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Em Axie Infinity, a diversão é ganhar dinheiro

Ilustração bem colorida de vários personagens do jogo “Axie Infinity” batalhando.

Quando meu cunhado me ligou, em uma manhã de sábado, perguntando se eu queria “ganhar dinheiro jogando”, achei que fosse um meme recente, alguma piada perdida no feed algorítmico do Twitter. Não era. Ele tinha acabado de ler uma matéria sobre o jogo Axie Inifinity que o deixara empolgado.

Pudera. O jogo rendia tanto que muitas pessoas de diferentes partes do mundo estavam abandonando seus empregos para ficar apenas jogando e lucrando. Como os ganhos são em dólar, era possível ganhar valores que superavam um salário mínimo em países com moedas desvalorizadas, como as Filipinas1 e o Brasil. “É uma questão de tempo até ele pegar aqui também”, profetizou.

Tudo parecia bom demais pra ser verdade. Agora, depois de um mês jogando Axie Infinity todos os dias e, de fato, ganhando algum dinheiro, posso dizer com certa tranquilidade que: ainda não sei se é bom demais pra ser verdade. Isso porque nada que envolve o Axie Infinity é muito simples, mas vou dar meu melhor para tentar explicar.

Mezzo jogo, mezzo investimento

Personagens de “Axie Infinity” se encaram no céu azul.
Ilustração: Sky Mavis/Divulgação.

Lançado em 2018 pela empresa vietnamita Sky Mavis, Axie Infinity é um dos primeiros no gênero “play do earn” em blockchain. A parte do “ganhar dinheiro jogando” é fácil de entender. Você ganha dinheiro… jogando. A blockchain entra na história porque, para começar a jogar, é preciso primeiro comprar três criaturas chamadas axies, monstrinhos lúdicos parecidos com pokémons. Mas em vez de lançar uma pokébola para capturá-los, você precisa desembolsar uma grande quantia da criptomoeda Etherium (ETH). Os axies são NFTs, os famigerados tokens não-fungíveis.

Sem esse investimento inicial você não joga. E, hoje, é um investimento inicial considerável, já que a cotação da ETH não para de crescer2. No fim de julho, meu cunhado desembolsou R$ 8 mil para comprar três axies. Hoje, no momento em que escrevo esse texto, em meados de agosto, para montar o mesmo time de três bichinhos ele pagaria algo em torno de R$ 10 mil. Quando for publicado, é bem possível que esses R$ 10 mil tenham se tornado R$ 12 ou R$ 13 mil.

Não é muito fácil comprar esses bichos. É preciso criar duas carteiras virtuais e ficar transferindo criptomoedas de lá para cá. Entusiastas do jogo dizem que ele está desempenhando um grande serviço público de “popularização” da blockchain. Supostamente esse seria um jeito “divertido” de aprender como ela funciona. É como se Axie Infinity fosse um material dourado para aprendizagem de blockchain. Acho que, se pudessem optar, muitos dispensariam essa aula não-solicitada.

Axies comprados, é hora de jogar tal qual um desvairado para recuperar logo o dinheiro e começar a lucrar, certo? Mais ou menos. Existe um limite diário de dinheiro que você consegue ganhar no jogo e, passando desse limite, você pode até continuar jogando, mas só pela “diversão” — e já adianto que ela não é muita.

O jogo é dividido em duas dinâmicas: o modo aventura e o modo arena. O modo aventura é composto por várias fases, todas muito similares. Basicamente, você precisa matar uma turba de monstros com os seus três axies. A pequena variabilidade entre as fases reside nos diferentes tipos de monstros disponíveis, na ordem em que eles aparecem e na quantidade de monstros que você precisa aniquilar. Não é necessário passar as fases com seus três axies vivos, basta que um sobreviva ao massacre. No modo arena você coloca seu time para duelar contra o time de outros jogadores. Tudo se passa mais ou menos como um jogo de Pokémon, caso ele fosse +18 e os jogadores se metessem em dívidas por ficarem viciados em apostas envolvendo animais brigando até a morte. Axie Infinity realiza todo o potencial represado pela classificação etária do Pokémon: ser um simulador de rinha de galo.

