Brendan Eich, novo CEO da Mozilla, em mais um capítulo de como (tentar) separar pessoas de instituições

Em pleno 1º de abril, Dia da Mentira, o OkCupid, um dos sites de relacionamentos mais tradicionais do mundo, uniu-se a uma campanha contra o Firefox. Motivo? A descoberta de que o novo CEO da Mozilla, Brendan Eich, apoiou com uma doação de US$ 1.000 em 2008 a Proposition 8, lei californiana que acabou aprovada e cujo conteúdo impedia a união civil entre homossexuais.

Atualização (3/4, às 18h): Brandon Eich não é mais CEO da Mozilla. O anúncio, feito por Mitchell Baker no blog oficial da Mozilla, reafirma a abertura e política de inclusão da organização, diz que houve falhas na resposta das críticas internas e externas a Brendan e diz que semana que vem novas informações sobre o novo CEO serão reveladas.

Mensagens de protesto no Twitter por funcionários da Mozilla.
Funcionários da Mozilla protestam no Twitter.

A indicação de Brendan como CEO da Mozilla tem enfrentado resistência derivada desse detalhe em seu histórico, inclusive entre seus subordinados. No Twitter, funcionários da Mozilla pediram publicamente a renúncia do novo líder. Fora do ambiente de trabalho, sites e usuários engrossam o coro e sugerem boicotar o Firefox. Uma petição online pedindo a saída de Brendan do cargo já conta mais de 70 mil assinaturas.

O clima é tenso, e nem as declarações públicas do CEO em seu blog pessoal e entrevistas parecem capazes de apaziguar os ânimos. No primeiro, ele escreveu:

“(…) Eu só posso pedir seu apoio para ter tempo de ‘mostrar, não falar’; e nesse meio tempo, expressar meu pesar por ter causado tanta dor.”

(…)

Estou comprometido em garantir que a Mozilla é, e continuará sendo, um lugar que inclui e apoia a todos, independentemente da orientação sexual, gênero, idade, etnia, status econômico ou religião.”

Em entrevista ao CNET, o tom usado foi cauteloso e pendendo para a separação pessoa física-entidade. Brendan Eich acredita que as convicções e posicionamentos pessoais não devam afetar a agenda da Mozilla, que já é bem atribulada tentando manter o navegador vivo entre dois gigantes (Internet Explorer e Chrome) e emplacar o Firefox OS:

“Se a Mozilla não puder continuar a operar de acordo com seus princípios de inclusão, em que você possa trabalhar na missão [da organização] independentemente do seu passado ou outras crenças, acho que nós provavelmente falharemos.”

A Mozilla, enquanto entidade e na figura de Mitchell Baker, chairwoman da Mozilla Foundation, apoia Brendam. Em seu blog, Mitchell posicionou-se, ao mesmo tempo, em defesa da diversidade e do novo CEO:

“(…) o compromisso da Mozilla com a inclusão para a nossa comunidade LGBT e todas as minorias, não muda. Ao agir para ou em nome da Mozilla, é inaceitável limitar as oportunidades a *qualquer um* baseado na orientação sexual e/ou gênero. Isso não é só um compromisso, é a nossa identidade.

(…)

[Na] minha experiência, Brendan é tão comprometido com oportunidades e diversidade dentro da Mozilla quanto qualquer outro, e mais do que muitos. Esse compromisso com as oportunidades para todos dentro da Mozilla tem sido um ponto basilar do nosso trabalho por anos. Eu o vejo em ação regularmente.”

A investida do OkCupid

Logo do OkCupid.
Imagem: OkCupid.

Christian Rudder, fundador do OkCupid, não gosta de brincadeiras de 1º de abril. Ele aproveitou a data, porém, para fazer uma espécie de protesto: quem acessou o site pelo Firefox, cerca de 12% da base de usuários, se deparou com uma mensagem oferecendo navegadores alternativos e expondo o caso de Brendan Eich.

A mensagem, traduzida pelo Lado Bi, é a seguinte:

“Olá, usuário do Mozilla Firefox. Perdoe essa interrupção da sua experiência pelo OkCupid.

O novo CEO da Mozilla, Brendan Eich, é um oponente dos direitos igualitários para casais gays. Nós gostaríamos, portanto, que nossos usuários não utilizassem software da Mozilla para acessar o OkCupid.

A política não costuma ser o negócio de um site, e nós todos sabemos que há problemas maiores no mundo que CEOs ignorantes. Então você pode se perguntar por que estamos afirmando nossa posição hoje. Aqui está o porquê: nós devotamos os últimos dez anos em unir pessoas – todas as pessoas. Se indivíduos como o Sr. Eich conseguirem o que querem, então mais ou menos 8% dos relacionamentos que nós trabalhamos tanto para tornar realidade seriam ilegais. Igualdade para relacionamentos gays é pessoalmente importante para muitos de nós aqui da OkCupid. Mas é profissionalmente importante para a companhia inteira. A OkCupid é a favor de se criar amor. Aqueles que querem negar o amor e, em seu lugar, promovem a miséria, a vergonha e a frustração são nossos inimigos, e nós desejamos a eles nada mais que o fracasso.

Se você quiser continuar usando o Firefox, o link no pé da página vai levá-lo ao site.

Nós, no entanto, insistimos que você considere usar um outro software para acessar o OkCupid.”

Não foi a primeira abordagem… inovadora do OkCupid para um problema. Não faz muito tempo, o site chamou a atenção com o tratamento que dá a usuários que navegam com bloqueador de anúncios. Em vez de recriminá-los, colocou uma imagem no lugar onde estaria o banner publicitário pedindo ao um pequeno pagamento para nunca mais exibir qualquer anúncio.

O próprio funcionamento do site é inovador, usando fórmulas matemáticas e questionários para atribuir porcentagens de compatibilidade. Este vídeo explica bem. É um serviço de vanguarda, tanto tecnicamente quanto nas abordagens que faz fora da sua atividade-fim.

A mensagem para usuários do Firefox ecoou bastante, mais do que Rudder esperava. Em entrevista ao Gizmodo, ele disse que da ideia à execução foi tudo muito rápido. E talvez a pressa tenha sido inimiga da iniciativa: qual era a ideia com ela? Rudder disse que não quer que Brendan Eich perca seu emprego e que a mensagem aos usuários do Firefox apenas “parecia a coisa certa a se fazer”. Se não a cabeça do CEO, o que quer o OkCupid? A Mozilla também não foi avisada de antemão sobre essa investida, mas depois que a coisa explodiu as duas empresas iniciaram conversações.

Como separar pessoas de instituições

Brendan Eich.
Brendan Eich. Foto: Mozilla.

Acontece muito na música e no cinema e, em certa medida, entre empresas com capital aberto na bolsa — ou de grandes proporções, a exemplo da Mozilla. As ações de quem está em evidência repercutem. Bastante. Um cantor que sai da linha, uma atriz que se perde nas drogas, um CEO com opiniões impopulares, todos pagam o preço dos atos inesperados pela posição que ocupam. Quando a obra é linda e o autor é um escroto, como lidar?

Um CEO impacta tanto quanto, objetivamente falando, um cantor ou ator. Ele tem o poder de ditar os rumos de uma companhia, mesmo quando os funcionários têm uma visão diferente das suas pessoais. A venda da Nokia para a Microsoft, muito mal recebida entre os finlandeses, é um exemplo recente.

No caso de um CEO, trata-se de mais do que um cargo funcional. John Schneider, do time de desenvolvimento da Mozilla, explicou em poucas palavras a importância desse cargo de liderança dentro de uma organização:

“Um CEO é (…) uma das faces mais visíveis de uma organização e [ele] representa mais para a imagem, parcerias e cultura [da empresa] do que um cargo altamente técnico, como o de um CTO.”

Nos comentários deste post no TechCrunch, Schneider novamente abordou o assunto:

“(…) É só o seu [de Brendan] cargo, agora na mira do público, que me causa preocupação. Não estou pedindo para ele ser demitido ou qualquer coisa do tipo, mas tenho receios sobre que impacto termos um CEO desalinhado com nossas (Mozilla) claras políticas de inclusão e tolerância terá em nossos parceiros, voluntários, investidores, colaboradores e funcionários em potencial.

Dito isso, sei que, não importa o que aconteça, as políticas pró-inclusão e LGBT da Mozilla jamais regridirão. Mitchell Baker jamais deixaria isso acontecer.

Como já disse algumas vezes, não tenho uma resposta ou solução, e é um caso complicado.”

A gritaria que funcionários da Mozilla têm feito é justificável. O CEO representa o espírito de uma organização, contribui decisivamente para como ela é vista pela comunidade externa. Um que tenha no histórico fatos que vão contra toda uma luta grande, difícil e na qual a Mozilla está comprometida pode enfraquecer essa imagem que vem sendo trabalhada há anos.

Não sei, porém (e não quer fazer juízo de valor, apenas incitar o debate), o que OkCupid e outros sites têm a ver com isso, ou o que eles ganham propondo um boicote tão explicitamente. Se Brendan Eich é tão cruel a ponto de recusarmos toda e qualquer coisa que venha dele, é bom desabilitarmos o JavaScript dos nossos navegadores e arcarmos com uma web bem mais lenta e menos dinâmica. Ele inventou o JavaScript.

