Fazia alguns anos que não usava o serviço, e assustei-me com a lentidão. Mesmo atividades triviais, como listar mensagens de um marcador ou mover uma mensagem de lugar, demoram — literalmente — mais de dez segundos.
O Google Docs, que usamos para editar o Tecnocracia, também me impressiona pela lerdeza. Estava editando o episódio desta semana e lembrei-me do Gmail. Minha digitação é normal (~80 ppm), mas nem se fosse duas vezes mais rápido que isso justificaria ver palavras se formando segundos depois de digitá-las em um editor de texto.
O YouTube é outra lerdeza, em tudo — de renderizar as páginas de vídeos a listar comentários e estatísticas no Studio, o painel de controle dos canais.
Uso um notebook de 2015 equipado com um Core i5 e 8 GB de RAM — nada super rápido, mas longe de ser lento —, e o navegador Safari. Talvez seja algo dessa combinação, mas suspeito que os serviços do Google sejam realmente lentos e quem os use assiduamente acabe não percebendo, como naquela história dos caranguejos que não notam a fervura gradual da água em que são cozidos.
Falhas no WhatsApp permitem que conta seja bloqueada remotamente
Os pesquisadores Luis Márquez Carpintero e Ernesto Canales Pereña encontraram algumas falhas no WhatsApp que, exploradas em conjunto, podem levar ao bloqueio permanente de uma conta no serviço, mesmo com a confirmação em duas etapas ativada.
Resumidamente, eles tentam ativar um número em outro celular repetidas vezes, errando de propósito o código de ativação, até bloquear a geração de novos códigos por 12 horas. Depois, enviam um e-mail para support@whatsapp.com pedindo para que a conta da vítima seja desativada (e, surpreendentemente, ela é; é um sistema automatizado que não verifica a titularidade da conta requisitada). Ao repetir o processo pela terceira vez, em vez de 12 horas, o bloqueio à ativação passa a ser de -1, ou seja, infinito.
O ataque não concede acesso à conta da vítima, mas pode inutilizar sua conta no WhatsApp. À Forbes, que relatou o esquema, o WhatsApp informou que, por precaução, recomenda aos usuários registrarem um e-mail junto à confirmação em duas etapas, porque isso “ajuda a nossa equipe de serviço ao usuário auxiliar pessoas que se depararem com esse problema improvável”. Via Forbes.
Em um tuíte que viralizou e acabou excluído pelo seu autor, alguém reclamava da multa de cancelamento da assinatura da Creative Cloud, aquele pacotão de aplicativos da Adobe, como Photoshop, Illustrator e Premiere, entre outros. (O @internetofshit repercutiu.) Para muitos, foi uma surpresa, mas é o “modus operandi” da Adobe, válido também no Brasil, e por isso você deveria ficar atento antes de fechar negócio com ela.
A confusão é compreensível. No site da Adobe, a assinatura do pacote completo da Creative Cloud é exibida como se fosse uma assinatura mensal — para pessoas físicas, custa R$ 224 por mês:
Imagem: Adobe/Reprodução.
Até aí, tudo bem. Mas ao clicar no botão “Compre agora”, a página seguinte conta uma história diferente. Lê-se, no resumo do pedido: “Plano anual, cobranças mensais”, seguido do valor de R$ 224/mês. Nessa parte, há um menu de seleção que, ao ser expandido, revela outras três opções, sendo uma delas “Plano mensal”. O problema é que o “plano mensal” custa R$ 340/mês, ou 51,8% mais caro que o anual parcelado em 12 vezes:
Imagem: Adobe/Reprodução.
(Está sobrando dinheiro aí? Outra opção é pagar a anuidade numa tacada só, de R$ 2.580, e economizar 4% em relação à anuidade parcelada.)
Se você contratar a Creative Cloud pelo plano anual parcelado em 12 vezes — que, reforçando, é o padrão — e se arrepender no meio do caminho, de quanto é a mordida da Adobe? Até 14 dias, nada, zero, sem custo. Depois… bem, prepare o bolso. Esta página explica:
Se você cancelar mais de 14 dias após a compra inicial, seu pagamento não será reembolsável e poderá estar sujeito a uma taxa de cancelamento.
Plano anual pago mensalmente: após 14 dias, uma taxa de cancelamento de 50% do saldo restante de seu contrato pode ser aplicável. O serviço continuará em vigor até o final do período de faturamento do mês vigente.
Não sei se isso se enquadra em “dark pattern”, ou seja, um truque de interface e linguagem para direcionar os usuários a certo comportamento (no caso, assinar o plano anual), mas não é difícil imaginar alguém sendo pego de surpresa com a taxa de cancelamento, que dependendo de quando é aplicada, pode ser bem salgada — o cancelamento no segundo mês, por exemplo, geraria uma dívida de R$ 1.397, pelo cálculo (11 * 254) / 2.
Dados públicos de 1,3 milhão de usuários do Clubhouse estão sendo distribuídos
Depois de Facebook e LinkedIn, agora foi a vez do Clubhouse ter dados vazados. A técnica foi a mesma: raspagem de dados mediante uma API pública sem muito controle. No caso do Clubhouse, foram 1,3 milhão de registros, cada um com alguns dados públicos como nome, foto, data da criação da conta e número de seguidores, que estão sendo distribuídos gratuitamente em um fórum na internet.
O Clubhouse protestou no Twitter, dizendo que os dados não vieram de um hacking ou vazamento. O caso é menos problemático que o do Facebook, pela escala e pelos dados obtidos, e o debate é válido: abusar de uma API para consolidar dados públicos em bancos de dados acessíveis é o mesmo ou equiparável a hackear? Via CyberNews (em inglês).
Estratégia de inteligência artificial brasileira é patética
Na sexta (9), o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) publicou a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (PDF). Ronaldo Lemos, advogado e diretor do ITS-Rio, em sua coluna na Folha de S.Paulo classificou o documento como um “trabalho de graduação universitária malfeito” e “uma reunião de platitudes e citações de dados buscados na internet”. A mim, o documento lembrou o inacreditável “plano de governo” (PDF) do então candidato à Presidência Jair Bolsonaro (à época no PSL, hoje sem partido) nas eleições de 2018. O que, quase dispensável dizer, é bem preocupante. Via MCTI, Folha de S.Paulo.