Se a internet revolucionou como consumimos sexo, por que estamos transando menos?

Foto de cima, de uma cama desarrumada com lençóis brancos, com dois pares de pernas entrelaçados.

Em 1903, dois imigrantes que chegaram aos Estados Unidos fugindo do Imp√©rio Russo deram √† luz a um sujeito chamado Gregory Pincus. Ningu√©m sabia ainda, mas Pincus seria considerado, d√©cadas mais tarde, um g√™nio. Depois de se formar em biologia na Universidade de Cornell e defender com sucesso seu mestrado e doutorado na Universidade de Harvard, Pincus encontrou a grande √°rea da biologia que o interessava: a reprodu√ß√£o e o papel dos horm√īnios nela.

Com 31 anos, Pincus foi um dos primeiros pesquisadores da hist√≥ria a conseguir extrair um √≥vulo de um ser vivo ‚ÄĒ no caso, um coelho ‚ÄĒ, armazen√°-lo em uma solu√ß√£o l√≠quida, fertiliz√°-lo e devolv√™-lo ao √ļtero do animal. ‚ÄúPincus estava d√©cadas √† frente do seu tempo. Mas, em vez de fama, o feito lhe trouxe notoriedade. O livro Admir√°vel mundo novo, de Aldous Huxley, tinha acabado de ser publicado e a assustadora hist√≥ria dos beb√™s nascidos sem pais em um tubo de ensaio sem humanidade ou esp√≠rito capturou a imagina√ß√£o do p√ļblico. Pincus foi vilanizado na imprensa por sua descoberta. No New York Times e na revista Colliers, o pesquisador foi caracterizado como uma esp√©cie de ‚ÄėDr. Frankenstein‚Äô que estava transformando fic√ß√£o cient√≠fica em realidade‚ÄĚ, diz a PBS.

Mesmo tendo conseguido operacionalizar uma base da fertiliza√ß√£o in vitro usada popularmente hoje, a vilaniza√ß√£o lhe custou o emprego: Harvard demitiu Pincus do cargo de professor assistente. Demitido durante a Grande Depress√£o norte-americana por ter feito uma descoberta cient√≠fica em um momento ‚Äúerrado‚ÄĚ, Pincus passou a d√©cada seguinte tentando manter a carreira enquanto pagava os boletos. Ap√≥s oito anos ensinando zoologia em uma universidade de menor prest√≠gio, Pincus e outro pesquisador preparado em Harvard, ‚Äč‚ÄčHudson Hoagland, fundaram Worcester Foundation for Experimental Biology. N√£o que a vida fosse assim t√£o mais f√°cil: para economizar uma grana, Pincus era o chefe de pesquisa e o faxineiro do laborat√≥rio. Mas pelo menos ele tinha espa√ßo e dinheiro para aprofundar as pesquisas em reprodu√ß√£o de mam√≠feros. E foi uma destas pesquisas no centro de estudos que tornou Pincus conhecido n√£o apenas entre os bi√≥logos, mas para o resto da humanidade.

Demorou quase outra d√©cada para que entrasse em cena outra pessoa fundamental. Margaret Sanger era uma enfermeira e ativista pelo direito das mulheres de controlarem quando e como engravidariam. Na teoria, Sanger imaginava algum tipo de f√°rmaco, uma ‚Äúp√≠lula m√°gica‚ÄĚ, que desse √†s mulheres essa capacidade. Em 1951, sete anos depois da funda√ß√£o do Worcester Foundation for Experimental Biology, Sanger e Pincus se encontraram em um jantar e sentaram para conversar. Sanger contou o que imaginava e Pincus lhe explicou que ele e sua equipe j√° investigavam o uso de horm√īnios que inibiriam a ovula√ß√£o. Entusiasmada, Sanger fez um pequeno investimento que permitiu que Pincus e sua colega Min-Chueh Chang come√ßassem a sintetizar os horm√īnios e test√°-los em animais. Em menos de um ano, a dupla provou que a progesterona funcionava em ratos e coelhos, mas era preciso um aporte maior para viabilizar os testes com humanos. Com o dinheiro curto de Sanger e a falta de interesse de outros laborat√≥rios, o projeto estacionou por dois anos, at√© que Sanger pediu a ajuda da filantropa Katharine McCormick, herdeira ap√≥s a morte do marido de uma fortuna constru√≠da com as primeiras colheitadeiras autom√°ticas para agricultura.

