O delírio dos NFTs nos levará ao fim do mundo

Lareira ao ar livre, com um original de Picasso em chamas. Ao lado, homem com um maçarico.

Fosse vivo hoje, Walter Benjamin teria muito o que pensar e escrever a respeito da digitalização da cultura, de serviços como os de streaming e dos vários modelos de negócio que gravitam a arte, como os NFTs. Na ausência do pensador alemão do século XX ou de alguém mais capacitado, você terá que se contentar comigo, um mero observador sem o talento nem o conhecimento de Benjamin, para tentar entender esse último, o NFT, sigla em inglês para token não-fungível, a grande sensação ou fraude do mercado em 2021, dependendo a quem você pergunte.

Nesta parte do texto eu deveria lhe explicar, ou tentar, o que é um NFT. Farei isso, mas fugindo dos detalhes técnicos que, em geral, pouco contribuem. Há quem argumente que a suposta complexidade da coisa é pré-requisito para vendê-la, pois trata-se de algo que, em essência, é muito mais simples do que parece. É o “dourar a pílula”. Se a dica básica de investimentos é saber no que se investe, já na largada essa dificuldade proposital de compreensão dos NFTs levanta sobrancelhas.

Em termos simples, ou compreensíveis, NFT é um registro em um banco de dados distribuído (a blockchain) que atribui propriedade (e, por isso, valor intrínseco) a um item digital.

O que torna o NFT um negócio esquisito é que ele renega a característica definidora do digital mesmo sendo ele próprio digital: a reprodutibilidade perfeita a custo insignificante. Você mesmo pode fazer um teste aí, no seu computador: abra o Windows Explorer, selecione um arquivo, aperte Ctrl + C, depois aperte Ctrl + V. Parabéns, você criou uma cópia perfeita de um item digital! Existem até mecanismos para atestar a perfeição da cópia, que os zeros e uns do novo arquivo são rigorosamente os mesmos do “original”, como os códigos de soma de verificação (checksum). No digital, a cópia perfeita é tão trivial que sequer nos damos conta dela no dia a dia.

O atestado de propriedade de um NFT é um registro numa blockchain, outra tecnologia difícil de explicar e, até o momento, sem utilidade. (Note um padrão.) O comprador recebe um arquivo JSON com uma breve descrição do item e algumas URLs. Essas blockchains são criadas ou emprestadas pelas startups que tentam emplacar a tecnologia dos NFTs, e não há nada que garanta que elas estarão de pé daqui a dez anos, pelo contrário — é estatisticamente improvável, dada a alta taxa de mortalidade das startups em geral. Se (ou quando) a startup detentora da blockchain onde seu NFT foi registrado quebrar, seu NFT afunda junto.

O registro de um NFT pretende atestar que determinado arquivo digital tem dono. Pode ser um desenho, uma música, um post no Twitter. Este texto que você está lendo, por exemplo, é na realidade um arquivo HTML com algumas dependências (outros arquivos CSS e JavaScript) expelido pelo servidor do Manual do Usuário assim que solicitado pelo seu navegador web. Para ele se tornar um NFT, bastaria que alguém o registrasse em uma blockchain. Sim, é simples assim. Outra característica marcante do digital é a sua versatilidade. Qualquer coisa pode ser digitalizada, logo, qualquer coisa pode se tornar um NFT.

Não há tempo nem paciência para entrarmos naquele cansativo debate do que é arte. E nem importa neste contexto. O que menos importa nos NFTs é o objeto em si que está sendo negociado. NFTs são o produto perfeito do capitalismo tardio: gera valor do nada e justifica-se em si mesmo com base em direitos arbitrários de propriedade e causando um impacto ambiental gigantesco no processo.

O paralelo com a arte, usado como primeira linha de defesa da importância ou necessidade dos NFTs, é quase perfeito, mas se perde no momento em que eu dou um Ctrl + C, Ctrl + V naquela pintura do Beeple vendida por trocentos milhões de dólares, porém em criptomoeda. Não é como se eu tivesse o equivalente a uma caneca com a Mona Lisa pintada. A comparação mais precisa é que, ao fazer isso, eu tenho a própria pintura do Da Vinci, sem gastar um centavo. O poder do digital. No mundo dos NFTs, eu e o comprador anônimo temos, a rigor, o mesmo arquivo, mas ele pode dizer que é “dono” da arte e acredita quem quiser.

