Se tivesse que escolher uma categoria de sites para representar más práticas da área, ficaria dividido entre os de pirataria e os de restaurantes. A primeira pela tempestade de anúncios invasivos e de mau gosto; a segunda, por conseguirem transformar algo inerentemente simples numa experiência quase sempre ruim.
Nos últimos anos meio que substituí a procura de restaurantes da web para apps como Foursquare e Yelp, mas os bons têm sites. E por motivos justificáveis. Além de facilitar a consulta ao cardápio e dar um ar mais seguro aos futuros clientes, alguns aceitam reservas e têm delivery.
Só que, em pleno 2015, muitos continuam queimando a própria imagem com erros básicos de usabilidade. Ficando só em Maringá, este aqui, um dos mais requintados da cidade, apresenta o menu em Flash. Este outro, de que gosto bastante, tem uma interface horrível que abre em janelas modais, como se fosse as seções fossem um carrossel de fotos — e… bem, na prática o site é isso mesmo. Versão móvel? Site responsivo? São exigências muito futuristas. (mais…)
Água e eletrônicos, regra geral, não combinam. Se você alguma vez, por descuido no banheiro ou alguma brincadeira à beira da piscina deixou seu smartphone mergulhar em H2O ou outro líquido qualquer, é bem provável que aquele tenha sido um salto fatal. Felizmente, a grande tendência entre os smartphones em 2014 torna essas tragédias coisas do passado: os modelos à prova d’água vieram para ficar. (mais…)
Quando você chega ao trabalho na segunda-feira vindo do descanso do fim de semana, qual a sua atitude em relação às demandas e compromissos profissionais? Entusiasmada e revigorada, ou resmungona?
A forma como encaramos o primeiro dia útil da semana remete àquela história do copo meio cheio ou meio vazio. O retorno ao trabalho pode ser um revigorante recomeço após dois dias de descanso, ou munição para reclamações matinais incessantes. A ciência e a praxe suportam ambas as situações. (mais…)
Nunca cogitei criar um app do Manual do Usuário ou de qualquer outro blog. A web, acessada pelo navegador móvel, é suficiente para tudo. Ou quase tudo. Apenas um recurso a que apps têm acesso eu sinto falta: notificação.
O fluxo de posts daqui é tranquilo. Quando muito, publico três, quatro num dia. Alguns blogs, menos ainda. Seria legal poder avisar ao leitor mais interessado quando um post vai ao ar, na mesma hora, direto na parte mais privilegiada de um dispositivo móvel.
E… bem, o Yo, por mais risível que fosse a sua proposta inicial, supre essa lacuna — e o melhor, sem que eu precise me preocupar em desenvolver um app e atuar na sua manutenção. Ele parecia uma piada, mas alguns viram ali potencial. Em atualização posterior, o Yo ganhou a capacidade de carregar links junto ao característico “yo!” Aproveitei-me disso para subir o desejado sistema de notificação de posts em tempo real.
Se você quiser receber os posts do Manual do Usuário na hora em que são publicados, basta mandar um Yo para “manualdousuario” (sem aspas). Funciona e, hoje, 38 leitores já estão cadastrados nesse sistema. (mais…)
Ontem a Apple se lançou em uma categoria inédita tendo como parâmetro de comparação apenas produtos das concorrentes, desenvolvidos a toque de caixa e lançados ante a mera especulação de que ela estaria criando algo nesse segmento, nenhum deles definitivo em forma ou função. Um relógio, um relógio inteligente.
Nada do que Samsung, Google, LG e Motorola fizeram, até agora, é interessante. São gadgets curiosos, sem dúvida, mas sobram deficiências para afastar tanto quem gosta de telinhas brilhantes quanto os que usam relógios estilosos e estão à espera de um assim que, por acaso, também tenha alguma inteligência.
