O fiasco da nova política de privacidade do Audacity explodiu nas mãos do Muse Group, a nova empresa mantenedora do projeto. (Leia este post.) Embora a discussão tenha aparecido em sites especializados — incluindo este Manual do Usuário — apenas nesta segunda (5), desde maio funcionários do Muse Group estão tentando apagar o incêndio que eles mesmos causaram.
A repercussão de agora motivou Daniel Ray, líder de estratégia do Muse Group, a prestar um “esclarecimentos sobre a política de privacidade”.
As mudanças legais propostas giram em torno da inclusão, a partir da próxima versão do Audacity (3.0.3), de dois recursos que demandam conexão à internet: coleta de erros (telemetria básica) e atualização automática. O único dado identificável coletado seria o IP, que teria uma janela de permanência de 24 horas nos servidores do Audacity.
As alterações têm fundamento. Telemetria tem uma fama terrível e pode ser usada indevidamente, mas também tem usos legítimos, como detectar e corrigir erros que, de outra forma (com fóruns e comentários diretos dos usuários, por exemplo) seriam mais difíceis de sanar. O já mencionado PR #835 detalha outros usos que o Muse Group faria da telemetria do Audacity: estimar com mais precisão o tamanho da base de usuários, auxiliar na tomada de decisão de quais plataformas legadas suportar e corrigir problemas com o novo formato de arquivos introduzido no Audacity 3.
A atualização automática é mais fácil de entender o que é e para que serve. Embora em sistemas *Unix gerenciadores de pacotes que lidam com isso sejam muito difundidos, no Windows eles não são, o que deixa muita gente para trás, usando versões antigas (ainda que funcionais) do Audacity.
Outro aspecto importante dessa confusão toda foi a garantia de que apenas a atualização automática virá ativada por padrão. A telemetria básica seria “opt-in”, ou seja, opcional.
A restrição a menores de 13 anos deriva (ainda segundo Ray) da conexão estabelecida para as atualizações automáticas. Em resposta a um usuário, nos comentários, ele disse que o público infantil ainda pode usar o aplicativo, desde que desconectado. Meio… esquisito, e não parece uma solução ao conflito com a GPL 3, a licença sob a qual o Audacity é distribuído e que veda qualquer restrição ao uso do aplicativo, conectado ou não.
Ray ainda usou a carta de que o Muse Group foi mal interpretado, e que o linguajar jurídico, necessário em documentos legais como uma política de privacidade, não traduz muito bem a leigos a real situação. Pode até ser, mas a carta do “vocês entenderam errado” sempre pega mal e, no mínimo (e como reconhece Tantacrul em seu post, abaixo), sinaliza uma falha grave de comunicação e falta de tato com a comunidade em torno do Audacity.
Neste post de 13 de maio, Martin “Tantacrul” Keary, o rosto público do Muse Group e responsável pelo visual/UX do Audacity, saiu da sua zona de conforto para informar duas reversões de curso no projeto:
- Remoção da telemetria básica proposta no início do mês (4/5), no PR #835.
- Remoção de serviços externos (Google e Yandex) para coleta de dados de erros e mecanismo de atualização automática. Vão usar sistemas próprios, hospedados por eles mesmos.
Em um terceiro post, este com perguntas e respostas, publicado em 25 de maio, Daniel Ray detalha outra questão adjacente importante, a da criação de um Acordo de Licença de Contribuições (CLA). Pelo que entendi, é um documento legal que deve ser assinado por todos os colaboradores do Audacity e que funciona como uma espécie de procuração em branco ao Muse Group. (Mais detalhes.) Nas palavras de Ray, “o CLA nos oferece um caminho para financiar o desenvolvimento futuro do Audacity sem termos que alterar o Audacity em si. Trabalharemos em tempo integral no Audacity, então precisamos de algum tipo de receita”.
Essa resposta aponta a motivação por trás de toda essa turbulência. Afinal, até literalmente dois meses atrás o Audacity parecia estar muito bem, sem conexão obrigatória à internet nem políticas de privacidade dúbias ou questionáveis. Por que mexer em pontos tão espinhosos de um aplicativo que, a princípio, não precisa estar conectado à internet e que conta com usuários tão sensíveis a essas investidas corporativas?
Em vários momentos, Ray e Tantacrul reafirmam que o Audacity continuará gratuito e com seu código aberto. Porém, já existe pelo menos um plano traçado para gerar receita com o aplicativo. Resposta de Ray:
Nós provavelmente ofereceremos serviços de nuvem que os usuários do Audacity poderão aproveitar se assim quiserem. Esses serviços financiarão o futuro desenvolvimento do Audacity, da mesma maneira que o MuseScore.com financia o desenvolvimento dos aplicativos de composição do MuseScore.
No mínimo, se não totalmente satisfatórias, as respostas dadas até aqui têm coerência. Se serão suficientes para aplacar a ira de centenas (milhares?) de usuários, é cedo para dizer. Talvez este seja o único caminho para manter o Audacity vivo e saudável? Não sei. Continuaremos de olho.