Em 1953, o rem√©dio ficou pronto e, um ano depois, os testes com humanas come√ßaram em Massachusetts e seguiram para Porto Rico, Haiti e Cidade do M√©xico. Voc√™ j√° entendeu do que a gente est√° falando: em 1960, a FDA, respons√°vel por avaliar novos rem√©dios nos Estados Unidos, aprovou a comercializa√ß√£o da Enovid, a primeira p√≠lula anticoncepcional da hist√≥ria. A p√≠lula √© t√£o importante para entendermos uma s√©rie de desdobramentos da sociedade nas √ļltimas d√©cadas que s√≥ de eu falar ‚Äúa p√≠lula‚ÄĚ, sem explicar sua aplica√ß√£o, voc√™ j√° entendeu do que se tratava. A p√≠lula anticoncepcional entregou exatamente o que a Sanger imaginava: quem a toma tem um risco baix√≠ssimo de engravidar (calcula-se que abaixo de 0,03%).

Ao desacoplar o sexo da reprodu√ß√£o, a p√≠lula imaginada por Sanger, financiada por McCormick e executada por Pincus e Chang permitiu que as mulheres come√ßassem a encarar o sexo n√£o mais apenas como a forma como reproduzimos, mas tamb√©m como uma fonte de prazer. Com a certeza de que o sexo n√£o necessariamente geraria filhos, a p√≠lula permitiu que as mulheres passassem a investigar ‚ÄĒ e, principalmente, descobrir ‚ÄĒ mais profundamente o pr√≥prio desejo. H√° alguns anos a PBS fez um especial bastante interessante sobre a hist√≥ria da p√≠lula, com detalhes saborosos sobre pesquisadores que conseguiram sintetizar o horm√īnio antes de Pincus e n√£o entenderam o impacto do que tinham em m√£os. Essa pesquisa √© a hist√≥ria cl√°ssica de como inova√ß√Ķes nunca s√£o lineares e sempre tem algumas pessoas fazendo o mesmo que voc√™.

A p√≠lula √© encarada n√£o como o principal, mas como um dos pilares de um movimento recente bastante relevante para a discuss√£o do epis√≥dio. Quando falamos de um momento da hist√≥ria de sexo livre, em que d√©cada voc√™ pensa? Incont√°veis livros, filmes, document√°rios e outras express√Ķes art√≠sticas retrataram os anos 1960 e 1970, principalmente nos Estados Unidos, como este momento. A p√≠lula ajudou bastante, mas em vez de desengatilhar um movimento sozinha, ela catalisou movimenta√ß√Ķes sociais que j√° existiam antes, como explica a jornalista e escritora focada em sexo Rachel Hills, em artigo escrito para a revista Time em 2014:

A revolução que nós associamos ao fim dos anos 1960 e começo dos anos 1970 foi mais uma evolução incremental: motivada tanto pela publicação do livro Married Love, por Marie Stopes, em 1918, ou pela descoberta de que a penicilina poderia ser usada para tratar sífilis em 1943, assim como pela aprovação da pílula pelo FDA em 1960.

Houve outros fatores que incentivaram essa revolu√ß√£o sexual nas d√©cadas de 1960 e 1970: melhorias no acompanhamento obst√©trico diminu√≠ram sensivelmente a mortalidade durante o parto ‚ÄĒ de m√£es e beb√™s ‚ÄĒ e a prosperidade registrada pelos Estados Unidos ap√≥s o fim da II Guerra Mundial deram aos nascidos ap√≥s o fim do conflito ‚ÄĒ a gera√ß√£o conhecida como ‚Äúbaby boomers‚ÄĚ ‚ÄĒ uma sensa√ß√£o de estabilidade. N√£o d√° para desconsiderar tamb√©m que nas d√©cadas anteriores a academia passou a se interessar seriamente pelo tema, com pesquisadores precursores, como Alfred Kinsey e Wilhelm Reich, definindo as bases nas quais seriam fundadas uma √°rea da ci√™ncia dedicada a estudar o sexo, a sexologia1.

