por Guilherme Felitti
Em 1903, dois imigrantes que chegaram aos Estados Unidos fugindo do Império Russo deram à luz a um sujeito chamado Gregory Pincus. Ninguém sabia ainda, mas Pincus seria considerado, décadas mais tarde, um gênio. Depois de se formar em biologia na Universidade de Cornell e defender com sucesso seu mestrado e doutorado na Universidade de Harvard, Pincus encontrou a grande área da biologia que o interessava: a reprodução e o papel dos hormônios nela.
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por Guilherme Felitti
Tecnologia cria hábitos e hábitos criam memórias. Um dos hábitos alimentados por tecnologia que a juventude brasileira de classe média na década de 1990 tinha era, na sexta à noite, ir até uma videolocadora. Na época, a mídia ainda era física e, consequentemente, limitada — hoje, a mídia é um apanhado de dados gravado num disco rígido (na sua máquina ou num servidor na nuvem), o que a torna ilimitada pela reprodutibilidade. Quando o videocassete se tornou barato no fim da década de 1970, explodiu o fenômeno do homevideo e os apocalípticos de ocasião juraram que o reprodutor doméstico mataria os cinemas. Na real, os cinemas ficaram bem e os estúdios encontraram uma nova forma de recuperar o investimento na produção dos filmes. Mas como comprar mídia física original era caro, surgiu um modelo do aluguel. As locadoras de vídeo dominaram a maneira como consumíamos multimídia — não apenas filmes, mas games também — na década de 1990.
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por Guilherme Felitti
Vamos começar o episódio com um exercício. Eu vou ler três declarações e você vai me dizer quem falou aquilo e quando. Vamos lá:
- “O tablet expande o poder da computação pessoal em empolgantes novas áreas. Combinar a simplicidade do papel com o poder do computador tornará as pessoas ainda mais produtivas. Ele torna o computador uma ferramenta ainda mais valiosa para executivos que gastam tempo em reuniões e longe de suas mesas.”
- “Eu imagino levá-lo a reuniões, mas também me deitar com ele à noite para ler meus e-mails e um livro. Quando meu marido me lembrar que um fim de semana especial está chegando, eu posso fazer as reservas [do hotel] online.”
- “O tablet representa a próxima grande evolução de design e funcionalidade do computador.”
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por Guilherme Felitti
Terminado o primeiro semestre, 2022 já trouxe algumas novidades técnicas bastante relevantes em tecnologia: o chip M2 solidificou a Apple como um player cada vez mais poderoso no setor de chips, o DeepMind decifrou a estrutura de quase todas as proteínas conhecidas e o telescópio espacial James Webb produziu as imagens mais detalhadas do Universo, enquanto o metaverso, tal qual um carro a álcool numa manhã gelada de julho na década de 1990, dá várias partidas em falso com a esperança de pegar no tranco.
Como a gente já falou aqui, nos últimos anos os assuntos mais interessantes que acontecem no mercado de tecnologia não têm relação necessariamente com chips, códigos e placas de silício. São notícias que mostram como a tecnologia saiu do caderno de informática dos jornais1 para adentrar nas coberturas política e policial. É desse certame que, ao meu ver, vem um dos assuntos mais interessantes em tecnologia em 2022. Envolve um tipo de organização inventada não na última década e nem mesmo no último século. A Mesopotâmia e a Babilônia já experimentavam essa tecnologia 2 mil anos antes de Cristo. Após a Revolução Industrial, com o fim do vassalagem e a emergência de uma economia baseada na indústria, o movimento ganhou ainda mais força e os traços que observamos até hoje. Essa “tecnologia” não envolve necessariamente cálculos. É mais uma forma de mobilização e interação humana do que uma tecnologia naquele sentido clássico da acepção de tecnologia como uma ferramenta externa que lhe permite melhorar algo já possível ou executar algo impossível.
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por Guilherme Felitti
Corujas não são exatamente exemplos de força. Uma coruja pesa, em média, dois quilos, sendo que as penas que cobrem seu corpo correspondem a uma parte relevante do peso. Músculos? Quase nada. Como qualquer bicho que não as orcas, as corujas têm predadores naturais. Linces, cobras, águias e falcões adoram um galetinho de coruja nas refeições. O que faz a pobre coruja para se proteger? Existem algumas técnicas, mas a estratégia tradicional de defesa das corujas passa por projetar uma ilusão. Tome o exemplo do corujão-orelhudo, conhecido no Brasil também como jacurutu. Quando um predador ou uma ameaça se aproxima, a jacurutu adota uma postura específica — baixa a cabeça, encolhe o corpo e abre as asas para cima. Assim, a coruja tenta passar a impressão de que é muito maior do que efetivamente é. Caso o predador não se sinta ameaçado, a jacurutu emite sons agudos e, por fim, dá um salto para frente com a intenção de agredir a ameaça com as garras afiadas. As garras afiadas são o que lhe resta, já que, atrás da plumagem, não existe nada além de ar.
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por Guilherme Felitti
A hierarquia corporativa tem alguns cargos de enorme projeção e outros nem tanto. O mais conhecido você certamente conhece: o CEO, Chief Executive Officer. As três letras representam a forma mais popular de denominar quem é responsável pode liderar a empresa: tomar as principais decisões e arcar com as consequências, sejam elas boas ou ruins.