Não que a arte tradicional, analógica, tenha algo de divino nem jamais tenha sido usada para lavar dinheiro e reputações, entre outros usos questionáveis. Longe disso. É que no NFT não há sequer a preocupação em manter as aparências, em outros valores que não o financeiro, tampouco qualquer avanço ou questionamento aos objetos que transforma em mercadoria. Quando Benjamin, nosso filósofo alemão do início da coluna, debruçou-se na reprodutibilidade técnica e a perda da “aura” na arte em seu famoso artigo nos anos 1930, abordou as então novas possibilidades e desafios que o cinema, a música gravada e a impressão de cópias da Mona Lisa colocavam à mesa. O digital abriu uma infinidade de novas possibilidades nesse sentido. NFTs? Zero. Ele é uma “evolução” do mercado, não tem nada a ver com arte.

Criptomoedas, a base do delírio

Em seu best seller Sapiens: Uma breve história da humanidade, Yuval Noah Harari argumenta que dinheiro e religião são as maiores ficções que o ser humano já criou. Pense no dinheiro. Aqueles pedaços de papel (cédulas) e números na tela (em sistemas informatizados) só têm valor pela crença inabalável e universal de que eles têm valor.

Os NFTs e, por extensão, as criptomoedas, ao contrário do que alegam seus defensores, também dependem da fé para serem levados a sério. Eles apenas migram o objeto da crença para um algoritmo, pois, creem eles, o algoritmo seria “neutro”, portanto justo, e as pessoas e suas dinâmicas sociais, como o Estado e o dinheiro fiduciário, por natureza não confiáveis.

Se é possível a qualquer um obter a arte digital do Beeple com um Ctrl + C, Ctrl + V, por que alguém pagaria milhões por um certificado de propriedade sem respaldo jurídico e que pode sumir de uma hora para outra? A resposta poderia envolver fins nobres, como fomentar a arte, ou mesmo egoístas, como poder bater no peito e dizer “é meu”, e talvez até tenha algo disso lá no fundo, mas, excluindo fins ilícitos, convenhamos, o verdadeiro motivo é o mesmo que tem levado cada vez mais pessoas a “investirem” em criptomoedas: a crença (!) de que o valor desses ativos digitais subirá no futuro.

Poderia-se, aqui, estabelecer outro paralelo, com o mercado de ações, cuja flutuação e lucratividade também se baseiam na expectativa de valorização futura. A diferença é que as ações têm um lastro na realidade, a realidade das empresas, que a cada três meses apresentam resultados e dividem lucros com seus acionistas após fabricarem produtos ou prestarem serviços. São válidos os questionamentos oriundos desse arranjo, que tem a exploração da força de trabalho alheia como fonte de lucros e desigualdades, mas esse é outro debate. NFTs e criptomoedas não chegam a tanto. São “riquezas” imaginárias.

(Dia desses soube que tem gente vendendo tokens de ações de empresas listadas, como Tesla, Apple e Amazon, em plataformas de criptomoedas. São “versões sintéticas”. Fascinante.)

Eu não chegaria tão longe, por isso fiquei aliviado quando Jemima Kelly, colunista do Financial Times, escreveu com todas as letras: “Se tal sistema [de criptomoedas] te lembra um esquema Ponzi, é porque ele é.” Ela reconhece algumas diferenças entre as duas coisas, como a descentralização das criptomoedas, mas ambos, criptoativos e esquemas Ponzi, só cumprem suas funções enquanto houver gente nova, ou novos crentes, entrando no esquema. Um dia, naturalmente, as pessoas acabam e aí o esquema desmorona.

Em entrevista ao Manual do Usuário, o professor doutor em Ciência da Computação pela Universidade de Stanford e professor titular da Unicamp, Jorge Stolfi, classificou NFTs como “o absurdo das criptomoedas elevado ao quadrado”. Crítico ferrenho, ele já havia equiparado criptomoedas a esquemas Ponzi antes de Jemima e, para ilustrar o tal absurdo dos NFTs, imaginou uma hilária conversa de um colecionador de NFTs mostrando o seu acervo a um curioso.