Claro, essa alternativa é extrema e não avança o diálogo. É só um contraponto ao outro extremo, que tem sido mais publicado por aí. Opor-se à união civil entre homossexuais é daquelas atitudes incompreensíveis — é algo que só diz respeito aos envolvidos e, sério, que mal tem nisso? Qual o problema que alguém como Brendan vê nesses casais? Mistérios da mente humana. Mas é algo que atrapalha o desempenho das funções de um CEO, incluindo as representativas que o cargo exige? A resposta a esta pergunta, muito provavelmente, é o primeiro passo para resolver esse impasse.

A melhor brincadeira de 1º de abril que o Google já fez

Nos últimos anos o Google se especializou em celebrar o 1º de abril, também conhecido como Dia da Mentira, com ideias cada vez mais malucas e elaboradas. Em 2014, já na véspera, 31 de março, algumas foram ao ar, como o mashup entre Google Maps e Pokémon. Este ano também marca o décimo aniversário de uma das mentiras mais incríveis da empresa — em parte, curiosamente, porque ela acabou se revelando não ser uma.

As (poucas) brincadeiras do Google até 2004

Imagem ilustrativa do Google Copernicus Center.
Google na Lua. Imagem: Google.

A primeira brincadeira do Dia da Mentira do Google data de 2000, quando a empresa lançou o MentalPlex, um sistema que prometia projetar a imagem mental dos usuários enquanto esses olhavam para um GIF animado. Dois anos depois, foi a vez do PigeonRank, um trocadilho com o PageRank, sistema que analisa e atribui peso às páginas para mostrar sempre as mais relevantes no buscador do Google.

Em 2004, foi a vez do Google Copernicus Center, uma subsidiária do Google na Lua! Foram abertas vagas de emprego com a promessa de que as operações começariam dali a três anos, em 2007.

Além dessa maluquice (convenhamos!), outro anúncio foi feito naquele ano. No comunicado à imprensa, o Google revelou que após ouvir as reclamações de uma usuária sobre os webmails da época, decidiu criar o seu próprio serviço de e-mail. “Pesquisa é a atividade online número dois — o e-mail é a número um; ‘Heck, Yeah’, disseram os co-fundadores do Google”.

Nascia ali o Gmail.

Gmail em 2004: 1 GB de espaço!? Isso é brincadeira?

Ícone do Gmail.
Imagem: Google.

Mas nascia mesmo? Parecia bom demais para ser verdade e, no contexto da época, poderia ser uma brincadeira e tanto. As reclamações da usuária (teoricamente) fictícia no comunicado eram dramas reais das pessoas que acessavam a Internet em meados da década passada:

“‘Ela reclamava sobre gastar todo o seu tempo arquivando mensagens ou tentando encontrá-las’, disse [Larry] Page. ‘E quando ela não estava fazendo isso, tinha que apagar e-mails feito louca para ficar abaixo do limite de quatro mega bytes. Então ela pediu, ‘Vocês aí podem consertar isso?””

Hotmail e Yahoo! Mail, líderes da época, eram tiranos com espaço: com 2 e 4 MB de espaço para mensagens, respectivamente, eles nos forçavam a manter uma rotina quase robótica de apagar definitivamente mensagens da caixa de entrada. Até essa época, aliás, clientes de e-mail locais como Outlook Express (RIP), Thunderbird e outros menos conhecidos hoje faziam sentido porque no computador não havia limites, logo ao baixar as mensagens do servidor rolava um grande alívio no parco espaço disponível para receber novas mensagens.

Imagine o choque que foi um e-mail, gratuito, com 1 GB de espaço? Dava para desconfiar. Muita gente desconfiou, inclusive a mídia especializada.

No Slashdot, a pergunta era “O Gmail do Google ofecerá 1 GB de espaço?” e, em uma atualização datada em 1º de abril (a notícia do Gmail foi publicada no New York Times um dia antes), a descrença se manifestou com força (grifo meu): “O site do Google agora tem um comunicado oficial, naturalmente datado em 1º de abril.”

Outra interrogação cravou seu espaço no título desta notícia do WebProNews, cujo lide pisava em ovos e tinha uma abordagem bastante precavida: “No que pode ser uma elaborada brincadeira, o Google anunciou o lançamento do GMail, um serviço de e-mail gratuito”. O Erik, ao descobrir que o Gmail era de verdade 30 minutos depois de tomar conhecimento dele, ficou desapontado: “Eu testei. Não tem nada de impressionante. Não há nada aqui que eu já não tenha visto antes”. Ah, Erik! Como assim?

Naquele mesmo dia, porém, Jonathan Rosenberg, então VP de Produtos do Google, confirmou a veracidade do Gmail a vários sites. Primeiro acessível mediante convites, depois liberado a todos, a confirmação marcou o fim do racionamento de espaço para e-mails. E fica o convite à reflexão: quantos mega bytes teríamos em nossos webmails hoje se essa história fosse apenas uma brincadeira?

À frente da sua época, e assim por muitos anos

Para os padrões da época 1 GB era um espaço tão colossal que apagar e-mails no Gmail não era uma tarefa trivial ou mesmo incentivada. O site do Gmail não tinha um botão “Delete” destacado na interface — embora existisse, ficava soterrado em um menu à parte. Só em 2006 o “Delete” ganhou um espaço mais digno na interface. A proposta do Google era que com aquele latifúndio de espaço você jamais precisaria apagar um e-mail novamente; no máximo, arquivá-lo, um conceito interessantíssimo que, infelizmente, ainda passa batido por muita gente. (Se você não arquiva mensagens no Gmail, está usando errado.)

E não era só no espaço que o Gmail se destacava. A interface, baseada em AJAX, uma técnica que permite carregar partes da página sem recarregá-la por inteiro, dava uma sensação de velocidade típica dos serviços da empresa. O Gmail era extremamente ágil, anos-luz à frente do Hotmail, na época ainda preso ao visual esquisitão do MSN, e do Yahoo! Mail com suas pastinhas a la Windows 3.11.

Hoje, aquela interface beira o ridículo, como o Mashable nos mostra nesta galeria:

Como o Gmail era em 2004.
Gmail em 2004. Imagem: Google.

Mas acredite, era um negócio simples e interessantíssimo naqueles dias mais ingênuos na web. Disso aí em cima, chegamos ao visual atual, na imagem abaixo devidamente ornamentado com uma “shelfie”:

Shelfie, a nova moda do Gmail.
Gmail Shelfie, a brincadeira de 1º de abril em 2014. Imagem: Google.

Sem falar, claro, nos apps móveis. Em 2004 não existia iOS, Android ou Windows Phone. O mercado era dominado por Symbian, BlackBerry e Windows Mobile e o estado dos apps, deprimente. Já em 2014…

App do Gmail em um tablet Android.
Gmail em um tablet Android. Imagem: Google.

Ao longo dos anos o Gmail mudou um bocado, nem sempre de forma positiva. Alguns redesigns foram duramente criticados (incluindo o atual), o uso da sua popularidade para emplacar serviços sociais do Google, como Buzz e Google+, sempre ganhou a rejeição da maioria maioria dos usuários e a concorrência, ainda que atrasada, avançou e hoje oferece serviços equivalentes — especialmente o Outlook.com, da Microsoft, que ficou bem bom depois que largou o nome “Hotmail” e passou por um banho de loja.

Se toneladas de giga bytes não são mais suficientes para prender alguém ao serviço, o Gmail apostou em outras frentes para manter sua posição de vanguarda. Ele é onipresente, acessível e continua um tanto rápido. O app para Android é exemplar e com o aumento na importância da Conta Google, inclusive servindo para login em sites e serviços de terceiros depois do Google+, um @gmail.com é passou a ser mais do que um endereço de e-mail, é uma identidade na Internet.

A lista de brincadeiras de 1º de abril do Google tem crescido ano após ano. Mas por mais malucas, surreais ou simplesmente bobas que sejam, é difícil superar a do Gmail, de 10 anos atrás. O que chega a ser irônico: a verdade, afinal, foi a maior surpresa já criada pelo Google para o Dia da Mentira.

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Os melhores apps para Android, iOS e Windows Phone (março/2014)

Terceiro mês, terceiro post de melhores apps. Já é tradição e você pode esperar, no último dia de todo mês, essa reunião dos apps mais legais e/ou úteis lançados para Android, iOS e Windows Phone.

A opção pela janela mensal foi feita para destacar apenas a nata dos apps lançados no período. Muitos saem toda semana, mas quantos desses realmente compensam sua atenção e, eventualmente, seu suado dinheirinho? Não muitos.

A lista, como sempre, está em ordem alfabética e traz os três sistemas misturados — quando um app é multiplataforma, haverá essa indicação e todos os links possíveis. Baixe o que quiser e, caso conheça algum app lançado recentemente que mereça figurar na lista, mas não esteja nela, corrija essa injustiça nos comentários.


A Better Camera

A Better Camera, ícone.Para Android.
O que é? App de câmera com diversos recursos reunidos.
Preço? Gratuito, ~R$ 15 para desbloquear todos os recursos.
DOWNLOAD

Apps de câmeras para Android não são tão comuns ou variados quanto em outras plataformas, mas vez ou outra algum interessante aparece. É o caso do A Better Camera, que promete concentrar em um único lugar diversos recursos fotográficos.