Todos estes fatores se empilharam para mudar a forma como a sociedade, principalmente nos Estados Unidos, encarava, consumia e praticava sexo. Fora Woodstock e os hippies, um dos grandes s√≠mbolos dessa libera√ß√£o sexual foi criado por um copywriter de 26 anos que comprou as fotos de um ensaio sensual de Marilyn Monroe e as lan√ßou em uma revista em 1953. O sujeito era Hugh Hefner e a revista, a Playboy. O grande m√©rito da Playboy n√£o foi vender papel com mulher pelada (isso j√° existia antes da publica√ß√£o), mas usar a revista para projetar um estilo de vida do ‚Äúhomem moderno‚ÄĚ, que envolvia desejo, relev√Ęncia social e consumo. N√£o √† toa, a Playboy virou uma m√°quina de dinheiro n√£o s√≥ pela revista, mas pela ilus√£o que venderia a gera√ß√Ķes de homens pelas d√©cadas seguintes: a presen√ßa na Playboy Mansion, os carros, as roupas, as bebidas‚Ķ Tudo saindo do seu bolso e indo para o de Hefner.

O papel da mulher nessa proje√ß√£o da Playboy era quase sempre o de acess√≥rio, trof√©u. Revela√ß√Ķes feitas d√©cadas mais tarde mostraram que a ilus√£o vendida por Hefner era lastreada em crimes. Livros escritos por ex-funcion√°rias de empreendimentos da Playboy e at√© por ex-esposas de Hefner mostram como o circo da revista era uma m√°quina de estupros e ass√©dios. E, ainda assim, a proje√ß√£o criada pela Playboy povoou (povoa?) durante d√©cadas a cabe√ßa de centenas de milh√Ķes de homens pelo mundo.

√Č bom deixar claro que historiadores sexuais esclarecem que os anos 1960 e 1970 n√£o foram a primeira revolu√ß√£o sexual nem do s√©culo, que dir√° da hist√≥ria. Ap√≥s o fim da I Guerra Mundial, quando ‚Äúuma juventude flamejante enterrou a era Vitoriana e mergulhou na Era do Jazz‚ÄĚ, como nos lembra novamente a escritora Rachel Hills. Pela hist√≥ria, s√£o v√°rios os momentos do que a Luciana Gimenez chamaria de ‚Äúsexual awakening‚ÄĚ, sociedades ao longo da hist√≥ria trataram o sexo, a sexualidade e tabus contempor√Ęneos ‚ÄĒ como a monogamia ‚ÄĒ de maneiras que seriam hoje consideradas bastante progressistas. A Roma antiga entendia a sexualidade como ind√≠cio de prosperidade. Visite qualquer museu com pe√ßas que remetam ao per√≠odo para ver pinturas, esculturas e cer√Ęmicas com corpos nus e orgias.

Um dos mantras do Tecnocracia √© que tecnologia n√£o age sozinha e nem no v√°cuo ‚ÄĒ fatores sociais podem acelerar sua ado√ß√£o e, no sentido contr√°rio, sua ado√ß√£o tem efeitos na sociedade. A revolu√ß√£o sexual das d√©cadas de 1960 e 1970 s√≥ aconteceu pelo alinhamento de uma batelada de fatores, tecnol√≥gicos, como a p√≠lula e a penicilina contra DTSs, e sociais, como a bonan√ßa experimentada pelos baby boomers. E depois? Houve, claro, quest√Ķes muito impactantes que alteraram a forma como a sociedade pensa e trepa ‚ÄĒ notoriamente, a AIDS na d√©cada de 1980 freou o sentimento ainda pulsante das d√©cadas anteriores e introduziu a camisinha na vida de solteiros e solteiras2.

E aí chegou a internet.

Qualquer um que tenha passado tempo suficiente conectado j√° ouviu uma frase ap√≥crifa que circula desde que comunidade online era no IRC: ‚ÄúInternet is for porn.‚ÄĚ O genial xkcd atualizou o meme ao cunhar a Regra 34: se voc√™ pode imaginar, existe uma vers√£o pornogr√°fica online. Canalizar o tes√£o de bilh√Ķes de pessoas por servi√ßos que usam texto, v√≠deos e fotos tiradas pela pr√≥pria c√Ęmara e mediados pelo GPS do celular altera profundamente a forma como consumimos, pensamos, falamos sobre, fazemos e produzimos sexo. Porque sexo n√£o √© s√≥ tirar a roupa, bonitinho e bonitinha: a maneira como a gente consome, √© estimulado(a) e, principalmente, pensa a respeito exerce enorme influ√™ncia ao tirar a roupa ‚ÄĒ ou dar s√≥ aquela afastadinha de lado.