“Ser dono de um quadro físico tem sentido porque é só uma pessoa que pode ter aquele quadro na casa dele. Só aquele quadro que tem uma história. Os átomos que estão lá são os mesmos átomos que o Rembrandt pegou da paleta dele e colocou na tela, enquanto que os elétrons e os fótons que estão numa imagem digital na sua tela não são os mesmos que o artista colocou e, por outro lado, todos eles [das cópias] são igualmente bons, têm a mesma história”, explica Jorge. “São cópias do padrão de elétrons que o cara colocou na memória quando estava pintando na tela do computador. Inclusive, quando ele pintou na tela, a imagem estava na memória. Assim que ele salvou a imagem no disco, ele fez uma cópia da memória para o disco. Aquilo que está no disco nem é original, já é uma cópia.”

Para não dizerem que só listei céticos convictos nesta crítica aos criptoativos, dia desses Jackson Palmer, co-fundador da Dogecoin, uma “shitcoin” abraçada por Elon Musk, da Tesla, ele próprio um crente tecnocrático, respondeu a uma pergunta que lhe fazem com frequência, se ele voltaria a mexer com criptomoedas:

Após anos de estudo, acredito que criptomoedas são uma tecnologia inerentemente de direita, hiper-capitalista, construída principalmente para ampliar a riqueza de seus proponentes através de uma combinação de evasão fiscal, relaxamento da supervisão regulatória e escassez imposta artificialmente.

Um futuro brilhante, mas para quem?

O dinheiro fiduciário, aquela ficção em que todos acreditamos, tem seus muitos problemas, mas resolve outros tantos, em especial a troca de bens entre seres humanos. E ele circula, instiga as pessoas — às vezes até demais — a agirem. Consigo comprar um pão e pagar o aluguel com o que recebo em troca do meu trabalho. Com criptomoedas? Não há qualquer possibilidade de fruição ou disposição. Se eu quiser ganhar mais dinheiro, posso trabalhar e/ou empreender. Quer ganhar mais com criptomoedas e/ou NFTs? Espere sentado, literalmente. No máximo, poste no Twitter que comprar criptoativos é bom demais.

Os valores vultuosos alcançados por criptomoedas nos últimos anos e, em 2021, nos leilões de NFTs, fizeram gente do mercado tradicional, de instituições financeiras a casas de leilão, levar a sério os ativos digitais, porque, hoje, “dinheiro” é o argumento definidor do que deve ser levado a sério. O primeiro ETF de criptomoedas da B3 foi lançado dia desses e já é um dos papéis mais populares do país, e talvez eu não esteja exagerando se disser que a cada dois ou três dias recebo um comunicado de imprensa de alguém lançando um NFT no Brasil.

Normal. O capitalismo aprecia boas piadas e qualquer chance de fazer dinheiro. As duas coisas juntas? Imperdível!

“Você conhece a história do Maddof?” Perguntou-me Jorge. Bernie Madoff fez fortuna em Wall Street na segunda metade do século XX com um esquema fraudulento que perdurou quase 30 anos, mas acabou caindo. Para o professor, criptomoedas revivem aquele cenário, em que um esquema questionável, porém altamente lucrativo é apresentado e, por ser altamente lucrativo, muitos fazem vista grossa, de investidores institucionais a governos, às suas lacunas evidentes. “Eu não vou me arriscar a prever o fim das criptomoedas”, prosseguiu. “Se passar disso [o tempo que durou o esquema de Madoff], aí vou começar a achar que está demorando. Pode ser que acabe daqui a um mês, sei lá. Não vou me arriscar a fazer previsão.”