São 11 modos de disparo, mas alguns pagos, como o panorama de alta resolução e o HDR — por ~R$ 15, todos os recursos são desbloqueados. A interface é bem simples e direta, cheia de botões configuráveis e adaptada a tablets se tirar fotos com eles for a sua praia. Só por ter a grade 3×3 já é um bom negócio, mas existem outros recursos, alguns bem avançados, como o “group shot” e a remoção de objetos, que merecem uma olhada.

Screenshots do A Better Camera.
A Better Camera para Android.

Adobe Revel

Adobe Revel, ícone.Para Android e iPhone.
O que é? Gerenciamento e compartilhamento de fotos na nuvem da Adobe.
Preço? Gratuito
DOWNLOAD Android, iPhone/iPad

O Revel é um serviço da Adobe que facilita o gerenciamento de fotos e permite compartilhá-las com amigos e familiares de forma privada. Até o início de março, existiam apps apenas para as plataformas da Apple — OS X e iOS. Agora, o Android entra na festa.

A facilidade é bastante ressaltada no Revel, e um diferencial importante em meio a tantas opções de armazenamento de fotos. Para os recém-chegados do Android, a Adobe liberou uma ferramenta de importação que deve ser útil para levar as fotos da galeria do sistema à nuvem.

Screenshots do Adobe Revel.
Adobe Revel para Android.

BitTorrent Sync

BitTorrent Sync, ícone.Para Android, iPhone e Windows Phone.
O que é? Uma espécie de nuvem privada para acesso remoto a arquivos.
Preço? Gratuito.
DOWNLOAD Android, iPhone, Windows Phone

O BitTorrent Sync chegou ao Windows Phone, fato que melhora a experiência geral do serviço. Apesar do nome, ele lembra mais o antigo FolderShare da Microsoft. A proposta do app é permitir a criação de “nuvens particulares”, ou seja, o acesso a arquivos entre vários dispositivos, através da Internet, mas sem a parte de armazenamento na nuvem. O que significa que para ver fotos que esteja no seu computador a partir de um smartphone, é preciso que o PC esteja ligado no momento do acesso.

O app para Windows Phone tem os mesmos recursos dos outros sistemas. É possível conceder acesso via código, e-mail ou com a câmera, usando códigos QR. Também está disponível o backup automático de fotos tiradas com o aparelho. Todas as conexões são seguras, criptografadas e jamais deixam rastros armazenados em servidores remotos.

Screenshots do BitTorrent Sync.
BitTorrent Sync para Windows Phone.

CloudSix

CloudSix, ícone.Para Windows Phone.
O que é? Cliente extra-oficial do Dropbox.
Preço? Gratuito, R$ 2,49 para remover os anúncios.
DOWNLOAD

Um dos grandes problemas do Windows Phone é a escassez de apps oficiais dos serviços populares em outras plataformas. Um problema que vem diminuindo com o tempo, mas que permanece em alguns casos, como o do Dropbox. Já que não se tem o app oficial dele, que tal um de Rudy Huyn, o responsável pelo 6tag, 6snap e alguns dos melhores apps do sistema?

O CloudSix permite acessar, fixar (para uso offline), gerenciar e compartilhar arquivos armazenados em uma ou mais contas do Dropbox. Outro recurso vindo diretamente do app oficial, a sincronia automática de fotos tiradas com o smartphone para o Dropbox, também está presente. É um app simples, mas muito bem feito e que até agora não me deixou na mão.

Screenshots do CloudSix.
CloudSix para Windows Phone.

Disconnect Search

Disconnect Search, ícone.Para Android.
O que é? App de buscas web que promete anonimato total.
Preço? Gratuito
DOWNLOAD

Depois de lançar uma boa extensão para navegadores, o Disconnect agora tem um app para Android. Com ele, o usuário pode realizar buscas nos principais sites do gênero (Google, Bing, Yahoo, blekko e DuckDuckGo) com a garantia da privacidade.

Em cada pesquisa realizada, o Disconnect Search passa a sua consulta por uma VPN que mascara seu endereço IP e impede que cookies e outros identificadores pessoais fiquem no seu aparelho ou sejam coletados por intermediários, como o provedor, e o próprio site de buscas. O app em si é só uma “casca”, já que os resultados abrem no navegador padrão do sistema, mas há um widget disponível que agiliza bastante as coisas.

Screenshots do Disconnect Search.
Disconnect Search para Android.

Excel, PowerPoint, Word

Excel, PowerPoint, Word, ícones.

Para iPad.
O que é? Apps para planilhas eletrônicas, apresentações de slides e edição de textos.
Preço? Gratuito, R$ 21/mês para criar e editar arquivos.
DOWNLOAD Excel, PowerPoint, Word

Os rumores sobre um Office para iPad datam de 2011. Enfim, ele chegou. Excel, PowerPoint e Word ganharam versões para o tablet da Apple adaptadas à interface sensível a toques. A Microsoft fez um bom trabalho e os apps, mesmo carentes de alguns recursos mais avançados, cumprem bem o que se esperaria de versões do tipo.

Eles estão disponíveis gratuitamente, mas apenas para visualização de arquivos — que podem ser abertos a partir do OneDrive. Para edição, é necessário assinar o Office 365 que, para usuários domésticos, custa R$ 21 por mês.

Bônus: o Office Mobile para Android e iPhone, que antes também tinham essa vinculação com o Office 365, agora são totalmente gratuitos, inclusive para criação e edição de arquivos.


Facebook Messenger

Facebook Messenger, ícone.Para Android, iPhone e Windows Phone.
O que é? App exclusivo para bate-papo do Facebook.
Preço? Gratuito.
DOWNLOAD Android, iPhone, Windows Phone

Figurinha carimbada, o Facebook Messenger está em uma constante de boas notícias para seus usuários. Primeiro, a feliz reformulação que os apps para Android e iPhone receberam no final de 2013. Em março, a chegada do app ao Windows Phone.

O app para o sistema da Microsoft é bem bonito e lembra, sem ferir as diretrizes de design do Windows Phone, suas contrapartes dos sistemas concorrentes. Dá para tirar foto, mandar figurinhas (os stickers) e entrar em conversas em grupo — ainda que a recente atualização que dá mais atenção aos grupos no Android e iPhone não tenha chegado ao Windows Phone. É um app bem melhor que o oficial/geral do Facebook (que é feito pela Microsoft) em todos os aspectos.

Screenshots do Facebook Messenger.
Facebook Messenger para Windows Phone.

FireChat

FireChat, ícone.Para iPhone.
O que é? App de bate-papo que funciona mesmo sem conexão.
Preço? Gratuito.
DOWNLOAD

Parece impossível, mas o FireChat independe de conexão para funcionar. Ele usa um recurso do iOS 7 chamado Multipeer Connectivity Framework, que permite aos dispositivos se comunicarem quando próximos, para gerar salas de bate-papo. A intenção dos desenvolvedores é que o app seja usado em eventos que concentrem muitas pessoas — citando os dos EUA, Burning Man, Wanderlust, SXSW, Super Bowl — ou mesmo estações de metrô, aeroportos, lugares com aglomerações. O raio de alcance é de pouco mais de 9 metros.

O FireChat também trabalha de modo mais tradicional quando a Internet está à disposição em um bate-papo com todo mundo.

Screenshots do FireChat.
FireChat para iPhone.

Flight

Flight, ícone.Para iPhone.
O que é? App para acompanhar voos.
Preço? ~R$ 9.
DOWNLOAD

Com uma interface minimalista e bastante inspirada, o Flight é um app simples para monitorar voos. Ele informa as cidades e aeroportos de partida e destino (com direito à temperatura e clima atualizados), números de terminais, código, duração e progresso do voo, modelo do avião e companhia aérea.

Bônus: por ser destacado na App Store, o Flight está com 50% de desconto por tempo limitado.

Screenshots do Flight.
Flight para iPhone.

Link Bubble

Link Bubble, ícone.Para Android.
O que é? Navegador que abre links de outros apps em bolinhas flutuantes.
Preço? Gratuito, versão Pro por ~R$ 11,50.
DOWNLOAD

Desde o surgimento do Facebook Home, o Android tem recebido um punhado de apps que se utilizam das “bolinhas” flutuantes em sua interface. O Link Bubble é mais um deles e permite abrir páginas web nessas bolinhas. Uma ideia bem esperta, diga-se de passagem.

O foco do Link Bubble é em links que surgem em outros apps. Em vez de ir para o Chrome e esperar a página carregar, com esse app instalado o link clicado é carregado em segundo plano e, quando a página fica pronta, ela é exibida na tela a partir da bolinha. De lá ainda dá para mandar rapidamente links para outros apps (pense no Pocket) e, com a versão Pro, abrir duas ou mais páginas em segundo plano simultaneamente.


Medium

Medium, ícone.Para iPhone.
O que é? Belo app para leitura dos artigos publicados no Medium.
Preço? Gratuito.
DOWNLOAD

O Medium ainda é uma incógnita em vários aspectos, mas em termos de beleza e usabilidade, o site é um a sucessão de acertos. Este app, exclusivo para iPhone, traz para a tela do smartphone toda a beleza e os artigos publicados na plataforma.