No d√©cimo primeiro epis√≥dio da quarta temporada do Tecnocracia, a gente vai dar um tempo nos assuntos habituais para seguir o conselho que o Salt’N Pepa d√° desde a d√©cada de 1990: a gente vai falar de sexo. A cada quinze dias (√†s vezes um pouco mais, √†s vezes muito mais), o Tecnocracia larga m√£o da distopia digital para falar sobre safadeza e a forma como switchers, servidores e linhas de c√≥digo impactam diretamente a miss√£o primordial de qualquer ser vivo nesta Terra: crescer e multiplicar-nos. Eu sou o Guilherme Felitti e o Tecnocracia est√° na campanha de financiamento coletivo do Manual do Usu√°rio. A partir do plano II, voc√™ ouve o Balc√£o uma vez por m√™s (√†s vezes mais), ganha o adesivo e faz parte do grupo fechado no Telegram. Custa a partir de R$ 16 reais por m√™s, bem mais barato do que aquele plano do OnlyFans. Bom deixar claro que este gasto vai ter bem menos mamilo que aquele, mas s√£o duas coisas completamente diferentes.

Como ao estabelecer intimidade sexual pela primeira vez com algu√©m, definamos as regras: este epis√≥dio n√£o tem uma gota de moralismo. Sexo √© essencial e deve ser feito por gente solteira, casada, vi√ļva, desquitada ‚ÄĒ por todos. N√£o √© surpresa nenhuma para quem j√° ouviu outros epis√≥dios do Tecnocracia, mas os dogmas religiosos n√£o t√™m espa√ßo por aqui. D√° para fazer √≥timo sexo sem ter amor, mas n√£o d√° para fazer sem a concord√Ęncia expressa de todos os envolvidos. Sexo n√£o precisa sempre sentimento, mas oconsentimento √© essencial. Se dois adultos capazes e mentalmente saud√°veis concordam em fazer algo com fim sexual que n√£o quebra nenhuma lei, isso √© sexo v√°lido, independente se envolvem s√≥ homem, s√≥ mulher, homem com mulher, um, dois, tr√™s ou dez. O desejo sexual √© complexo e n√≥s precisamos entend√™-lo como tal.

S√£o tantos os impactos da internet no sexo que eu resolvi agrup√°-los em dois: a Fantasia e a Intera√ß√£o. Comecemos pela Fantasia. Nunca foi t√£o f√°cil consumir dois, tr√™s ou mais seres humanos engajando em qualquer tipo de atividade sexual (friso o ‚Äúqualquer‚ÄĚ). A capacidade de transmitir instantaneamente v√≠deo pela internet significa que voc√™ est√° a poucos segundos de uma quantidade quase infinita de conte√ļdo sobre qualquer tara, fetiche ou pervers√£o sexual. Os est√ļdios at√© tentaram replicar as gravadoras contra o Napster, mas n√£o deu certo: XVideos, YouPorn, Pornhub, Bellesa, xHamster, Eporner, SpankBang, YouJizz, RedTube, PornTrex, Beeg, PornGo e PornHD3 s√£o reposit√≥rios lotados de conte√ļdo sobre BDSM, MILF, roleplay, p√©, pernas, bundas, peitos, rolas, m√£o, cabelo, camel toe, cuckold, cuckquean, shibari, exibicionismo, pegging, comida, oral, vaginal, anal, suor, bukakke, swing, hurtcore, em p√ļblico, massagem, gravidez, bear, submiss√£o, Tamakeri, l√°tex, botas, boy or girl next door, m√ļsculos, barba, imberbe, bal√Ķes (eu sei‚Ķ), sovaco, hotwives, daddys, asi√°ticos, ASMR, transg√™neros, umbigo, ahegao, furry, joi, porra‚Ķ A lista tende ao infinto.