O Apple Watch tem apps, sensores, compartilha até as batidas do coração com outros usuários. Tem funções para a prática de exercícios físicos. Oferece indicações curva a curva do GPS (via Apple Maps e usando o módulo do iPhone) e puxa fotos para exibi-las numa tela incapaz de mostrar muita coisa. (mais…)
Quando se fala em gadgets, especificações costumam tomar um pedaço do debate. Antigamente isso fazia algum sentido: com processadores, memórias e outros elementos não tão avançados, qualquer ganho era importante. Hoje? Não mais. O iPhone está aí para provar: tem 1 GB de RAM e usa um SoC com processador dual core rodando a 1,3 GHz e, ainda assim, não sofre com problemas de desempenho. Pelo contrário. O diabo é enfiar isso na cabeça do consumidor.
O novo Moto X é um exemplo de reação a essa sede por números. O original, do ano passado, tinha um Snapdragon S4 Pro enquanto todos os demais eram lançados com a versão 800. Ainda que, por dentro, ambos fossem muito parecidos, a menção a “S4” criou um bloqueio em boa parte dos consumidores em potencial, aquela consciente desses nomes. Alguns sites “especializados” entraram na onda e colocaram o Moto X no segmento intermediário, mesmo ele oferecendo uma experiência de uso melhor que os topos de linha incontestáveis.
O mesmo vale para a tela. A do antigo, de 4,7 polegadas com resolução de 720p, era um “sweet spot”: grande o bastante para ver vídeos e jogar com conforto, pequena para não sacrificar portabilidade e uso com uma mão. (mais…)
Ultimamente tenho observado o comportamento de amigos e conhecidos no WhatsApp e, desse processo, uma dúvida emergiu: por que essa obsessão com grupos do WhatsApp?
Não é algo restrito aos meus círculos de amizades. Uma pesquisa no Google revela tutoriais e indicações de grupos. Em qualquer grupo no Facebook, não demora muito até alguém propôr a criação de um grupo do WhatsApp, tipo um grupo do grupo. No Twitter, uma pesquisa por “grupos whatsapp” revela as situações mais malucas, como o grupo de DJs que vão às apresentações uns dos outros para se apoiarem (?), e aquelas triviais, como os já tradicionais grupos familiares.
A prova irrefutável da penetração dos grupos do WhatsApp na nossa cultura vem do Google Trends, que mede a popularidade de termos consultados no maior buscador do mundo. É notável a supremacia dos grupos do WhatsApp:
Os grupos do WhatsApp atropelaram os do Facebook quando esses começavam a se estabelecer. Eles estão em um patamar que nem mesmo as comunidades do Orkut, que tinham a favor a falta de concorrência e contra a quantidade menor de usuários, conseguiram alcançar. Tenho a suspeita de que rapidez e o acesso mais difundido a smartphones, dos quais o WhatsApp virou item básico no Brasil, explicam a preferência por ele e a sua recente subida meteórica no gráfico acima.
Da minha experiência, há casos onde a reunião rápida entre algumas contatos faz sentido: em trabalhos acadêmicos, eventos ou para combinar saídas, às vezes é mais fácil fazer tudo por ali. Isso rola bastante, mas parece que só conta uma parte da história. A outra é que o WhatsApp virou uma espécie de fim em si mesmo, um ponto de encontro onde as pessoas estão sempre disponíveis e dispostas a compartilhar.
Isso leva o WhatsApp a extrapolar a sua função nuclear, o bate-papo em tempo real, e se transformar em uma espécie de rede social. As fotos da festa, que já foram maciçamente compartilhadas por e-mail, depois Orkut e Facebook, hoje são trocadas pelo WhatsApp. Vídeos, então… grupos de zoeira são um mini-YouTube, e ainda temos os de pornografia. Casos recentes e de grande repercussão de revenge porn tinham em comum o WhatsApp como canal de disseminação.