Não dá para escrever ou editar artigos no Medium para iPhone; ele é, apenas, um app para leituras. Dentro dele pode-se recomendar artigos, compartilhá-los e até acessar perfis e coleções. É um trabalho muito bem feito, do tipo que dá gosto de ler e apreciar.

Screenshots do Medium.
Medium para iPhone.

Office Lens

Office Lens, ícone.Para Windows Phone.
O que é? “Lente” para a câmera do Windows Phone que captura e otimiza documentos e quadros.
Preço? Gratuito.
DOWNLOAD

O mundo ainda é bastante dependente do papel, o que acaba se tornando um problema para quem prefere anotações, comprovantes e outros documentos digitalizados. O Office Lens é uma “lente” para a câmera do Windows Phone que faz a ponte entre esses dois lados.

Com o app, basta apontar a câmera e tirar fotos de folhas, quadros, recibos e outros suportes com texto que ele faz o resto. Por “resto”, entenda enquadrar, otimizar e adaptar a exibição das informações no meio digital. Uma foto torta de uma folha, por exemplo, é alinhada, tem seu conteúdo destacado e a cor de fundo, nivelada. A qualidade dos resultados é magnífica e a integração com o Office, nada menos que o esperado.

Screenshots do Office Lens.
Office Lens para Windows Phone.

Organizze

Organizze, ícone.Para Android e iPhone.
O que é? Gerenciador de finanças — pessoais ou empresariais.
Preço? Gratuito.
DOWNLOAD Android, iPhone

Outro app da lista originalmente disponível apenas para iPhone que fez sua passagem para o universo Android. O Organizze é um sistema de controle financeiro que funciona tanto para contas pessoais, quanto para empresarias. Com ele, dá para lançar despesas e recebimentos, inclusive offline, agendar contas a pagar e visualizar relatórios de gastos. O objetivo? Identificar padrões e poupar.

O app e o serviço são gratuitos, mas existe uma versão paga do Organizze, que custa R$ 9,90 por mês (contas pessoais), com alguns recursos extras.

Screenshots do Organizze.
Organizze para Android.

Pocket Magnifier

Pocket Magnifier, ícone.Para Windows Phone.
O que é? Lupa operada através da câmera com filtros para facilitar a leitura.
Preço? Gratuito.
DOWNLOAD

Desenvolvido em parceria com o RNIB (Royal National Institute of Blind people) e exclusivo para aparelhos com Windows Phones da Nokia, o Pocket Magnifier é uma lupa portátil que funciona através da câmera do seu smartphone.

Além de fazer o óbvio, ou seja, aumentar o texto para facilitar a leitura, o app ainda permite congelar imagens e traz uma série de filtros para melhorar a legibilidade dos textos exibidos na tela. O flash também pode ser usado como auxílio.

Screenshots do Pocket Magnifier.
Pocket Magnifier para Windows Phone.

Remember the Umbrella

Remember the Umbrella, ícone.Para Android.
O que é? App de previsão do tempo passivo.
Preço? Gratuito, versão Pro por ~R$ 1,50.
DOWNLOAD

Muita gente usa apps de previsão do tempo com apenas uma finalidade: saber se vai chover ou não. O Remember the Umbrella faz jus ao nome e só entra em ação quando prevê que o tempo irá (literalmente) fechar.

Simples assim, após a instalação basta definir o horário e a periodicidade em que gostaria de ser alertado caso a chuva esteja no horizonte — preferencialmente um pouco antes daquele em que você costuma sair para o trabalho ou escola. A versão Pro, que custa ~R$ 1,50, permite programar mais de um alarme e não tem anúncios.

Screenshots do Remember the Umbrella.
Remember the Umbrella para Android.

Timehop

Timehop, ícone.Para Android e iPhone.
O que é? Uma viagem no tempo ao que o usuário publicou em redes sociais no dia de hoje em anos anteriores.
Preço? Gratuito
DOWNLOAD Android, iPhone

Um dos apps mais legais do iPhone finalmente chegou ao Android. No Timehop, você cadastra suas redes sociais (há suporte a Facebook, Twitter, Flickr, Instagram, Foursquare e fotos do Dropbox) e todo dia o app vasculha seu histórico e apresenta o que você fez nesses locais em anos anteriores. É sempre uma surpresa e uma boa maneira de desenterrar eventos, links e fotos esquecidas.

Screenshots do Timehop.
Timehop para Android.

toib

toib, ícone.Para Windows Phone.
O que é? Cliente do YouTube com visual refinado e rico em recursos.
Preço? Gratuito, R$ 1,99 para desbloquear tudo.
DOWNLOAD

Ainda não foi desta vez que o app oficial do YouTube voltou ao Windows Phone. Enquanto esse dia não chega, as alternativas suprem a lacuna. O toib é do mesmo criador do Phonly, um cliente para o Feedly, e faz um trabalho bem competente.

Dá para acessar canais assinados, playlists e vídeos curtidos, tudo com exibição em HD e suporte a coisas como curtir, comentários, gerenciamento de playlists e compartilhamento do vídeo em redes sociais através do mecanismo do Windows Phone.

O app é bonito e bem feito, mas na versão gratuita tem algumas limitações, como exibir apenas 10 canais assinados.

Screenshots do toib.
toib para Windows Phone.

UP Coffee

UP Coffee, ícone.Para iPhone.
O que é? Sistema de monitoramento do consumo de cafeína.
Preço? Gratuito.
DOWNLOAD

Desenvolvido pela Jawbone Labs, um braço da Jawbone das pulseiras de fitness UP, este app analisa o seu consumo de café e, baseado nesses números, dá dicas e insights sobre os melhores momentos para dormir ou se dedicar ao trabalho.

A interface é bastante agradável, cheia de gráficos e animações legais. É preciso abastecer o UP Coffee com informações por cerca de 7 a 10 dias para que ele comece a compreendê-lo e ser útil. Para quem é viciado em café ou gosta da bebida, mas acha que ela afeta o sono, é uma boa pedida.

Screenshots do UP Coffee.
UP Coffee para iPhone.

You-Doo

You-Doo, ícone.Para Windows Phone.
O que é? Lista de tarefas baseada na localização do usuário.
Preço? Gratuito, com dois in-app purchases de ~R$ 2 para desbloquear cores e ícones.
DOWNLOAD

Pegando emprestado um dos elementos da metodologia GTD, o You-Doo é um app de listas de tarefas com base na localização do usuário. Antes, ele cadastra locais e associa tarefas e lembretes a eles. Com isso, o app é capaz de emitir notificações contextuais, quando você está em um lugar que tenha tarefas associadas a ele.

O You-Doo conta com visualização no formato linha de tempo, de calendário, dividida por locais e também de mapa, via Bing Maps e Foursquare. Para o futuro, os desenvolvedores prometem uma versão paga com suporte a tarefas compartilhadas, sincronia com a nuvem e importação de tarefas do Outlook.

Screenshots do You-Doo.
You-Doo para Windows Phone.

Ao todo, 21 novos apps! Quer mais? Não perca as listas de janeiro e fevereiro, e as dos melhores apps de 2013 para iPhone, Android e Windows Phone.

Foto do topo: Lenny Wu/Flickr.

5 dicas para editar áudio no Audacity

Existem duas formas de dominar uma software. A primeira é frequentando cursos formais, passando etapa por etapa, lição por lição, seguindo à risca um roteiro preparado por especialistas e ministrado por um deles. A segunda é metendo a cara, lidando com as dificuldades e dúvidas que surgem no caminho e tirando dúvidas no YouTube e em blogs como o Manual do Usuário.

Meu caso com o Audacity, um software de edição de áudio gratuito e aberto, se encaixa na segunda forma. Comecei a usá-lo ainda na época do WinAjuda (RIP), para editar o finado podcast de lá. A escolha se deu principalmente pela gratuidade e, apesar desse critério fraco, acabou não sendo uma de toda ruim. Pelo menos funciona e tem até uns truques bacanas.

Como você deve saber, uso o Audacity para editar o podcast do Manual do Usuário. É um trabalho relativamente simples, mais braçal do que intelectual, mas que só chegou a esse estado graças às dicas que colhi nesses anos, vindas do YouTube, de posts em fóruns e da documentação oficial. Se você nunca se aventurou com edição de áudio, tem vontade, mas não quer começar no zero, siga as dicas que descreverei abaixo.

1. A interface do Audacity

O Audacity se divide em três grandes áreas. Em cima, ficam os controles de áudio (que inclui os imprescindíveis botões “gravar” e “reproduzir”, e que podem ser substituídos pelas teclas R e Barra de espaço, respectivamente) e, um pouco ao lado, algumas ferramentas que você usará bastante. Na sequência, gráficos que mostram como o áudio está sendo gravado, útil para identificar e corrigir o clipping, aqueles estouros no áudio que machucam os ouvidos, e algumas ferramentas de edição substituíveis pelo mouse.

No meio ficam as faixas. O Audacity trabalha com quantas faixas você quiser. Ao acrescentar um arquivo de áudio externo (basta arrastá-lo para dentro da janela do programa), uma nova faixa é criada. Se quiser iniciar uma limpa, é só clicar no menu Faixas, depois em Adicionar Nova… e escolher a desejada.