Tela de seleção do tipo de jogo, aventura ou arena, em “Axie Infinity”.
Imagem: Sky Mavis/Divulgação.

A “moeda” do jogo, que você conquista vencendo batalhas, é um token chamado Smoth Love Potion, ou simplesmente SLP. Então vamos anotando aí: para adquirir os axies, é preciso comprar a criptomoeda Etherium. Jogando, você ganha o token SLP. A cada 14 dias você pode trocar todos os SLPs conquistados por dinheiro de verdade: um punhado de dólares.

Quando eu comecei a jogar (com o time que meu cunhado montou), o “teto” de SLPs que você podia ganhar por dia era de 150 no modo aventura, mais aqueles que você conquista jogando contra outros jogadores no modo arena, em uma máximo de 20 batalhas por dia se você só tem três axies. Quanto mais axies você comprar, mais esse teto de batalhas sobe, podendo chegar a 603. Isso quer dizer dava para tirar pelo menos 150 SLPs por dia. Os ganhos com a arena podiam turbinar o número para uns 250, 300 SLPs diários, ou até mais, caso seu time fosse forte. Em uma conta rápida, com a cotação da SLP a cerca de R$ 1,50, valor atingido em 24 de julho, dava pra tirar quase R$ 7 mil por mês.

Interessante, não? Imagine então se você pudesse hackear o sistema comprando um montão de axies e depois colocando robôs para jogar por você? Foi o que algumas pessoas começaram a fazer. Essa prática lançou muito SLP no mercado, desvalorizando cada vez mais o token. Para tentar reverter o quadro, no dia 9 de agosto os administradores do jogo anunciaram uma mudança no número máximo de SLPs que os jogadores podem conquistar diariamente. No modo aventura, o teto diário de SLPs agora é de 75. O resto você precisa ganhar no modo arena. Essa alteração impactou positivamente a cotação do SLP nos dois primeiros dias, que recuperou um pouco do seu valor, mas logo voltou a cair. O que é uma má notícia, mas não um completo desastre. Isso porque essa não é a única nem a melhor maneira de ganhar dinheiro com o jogo. O dinheiro de verdade está no comércio de axies.

Os axies

Lembra que os axies são NFTs? Muitos dizem que essa é a grande sacada do jogo. Ao tornar o axie um NFT, a empresa cede a propriedade dos bichinhos para o usuário, fomentando a criação de uma comunidade em cima do jogo. Esse é jeito cor-de-rosa de ver as coisas.

Outra perspectiva: para avançar no modo aventura e ser minimamente competitivo no modo arena, você precisa ter um time de axies que trabalhem muito bem juntos. É preciso buscar por certa sinergia entre as características de cada um. Além disso, o jogo tem um “meta” (estratégias de jogo que se tornam populares momentaneamente) muito dinâmico. Uma estratégia de jogo ou determinado axie que é visto como muito poderoso em uma semana pode não funcionar tão bem em batalhas no modo arena na próxima semana. Se isso já é um problema para jogadores ativos, que precisam continuamente se adaptar a essas mudanças, imagine para os novos jogadores?

Axie Inifinity, tal como Suzana Vieira, definitivamente não tem paciência com quem está começando. A despeito de todo esse conhecimento necessário sobre o meta do jogo, a empresa te obriga a comprar os axies antes de começar a jogar, ou seja, é uma compra que você faz no escuro, com altíssimas chances de se arrepender e precisar colocá-los à venda para comprar axies melhores, fazendo a roda da economia axie girar. Sabe quem ganha dinheiro com as compras equivocadas de novatos? Acertou quem disse “os desenvolvedores”. A Sky Mavis cobra uma comissão de 4,25% por transação de axie4. Se você quiser colocar seus axies para procriarem, e assim gerar mais axies, precisa pagar algumas taxas para a empresa também. Imposto sobre procriação, um oferecimento capitalismo tardio.

