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Cuide bem do seu celular

Mão segurando um Galaxy A52 lilás. Ao fundo, janelas foscas.

A menos que você seja rico ou jornalista/blogueiro/youtuber de tecnologia, celular é um custo considerável e, preferencialmente, esporádico em sua vida. Por ser um objeto útil, até essencial, e ao mesmo tempo caro, a gente economiza, compra e cuida, faz ele durar. No Brasil de 2021, os “incentivos” para cuidar do celular ou de qualquer outro equipamento eletrônico se multiplicaram.

Semana passada, a Samsung anunciou novas versões dos seus celulares campeões de vendas, os Galaxy A32, A52 e A72. Fiquemos no meio, no Galaxy A52 sem 5G. O preço sugerido é de R$ 3,3 mil. Pouco mais de um ano atrás, o Galaxy A51 era lançado no país por R$ 2,2 mil. Nesse intervalo, o salto de geração encareceu o produto em exatamente 50%. Do Galaxy A50 para o A51, o aumento foi de 10%.

Não é só a Samsung que pesou a mão na hora de precificar novos produtos no Brasil. O aumento é generalizado. Um dos culpados você conhece: a alta do dólar. No momento em que escrevo isto, na manhã desta quinta (15), a moeda norte-americana está cotada a R$ 5,63. O dólar reflete no peso dos celulares e outros equipamentos, todos importados ou, quando são montados no Brasil, com partes importadas. Tem, também, o coronavírus, que logo de cara pressionou os preços para cima e eles nunca mais voltaram a patamares pré-pandêmicos.

Ocorre que dólar e pandemia talvez nem sejam os maiores culpados do estado do mercado de gadgets no Brasil. Outro problema aflige o setor: a crise dos chips.

Uma confluência de eventos levaram ao estrangulamento da capacidade global de fabricar chips — dos de última geração que equipam celulares a outros menos avançados, mas vitais em equipamentos como televisores e carros. Graças a isso, a produção não tem dado conta de atender a demanda e, consequentemente, os preços sobem com força.

O alarme já soava em dezembro de 2020. Segundo a Reuters, as sanções norte-americanas a empresas chinesas como a Huawei, um incêndio em uma fábrica de chips no Japão, os fechamentos provocados pelo coronavírus no Sudeste da Ásia e uma greve na França contribuíram com o cenário de escassez. Some a isso uma explosão de consumo súbita no pós-pandemia (a tal “curva em V”) e a falta de investimentos em plantas fabris, e temos o cenário atual.

Peguemos outro setor, talvez aquele em que os aumentos são os mais assustadores: o das placas de vídeo. A líder Nvidia lançou uma nova série, a GeForce RTX 3XXX, em plena pandemia. As novas placas foram muito bem recebidas e, a princípio, com preços mais convidativos que as da geração anterior. Não durou muito. Hoje, é muito difícil encontrá-las à venda e, quando alguém as acha, os preços são surreais — no Brasil, uma GeForce 3090 chega a custar R$ 30 mil (!) e placas “intermediárias”, como a 3070, passam fácil dos R$ 10 mil.

(Cabe um parêntese aqui: no caso das placas de vídeo, outro fator pesa: a voracidade com que mineradores de criptomoedas adquirem as mais recentes por elas serem prodigiosas no processamento de dados que gera novas moedas.)

Listagem de placas de vídeos em um site de e-commerce, mostrando três modelos da GeForce 3090 por preços que variam de R$ 22 mil a R$ 30 mil.
Aceita um Celta 2004 de entrada? Imagem: Kabum/Reprodução.

Placas antigas estão voltando às linhas de produção — a Nvidia cogita ressuscitar modelos de quatro anos atrás. Outras, até há pouco tempo considerados defasados, se valorizaram muito nos últimos meses. No nosso grupo no Telegram, alguns leitores se surpreenderam ao pesquisarem os preços de placas que haviam comprado no final de 2019 ou até o início da pandemia. As variações superam fácil os 100%, em alguns casos até para placas usadas.

É óbvio que, em algum momento, atravessaremos essa turbulência. As gigantes do setor (Intel, Nvidia, TSMC) acreditam que vai demorar, porém, e que só em 2023 as coisas se estabilizarão. Pior que isso, pois menos óbvio, é se no Brasil encontraremos céu azul e sol forte do outro lado da longa tormenta. Afinal, a crise dos chips é um dos fatores do encarecimento, mas aqui há outros presentes e daqueles que impactam em tudo, de celulares a placas de vídeo, mas também em produtos mais básicos, como… comida.