O áudio aparece nas faixas como riscos azuis. Acho que todo mundo já viu, talvez em tonalidades e softwares diferentes, mas a representação é bastante padronizada. Com os olhos dá para saber se uma faixa está com o volume baixo, alto, se está clippando e até em que momento, no caso de um podcast descontraído, as pessoas dão risada.

Vale a pena gravar qualquer besteira e mexer nos controles da barra de ferramentas para se familiarizar com eles. Para começar a brincar, é importante entender esses ícones:

Esses botões serão muito usados.
Ferramentas do Audacity.

As duas primeiras são bem importantes. O primeiro ícone transforma o cursor em um seletor de texto — ou, no nosso contexto, de trechos das faixas. Dá para utilizar, inclusive, algumas convenções de editores de texto aqui, como clicar em um ponto da faixa, segurar a tecla Shift e depois clicar em outro para selecionar o intervalo. O bom e velho clique duplo, segundo o botão no último e arrastando o cursor, também funciona.

Outro bacana é o segundo, o risco azul com a bolinha no meio entre dois indicadores, chamada ferramenta de envelope. Ele permite diminuir o volume de uma faixa e, usado em pares, fazer aquele truque de diminuir a música de fundo quando alguém fala. (Note que, para fade in e fade out, existem ferramentas específicas e bem mais fáceis de usar no menu Efeitos.)

Por fim, a ferramenta de ajuste de tempo — é aquela seta que aponta para os dois lados, a segunda na linha de baixo. Com ela, o cursor passa a arrastar blocos de áudio. É indicada para o trabalho com duas ou mais faixas, e permite, entre outras coisas, alocar perfeitamente efeitos sonoros e músicas.

A lupa, como você deve imaginar, serve para dar zoom. Ela funciona bem, mas no meu workflow incorporei teclas de atalho (para mim, mais ágeis e precisas). Ctrl + 1 aproxima o zoom, Ctrl + 3 diminui e Ctrl + 2 volta ao 100%.

2. Cortando e juntando áudio

Cortar um pedaço da faixa é edição mais básica — e uma das mais simples. Para separar uma faixa em duas, basta clicar no local desejado, ir em Editar, depois Cortar bordas e, por fim, Separar — ou aperte Ctrl + I, para ir mais rápido.

No meu uso, porém, o que eu faço mais é remover completamente trechos inteiros. Dessa forma, por exemplo, uma conversa anterior à gravação de fato se vai com alguns poucos cliques. E é uma ação tão simples quanto dividir uma faixa.

Com o mouse, marque o trecho desejado com a ferramenta de seleção. Caso erre na seleção por alguns poucos segundos, não se preocupe, não é preciso tentar acertar todo o processo do zero: ao aproximar o mouse das extremidades da seleção, o cursor vira uma “mãozinha”. Dê um clique duplo segurando o botão no segundo, e você poderá arrastar a seleção novamente para fazer um ajuste fino.

Quando um trecho está selecionado, ao clicar no botão de reprodução (dá para substitui-lo com um toque na barra de espaço), apenas ele é tocado; isso é bom para delimitar perfeitamente o que se deseja cortar ou remover. Estando tudo certo, dê um toque na tecla Delete e aquele trecho sumirá, unindo as duas pontas que sobraram.

Mas e se em vez de remover esse trecho, eu queira apenas silenciá-lo? O processo é o mesmo, o que muda é só o último toque. Em vez da tecla Delete, aperte Ctrl + L. Já se, em vez de silenciar, o objetivo for acrescentar trechos de silêncio, basta entrar no menu Gerar, clicar em Silêncio, definir a duração dele e dar Ok.

3. Normalizar várias faixas

Normalizar nivela os volumes no Audacity.
Normalizar o áudio.

É bem comum em podcasts com dois ou mais membros, mesmo quando são usados microfones idênticos (oi, Paulo!), os volumes saírem desnivelados. Felizmente, um dos vários efeitos do Audacity ameniza bastante esse problema que, de outra forma, seria bem chato de solucionar.

Se apenas as faixas de fala estiverem abertas, um Ctrl + A para selecionar tudo resolve. Caso contrário, será preciso fazer a seleção manualmente — e recomendo, para tanto, que você gaste algum tempo usando as teclas Shift, Home, End e as setas esquerda e direita; parece bobagem, mas usar o teclado em vez do mouse é, não raramente, mais rápido e essas teclas são universais, ou seja, também são úteis no navegador, no Word, em qualquer lugar que trabalhe com texto/seleção.

Enfim, quando todas as vozes estiverem selecionadas, entre no menu Efeitos, depois clique em Normalizar… Existem alguns parâmetros ali, mas comigo o padrão quase sempre funciona a contento. Às vezes surgem alguns clippings, mas nada que outro efeito, que veremos a seguir, não resolva.

Antes de normalizar os volumes, porém, considere fazer a dica a seguir, de eliminação de ruídos. A lógica é muito simples: você não quer normalizar barulhos indesejados, mas apenas as vozes, ou música, enfim, o que você gravou. Remover tudo que for desnecessário ou inesperado aumenta a eficácia da normalização.

4. Elimine ruídos

(Eu poderia ter facilitado e invertido as dicas, né?)

A menos que você tenha um equipamento profissional e faça gravações em uma sala com boa acústica, ruídos surgirão na sua fala. (E convenhamos: se você está gravando nessas condições, não precisa ler isso aqui.)

Remover ruídos.
Dá para remover ruídos no Audacity.

Um dos efeitos mais bacanas do Audacity é o de remoção de ruídos. Sua aplicação é parecida com a do efeito anteriormente visto, mas tem uma pegadinha: ela é feita em duas etapas.

Primeiro, é preciso ensinar ao app o padrão de ruído a ser eliminado. Para isso, encontre um ponto de silêncio na fala, algo comum em podcasts (e considerando que as vozes sejam gravadas em faixas exclusivas). Selecione o trecho silencioso, entre no menu Efeitos, depois em Remover ruído… e, na janela que aparece, clique no botão Obter perfil de ruído.

A janela se fechará e, aparentemente, nada terá mudado. Mas mudou sim: agora o Audacity sabe o que deve buscar e eliminar.

Dessa vez, selecione toda a faixa antes de voltar ao menu Efeitos, item Remover ruído… Lá, clique no botão Ok e espere a mágica acontecer — dependendo do seu hardware, pode demorar um pouco.

5. Como corrigir o clipping

Clip Fix, efeito do Audacity, corrige o clipping.
Corrigindo clipping no Audacity.

Como explicado, clipping é o “estouro” em uma faixa. Dá para ver quando isso acontece nas ondas: ele chega às extremidades da faixa e, ao ser executado, machuca os ouvidos.

O efeito Clip fix, dentro do menu Efeitos, ameniza e em muitos casos elimina o clipping. Para usá-lo, selecione o trecho clippado e clique na opção. Uma caixa de diálogo surgirá. Clique em Ok e veja, ou melhor, ouça a mágica acontecer.


Para quem ainda não teve tempo ou interesse em explorar o que o Audacity oferece, essas dicas são um belo começo. Se você já é experiente e tiver alguma outra para compartilhar, use os comentários. Outros entusiastas, eu e os ouvintes do podcast agradecemos!

A neutralidade da rede segundo o Marco Civil da Internet aprovado pela Câmara dos Deputados

Foram anos de discussões acaloradas e cinco meses travando a pauta da Câmara, mas enfim o projeto do Marco Civil da Internet (Projeto de Lei 2126/11) foi aprovado. O texto, da propositura à aprovação, mudou em pontos-chave e, nos últimos momentos antes da sessão da Câmara dos Deputados que enfim votaria o projeto, muito se falou sobre a ameaça à neutralidade da rede. Por que tanta preocupação em relação a esse ponto?

Como a Internet funciona

Sabe quando aquele seu tiozão se refere à Internet como “a grande rede dos computadores”? Embora brega, há um fundo de verdade nessa declaração. A Internet, grosso modo, é mesmo uma grande rede. Pela sua natureza aberta, com protocolos livres de patentes que conversam entre si, o processo de se conectar a ela é relativamente simples para qualquer… pessoa, empresa ou coisa. E assim, de ponto em ponto, de IP em IP, criou-se uma rede monstruosa que caminha para cobrir o mundo inteiro e conectar todos os seres humanos.

Existe uma hierarquia no trajeto que os dados fazem do servidor até o seu navegador web, ao cliente de e-mail ou qualquer aplicação que você use aí em casa ou no trabalho que dependa da Internet. A relação entre provedor (GVT, NET, Vivo) e cliente (eu e você) é, como este artigo da Quartz explica, apenas o fim de uma longa estrada. Lá no começo estão os backbones e as CDNs, redes de distribuição que funcionam como intermediárias entre serviços/sites e provedores, atuando meio que em conjunto para viabilizar o fluxo de (enormes quantidades de) dados. Algumas das CDNs mais famosas são Akamai, Level 3 e Cogent.

Existem quedas de braço, acordos e negociações sendo feitos nos bastidores da Internet desde sempre. Embora as questões levantadas pelo dilema da neutralidade recaiam, em sua maioria, nos provedores, elas atingem também essas empresas e estruturas menos conhecidas do público e que não ganham tantas manchetes nos veículos de comunicação.