E sabe a “comunidade” em volta do jogo? Os veteranos dessa comunidade também podem capitalizar bem em cima dos novatos. Seus axies fraquinhos que estão à venda no marketplace têm mais chances de encontrar um comprador na medida em que mais e mais novatos estão querendo entrar no jogo. É possível oferecer consultorias para os novatos montarem seus times também, e até mesmo juntar o útil ao agradável, ou o golpe por cima do golpe, sugerindo seus próprios axies para o novato comprar.

Acertou quem viu similaridades com esquemas de pirâmide, na qual os novatos precisam pagar uma taxa para entrar, na esperança de ganhar dinheiro com outros novatos lá na frente.

Como o Etherium valorizou muito e a cotação do SLP oscila bastante, muitos usuários abandonaram a parte “jogo” do jogo e hoje centralizam seus esforços na reprodução dos axies para vender os “filhotes” depois. Essa prática é chamada de “breed” e pode gerar lucros muito altos e de forma muito rápida, já que todo o processo de cruzamento, geração de “ovos” e crescimento dos novos axies é concluído em apenas cinco dias. Mas cruzar axies é um investimento de risco. Existe uma complexidade exagerada nos fatores levados em conta para a geração de axies fortes. É preciso considerar a classe (eles podem ser aves, plantas, bestas, répteis etc.), cada uma das seis partes de seu corpo (como é a sua orelha, sua boca, seu rabo) e os três tipos de genes que compõem cada parte do corpo (dominante, recessivo e recessivo menor). O estudo cuidadoso de todos esses fatores pode mitigar bastante a chance de você criar um axie fraco, mas ela ainda existe, já que o sistema de cruzamento é baseado em probabilidades genéticas. Isso quer dizer que você corre o risco de gerar um axie fraco cujo valor de mercado não recupera o dinheiro investido com o cruzamento. Mas a Sky Mavis não discrimina: axie bom ou axie ruim gerado, ela ganha dinheiro do mesmo jeito.

As escolinhas

Sabe as semelhanças inquietantes com um esquema de pirâmide? Então, fica pior. Para ganhar os SLPs diários, você precisa pastar, ou melhor, “farmar”. As fases do modo adventure começam dando apenas 1 SLP. Um jogador iniciante gastava fácil umas cinco horas nos primeiros dias pra farmar. Com a diminuição do teto de SLPs diários disponíveis no modo aventura, essa quantidade de horas diminuiu bastante, mas não é uma carga horária desprezível.

Para burlar o sistema, muitas pessoas passaram a montar times e sublocá-los para outros jogadores. Os contratos variam, entre 50% por cento para cada parte, ou 20% para o dono do time e o restante para o jogador. A prática ganhou um nome fofo, as Scholarships, ou Escolinhas. Mas é capitalismo puro e simples: os donos do meio de produção (proprietário dos axies) contratam a força de trabalho (jogadores) para produzir riqueza (SLP).

As Escolinhas vão muito bem obrigado em países como o Brasil, onde a taxa de desemprego não para de crescer e pouquíssimos são os privilegiados que possuem o capital inicial para comprar seu próprio time de axies, tipo o meu cunhado. Ainda assim, se um jogador afiliado a uma Escolinha conseguir ganhar R$ 2–3 mil reais por mês jogando, não é um bom negócio? “Se for possível guardar um pouco desse dinheiro, em meses ele pode comprar o próprio time”, diriam seguidores da Nathália Arcuri5. Se esse jogador de fato receber a sua parte do acordo, pode ser um bom negócio sim. Mas isso pode não acontecer. Assista algumas lives na Twitch sobre Axie Infinity que você eventualmente vai se deparar com o relato de usuários no chat que foram enganados por donos de times. Jogaram o mês inteiro e na hora do ajuste de contas o dono do time trocou o login da conta e escafedeu-se. O golpe é facilmente aplicado já que o dono do time possui controle sobre a conta principal, fornecendo apenas o login de um subconta para o jogador da Escolinha.