Seu celular está funcionando bem? Ótimo. Cuide muito bem dele para que continue assim por um bom tempo.

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Foto do topo: Samsung/Divulgação.

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33 comentários

  1. Está tudo muito complicado… lembro que em 2014/2015 com 1.500 reais você pagava um top de linha na época, como o Moto X 2, o Lumia 930 entre outros. Hoje por menos de 3K só consegue um celular mediano. Tenho um Galaxy Note 9 que comprei no início de 2019 e quero que dure pelo menos mais 2 anos.

    1. Tive sorte de conseguir um Zenfone 5Z por 1400 reais numa liquidação de 2019. A caixa estava com uma poeira amarelada (claramente resto de estoque) mas o celular funciona bem até hoje.
      Eu já pensei em trocar ele por outro modelo por causa da bateria dele, mas do jeito que as coisas estão ele vai ter que durar bastante. Pelo menos o processador é um snapdragon 845 , o que ajuda bastante a não sentir o “peso” do tempo.

  2. Legal que eu trinquei minha tela essa semana, já estava um pouco, mas agora tá feio.

    Ele já não é super novo, tem pouco mais de 2 anos, mas como é um high-end está bem razoável o desempenho. Está perceptivelmente mais lento, o que não esperava sentir tão cedo, mas bem rápido ainda. A bateria é ruim e está pior, mas em pandemia…tanto faz né.

    Agora, estou refletindo se vale trocar a tela, que é bem caro nesse caso (Galaxy S10e).

    1. O ruim é achar tela de qualidade, e principalmente, mão de obra que instale com qualidade também.

      Não sei a experiência das pessoas com isso num todo, mas vejo muito quem tem os “Moto G” tendo problemas com isso.

      1. Os equipamentos pra trocar a tela são bem caros. Eu olho os vídeos do HJ e depois vejo o pessoal que troca tela aqui no RS e percebo porque dá tanta diferença. Meu padrinho tentou fazer esse trampo, mas era tudo muito caro (aquela máquina que aquece o telefone pra soltar os adesivos é uma paulada, além de gastar uma luz absurda).

        1. Todo equipamento de manutenção especializado é caro per si. Quando lançaram os equipamentos tipo “soprador para solda” por exemplo, creio que estava em torno de R$ 1.500,00. (e boa parte dos equipamentos para reparos em eletrônica gastam energia, pois são geralmente aquecedores especializados).

  3. Eu tenho um Android, lançado em 2018 com Snapdragon 660, que comprei em 2019 e hoje tá com a saúde da bateria em 80%. Tirando a bateria que sempre foi “pouca”, 3010 mAh, ainda é um aparelho que satisfaz bem minhas necessidades.
    Tô quase comprando uma bateria nova pelo Aliexpress, para ficar pelo menos mais um ano com esse aparelho.

    Sempre bate aquela vontade de comprar um smartphone mais novo, mas a falta de grana (e agora esse texto) são um grande motivador pra cuidar bem do meu celular.

    1. Curioso o nível da bateria. O meu, um iPhone 8 comprado no final de 2017, ainda está com 82% da capacidade da bateria. Em tese, ela deveria “gastar” mais rápido, pois bem menor (1.821 mAh).

        1. O iOS mostra a saúde da bateria nas configurações. No Android eu não sei, mas imagino que também? Se não, certamente deve ter algum app que dê essa informação.

        2. Meu celular é android mas não tem essa função, então eu uso o Accubattery. Pode baixar de graça e se quiser ajudar o desenvolvedor, pagar pra tirar os anúncios.

          A parte mais legal dele é que você pode colocar um alerta de porcentagem de carregamento, pro celular apitar quando tiver na porcentagem que você quer que ele carregue (80%, 90%, você escolhe hehe).

  4. Está tudo muito doido. Não vamos nos focar apenas em itens de “tecnologia”, vou citar um exemplo da área que eu trabalho, marcenaria. Até o meio do ano passado, uma chapa de compensado multilaminado (procurem na internet) custava cerca de R$ 140,00. Hoje, o preço está em R$ 252,00. Por uma chapa. De madeira. Está certo que nada se iguala aos preços ridículos das placas de vídeo (tudo isso por causa dos pamonhas que mineram as criptomoedas), mas esse caos se estende para tudo quanto é área.

    1. Na minha opniao a causa é muito clara, a expansão monetaria! Impossivel imprimir dinheiro sem gerar inflação.

      1. Não exatamente. “Imprimir” dinheiro tem seus motivos, e muitas vezes se imprime dinheiro porque na verdade o mercado (bancos, investidores, etc…) está retendo o giro deste dinheiro. Imprimir dinheiro não gera inflação se bem coordenado.