Todos os grandes sites (Google, Facebook, Microsoft, Netflix) usam CDNs que negociam com as operadoras a distribuição desse conteúdo. Quando a balança desequilibra, ou a demanda foge dos termos contratados, o tempo fecha. Exemplo recente? A relação entre Netflix, CDNs e os três principais provedores dos EUA — Comcast, Verizon e AT&T.

O caso Netflix e Comcast

Reed Hastings, CEO da Netflix.
Reed Hastings, CEO da Netflix.

A Netflix fechou, no começo do mês, um acordo com a Comcast para que o provedor não restrinja a chegada de dados a seus clientes. Ou seja, o serviço de filmes sob demanda cortou o intermediário (as CDNs) e agora negocia diretamente com a última parada antes do seu cliente. Ou, como diz Reed Hastings, CEO da Netflix, “paga pedágio para os poderosos provedores”.

Essa medida, que abre um precedente no debate sobre a neutralidade nos EUA, foi tomada pela dificuldade que as CDNs estavam tendo em conseguir levar esses dados, mais do que os provedores esperavam. Eles, os provedores, começaram a reclamar e agir. Como? Restringindo a conexão para uma aplicação específica, a Netflix. De repente a rede deixou de ser neutra, deteriorando o tráfego de um serviço que consome muitos recursos — com 30 milhões de assinantes, o Netflix responde por quase 1/3 do tráfego de Internet gerado no hemisfério norte em horário nobre.

Ninguém quer, mas alguém tem que pagar a conta. A Netflix até criou um programa, o Open Connect, para levar servidores próprios para os provedores, bancados e mantidos por profissionais seus, a fim de aliviar a carga. Funciona na Europa, América Latina e em outros locais; lá, nos EUA, os provedores se mostraram avessos à inciativa. A discussão ainda vai longe, mas nesse meio tempo, temendo perder clientes por constrições na conexão e consequentemente vídeos de baixa qualidade, a Netflix pagou o pedágio da Comcast. Repetindo, ela abriu um precedente. E um perigoso.

Como seria uma Internet que não fosse neutra?

Alessandro Molon.
Deputado Alessandro Molon. Foto: Agência Câmara.

Essas negociações de bastidores importam, mas o que mais se discutiu aqui, com a questão do Marco Civil, foi o último elo da cadeia, a relação provedor-cliente.

Sem a neutralidade, as operadoras poderiam inventar quaisquer critérios para vender o acesso à Internet. Hoje, existe um convencionado que funciona desde os primórdios da banda larga: a velocidade de acesso. Você pode achar injusto pagar mais para ter mais velocidade, mas não tem como reclamar da isonomia da navegação. Seja no plano mais rápido ou no mais lerdo, o conteúdo é acessado da mesma forma, sem distinção.

Imaginar um cenário diferente disso é fácil. Pensemos, pois, em um plano especial de vídeos. Quem quiser ter acesso ao Netflix e YouTube pagaria, digamos… R$ 20 a mais na fatura. Ou um plano básico, que dá direito apenas a e-mail, Facebook, Twitter e YouTube, por uma mixaria. Quer jogar? Olha aqui o plano Gamer Ultimate Plus, com acesso privilegiado ao Steam, League of Legends e, de graça, um joguinho por mês. Custa só R$ 120 e dá direito àquele plano básico ali de cima na faixa.

O que se tem atualmente é uma Internet similar à Dona Justiça: cega, que não faz distinção acerca do que o usuário pede. Parece o ideal, certo? É para mantê-la assim que os defensores ferrenhos da neutralidade brigam tanto pela aprovação do Marco Civil. Mas há desdobramentos que extrapolam os (sempre perigosos) discursos extremados entre defensores da liberdade absoluta e os das teles.

Quem já compartilhou uma conexão com colegas ou familiares folgados sabe como é. Basta que alguém abra o YouTube ou o BitTorrent e a rede se torna imprestável: não há conexão que resista a serviços que consomem muita banda. O fornecimento de Internet é como uma rede doméstica, só que em um nível maior. Todos os usuários de um provedor compartilham os mesmos tubos de acesso. Pode ser meio chocante para você, mas a conexão, embora não dê para pegar e guardar em um pote na estante, é um recurso finito.

A redação do Marco Civil impede qualquer tipo de distinção do tráfego mesmo quando esse tipo de intervenção beneficiar a maioria dos usuários. Exemplo clássico: aeroporto. Nesse e em outros locais com grande concentração de pessoas o acesso à rede móvel fica seriamente prejudicado pela demanda. Como falta esse senso de finitude da Internet à maioria, dois caras acessando o YouTube dali atrapalham todos os outros que só querem fazer tarefas mais leves e muito mais importantes, como verificar o e-mail antes do voo e abrir o cartão de embarque no smartphone.

O serviço dos provedores que atuam no Brasil, principalmente os de conexões móveis (3G/4G), é ruim? Sim, mas poderia ser pior. Ou, com mais flexibilidade, melhor. É natural a desconfiança — anos liderando rankings de reclamações não deram a eles uma reputação exatamente boa –, mas o engessamento da neutralidade da rede pode trazer consequências indesejadas também. Com o acesso igualitário para todo e qualquer serviço, talvez a demanda suba e, com ela, os preços também. E aí o que era para ser benéfico ao povo pode acabar criando mais barreiras para o acesso universal.

Pesa a favor das teles, ainda, o histórico. Em quase duas décadas a oportunidade de fragmentar a rede para cobrar mais esteve sempre aí. E o que aconteceu? Nada. Nenhum provedor jamais recorreu a ela. Talvez não seja vantajoso, talvez a queimação de filme não valha os ganhos potenciais que fragmentar a Internet trariam. As queixas de traffic shaping, que vez ou outra assolam alguns provedores nacionais, são bem ruidosas e mancham a reputação de certos nomes. Quem aí não xinga a mãe do dono do provedor tal quando, mesmo com um plano de 200 Mb/s o YouTube se arrasta para carregar vídeos em 140p? Qualquer um. Mas pense maior que isso: será que sem o traffic shaping outros serviços não seriam prejudicados a ponto de dificultar a realização de tarefas simples, como acessar o e-mail e entrar em sites de notícias?

Alguns ativistas pró-Marco Civil citam cenários apocalípticos para defendê-lo; não é por aí. Ter a empatia de entender o lado de quem fornece o acesso é um passo importante para que a discussão caminhe no sentido de chegar a um consenso do que é bom para a maioria. Talvez fosse o caso de as operadoras começarem a fiscalizar e colocar em prática as restrições de banda contratuais — aquela quantidade tal de tráfego mensal que, pelo menos entre os provedores residenciais, nunca é levada a sério. Tratamento isonômico da conexão pela qual quem usa mais, paga mais. Talvez. O debate não exaure aqui e, como todos os outros pontos desse deve ter nuances que merecem ser explicados.

Neutralidade ou 0800?

Não é só na ponta do acesso, na relação provedor-cliente, que a ausência de neutralidade pode gerar consequências. Uma outra prática é potencialmente mais danosa à livre concorrência na Internet que qualquer tentativa de fragmentação do acesso por parte dos provedores. Aliás, talvez essa seja a prática a ser combatida.

Grandes sites podem chegar a acordos com os provedores para priorizar suas ofertas em detrimento dos concorrentes. A Netflix pagou uma grana boa à Comcast para servir seus clientes decentemente, mas nada impede que, nesses mesmos termos, um serviço que compita com ela pague ainda mais ao provedor para ter mais banda disponível e, consequentemente, qualidade superior.

Posto de outra forma, esse tipo de acordo pode gerar vantagem artificiais e injustas.

Apresentação do Sponsored Data, da AT&T.
Foto: JeanCarl Bisson/30 Days of Travel.

Parece loucura? Sim. Mas o mais maluco é que esse tipo de coisa já acontece. Em vários países, inclusive no Brasil, Facebook e Twitter têm acordos com as operadoras móveis para fornecer aos usuários acesso gratuito a seus serviços. O Bradesco entrou na onda, levantando mais questionamentos sobre o ferimento da neutralidade. Nos EUA, a AT&T estendeu a ideia e a empacotou para empresas interessadas. O sistema, batizado lá de Sponsored Data, já é usado por uma empresa de planos de saúde, outra de publicidade móvel e uma última de soluções de comércio móvel.

Isso afeta a neutralidade? Há entendimentos nos dois sentidos. Entre os que não veem nada errado nisso, o raciocínio é de que essa oferta equivale a um 0800, a um SAC das empresas que ingressam em programas como o Sponsored Data. O problema é que isso causa um desequilíbrio na concorrência. Se, apropriando-se de um exemplo que li recentemente não me lembro onde, o Google tivesse bancado a banda do Google Videos quando o YouTube despontou, qual seria o site de vídeos mais popular do mundo hoje?

O caminho que falta

A neutralidade é um assunto delicado e demanda muita reflexão e debate. Sim, ainda mais reflexão e debate. A redação final do Marco Civil da Internet mitigou o receio dos defensores da Internet livre e previu explicitamente, no caput do artigo 9º, o tratamento “de forma isonômica [de] quaisquer pacotes de dados, sem distinção por conteúdo, origem e destino, serviço, terminal ou aplicação”. Uma vitória para quem defende a neutralidade absoluta.