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por Guilherme Felitti
A Hevea brasiliensis é uma árvore nativa da bacia hidrográfica do Amazonas que vive décadas e atinge entre 20 e 30 metros de altura. A árvore cresce com facilidade em terrenos argilosos ou alagados, como é o caso das várzeas, e sua copa é composta de folhas trifolioladas. “É uma planta que possui os dois sexos, mas em flores separadas. As flores são pequenas e têm tonalidade amarelada ou bege”, segundo descrição do Museu Paraense Emílio Goeldi. Mas não estamos falando da Hevea brasiliensis pela copa ou pelos frutos, e sim pelo seu tronco. Com espessura que varia entre 30 e 60 centímetros, o tronco da Hevea brasiliensis verte um caldo branco e pegajoso quando você produz cortes diagonais pequenos. Os cortes atingem os vasos laticíferos, onde está armazenado o látex. Você não precisa ter pego goiaba no pé para entender que se trata da seringueira1.
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por Guilherme Felitti
Todo ser vivo vive para reproduzir e não existe reprodução consentida que não envolva lubrificação1. O objetivo é sempre levar o gameta masculino ao encontro do gameta feminino. Quando a coisa fica quente, todo corpo animal tem métodos bastante eficientes de facilitar a reprodução. No homem, um dos principais são os chamados corpos cavernosos. Quando ele se excita, os corpos cavernosos se enchem de sangue, o que resulta na ereção. Nas mulheres, quem faz o papel de facilitar a penetração e, consequentemente, a fecundação são as glândulas de Bartholin, duas glândulas alveolares do tamanho de ervilhas localizadas na entrada da vagina. Quando a mulher se excita, as glândulas de Bartholin secretam muco que lubrifica a entrada e o corpo vaginal, como forma de facilitar a penetração.
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por Guilherme Felitti
O dicionário Houaiss define “moderação” como o afastamento de todo e qualquer excesso ou a virtude de permanecer na medida exata. Qual é a medida exata? Tradicionalmente quem define isso somos nós (você sabe quanto beber antes de passar daquela linha que tornará os próximos dias imprestáveis). Quando o auto-julgamento falha ou há discordâncias severas entre os pontos de vista, existem alguns acordos que todos nós assinamos metaforicamente para que possamos conviver com o mínimo de harmonia numa sociedade. São os chamados pactos civilizatórios. Isso existe desde que o ser humano se percebeu como tal, mas desde pelo menos o século XVIII a.C. passamos a estruturar e “colocar no papel” (ou no pergaminho) algumas regras mais importantes.
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por Guilherme Felitti
Este episódio começa com uma história pessoal: há alguns anos eu tive câncer. O tumor que eu descobri por acidente estava no meu testículo direito. Um dia, e não tem jeito bonito de contar isso, eu fui coçar meu saco e percebi que o testículo estava com uma textura lisa. Qualquer um que tenha ou já tenha tocado em um testículo (ou seja: todo mundo) sabe que testículos não são lisos, mas rugosos. Eu cometi o erro de buscar o sintoma no Google e no dia seguinte eu estava sentado na recepção do Pronto Socorro do Hospital do Câncer em São Paulo para fazer os exames de sangue, raios-x e ressonâncias magnéticas que revelariam uma semana depois que, sim, tudo indicava que era um câncer mesmo. O tratamento que eu fiz durou pouco mais de um mês e envolveu, basicamente, uma cirurgia para tirar o testículo.
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por Guilherme Felitti
Durante séculos, a base da economia do Brasil colonial era o açúcar, parte de algo que você aprendeu no colégio: desde 1500, a economia brasileira é compreendida de ciclos. O do açúcar é o segundo, sucedendo o ciclo do pau-brasil. Em termos econômicos, produzir açúcar para exportar para a Europa era muito lucrativo. Em termos práticos, porém, o processo exigia um volume enorme de mão de obra. Quem fazia o trabalho duro eram os escravos africanos sequestrados dos seus povoados na África e trazidos para o Brasil durante mais de três séculos. Acomodados em galpões sujos, abafados e pestilentos, os escravos tinham uma vida brutal, com horas extenuantes de trabalho diário e nenhum direito. Sempre que citamos o assunto vale a pena relembrar: a escravidão é o principal pilar no qual a sociedade brasileira se apoiou e ecoa até hoje. Desde 1888, quando a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, lá se vão 133 anos. É um terço de todo o tempo em que a escravidão foi praticada no Brasil. A sociedade brasileira sofrerá ainda séculos das consequências dessa chaga. Segundo o IBGE, mais da metade dos brasileiros é de pessoas pardas ou pretas, segundo a terminologia do próprio instituto.
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por Guilherme Felitti
No episódio do Tecnocracia sobre a quebra do sistema Telebrás, falei de como aquele leilão ofereceu uma rara porta para um mercado de difícil entrada. O que não expliquei a fundo é que o Ministério das Comunicações criou um mecanismo extra na quebra para estimular a competição nas áreas leiloadas. (Se só houvesse um vencedor por área, então trocava-se um monopólio federal por vários regionais.) Não tinha muito sentido, ainda que tenha sido isso que acabou acontecendo, como o episódio detalhou.
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por Guilherme Felitti
É uma história que todo mundo conhece, viveu ou está vivendo. Enfermeira e epidemiologista, Maria Cristina Willemann vinha alertando desde fevereiro de 2020 sobre os potenciais efeitos nocivos de um vírus detectado na China e como se proteger dele. Os alertas de Maria Cristina não estavam restritos a seus familiares, amigos e vizinhos. A epidemiologista deu algumas entrevistas tanto para a mídia local em Santa Catarina, onde vive, como para a nacional. Em agosto de 2020, por exemplo, lá estava Maria Cristina falando sobre a pandemia de Covid-19 para o Jornal Hoje, da TV Globo.
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