Talvez dure mais, talvez criptomoedas e NFTs vinguem e se tornem presenças perenes em carteiras de investimentos e… bem, só lá, porque dentro da licitude, eles só servem para especular. Isso, claro, até o mundo se tornar uma terra arrasada hostil à vida humana, não sem a ajuda das blockchains e seu desperdício nababesco de energia, e a gente passe a ter que se preocupar com questões mais imediatas, como brigar por água potável e comida e fugir de ondas de calor mortíferas ou enchentes devastadoras. Mas, hey, até lá esse seu NFT estará valendo uma nota. Ou não.

Na imagem do topo, um coletivo de artistas anônimos dos Estados Unidos queima “Fumeur V”, gravura de Pablo Picasso, e lança NFT em seguida. “O Picasso Queimado vive para sempre no blockchain”. Será? The Burned Picasso/YouTube.

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16 comentários

  1. O interessante quando se abre o debate sobre criptomoedas, NFT, etc… é que os apoiadores tentam “empurrar” a visão utópica dessas “modernidades financeiras” goela abaixo. E quando são confrontados, sempre buscam alguma razão (que na grande maioria ñ tem sentindo) para que quem não apoia ou até mesmo critique esse ecossistema aceite (não achei termo melhor) que é algo revolucionário e que será o futuro.

    Excelente texto Ghedin.

  2. Adoro suas críticas Rodrigo, mas neste caso você deixou escapar alguns detalhes!

    De antemão devo revelar que também sou muito cético em relação aos NFTs no que diz respeito ao aspecto: “Sou o proprietário desse artefato digital e tenho a prova aqui na Blockchain para mostrar” .

    Neste ponto eu concordo 100% com você. Ter um artefato para dizer que você é o detentor é só um fetiche capitalista que só faz sentido para quem acredita nos seus fundamentos… – em bom carioquês, é só uma babquice!

    Mas há um detalhe interessante em alguns NFTs, particularmente aqueles que seguem a especificação ERC721! Pulando os detalhes técnicos, os NFTs (ERC721) tem um contrato inteligente que garante ao autor da obra (o artista) royalties a cada venda da obra.

    Neste sentido é um avanço para o pequeno artista que vende sua obra, para curadores, que depois vendem para colecionadores, que depois vendem pra sei lá quem… mas, nesta cadeia de vendas, o artista sempre recebe uma comissão que não depende da boa fé dos vendedores porqueestá garantido por um contrato inteligente que rola numa Blockchain. E isso é uma inovação que beneficia o artista!

    E sim, também existem muitas criptomoedas que não tem política monetária nem fundamentos econômicos, assim como existem as que tem e, inclusive, hoje já podem ser usadas para pagar um café ou remunerar bens e serviços em economias destroçadas.

    BCH (Bitcoin Cash), que é a bifurcação (HardFork) do Bitcoin e que surgiu para RESGATAR a ideia original de um dinheiro p2p para troca de valor independente de bancos centrais, como proposto por Satoshi, é usado hoje na Venezuela, Argentina, e em vários países Asiáticos como ferramenta de troca de valor no lugar de moeda FIAT. Poderia citar outras com projetos sólidos para incluir desbancarizados na economia e não enriquecer especuladores (pesquise por ADA na África)…

    Mas claro, como você bem apontou, e já foi dito por Cory Doctorow: “Todo ecossistema tem seus parasitas”.

    Desculpe pelo textão :-)

    1. Concordo com você! Eu entendo a indignação e me preocupo com as consequências do mal uso dessa tecnologia. Minha visão é muito parecida com a do Ghedin, mas acho que a verdadeira luta não deve ser superficialmente contra blockchain/criptomoedas e sim pela regulamentação e possibilidade de implementação de novas funcionalidades que tragam um impacto social mais positivo. Não acredito que as criptomoedas vão morrer, por esse motivo acho que o ideal seria a comunidade sugerir sistemas econômicos em que seria viável a taxação de grandes fortunas em um mundo cheio de criptomoedas. O maior problema é se não houver mudanças no ecossistema tóxico em volta dessa tecnologia.