Quais os efeitos que esta pornografia instant√Ęnea tem na psique humana? Na teoria, ter contato instant√Ęneo com fetiches t√£o espec√≠ficos pode incentivar o p√ļblico mais baunilha a consumir ‚ÄĒ e, talvez l√° na frente ‚ÄĒ experimentar coisas mais ousadas4. √Äs vezes um v√≠deo sobre shibari √© o suficiente para o casal se arriscar. Mas tamb√©m tem outro impacto, um menos legal. Tal qual o grupo bolsonarista de onde seu tio n√£o sai o dia todo, a maioria do conte√ļdo pornogr√°fico vende uma realidade paralela. O modelo de sexo praticado em 99% da pornografia tem um foco s√≥: o homem. Tradicionalmente, est√ļdios pornogr√°ficos sempre foram neg√≥cios geridos por homens e produziram conte√ļdo focado em homens, o que faz com que mais homens comprem esse sexo fict√≠cio e a roda reinicie. Homens d√£o ordens e mulheres s√£o estrelas, mas o tratamento est√° longe de ser exemplar.

O homem que se aventura no mundo buscando na vida real o sexo das telas vai ter uma enorme decep√ß√£o ‚ÄĒ o sexo do porn√ī est√° para o sexo da vida real como os filmes do Rambo est√£o para a guerra de verdade. Frustrado, √© f√°cil buscar guarida no cat√°logo quase infinito de op√ß√Ķes. H√° sempre algo novo a se ver, algum est√≠mulo que vai te excitar. O consumo excessivo de pornografia pode se desenvolver para um v√≠cio capaz de tornar a pessoas n√£o funcional. A pornografia, neste estado, funciona como um ninho confort√°vel para onde se foge quando a vida lhe imp√Ķe alguma dificuldade. ‚ÄúAcho que eu dependia da pornografia como um tipo de muleta emocional. Se algo ruim acontecesse, eu buscava o porn√ī, j√° que ele sempre estaria l√°. Eu sabi que era ruim para mim, mas tamb√©m entendi que era ruim para as mulheres com quem eu estava envolvido‚ÄĚ, explica Alexander Rhodes, programador dos EUA que criou um grupo para alertar a sociedade sobre os riscos do consumo excessivo de pornografia. Dado que a vida sempre vai trazer dificuldades e o volume de pornografia online s√≥ cresce, a tenta√ß√£o pode ser grande demais.

Eu quero tomar cuidado ao discutir o assunto para n√£o passar aquela ideia que poderia sair da boca da sua tia carola: os dados n√£o mostram que estar mais exposto √† pornografia transforma a pessoa num man√≠aco sexual ou em um viciado em pornografia. Assim como o v√≠cio em outras subst√Ęncias, o conte√ļdo sexual ocupa ‚ÄĒ e toma ‚ÄĒ um vazio j√° existente. Em 2017, a jornalista Lux Alptraum escreveu um editorial para o jornal New York Times explorando alguns destes pontos ap√≥s cobrir o mercado da pornografia online para o blog Fleshbot por seis anos: ‚ÄúAinda que o consumo de pornografia tenha se tornado um h√°bito comum, n√≥s continuamos o tratamento como se fosse algo ex√≥tico e inerentemente perigoso √† nossa sa√ļde e felicidade [‚Ķ] Mas os dados de uso sugerem que nossos h√°bitos pornogr√°ficos s√£o mais utilit√°rios. Site porn√ī mais popular do mundo (em 2017), o PornHub afirma que o tempo m√©dio gasto no site √© menos de 10 minutos ‚ÄĒ menos da metade da dura√ß√£o m√©dia de uma cena porn√ī.‚ÄĚ

A parte mais importante vem agora:

Isto n√£o quer dizer que pornografia √© inteiramente benigna ou que seu impacto nas nossas vidas sexuais seja apenas positiva. Existe algo de verdadeiro na alega√ß√£o antiporn√ī de que ela impacta a imagina√ß√£o e a sexualidade dos jovens. Mas isso est√° amplamente conectado ao fato de que pornografia ‚ÄĒ que, mesmo sendo √†s vezes educacional, √© mais frequentemente uma fantasia incorreta ‚ÄĒ √© consumida em uma cultura onde a educa√ß√£o sexual √© m√≠nima, baseada no medo e constantemente errada; onde pais tratam conversas sobre sexo como uma tarefa vergonhosa que precisa acabar o mais r√°pido poss√≠vel; e onde cultura pop promove uma confusa dicotomia entre a virgem e a puta que encoraja a explora√ß√£o sexual enquanto demoniza ‚Äėpromiscuidade‚Äô. Dado tudo isso, n√£o surpreende que porn√ī deixe os jovens confusos ou assustados e que isso impacte negativamente sua capacidade de se relacionar com futuros parceiros. Mas isso diz menos a respeito da natureza da pornografia do que os perigos de uma cultura que delega algo t√£o importante e essencial como educa√ß√£o sexual para uma ind√ļstria dedicada a moldar fantasia e entretenimento.