Seria irônico, não fosse trágico, pensar nesses jogadores que foram passados pra trás à luz desta citação do co-fundador do Axie Infinity, Jeff “Jiho” Zirlin:

“Em uma economia da atenção, usuários que nos dão sua atenção precisam ser recompensados.”

Mas e aí?

Visão isométrica de um cenário do jogo “Axie Infinity”.
Imagem: Sky Mavis/Divulgação.

As ambições de Axie Inifinity são tão superlativas quanto o “infinity” do título. Os desenvolvedores criaram um mundo para os axies, chamado Lunacia. Segundo o próprio site do jogo, Lunacia é “um grid de 301 por 301 no qual cada quadrado corresponde a um token de pedaço de terra”. Ninguém sabe o que vai dar pra fazer com essas terras no futuro, mas a especulação em cima está a todo vapor. Recentemente, o criador do Illuvium, outro jogo em blockchain, anunciou que vendeu um pedaço de terra da Lunacia por US$ 28 mil. Ele comprou o terreno por US$ 300 dólares, ou seja, teve um lucro de 9.233%.

Além disso, a empresa alega que pretende ser cada vez mais descentralizada à medida que cresce, disponibilizando mais tokens de governança (os AXS) no mercado. A ideia é que os detentores desse tokens tenham algum poder decisório nos rumos do jogo, por meio de votações. Mas os desenvolvedores só planejam perder o voto majoritário em 2023. Até lá, decisões unilaterais que podem trazer profundos impactos no jogo — até mesmo sua derrocada — podem ocorrer do dia pra noite, como ocorreu com a diminuição do número diários de SLPs em agosto.

Depois de um mês jogando, consumindo vídeos no YouTube e Twitch sobre o jogo, comecei a desenvolver resistência a dois termos indiscriminadamente utilizados por jogadores veteranos: “ecossistema” e “comunidade”. O site Not Boring menciona até uma pesquisa feita pelos desenvolvedores, que perguntava se os usuários jogavam Axie Infinity pelo dinheiro ou pela “comunidade”:

Mas não se trata apenas do dinheiro. Axie sondou os seus jogadores sobre a sua principal motivação para jogar Axie Infinity. 48% disseram que jogavam pela economia, formando uma base sólida de pessoas ganhando a vida na plataforma, mas 37% disseram que a sua principal motivação é a comunidade. Essa comunidade vive principalmente no servidor Discord do Axie, com 549 mil usuários. É um dos poucos servidores da Discord com mais de meio milhão de pessoas no mundo.

A pesquisa é ótima porque não diz nada. As duas opções não são mutuamente excludentes. Você pode jogar pelos ganhos e pela comunidade, que te auxilia com… seus ganhos. Agora, se a pergunta fosse “você está jogando pelo jogo ou por que está ganhando dinheiro?”, aqueles 48% subiriam bastante. A experiência de jogar não é lá muito agradável. Existe um nível de aleatoriedade não desprezível nas batalhas e se você não tem muito dinheiro para investir em um time bom, vai perder horrores. Como se isso já não fosse chato o bastante, atrelar seu desempenho no jogo à conquista ou perda de dinheiro drena toda a graça da coisa6.

Do jeito que falam, a comunidade formada em torno do jogo remete a um aglomerado coeso de usuários benevolentes, e o ecossistema, um lugar quentinho no digital para habitar. Não foi o que encontrei. Vi muitas pessoas de olho nos axies como se olhassem para gráficos de ações, e o lugar quentinho resume-se a um monte de NFTs, um jogo chato e um mundo virtual sem vida mas já loteado.