      1. Vejam, toda tecnologia pode ter usos interessantes, inteligentes e úteis. Uma coluna como essa que escrevi sempre terá certo grau de reducionismo, e talvez tenha pesado um pouco a mão por dois motivos: 1) equilibrar o discurso tecnoutópico que domina debates em torno de criptomoedas, NFT e blockchain; e 2) essas boas ideias são tão poucas, raras e pouco faladas que somem no oceano de especulação e outros usos questionáveis. Não à toa, bitcoin só virou mainstream quando passou a “valorizar”, o que, paradoxalmente, matou seu uso original, que nunca colou de qualquer forma.

        Eu tenho os dois pés atrás com a premissa básica de criptomoedas e blockchain: a de que ninguém é confiável. Se isso se torna imprescindível para funcionarmos como sociedade, temos problemas (muito) maiores para resolver antes do sistema financeiro.

        1. Acho que existe um equivoco na maneira como você descreve a premissa por trás da criação das criptomoedas e blockchain.

          O ponto de partida para criação dessa tecnologia gira em torno de confiança, mas não no sentido “ninguém é confiável”. Até pq se esse fosse o caso, a rede do Bitcoin, por exemplo, não estaria de pé até hoje. Para que ela funcione é preciso que exista um elevado grau de colaboração e confiança das partes envolvidas na capacidade da própria comunidade garantir a manutenção e segurança da estrutura da rede.

          O que existe na verdade é ideia de que a moeda
          fiduciária tem seu modo de funcionamento determinado por instituições falíveis (como bancos centrais e governos), portanto, não confiáveis. Essas instituições podem, através da política, inflacionar, deflacionar ou confiscar a moeda. Nesse sentido, uma moeda gerida por algoritmos incapazes de alterar os protocolos que controlam as regras de emissão e transação seria mais confiável.

          No caso do Bitcoin, se não me engano essa comparação explicita com moedas nacionais nem fazia parte do white paper inicial do Nakamoto. Ele focava mais nos problemas e riscos de delegar para instituições financeiras o papel de terceiro confiável na transação. Esse discurso opondo o Bitcoin a moedas fiduciárias veio depois.

          1. é ingênua demais essa crença na infalibilidade de algoritmos

            DEMAIS

            é tecnocracia do pior tipo esse pensamento

          2. Concordo, Gabriel. Acreditar que o o algoritmo é infalível é ingenuidade.

            Mas é preciso ter cuidado com essa frase, para não atribuir um pensamento único a toda a comunidade cripto. Para parte das pessoas que defendem um futuro onde criptomoedas sejam uma alternativa a moedas nacionais, infalibilidade é irrelevante. O argumento para esse grupo é: criptomoedas seriam **mais** confiáveis que governos e BCs. Existe uma diferença entre uma solução ser melhor que outra(em certos aspectos) e essa solução ser perfeita.

          3. Sobre tecnocracia, acho que cabem algumas considerações:

            – Existe um gradiente de possibilidades entre o cenário onde moedas são controladas exclusivamente por governos e BCs e o cenário onde um algoritmo Deus é o único responsável por essa tarefa. Nessa escala de possibilidades existem pontos onde as duas coisas possam existir em um arranjo mais harmonioso.
            – Entendo ser difícil fazer avaliações sobre o futuro das criptomoedas baseadas no presente. O assunto ainda está na sua infância, logo me parece ingenuidade assumir que certas caracteristicas das redes cripto serão mantidos com o passar do tempo. Eu pessoalmente acredito que a tendência é que sistemas de governança mais robustos sejam implantados, criando uma série de instituições que possam garantir uma rede mais justa. Na minha visão, tais instituições tendem a surgir a partir da própria comunidade, mas acredito que haverá interseções com outras instituições pré-estabelecidas como governos, por exemplo.

          4. @ Iuri

            Eu pessoalmente acredito que a tendência é que sistemas de governança mais robustos sejam implantados, criando uma série de instituições que possam garantir uma rede mais justa.

            Tipo o… Estado?

          5. @Rodrigo

            Pra quem só sabe usar o martelo, todo problema é um prego hehe

            Piadas a parte, entendo a comparação. O Estado é a entidade com as caracteristicas mais proximas ao meu comentário. No entanto, eu me referia a sistemas de consenso oriundos da propria comunidade. Tem uns debates bem interessantes rolando sobre esse assunto na comunidade de Bitcoin, por exemplo. É um baita desafio criar regras de governança em um sistema descentralizado.