socorro alguém tira da minha mãe esse celular esse whatsapp esse grupo da família e essa mania de tirar foto de absolutamente tudo
Na Ásia, concorrentes como o WeChat abraçaram essa “missão” maior. Eles não oferecem apenas bate-papo; lá, os chineses compram coisas, agendam compromissos, compartilham fotos em perfis e realizam uma série de outras ações através de apps que, originalmente, serviam apenas para conversar. Nesse sentido o WhatsApp é extremamente conservador e, ainda assim, as pessoas não desgrudam dele. Há, portanto, um potencial enorme para o Facebook desenvolvê-lo e aprimorá-lo, ainda que isso o coloque em disputa direta com o seu produto principal. Canibalizar o Facebook ou manter o WhatsApp simples, sob o risco de perder terreno para concorrentes mais completos e se dar por vencido em mercados emergentes, como os asiáticos?
Questões empresariais à parte, o que mais me fascina continua sendo a motivação para criar e continuar em grupos do WhatsApp. Quando surge o assunto grupos do WhatsApp não é difícil alguém citar a função silenciar grupos, ou soltar alguma reclamação sobre um deles ou todos. Mas é raro alguém bancar a crítica e sair dos grupos. O medo de perder alguma coisa fala mais alto, só não mais do que a nossa incapacidade de ficarmos sozinhos.
Talvez, apenas talvez, a vontade de estar neles seja apenas uma forma mais fácil, sem fricção de suprir a cota de pertencimento e contato de que todos precisamos.
Das vantagens de se estar em grupos no Whatsapp: Qndo se está só na madrugada vendo filme e quer comentar sobre rs. pic.twitter.com/ITZdmlTlLT
Na App Store o Facebook Messenger é o app gratuito mais baixado (o segundo, na brasileira) e sua versão atual tem mais de 1500 avaliações que lhe conferem uma estrela de cinco possíveis. O Google Play agrega todas as versões, logo não existe uma nota que reflita esse período conturbado, mas uma olhada nas últimas avaliações revela avaliações negativas acompanhadas de reclamações inflamadas. Qual o problema do Facebook Messenger?
De minha parte, nenhum. Desconfio que essa onda de críticas decorra puramente da obrigatoriedade em instalá-lo. Porque, de outro modo, é um bom app: tem um design mais elaborado (bonito e funcional), é rápido e faz tudo e mais um pouco que o antigo sistema de conversas embutido no app principal do Facebook, descontinuado em prol desse, fazia. (mais…)
O Gizmodo perguntou aos leitores quais extensões para o Chrome lhes são vitais. Eu faço a você outra pergunta: existe alguma extensão digna de receber o status “vital”?
Quando esse conceito de extensões surgiu há mais de uma década, ele fazia sentido. A web era limitada, os navegadores, mais ainda. As extensões eram complementos que se inseriam nas lacunas deixadas pelo meio. E havia bastante espaço para elas.
Perguntei no Twitter quais extensões o pessoal lá usa e acha importante. Várias respostas, nenhuma novidade. Muitos falaram do Pocket, uma extensão que pode ser substituída pelo bookmarklet numa boa. O mesmo vale para o Evernote. Bookmarklets, aliás, fazem a mesma coisa que extensões, só que sem consumir recursos, nem poluir a interface — aliás, nem têm interface. Ah, alguns seguidores também falaram em bloqueadores do Flash, algo que dispensa extensão já que o Chrome faz isso nativamente.
No meu navegador tenho apenas três extensões, todas desativáveis a qualquer momento. Duas delas, Google Cast e Buffer, raramente uso (o Chromecast eu uso muito, mas a partir do smartphone). A terceira, Kill News Feed, está sempre à vista e considero uma aliada, só que longe de ser “vital”. Eu passaria mais tempo no Facebook sem ela, e esse seria o único prejuízo.
Então, refaço a pergunta: em 2014 existe alguma extensão de navegador “vital”? De minha parte, acho que passamos essa fase, mas sou todo ouvidos para quem pensa diferente.