Em comunicado à imprensa, o SindiTelebrasil, sindicato nacional que representa as operadoras de telefonia, disse ter “recebido positivamente” a aprovação do Marco Civil, “mesmo não sendo em sua totalidade a proposta que o setor considera ideal para a sociedade”. Ele reitera a manutenção, nos termos da nova lei, de serviços já oferecidos, como os acessos gratuitos a redes sociais, projetos educacionais e ao que o sindicato se refere nominalmente como “Internet 0800, em que a conexão é paga pelo site que está oferecendo o serviço”. Tipo o Sponsored Data da AT&T nos EUA, uma oportunidade saborosa para grandes corporações, com muita grana em caixa, acelerar a adoção de serviços, de atropelar concorrentes menores e, quem sabe, até melhores.

O próximo passo é a aprovação no Senado, onde o texto poderá receber alterações e será debatido novamente e, depois, a sanção presidencial. O artigo 9º dependerá de regulamentação pela Presidência via “determinação constitucional fiel à execução da lei” (seja lá o que for isso) e, na redação final, entrou a necessidade de consulta à Anatel e ao Comitê Gestor da Internet para tanto. As exceções à neutralidade serão, exclusivamente, para “serviços de emergência e aos requisitos técnicos necessários à prestação adequada dos serviços”, e sempre com transparência e avisos prévios aos consumidores.

É sempre salutar lembrar que o Marco Civil da Internet trata de outras questões além da neutralidade. E também que ele é, para todos os efeitos, uma espécie de lei de base, que não tem caráter punitivo e que pretende apenas dar diretrizes básicas ao acesso à Internet no país. Apesar disso, alguns artigos são decisivos para moldar o futuro da rede por aqui, um deles o da neutralidade.

A sensação que se tem é que uma vitória foi conquistada, mas a que preço? Um dos princípios constitucionais, o da isonomia, diz que deve-se tratar os iguais na medida da sua igualdade e os desiguais, na medida da sua desigualdade. Ao promover a neutralidade absoluta, parece-me que nos distanciamos disso e damos à Internet termos rigorosamente idênticos para todo mundo. A neutralidade é importante, sim, mas não é uma questão simples, direta, como a maioria pinta por aí. Resta saber como ela funcionará na prática, mas só testemunharemos isso depois da sanção presidencial. Ainda vai demorar.

Agradecimentos ao Pedro Burgos pela orientação e à Nadiajda Ferreira pela revisão. Foto do topo: Amauri Teixeira/Flickr.

Apesar das alternativas gratuitas e na nuvem, o Office segue firme na liderança. Por quê?

Nos domínios da Microsoft, o Office é uma força espetacular. Imparável, implacável, avança e conquista novos territórios sem dar espaço à concorrência. O leitor Paulo Alcantara perguntou, à luz dos recém-anunciados add-ons do Google Drive, se as alternativas à suíte da Microsoft estão maduras o bastante para viabilizar a migração de quem (pessoas e empresas) está habituado ao Office.

O Office não é para mim, nem para você

Antes de qualquer suposição ou fato, é bom esclarecer a quem esses aplicativos se destinam. Eu, por exemplo, não sou público-alvo. Não uso o Office regularmente, embora tenha uma licença da versão 2010 com os apps mais básicos à disposição no meu notebook de trabalho. Vez ou outra recorro ao Word (especialmente para trabalhos acadêmicos) e ao PowerPoint (mesmo motivo); não me recordo da última vez que abri o Excel.

Meu perfil é, para as tarefas que o Office promete dar conta, um tanto simplista. O app que teoricamente eu mais usaria, o Word, é um exagero e um caminho que se fecha em si: dali, ou o texto é enviado para ser lido em outra instância do Word, ou é convertido para PDF ou papel. É possível utilizar o Word a fim de escrever para a web, mas convenhamos: com Markdown, apps mais ágeis e leves na web, e fluxos de trabalho menos complexos, não sobram motivos para recorrer ao Word.

Quando se fala na mítica versão do Office para iPad, o ceticismo de quem desdenha essa investida toma como público perfis parecidos com o meu. Para nós, gente que respira web e consegue viver sem maiores enroscos com ferramentas modernas, livres de legado, o Office de fato não tem lá tanto apelo, e não é de hoje. Olhando em retrospecto, mesmo sempre tendo uma cópia dele instalada nos meus computadores nunca as usei com tanta assiduidade para justificá-las. No passado, com alternativas limitadas em quantidade e qualidade, ele servia a um número maior de atividades; hoje, existe um app para isso — e não é força de expressão.

Nas empresas, o Office reina

Mulher demonstra o Office em uma tela sensível a toques.
Foto: Microsoft/Reprodução.

O que se costuma esquecer é a dimensão que o Office tem onde pagar por software sempre foi um gesto natural: o ambiente corporativo. O Office é uma máquina de fazer dinheiro não por todos os estudantes e blogueiros que compram licenças ou assinam o Office 365, mas pelos contratos de volume que levam Word, Excel, PowerPoint e Outlook para grandes parques de máquinas, para centenas, milhares de computadores de uma só vez, conectados via SharePoint, Exchange, Lync e outros nomes que, para quem conhece o Office de casa, são alienígenas.

Em 2010, a comScore revelou que havia no mundo, englobando todas as situações possíveis (inclusive estimativas da pirataria), mais de 1 bilhão de usuários de Office. Dados mais recentes da Forrester, de outubro do ano passado, mostraram que em três anos o Office 2010 dominou o mercado corporativo. Nessa pesquisa, conduzida com 155 empresas, 85% delas disseram usar essa versão da suíte. A 2013, já respondia por 23% (a soma das porcentagens supera 100% porque várias empresas usam duas ou mais versões em paralelo), quase o dobro da adoção do Google Docs/Drive e muito mais que o OpenOffice e variantes, que despencou no ranking em apenas dois anos.

As soluções na nuvem, personificadas principalmente pelo Google Drive, apesar do “oba oba” não conseguiram fazer a cabeça dos CIOs e penetrar no ambiente corporativo. E não por ignorância ou preconceito. Acontece que o Office da Microsoft tem duas características difíceis de serem batidas: ele é popular e, sejamos honestos, muito bom.

Espaço Office no Shopping Eldorado, em São Paulo.
Espaço Office, no Shopping Eldorado, em São Paulo. Foto: Emerson Alecrim/Flickr.

A popularidade advém da idade — e, créditos à Microsoft pela capacidade de adaptar um software tão antigo a toda e qualquer tendência que emplaque. Ter sido a única opção decente por tanto tempo também criou a cultura da compatibilidade; outros aplicativos, embora conversem com os arquivos gerados no Office, se enrolam com os mais complexos. É um jogo de força bruta, mas que no final pesa a favor da Microsoft.

As mais recentes, nuvem e venda por assinatura, convergiram no Office 365, disponível tanto para empresas quanto para usuários domésticos a preços interessantes. A versão doméstica do Office 365, por exemplo, custa R$ 21 por mês, dá direito à instalação dos apps em até cinco computadores, minutos no Skype, espaço extra no OneDrive e acesso aos apps para iPhone e Android. Para empresas, entram na conta soluções corporativas rodando na nuvem, como o sistema de comunicação Lync, SharePoint e servidor de e-mail Outlook, além do suporte sempre prestativo.

As alternativas são mais baratas, mas também inferiores

Uma planilha complexa no Excel.
Imagem: Microsoft/Reprodução.

As alternativas são gratuitas ou mais baratas? Sim. Mas carecem da maturidade do Office, do poder das suas ferramentas e da integração, entre apps e com as empresas. Para usuários casuais, um Google Drive ou iWork quebra o galho; para quem está inserido em uma grande rede corporativa cheia de protocolos e regras, não.

A última reformulação no iWork simplificou, muito até, os apps. É um caminho contrário ao do da Microsoft, que conseguiu algo raro com seu Office: ser ao mesmo tempo poderoso para quem precisa e simples para quem não o entender. O leitor Gustavo Vieira usa o Office no trabalho e em casa e explicou seus motivos:

“Uso [o Office] tanto na empresa quanto em casa e a justificativa é a mesma: é o que tem os melhores recursos avançados no pacote. Simplesmente não há alternativa decente (principalmente em relação ao Excel — fórmulas matriciais, macros VBA, tabelas dinâmicas) que consiga suplantar a suíte da microsoft. Até o Word, que a maioria acha que é apenas um editor de texto feioso, tem suas vantagens insubstituíveis (opções de formatação, smartart, referências, alterações controladas…).”