Por outro lado, em um mês jogando7, ganhei cinco mil SLPs, o que corresponde a mais ou menos R$ 5 mil reais com a cotação da SLP a R$ 1. Desse total, metade ficou comigo, metade com meu cunhado, dono do time. Nada mau. O jogo é chato, mas qual trabalho não é?

Este artigo tem caráter informativo e não deve ser considerado, em nenhuma hipótese, como conselho, incentivo ou endosso. Axie Infinity é um investimento de alto risco. A cotação das criptomoedas Etherium e dos tokens SLP e AXS está sujeita a especulação financeira e a expectativa de vida do jogo é um mistério. Alterações e decisões unilaterais dos desenvolvedores podem popularizar ainda mais o jogo ou precipitar seu fim. Em relação às Escolinhas, é preciso pesquisar bem a idoneidade das empresas ou pessoas que oferecem esse tipo de “parceria”.

Ilustração do topo: Sky Mavis/Divulgação.

  1. Mais de 60% dos jogadores de Axie Infinity são filipinos.
  2. A criptomoeda valorizou 600% nos últimos seis meses. Hoje, 1 ETH está custando a bagatela de R$ 16.639,40.
  3. Para conseguir 60 energias diárias, você precisa ter mais 20 axies.
  4. Nos últimos 30 dias, foram vendidos 1.608.913 de axies, movimentando quase um bilhão de dólares, ou US$ 965 milhões, para ser mais exata.
  5. Este vídeo da Nathalia explica como esquemas tipo o das Escolinhas podem enriquecer empresários e “desfoder o Brasil” simultaneamente. Uma clássica relação win-win.
  6. Estou ciente de que muitos vão discordar comigo aqui, jogadores de pôquer principalmente.
  7. Nunca cronometrei o tempo diário gasto jogando Axie Infinity. Hoje, na fase que estou do modo aventura, estimo que seja por volta de 3 horas/dia.

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26 comentários

  1. Axie Infinity é um ótimo exemplo de tudo que a comunidade de gamers (sic) mais tem lutado contra: microtransações. Jogos que te forçam a pagar por ele, pelo conteúdo, para ter ganhos ou qualquer tipo de vantagem sobre outros jogadores. Tudo que quem gosta de jogar, tende a desprezar.

    Entretanto, todos os filtros estão sendo removidos pela possibilidade de lucros faceis.. Pois bem, pode até não ser “esquema de piramide”, mas as motivações tão indo pelo mesmo caminho, assim como outros jogos de azar. Me parece mais um pega trouxa.

  2. O argumento de pessoas que estão de fora é que o axie infinity é uma pirâmide e que assim que acabar a demanda de novos jogadores o jogo entra em colapso, concordo… Err espere um pouco.

    1-A Fiat se parar de conseguir novos compradores para os seus carros entra em colapso.

    2- McDonald’s se não tiver mais clientes entra em colapso … Bem e por aí vai.

    O axie infinity e um ecossistema que trabalha em um ciclo como qualquer economia, se ele vier a falir, será algo normal igual a nossa valorizadissima economia brasileira (ironia) onde pessoas trabalham para ganhar míseros 1 salário mínimo.

    O problema é que tudo virou pirâmide, algo fora do conhecimento de alguém será taxado de pirâmide. A própria ingenuidade de uma massa pode fazer um projeto como axie infinity, (que na minha opinião, é projeto inovador), ser deixado de lado e falir.

    1. Caro, você só comeu um sanduíche do McDonald’s a sua vida inteira? Ou pessoas e empresas só compram um carro na vida e acabou? Restaurantes e montadoras não entram em colapso se não encontrarem novos compradores porque são negócios que trabalham com recorrência.

      Por outro lado, você não consegue entrar duas vezes nume esquema de pirâmide. Sua única chance de ganhar dinheiro é convencendo outras pessoas a entrarem (ou seja, pagarem uma única vez). Aqui é questão de tempo até as pessoas crentes no negócio acabarem e a pirâmide, desmoronar.