Esqueça a pirataria por um momento. Considerando apenas o mercado formal, endossado por produtoras, estúdios, editoras, todos os envolvidos no caminho que a obra faz do autor até o consumidor, hoje é possível ouvir, assistir e ler quantidades absurdas de conteúdo gastando menos de R$ 50 por mês.
É uma conta fascinante. Com a entrada da Amazon na onda dos “Netflix de [insira aqui um mercado de consumo]”, as três frentes se fecham. Não que o Kindle Unlimited seja pioneiro; Oyster e Scribd oferecem planos similares há mais tempo. Juntas, porém, elas não têm o peso da Amazon, que nos EUA domina 65% do mercado editorial. Daí a repercussão do anúncio. (mais…)
Você já deve ter visto o vídeo acima, provavelmente no Facebook, compartilhado por alguém que aproveitou a deixa para reclamar de como todo mundo é superficial e aumenta as coisas que publicam no site. (mais…)
Toda vez que alguém mostra um retângulo de uma cor só ou uma tipografia grande na tela, em menos de três segundos alguém no fundo da sala grita “metro!” Com seu aspecto plano, bastante espaço para respirar e visual peculiar, a linguagem Metro (ou moderna, ou seja lá como chamam ela hoje) conseguiu um feito não intencional, não sei se desejável, mas digno de nota: ser atribuída como precursora de uma tendência da qual ela nem é parte.
Na Google I/O desse ano, a linguagem visual Material Design chamou a atenção. E com mérito: é uma proposta ousada, muito bonita e que consegue o feito raro de ser praticável na mesma medida em que é ambiciosa. É só ver as reações no Twitter e em blogs de tecnologia, incluindo aí a de muitos críticos contumazes do Google, para ver que o trabalho liderado por Mathias Duarte foi bem feito. (mais…)
Imagine um app que tem como única finalidade mandar uma notificação que informa em texto e áudio, de um jeito engraçado, “yo”. O usuário adiciona seus amigos e, quando toca em um deles, manda um “yo”. Do outro lado, a única opção para quem recebe a mensagem é responder. Com um “yo”. E é basicamente só isso. (mais…)
Nos últimos anos o Google se especializou em celebrar o 1º de abril, também conhecido como Dia da Mentira, com ideias cada vez mais malucas e elaboradas. Em 2014, já na véspera, 31 de março, algumas foram ao ar, como o mashup entre Google Maps e Pokémon. Este ano também marca o décimo aniversário de uma das mentiras mais incríveis da empresa — em parte, curiosamente, porque ela acabou se revelando não ser uma.
As (poucas) brincadeiras do Google até 2004
Google na Lua. Imagem: Google.
A primeira brincadeira do Dia da Mentira do Google data de 2000, quando a empresa lançou o MentalPlex, um sistema que prometia projetar a imagem mental dos usuários enquanto esses olhavam para um GIF animado. Dois anos depois, foi a vez do PigeonRank, um trocadilho com o PageRank, sistema que analisa e atribui peso às páginas para mostrar sempre as mais relevantes no buscador do Google.
Em 2004, foi a vez do Google Copernicus Center, uma subsidiária do Google na Lua! Foram abertas vagas de emprego com a promessa de que as operações começariam dali a três anos, em 2007.
Além dessa maluquice (convenhamos!), outro anúncio foi feito naquele ano. No comunicado à imprensa, o Google revelou que após ouvir as reclamações de uma usuária sobre os webmails da época, decidiu criar o seu próprio serviço de e-mail. “Pesquisa é a atividade online número dois — o e-mail é a número um; ‘Heck, Yeah’, disseram os co-fundadores do Google”.
Gmail em 2004: 1 GB de espaço!? Isso é brincadeira?
Imagem: Google.