        O que temos hoje é um problema de desigualdade devido justamente ao egoísmo do mercado. Ao invés de se entender a situação e criar formas de reduzir as desigualdades sociais, aumentou-se aproveitando-se da situação da redução de empregos + informalidade (que gerou os motoristas e entregadores de aplicativos), mais a questão da espelação por causa das criptomoedas e bolsa de valores (isso porque se gerou mais um mercado de “como gerar” também, enganando muita gente – fora lavagem de dinheiro, etc…).

        A culpa é do “mercado”. Sempre será.

      2. O governo não imprimiu dinheiro, o orçamento de guerra veio dos fundos de compensação do Estado. A escalada de preços é mais um reflexo de um dólar/euro alto (por causa do baixo nível de atratividade de investimentos e da alta insegurança que o governo Bolsonaro trás) que faz com que seja muito melhor exportar matéria-prima e comida do que vender pro mercado interno. Tem saído caminhões e caminhões de madeira para carregar os navios pra Europa.

        A inflação alta é um reflexo do teto de gastos – muitos se falou quando o Temer aprovou essa “PEC do fim do mundo” que o teto iria gerar pressão inflacionária, mas a galera liberal achava que não – e do desemprego massivo que o Brasil passa (+45% da PEA está desempregada, desalentada ou subempregada); esse desemprego é reflexo direto da reforma trabalhista aprovada no governo Temer, aliás, que criou um exército de trabalhadores precarizados e sem rede de sustentação social. Trabalhadores assim consomem pouco e acabam gerando alta nos preços (porque se produz menos nas poucas fábricas que ainda restam no Brasil). Una-se a isso um grande desmonte de serviços básicos de pesquisa e atendimento (SUS, previdência, energia, água, saneamento e logística) ao público e você tem uma alta nos custos da maioria das prefeituras e empresas.

        Ainda, na pandemia, muitas pessoas perderam o emprego (menos consumo) e acabaram gerando pressão sobre o excedente que, num primeiro momento, mantiveram os preços mais logo depois aumentaram pela baixa demanda fabril. Tudo isso seria resolvido com uma RBU ou um AE mais robusto e mais abrangente (o fator multiplicador do BF é 1,7 e do AE é 1,78, por exemplo).

        Ainda tem muito mais coisa, claro, mas a inépcia do governo, tanto econômica quando sanitária e social, somada com a liberalização do Estado do governo Temer criou uma cama perfeita pra uma crise e uma severa recessão.

  5. O jeito agora (e daqui pra frente) é começar a dolarizar e diversificar o patrimônio contra o risco-Brasil (e tbm contra o próprio Brasil).

      1. Sim, aumenta a desigualdade e ferra com todo mundo.

        Farinha pouca, meu pirão primeiro.

        (Acho que vou adaptar esta frase na bandeira verde e amarela, se não já fizeram).

        1. Nao entendi seu comentario. Estavamos discutindo sobre como proteger patrimonio, e você diz que se protegermos nosso patrimonio aumentamos a desigualdade? Se for isso entao devemos todos nos tornar pobres, assim a igualdade será alcançada! Ao meu ver o problema nunca foi a desigualdade e sim a pobreza.

          1. A pobreza está diretamente ligada à desigualdade, Roger. Não estou concordando com o Ligeiro, mas é fato que a maioria da população não tem “patrimônio” para proteger; é gente que ganha hoje o almoço de amanhã e, se há qualquer solavanco nesse processo, passa fome.

            Há casos famosos de países latino-americanos que dolarizaram suas economias e isso não os ajudou em nada. É uma “solução” egoísta, pois resolve no âmbito individual, mas não é por aí que resolveremos o problema.

          2. Não sou tão bom em discussão política quanto o Pilotti ou Ghedin, mas só discordando um pouco do Ghedin: o problema do “proteger patrimônio” aqui é que na verdade os “grandes capitalistas” – investidores, banqueiro, etc – são os que mais praticam isso, gerando inflação e desigualdade. Quando eles tomam bens imóveis e geram um despejo de pessoa por exemplo. Só que isso vale para gente pequena: muitos começam a virar grandes por causa deste acúmulo.

            Só que tem uma frase que ultimamente não sai da minha cabeça: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor” (tou tentando ver se termino de ler “Pedagogia do Oprimido”)

            No capitalismo, quando a gente vê o exemplo do “self made man” (Silvio Santos, Samuel Klein, Primo Rico, etc…), muitos querem seguir o mesmo pois representa o sonho do cara – o conforto para si e o desejo de consumo liver.