            Obs: eu não consigo comentar em comentários sobre os meu comentários :(

          6. @ Iuri

            O sistema de comentários tem um limite de quatro níveis.

            Imagino a dificuldade de se chegar a consensos, não à toa tantos países adotam sistemas mais ou menos parecidos de governo. Tem que considerar acesso, equidade, justiça. E como dinheiro é um negócio que afeta virtualmente todo mundo, a base precisa ser esse consenso, de que o dinheiro é aceito por todos.

            Se mesmo variações já bastante consolidadas, como o mercado de ações, geram distorções e injustiças gritantes (um dos textos que indiquei na newsletter, este, argumenta isso), confesso que tenho alguma dificuldade em entender como criptomoedas poderiam contribuir para um cenário mais justo.

            Leve-se em conta, ainda, que hoje as criptomoedas têm características próprias, não derivadas dos seus conceitos/white papers, que jogam contra essas promessas de democratização e usos racionais: 79% dos bitcoins disponíveis estão nas mãos de “investidores” de longo prazo, e tem também o problema das “baleias”.

            Posso morder a língua daqui a cinco, dez anos, quando estiver comprando pão e pagando o aluguel com criptomoeda? É uma possibilidade. É provável? Hoje, acho que não.

          7. No entanto, eu me referia a sistemas de consenso oriundos da propria comunidade. Tem uns debates bem interessantes rolando sobre esse assunto na comunidade de Bitcoin, por exemplo.

            Basicamente, sovietes modernos.

    2. Excelente comentário, Sérgio.

      Se me permite, acho que você foi generoso com o Rodrigo dizendo que ele “deixou escapar alguns detalhes”. Pra mim é meio obvio que a falta de nuance no conteúdo do texto é intencional, afina de contas é um texto opinativo.

      Não me parece que o Rodrigo tenha interesse em entender a fundo o mundo das criptomoedas. Isso inclui ser crítico como os seus pontos negativos e exageros (e sim, existem muitos exageros), mas também buscar entender os potenciais da tecnologia e seus diversos casos de uso. No entanto, me parece que para o Rodrigo não existe mais espaço pra essa conversa.

      Existem tantas discussões interessantes relacionadas ao mundo cripto. Além dos exemplos que você deu, cito também a crescente preocupação com a expansão monetária que vem ocorrendo em diversos países do mundo e o potencial risco de inflação e/ou crise econômica. Nesse cenário, possuir uma reserva de um ativo não controlado por nenhum governo pode ser uma alternativa interessante para proteção de patrimônio.

      Enfim, o tópico é rico, mas infelizmente o autor preferiu seguir o caminho que eu julgo o mais fácil e repetir o discurso quase reacionário que muita gente tem quando aborda o assunto.

      1. Os comentários estão aqui para debatermos, Iuri :)

        Como disse acima, esses usos de criptomoeda, como o de reserva de valor, pressupõe uma sociedade fraturada. Se chegarmos a isso, acho que teremos problemas muito maiores para nos preocuparmos. Se não, temos o que está aí hoje: criptomoedas sendo usadas para evasão de divisas, recebimento de ransomware e especulação.

        A ideia de que criptomoedas pode nos livrar do fardo de compartilharmos a mesma economia é varrer o problema para debaixo do tapete, ou resolvê-lo só para si mesmo, individualmente. Eu não me sentiria confortável — da mesma forma que hoje já não me sinto confortável com a profunda desigualdade existente.

    3. ou seja: o artista recebe a cada transação perpetuando uma lógica rentista que é problemática até mesmo dentro do capitalismo — afinal, a utopia capitalista envolve destruir todas as formas de rentismo

      e tudo isso roubando trabalho alheio na forma de energia elétrica — uma infraestrutura socialmente construída e privadamente apropriada nesse caso

      1. Obras de artes não são negociadas perpetuamente!; Sua premissa é falha! Em *média*, cada obra de um artista é negociada menos que 5 vezes!

        O produtor da arte ganha com a valorização da arte, não apenas o especulador!

        Eu vejo justiça econômica neste sistema!

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