Mas nascia mesmo? Parecia bom demais para ser verdade e, no contexto da época, poderia ser uma brincadeira e tanto. As reclamações da usuária (teoricamente) fictícia no comunicado eram dramas reais das pessoas que acessavam a Internet em meados da década passada:
“‘Ela reclamava sobre gastar todo o seu tempo arquivando mensagens ou tentando encontrá-las’, disse [Larry] Page. ‘E quando ela não estava fazendo isso, tinha que apagar e-mails feito louca para ficar abaixo do limite de quatro mega bytes. Então ela pediu, ‘Vocês aí podem consertar isso?””
Hotmail e Yahoo! Mail, líderes da época, eram tiranos com espaço: com 2 e 4 MB de espaço para mensagens, respectivamente, eles nos forçavam a manter uma rotina quase robótica de apagar definitivamente mensagens da caixa de entrada. Até essa época, aliás, clientes de e-mail locais como Outlook Express (RIP), Thunderbird e outros menos conhecidos hoje faziam sentido porque no computador não havia limites, logo ao baixar as mensagens do servidor rolava um grande alívio no parco espaço disponível para receber novas mensagens.
Imagine o choque que foi um e-mail, gratuito, com 1 GB de espaço? Dava para desconfiar. Muita gente desconfiou, inclusive a mídia especializada.
Outra interrogação cravou seu espaço no título desta notícia do WebProNews, cujo lide pisava em ovos e tinha uma abordagem bastante precavida: “No que pode ser uma elaborada brincadeira, o Google anunciou o lançamento do GMail, um serviço de e-mail gratuito”. O Erik, ao descobrir que o Gmail era de verdade 30 minutos depois de tomar conhecimento dele, ficou desapontado: “Eu testei. Não tem nada de impressionante. Não há nada aqui que eu já não tenha visto antes”. Ah, Erik! Como assim?
Naquele mesmo dia, porém, Jonathan Rosenberg, então VP de Produtos do Google, confirmou a veracidade do Gmail a vários sites. Primeiro acessível mediante convites, depois liberado a todos, a confirmação marcou o fim do racionamento de espaço para e-mails. E fica o convite à reflexão: quantos mega bytes teríamos em nossos webmails hoje se essa história fosse apenas uma brincadeira?
À frente da sua época, e assim por muitos anos
Para os padrões da época 1 GB era um espaço tão colossal que apagar e-mails no Gmail não era uma tarefa trivial ou mesmo incentivada. O site do Gmail não tinha um botão “Delete” destacado na interface — embora existisse, ficava soterrado em um menu à parte. Só em 2006 o “Delete” ganhou um espaço mais digno na interface. A proposta do Google era que com aquele latifúndio de espaço você jamais precisaria apagar um e-mail novamente; no máximo, arquivá-lo, um conceito interessantíssimo que, infelizmente, ainda passa batido por muita gente. (Se você não arquiva mensagens no Gmail, está usando errado.)
E não era só no espaço que o Gmail se destacava. A interface, baseada em AJAX, uma técnica que permite carregar partes da página sem recarregá-la por inteiro, dava uma sensação de velocidade típica dos serviços da empresa. O Gmail era extremamente ágil, anos-luz à frente do Hotmail, na época ainda preso ao visual esquisitão do MSN, e do Yahoo! Mail com suas pastinhas a la Windows 3.11.
Mas acredite, era um negócio simples e interessantíssimo naqueles dias mais ingênuos na web. Disso aí em cima, chegamos ao visual atual, na imagem abaixo devidamente ornamentado com uma “shelfie”:
Gmail Shelfie, a brincadeira de 1º de abril em 2014. Imagem: Google.
Sem falar, claro, nos apps móveis. Em 2004 não existia iOS, Android ou Windows Phone. O mercado era dominado por Symbian, BlackBerry e Windows Mobile e o estado dos apps, deprimente. Já em 2014…
Gmail em um tablet Android. Imagem: Google.