O Paulo, que sugeriu esta pauta, detalhou o que torna o Office, em especial o Excel, insubstituível para ele — e é curioso notar como os motivos vão além dos técnicos:

  • Porque quando comecei a trabalhar na área (design de interiores) há 10 anos já faziam assim, então, é algo muito difícil de mudar na cabeça das pessoas.
  • Macros. Querendo ou não, criar uma macro é algo muito difundido e relativamente fácil, então a planilha que eu uso tem macros criadas anos atrás que ainda funcionam muito bem.
  • Velocidade e confiabilidade com planilhas grandes. É sensível a diferença aqui. Uma planilha online como a do Google não tem a mesma velocidade de cálculo, nem a mesma confiabilidade. Já aconteceu de eu ter lançado algumas coisas na planilha do Google, e quando vou abrir, dá algum bug e o dado desaparece! Coisa que NUNCA, NUNCA, aconteceu com o Excel.
  • Fórmulas. As fórmulas do Excel são traduzidas para português, e quando meu pai me ensinou a mexer no Excel, ele me ensinou as fórmulas em… adivinha: português, como SOMA, CALC, etc. As fórmulas do Google Docs estão em inglês e são ligeiramente diferentes, o que me atrapalha um pouco.
  • Ambiente diferente. Querendo ou não, as pessoas ainda se sentem meio coibidas usando uma planilha fora do computador delas. “Mas fica nos Estados Unidos?”, disse uma funcionária aqui. “Mas o arquivo não é mais meu?”, disse outra funcionária. A pessoa perde a ilusão da “posse” daquele arquivo, acha que literalmente pode perder o arquivo ou outras pessoas podem ler. (E isso tem um fundinho de verdade.)
  • Ninguém quer aprender a mexer no Google Script para substituir macros! Sério, nem eu, que gosto de tecnologia, tive paciência de chafurdar em manuais para criar scripts que substituiriam as macros. A Macro é algo tão difundido, que é bem difícil substituir agora. Mas eu tenho uma missão comigo mesmo de resolver isso pelo menos aqui, no escritório.
  • Look and feel diferente. Imagina uma secretária, que faz o trabalho dela, repetitivo e sem criatividade, há 20 anos (uma grande amiga minha, por sinal), ter que se acostumar com os Ribbons do Excel 2007/2010. Não rolou. Ela pediu para trocarem de volta pelo Excel 2003, com os menus que ela estava acostumada.
  • Zoom. É normal fazer uma planilha grande no Excel e diminuir o zoom para ela caber na tela. Esse conceito não existe no Google Docs, a planilha que você tem é sempre 100% da visão, você não consegue reduzir ela na tela. Imagina isso com uma planilha com milhares de entradas!
  • Letargia profissional. Quase ninguém num ambiente corporativo quer melhorar as coisas, são poucos que querem arranjar uma encrenca. As pessoas querem fazer o trabalho delas e ir embora. Ninguém quer encarar o problema de transferir uma planilha monstruosa, com dados de 15 anos, para o Google, adaptar toda a formatação, ajustar as letras, recriar as macros em script, ensinar as pessoas a usar o novo conceito e convencer o chefe. É muito mais fácil simplesmente avisar o pessoal do TI a instalar a mesma versão do Excel 97/2003 no computador dele, que vai funcionar de qualquer jeito.

Nem toda empresa precisa de tudo o que o Office oferece, claro. Quanto mais simples as exigências, quanto mais enxuto o workflow e menor o número de funcionários, mais fácil é adotar alternativas. Embora o iWork foque na simplicidade para agradar o usuário doméstico, o Google tem a mesma abordagem de olho no corporativo. E funciona, pelo menos para cinco milhões de empresas — esse número, o último divulgado oficialmente, de junho de 2012.
É muito bom ter opções e não depender apenas de uma fornecedora, mas tratar o Office como uma tecnologia ultrapassada e em desuso é, no mínimo, exagerado, um discurso que não bate com a realidade, ainda que uma restrita à corporativa.

Talvez seja o mesmo caso do Internet Explorer: nos fins de semana, a sua fatia no gráfico de uso dos navegadores despenca. Só que funcionário também é gente e o software que ele usa é real, conta. Google Drive, iWork, OpenOffice e outros estão a quilômetros de distância do Office. Se duvida, tente fazer uma planilha complexa, com macros e outros recursos avançados, nessas alternativas. E boa sorte!

Gratuito e onipresente, OneNote é a droga de entrada da Microsoft

Não é fácil, para qualquer empresa, mudar seu modelo de negócios. Para uma enorme, com centenas de produtos, milhares de funcionários e anos de estrada como a Microsoft, menos ainda. Apesar de toda a dificuldade, o pessoal de Redmond parece convicto de que o futuro está nos dispositivos e serviços e, pouco a pouco, começa a refletir essa mentalidade nas suas ofertas.

A última? O OneNote. Para quem nunca se deu ao trabalho de abri-lo, é um aplicativo para tomar notas similar ao Evernote. Ele é organizado na forma de cadernos, com “pastas” dentro e dá uma liberdade bem grande ao usuário, que pode escrever, desenhar e colar objetos em qualquer parte da tela, organizando a informação da maneira que preferir.

OneNote: onde você quiser, de graça

Além de ser um dos aplicativos mais novos da suíte Office, o OneNote costuma servir de cobaia para experiências da Microsoft. Ele foi o primeiro desses apps a ser lançado em sistemas móveis concorrentes (iOS e Android no começo de 2012) e o pioneiro e, até o momento, único a ter uma versão moderna no Windows 8 (março de 2013). Agora a Microsoft experimenta novamente com o OneNote ao torná-lo o primeiro pedaço do Office totalmente gratuito.

De uma vez só, foram anunciadas várias novidades para o OneNote:

  • Lançamento da versão para OS X, gratuita e distribuída via Mac App Store. Com ela, o OneNote passa a ser acessível de oito maneiras diferentes: app para Windows, app moderno para Windows 8, Windows Phone, OS X, iPad, iPhone, Android e web.
  • Distribuição gratuita e independente do Office na versão Windows. O OneNote agora é gratuito, sem anúncios e com (quase) todos os recursos — só ficam de fora alguns de cunho corporativo, como integração com Outlook e SharePoint, e histórico de versões, que seguem atrelados ao Office 365.
  • Novas formas de salvar conteúdo. O OneNote Clipper é um bookmarklet que envia páginas web para um caderno do OneNote e funciona com os quatro principais navegadores. O Office Lens (apenas para Windows Phone) fotografa, ajusta e manda para os cadernos do serviço imagens de textos “físicos”. É bem maluco, e parece funcionar bem. Por fim, agora dá para mandar conteúdo ao OneNote via email, via me@onenote.com.
  • API para integração com outros serviços. De cara, grandes nomes já estão disponíveis, como Feedly, IFTTT e Livescribe.

Por que o OneNote agora é gratuito?

OneNote chega ao Mac de graça.
Imagem: Microsoft/Reprodução.

Pouca gente está disposta, em 2014, a pagar por software — o boom de apps freemium é prova disso. Modelos gratuitos suportados por benefícios extras (e pagos) e o de assinatura têm barreiras menores de entrada, atraem mais usuários. O que você prefere: pagar mais de R$ 1.000 em uma licença do Office ou R$ 21 por mês para ter o Office 365, sempre atualizado, podendo cancelá-lo quando for conveniente? Pois é.

Forças externas, personificadas por analistas e investidores, reforçam o coro dos usuários e pressionam a Microsoft em direção a essa tendência. Na índia, duas fabricantes locais firmaram um acordo que lhes garantiu o licenciamento gratuito do Windows Phone. O Office 365, lançado ano passado, é o Office por assinatura: atualizado constantemente, com recursos que vão além dos apps da suíte.

O próximo passo é o OneNote. Ele faz (ou fazia?) parte do Office, o que à primeira vista pode dar a sensação de que essa estratégia é suicida. Afinal, só no último trimestre fiscal a Divisão de Negócios, onde o Office está alocado, faturou US$ 7,2 bilhões, quase 10% de todo o faturamento da Microsoft no período. Sendo o Office uma das franquias mais lucrativas, por que ceder e distribuir um pedaço atraente dele gratuitamente? Pelo ganho indireto e a longo prazo.

OneNote gratuito e onipresente.
Imagem: Microsoft/Reprodução.

A ideia da Microsoft é continuar lucrando em cima de clientes corporativos, que já formam o grosso dos usuários do Office mesmo e que continuarão pagando para ter o OneNote. A gratuidade atinge os usuários domésticos. É nesse público, que nunca pagou pelo Office ou não tem lá muito interesse nele, que esse esforço se concentra.

Com as novidades, que podem ser resumidas em presença total e gratuita nas principais plataformas atuais e extensibilidade, o OneNote diminui a distância que tem para o Evernote como ferramenta de “terceirização do cérebro” e deixa concorrentes menos robustos, como Google Keep e Simplenote (da Automattic) para trás. Ele sempre foi um bom produto; agora, ficou ainda melhor.

O Evernote, com uma base de 75 milhões de usuários e a ambição de chegar a um bilhão deles, recebeu críticas pesadas não faz muito tempo pela inconsistência e perda de dados — pecados capitais para um app do seu gênero. O timing desse anúncio foi muito bom, coisa rara em se tratando de Microsoft.

A oportunidade para o OneNote está aí. Capturar esse público, apresentar-se a outro que não o conhece e nem ao Evernote e, com o uso maciço, retê-los nos domínios da Microsoft e levá-los a outros produtos da casa. Ele deve fazer o papel, como alguém comentou, de “droga de entrada”. Se o usuário gostar, se sentirá mais compelido a partir para coisas mais pesadas como uma assinatura do Office 365, ou a expansão paga do espaço de armazenamento do OneDrive. Para a Microsoft, a nova Microsoft de dispositivos e serviços, tudo isso se traduz em novas fontes de faturamento e, o mais importante, entrando do jeito que ela quer, ou seja, via serviços.

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