      1. Discordo que o Axie Infinity seja uma pirâmide. Ele não depende da entrada de novos jogadores para se manter. Há gastos recorrentes no jogo que garante a rentabilidade para a empresa proprietária do jogo e para os próprios jogadores.

        Por outro lado, entendo que a alta demanda de pessoas querendo entrar no jogo gerou uma bolha especulativa no valor dos itens e, atualmente, a maior parte dos ganhos que os vídeos pela internet estão alardeando vem dessa especulação e não dos ganhos recorrentes. Essa bolha vai estourar em algum momento e os preços vão despencar, sobrando apenas os ganhos recorrentes.

        Em resumo, na minha opinião o Axie Infinity não é uma pirâmide, mas está vivendo uma bolha especulativa bastante inflada.

        1. Tudo o que gera uma bolha especulativa não deixa de ser uma “pirâmide”.

          Quando se fala em pirâmide, é justamente no fato de que se ganha mais na especulação do que na oferta e demanda per si. E lembrando que games (e softwares, e arte digitalizada, e etc) são teoricamente “infinitos” em demanda: um ctrl+c e ctrl+v e tu tem o jogo (ou um pouco de hacks e cheats e tu pega funções de graça). A empresa de software pode oferecer o jogo enquanto tiver o servidor ativo, o que significa que pode ser eterno seus ganhos.

          Uma fabricante de automóveis ganha na capacidade de produção de seus itens também. Sejam carros de passeio, caminhões ou outros equipamentos – lembrando que muito se fala na “Fiat” mas esquecemos que ela faz parte de um conglomerado, o “Stellantis”, e é isso que faz de alguma forma as fábricas (e a marca) estarem vivas. Se ganha em N outras formas – é assim que capitalistas de alguma forma tentam ganhar dinheiro sem parecer uma “pirâmide”.

          O capitalismo, no estado atual, tenta sobreviver com as pirâmides, pois é assim que ela consegue justamente manter uma “pirâmide” de poder econômico. Quem joga como pode, tenta ganhar mais para ficar no topo dela. Não a toa as críticas ao modo de viver capitalista: sempre precisa “fazer o outro de bobo” para ganhar algo. Jogos digitais e moedas tipo “blockchain” tentam apenas fazer quem pode usufruir destes jogos em ganhos financeiros fazerem parte deste topo da pirâmide, fazendo de bobo o restante de quem tenta participar.

          Uma hora o “povão” urbano, que de alguma forma pensa que pode ser um novo “favelado investidor”, vai cair a ficha que só ficar gastando dinheiro em coisa boba ou que na verdade nem existe (como blockchain e nfts) não vai servir de nada.

          1. Calma lá, Ligeiro! A gente precisa cuidar para manter o significado das palavras, sob o risco de não nos entendermos mais. Pirâmide financeira tem um conceito bem definido, e não é “tudo que gera uma bolha especulativa”.

            Para não nos perdermos aqui, pego a definição da Wikipédia: “Um esquema em pirâmide conhecido também como pirâmide financeira, é um modelo comercial previsivelmente não sustentável que depende basicamente do recrutamento progressivo de outras pessoas para o esquema, a níveis insustentáveis.”

          2. Faço minhas as palavras do Ghedin. “Pirâmide Financeira” é um conceito bem definido que depende da entrada contínua de novos participantes para se manter. E, por isso, o Axie Infinity definitivamente não é uma pirâmide.

            Por outro lado, acho que o Ligeiro quis dizer que o sistema capitalista como um todo é uma pirâmide à medida que ele é insustentável por depender da entrada de novos “participantes”, sejam pessoas, sejam recursos naturais. Pessoas parece que ainda estamos longe do limite, mas recursos naturais não. E sem a entrada de mais recursos naturais essa “pirâmide” do sistema capitalista vai quebrar.

            Acho que foi isso que o Ligeiro quis dizer ou então eu viajei totalmente.