Ao longo dos anos o Gmail mudou um bocado, nem sempre de forma positiva. Alguns redesigns foram duramente criticados (incluindo o atual), o uso da sua popularidade para emplacar serviços sociais do Google, como Buzz e Google+, sempre ganhou a rejeição da maioria maioria dos usuários e a concorrência, ainda que atrasada, avançou e hoje oferece serviços equivalentes — especialmente o Outlook.com, da Microsoft, que ficou bem bom depois que largou o nome “Hotmail” e passou por um banho de loja.
Se toneladas de giga bytes não são mais suficientes para prender alguém ao serviço, o Gmail apostou em outras frentes para manter sua posição de vanguarda. Ele é onipresente, acessível e continua um tanto rápido. O app para Android é exemplar e com o aumento na importância da Conta Google, inclusive servindo para login em sites e serviços de terceiros depois do Google+, um @gmail.com é passou a ser mais do que um endereço de e-mail, é uma identidade na Internet.
A lista de brincadeiras de 1º de abril do Google tem crescido ano após ano. Mas por mais malucas, surreais ou simplesmente bobas que sejam, é difícil superar a do Gmail, de 10 anos atrás. O que chega a ser irônico: a verdade, afinal, foi a maior surpresa já criada pelo Google para o Dia da Mentira.
Quando o assunto “Snapchat” surge, é comum as pessoas me perguntarem qual a graça daquilo. A ideia de fotos que somem alguns segundos depois de abertas desafia a noção de eternidade que redes sociais e a Internet, de modo geral, apregoa desde o seu surgimento e coloca em xeque o trabalho gasto para algo tão efêmero. Qual o sentido disso?
Talvez o único caso de uso do Snapchat que todos compreendem (e no qual, quase sempre, limitam o app) é a troca de fotos íntimas. E é fácil adequá-lo à situação: casos de fotos e vídeos vazados recentemente, alguns com consequências drásticas justificam a existência de imagens que evaporam em poucos segundos.
Esse extremo evidencia o grande barato do Snapchat, mas nem de longe é a sua única utilidade. Ao tirar o peso do legado, ele e seus pares calcados na efemeridade e/ou no semi-anonimato eliminam as amarras sociais, dão muita margem à criatividade e criam um ambiente que nem Facebook, nem Twitter são capazes de replicar.
Longe dos parentes, com mais liberdade
O Twitter talvez seja uma espécie de meio termo entre Facebook (exposição máxima) e o Snapchat (privacidade e controle). Uma rede social marginal, ele consegue atrair mentes criativas e personalidades que gostam de se expôr, mas não tem apelo entre gente mais… “tradicional”. Nessa definição inclua aquela tia que faz comentários constrangedores nas suas fotos do Facebook, ou aquele amigo que nem liga muito para tudo isso, mas que entrou por pressão dos outros e acabou gostando de ver fotos e atualizações dos amigos naquela página/app azul e branco.
Para esses, o Twitter é questionável na mesma medida em que o Snapchat o é para um grupo maior. Qual a graça de ficar mandando mensagens de 140 caracteres para gente que você nem conhece direito e que, na maioria dos casos, não responde?
Desenho: Snapchat/Reprodução.
No Snapchat você cria uma lista de amigos e escolhe, na hora de mandar uma foto, quem a receberá. O tempo de exibição da foto é controlável também, vai de um a dez segundos. Caso alguém faça um print screen da foto durante o tempo de exibição, o app denuncia.
É uma lógica simples, mas bem arquitetada e instigante. Em um dos meus grupos de amigos o Snapchat é muito usado. Piadas internas (algumas maldosas!), amenidades do dia a dia, eventos sociais, coisas que gerariam desconforto com pessoas distintas em locais mais tradicionais, ganham espaço ali. É algo mais íntimo que o Facebook e que não deixa rastros, não fica impregnado na sua persona digital para todo o sempre. O que à primeira vista não faz sentido (“por que tirar fotos que somem segundos depois?”) é, na realidade, o trunfo da experiência.