            Ninguém vê atrás da máscara do “self made man” o quão a pessoa tem de preconceitos (Silvio), abusos (Klein) ou falhas (Primo). E não vê algo também relevante: quanto mais se acumula, mais o outro perde. Afinal, está se perdendo uma casa que poderia ser barata para alguém se manter lá em prol de alguém que prefere não vender e esperar para “ganhar mais dinheiro” com ela.

            (Bitcoin e similares viraram algo similar na verdade, se não foram criados com esta intenção no final – dizem que é para “todos”, mas poucos dão supervalorização à elas)

            A questão de “proteger patrimônio” para quem é pequeno como muitos de nós no final é proteger o que temos em nosso nome e documentado: a casa, carro, objetos pessoais – incluso celular. O que ignoramos é que também tudo pode acontecer – incêndio, assalto, incidentes criminosos, até mesmo um terremoto (toc – toc – toc). O patrimônio nosso pode se perder e a gente ficar sem anda no final.

            Claro que tem o dinheiro também, este que é alvo de especulação da galera. E com esta especuação, gera a inflação, que acaba sempre prejudicando quem tenta guardar dinheiro e tem pouco. Especulação é uma forma de gerar pobreza, diga-se de passagem: quanto não ganharam com “cursos de bitcoin”, e quanto mais não perderam com isso?

            Enfim, acho que o Pilotti ou outros conseguiriam resolver melhor e sem tanto texto prolixo quanto o que soltei agora. Mas resumindo: não tou exatamente condenando a SUA questão de proteger o patrimônio, mas sim só provocando um pouco para a galera entender porque as coisas encareceram.

          3. @Ligeiro

            O Ghedin já matou na primeira frase a questão: pobreza é reflexo da desigualdade. Capitalismo é um jogo de soma-zero. O grande capital ganha muito dinheiro em troca de manter um exército de reserva (desempregados e precarizados) que servem como peso pra manter salários baixos e investimentos pífios em segurança social. O cerne do neoliberalismo é esse: manter uma classe explorada em detrimento de uma massa gigantesca de pessoas pobres exploradas.

            Desigualdade gera pobreza, subdesenvolvimento e violência urbana. Não é por nada que os países mais ricos acabam sendo os mais iguais, em todos eles existem mecanismos de controle de renda (normalmente IR), controle de terra (moradia e terra para plantio) e alto grau de estatização de serviços básicos. Sem isso vira Brasil, com gente com amplos pedaços de terra desde o tempo do império e muito bilhões na conta vindo da exploração de pessoas sem acesso a educação e moradia.

            E “Pedagogia do Oprimido” é muito bom, deveria ser leitura de escola =D

  6. Eu revivi um moto G5 plus para funcionar como telefone principal e tenho um S2 e um A52017 parados por problmeas de tela, mas que estou pensando em investir neles e botar de novo em funcionamento pras aulas online e outros perrengues de quem tem criança pequena em casa. Agora mesmo estou sem celular porque o mais novo queria assistir youtube kids! :)

  7. Comprei um celular antes da pandemia e agora, por curiosidade, fui ver quanto o mesmo celular está custando. Variação de 110% Tá inviável comprar qualquer coisa neste momento!

    1. Desculpa a piada, mas “Stoinks?”

      O Paulo Pilotti dias atrás tava falando que um SSD estava na faixa de 50, hoje custa 200

      1. Isso foi em 2019. Paguei R$59 num SSD da Kingston de 120GB. O preço normal era R$125, estava na promoção. Agora esse mesmo SSD na mesma loja custa R$250 (ou R$259, não me lembro).

  8. Isso explica também uma coisa: o preço de equipamentos usados encareceu ou travou o patamar.

    Consegui comprar um Moto G3 por 300 reais. Ao menos com garantia e carregador

    Um celular mediano de 3-4 anos atrás ou top de linha de 5-7 anos estão por volta de R$ 500.

    1. Pois é. muita gente acha que os usados ganharam valor mas na verdade o real que se desvalorizou.

      1. Tudo o que já foi usado perde valor, é normal, mas como as coisas novas subiram muito, o preço das coisas usadas também sobe.
        São menos pessoas podendo comprar coisas novas, que agora precisam comprar coisas usadas para suprir/dar conta de uma necessidade.

        Vou cuidar do meu celular com mais carinho, precisa durar mais uns 2-3 anos haha

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