          3. @ Rogério Calsavara

            Ah, aí acho que concordamos, ou quase. O capitalismo depende do crescimento constante, mas não necessariamente de novas pessoas — ao menos não até chegar a um limite extremo. A maioria das empresas foca em público jovem partindo da premissa de que essas pessoas vão ascender financeiramente e, na mesma medida, aumentar seu consumo. Esse conceito inexiste num esquema de pirâmide.

    2. Um carro ou um sanduiche tem sua utilidade real ,vc paga e tem seu retorno na hora, em uma piramide vc investe seu dinheiro para ganhar mais dinheiro so que , a maioria vai e perder dinheiro e o colapso é uma má noticia só para a minoria que lucra!

  3. Ótimo, texto já tinha ouvido falar nesse jogo, porém nunca acreditei, dá muita esclarecida, parece muito difícil lucrar, gastar 8k pra começar e surreal.

  4. Uma linha interessante de “capitalismo digital” é esse negócio de “economia gamer”.

    Avatares, personagens, equipamentos… Se parar para pensar, não é diferente de jogos de azar comum, tipo poker e truco.

    Lembrei de um amigo que era viciado em um jogo chamado “Travian”. Existia algo de comprar e vender itens por lá.

    O engraçado nessa do uso de criptomoedas é que no final soa como esquemão de lavagem de dinheiro.

  5. Acho muito interessante como as pessoas conseguem usar o capital para especular e gerar lucro “em cima do nada”, e assim constroem seus castelos. Pena que castelo precisa de bom alicerce e “nada” não me parece ser um bem sólido… sorte de quem constrói e vende antes de desmoronar.

    Jamais vou achar essa faceta normal e saudável.

  6. 8 mil num Pokémon, mano do céu.

    E eu me arrependendo amargamente de ter gasto 50 reais em pokébolas pra pegar um Scizor no Pokémon Go.

    1. Cara, as poucas vezes que gasto dinheiro com jogo é só pra comprar, evito comprar skin/itens/vantagens, acho horrível porque você se acostuma a pagar para ter os benefícios, porque jogar no “0800” demora demais.
      Deixo de jogar muita coisa por causa disso, mas até que a paz de espírito compensa, e o dinheiro na conta fica lá pra qualquer emergência.

    1. Parece uma pirâmide, tem tudo de uma pirâmide mas não é pirâmide é muito pior pelo jeito, de acordo com a descrição é um lugar onde se perde a vida(literal) e no fim todos vão perder, não existe sustentabilidade a longo prazo.
      Muito triste ler este relato.
      (Claro que alguém dirá que muitos perder este tempo jogando), porém quando a premissa básica é investir um valor considerável só posso parafrasear o Capitão Nascimento “Vai dar Merda”

      1. Isso me lembrou de um diálogo que tive com um amigo quando ele entrou naqueles esquemas de pirâmide de marca de cosméticos:

        Eu: Cara, você sabe que isso aí é um esquema de pirâmide e vai dar merda no futuro, né?

        Ele: Claro que sei, mas como ela tá no começo, dá pra eu lucrar bem no curto prazo e pular fora antes de dar merda, tendeu?

        Não consegui refutar o argumento dele depois dessa frase.

        1. Você pode refutar o argumento dele afirmando que não é possível determinar se um esquema de pirâmide está no começo ou se está próximo do fim. As bolhas econômicas são um grande exemplo desta questão.

          Mas qual foi o final da história? Ele conseguiu sair antes da bancarrota?

          1. Sem falar no argumento óbvio: a única maneira dele ganhar é prejudicando outras pessoas. Não funciona com psicopatas e sociopatas, mas suspeito que muita gente que entra em pirâmide não tem muita noção disso.

          2. Conseguiu. Comprou uma moto com o lucro que teve e ainda sobrou um pouquinho.

      2. Li o texto e fiquei me perguntando quando as autoridades vão começar (se é que já não começaram) a investigar isso.

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