Junto a vestir-se bem e preparar um currículo enxuto, os especialistas em recursos humanos incorporaram há alguns anos uma nova dica que aparece em todas as listas delas para quem está em busca de um emprego: cuidado com o que você publica nas redes sociais.
Histórias de gente que perdeu uma vaga por causa das fotos da festa que não ficaram tão ótimas assim não são raras, e é bem possível que nesse carnaval você tenha se deparado com algum amigo fazendo aquela brincadeira de virar um copo de cerveja e passar o “desafio” para outros amigos.
É uma brincadeira bem boba, mas que no calor do momento, com um pouco de álcool afetando o discernimento pode parecer divertida. Só que passada a ressaca você abre o Facebook, vê os comentários, as curtidas… aquele pensamento “o que foi que eu fiz?” pode bater mais forte que os 500 ml de álcool ingeridos de uma vez.
Nesse momento “eureka” você se dá conta da existência da sua sombra eletrônica, sempre ali, sempre ignorada. Como explica Sherry Turkle em Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other:
Peter Pan, que não podia ver sua sombra, era o menino que nunca cresceu. Muitos de nós somos como ele. Com o tempo (e digo isso com ansiedade), viver com uma sombra eletrônica se torna tão natural que ela parece desaparecer — isso, até um momento de crise: um processo judicial, um escândalo, uma investigação. Então, quando somos pegos, caímos na real e nos damos conta de que fomos instrumentos da nossa própria vigilância.
Ela ainda diz que, embora os adolescentes sejam os que mais sofram, todos, eles e adultos, vivemos a fantasia da privacidade online. Trocamos informações confidenciais via WhatsApp e e-mail, mesmo sabendo que ambos estão longe de serem canais seguros para tal. Em outro ponto, Turkle comenta:
Alguns dizem que esse problema não é um problema; eles apontam que privacidade é uma ideia historicamente nova. É verdade. Mas embora historicamente nova, a privacidade tem servido bem às noções modernas de intimidade e democracia. Sem privacidade, as fronteiras da intimidade se perdem. E, claro, quando toda informação é coletada, todos podem se transformar em informantes.
Ainda se vê muitas publicações inconsequentes por aí, mas muitos de nós já tomamos mais cuidado com o que publicar. Antes de mandar um comentário raivoso, uma foto constrangedora ou um link polêmico, pesamos as consequências. Quem provavelmente curtirá isso, quais comentários contrários virão, quem talvez se sinta magoado, ultrajado ou apenas incomodado. Às vezes desistimos, e esse comportamento se tornou tão frequente que o Facebook já o analisa para entendê-lo e combatê-lo, a fim de que nos sintamos mais confortáveis em expôr ideias e opiniões, todas elas, por mais controversas ou perigosas que sejam.
A mecânica do Snapchat reduz muito essa análise prévia do que será publicado. A foto some em poucos segundos, tenho o controle rigoroso de quem a verá, os riscos de magoar alguém ou ver aquele conteúdo se voltar contra si mesmo são menores. É essa premissa que levou o Facebook a lançar o Instagram Direct e a comprar o WhatsApp, o Twitter a dar atenção às mensagens diretas após anos de negligência e ao surgimento de apps calcados no anonimato, como Wut, Secret e Whisper. Nós gostamos de privacidade, por mais que tentem lhe fazer pensar o contrário.
Mas e o print screen?
Alerta de screenshot.
E se alguém faz um print screen da foto enviada via Snapchat? O app avisa, claro. Mas espere: e aqueles apps e hacks que permitem salvar imagens sem que o remetente fique sabendo? É um problema, vide os vários Tumblrs com fotos de mulheres nuas ao alcance de uma busca no Google.
Acidental ou não, encaro o aviso de print screen como um toque genial de alerta dentro do Snapchat. Apesar de toda a liberdade que as circunstâncias promovem, a possibilidade de eternizar aquela foto funciona como um lembrete, quase inconsciente, de que nem tudo se permite ali. Ou que, ao se permitir tudo, existem consequências como parar em locais indesejados, permanentes na Internet.
Não é o print screen em si que exerce essa função de alerta, mas a sua mera existência. Saber que alguém pode salvar uma foto mais íntima, ou mais pesada, dá a medida de precaução e cria reservas na hora do compartilhamento. Afinal, tem coisa que você não comenta com ninguém, nem com seu melhor amigo.
A reputação digital pesa menos no Snapchat
Patrícia Pinheiro, no Brasil Post, fez um breve comentário sobre reputação digital. Segundo ela, o que é publicado na Internet nunca some, é sempre lembrado e associado ao autor, e esse é o preço que se paga para fazer parte disso:
Para Manuel Castells, aquele que decide se conectar aceita, mesmo que tacitamente, o resultado da ‘socialização dos seus dados’, ou melhor, a perda do controle das suas próprias informações.
Portanto, há um preço a pagar para se sentir inserido no mundo digital, para participar de mídias sociais, para ter o direito de usar uma imensidão de aplicativos viciantes que são oferecidos gratuitamente em um esquema muito bem elaborado que troca superficialidades e banalidades por dados da intimidade, vida e rotina das pessoas que aceitam participar.
Depois de escolher entrar pela porta dessa internet colaborativa que promete mais transparência, será que tem volta? Ou melhor, será que temos escolha? Hoje a maior parte dos termos de uso destes serviços deixa muito claro que por mais que a pessoa deixe ser usuário, o que ela compartilhou por ali fica lá e na galáxia da internet para sempre.
Sherry Turkle também comenta algo nesse sentido:
(…) [Na Internet] as palavras “deletar” e “apagar” são metafóricas: arquivos, fotos, e-mails e históricos de pesquisas são removidos apenas do nosso campo de visão. A Internet nunca esquece.
O Snapchat caminha na direção oposta à dessa ideia. No Facebook, saber todos os detalhes da vida do usuário é essencial para o modelo de negócios e para o seu funcionamento. É nas associações e no conhecimento de quem usa o serviço que o Grafo Social se constrói e as facilidades e oportunidades da rede decorrem. O efeito colateral, como já debatido, é um punhado de cicatrizes digitais, registros permanentes da sua vida — para o bem e para o mal. Mesmo sem modelo de negócios, a efemeridade é o que destaca o Snapchat e é algo que, é seguro dizer, não deve sumir, diferentemente das fotos veiculadas por lá.
Se chegar a compartilhar aquele vídeo virando um copo de cerveja no Snapchat, será apenas com amigos mais próximos. E você ainda poderá excluir os não tão próximos; a lista de amigos nunca está preenchida, é preciso escolher quem receberá cada foto enviada para o serviço. Talvez um dos destinatários se torne um grande líder e, lá na frente, possa estar na posição de avaliá-lo para uma vaga de emprego, mas a proximidade entre vocês talvez anule esse e outros deslizes. Se você manda essas fotos para ele, é bem provável que esse hipotético futuro chefe também tenha mandado alguma bobagem. O que acontece no Spapchat, em geral fica no Snapchat.
A internet, ainda em sua juventude, está sendo moldada. Até pouco tempo atrás, ela era encarada como terra de ninguém, um lugar sem lei onde vale tudo. Não mais. Outra noção tão forte quanto, a de que tudo o que acontece aqui fica registrado para a eternidade, que a palavra convertida em bits e lançada na rede jamais se apaga, começa a ruir. O Snapchat é a marreta que derruba essa noção e importa por isso. Você pode até achá-lo uma bobagem depois de todo esse discurso, ou seus criadores malucos por terem dado de ombros a US$ 3 bilhões, mas não duvide de que ele impactará, direta ou indiretamente, muita coisa, inclusive a nossa concepção de presença na Internet.