Para retomar o nome da categoria, fantasia √© fundamental na vida. N√£o apenas no sexo, mas fantasiar sexualmente faz parte de uma vida saud√°vel ‚ÄĒ os jogos de ‚Äúroleplay‚ÄĚ que casais fazem √© uma fantasia acordada. Essa fantasia s√≥ √© saud√°vel quando seus limites s√£o claros, quando ela n√£o trabalha contra a pr√≥pria realidade.

Em 2022, a Organiza√ß√£o Mundial de Sa√ļde reconheceu como ‚Äúdesordem de controle impulsivo‚ÄĚ a ‚Äúdesordem de comportamento sexual abusivo‚ÄĚ.

Esse reposit√≥rio infinito de pornografia tamb√©m deu um empurr√£o em est√ļdios e tend√™ncias que fogem ao padr√£o ‚Äúputaria para homem‚ÄĚ. Em 2004, a sueca Erika Lust ajudou a desencadear um movimento de pornografia para mulheres com projetos como o XConfessions. Se voc√™ quiser repensar seu consumo de pornografia, do ponto de vista ps√≠quico j√° existem terapeutas especializados na √°rea e do ponto de vista de conte√ļdo, al√©m da onda puxada por Lust. A Netflix produziu um document√°rio que mostra como a ind√ļstria do porn√ī seleciona e recompensa estrelas. Chama Hot girls wanted e √© um murro no est√īmago.

Ao mesmo tempo em que nunca foi t√£o f√°cil consumir pornografia, nunca foi t√£o f√°cil entender o que, no escurinho da intimidade, a galera consome sem o julgamento alheio. Os dados apontam algumas tend√™ncias bem interessantes. Um dos maiores sites de pornografia do mundo, o PornHub publica todo fim do ano um resumo baseado em dados sobre como cada pa√≠s do mundo viu pornografia (talvez pela pandemia, eles pularam 2020). Os relat√≥rios de 2019 e 2021 trazem um monte de informa√ß√Ķes relevantes, a come√ßar pelo termo mais buscado. Quer tentar adivinhar? Eu aposto um balde de sorvete de cupua√ßu que voc√™ n√£o acerta.

Em 2021, ‚Äúhentai‚ÄĚ foi o mais buscado. Eu n√£o acertaria se chutasse. Mas tem um outro ponto que todo ano me chama aten√ß√£o: conte√ļdos estrelados por pessoas transg√™nero s√£o mais consumidos no Brasil, um pa√≠s que ocupa uma vergonhosa alta posi√ß√£o entre os que mais matam transg√™neros no mundo, segundo dados do Trans Murder Monitoring de 2020, do que a m√©dia dos outros pa√≠ses. Em 2019, era o dobro da m√©dia mundial. Em 2021, a busca por ‚Äútrans‚ÄĚ aumentou 74%.

Agora, se tem um ponto da categoria Fantasia que me chama aten√ß√£o √© que, antes, n√≥s consumidores s√≥ fic√°vamos olhando. Tal qual entretenimento, fotos, m√ļsicas e blogs, a pornografia tamb√©m foi atingida pelo movimento ‚Äúdo it yourself‚ÄĚ (‚Äúfa√ßa voc√™ mesmo‚ÄĚ). A Playboy implodiu sob o peso de um modelo de neg√≥cio falido e foi substitu√≠da pelo Instagram (onde celebridades continuam saindo na m√≠dia, agora com um pouco mais de roupa) ou por ensaios nus com fot√≥grafos consagrados (Jorge Bispo parece ser o principal deles). E a pornografia mais expl√≠cita? Os est√ļdios grandes ainda existem, mas agora sob a press√£o da produ√ß√£o caseira: pessoas comuns que criaram neg√≥cios a partir da rotina sexual que qualquer ser humano tem.

Nenhum servi√ßo melhor representa esse movimento que o OnlyFans. No OnlyFans voc√™ cria um perfil, define o valor da assinatura mensal e passa a publicar v√≠deos e fotos seu ou sua, sozinho(a) ou das suas fodas dom√©sticas. Fundado por dois irm√£os brit√Ęnicos em 2016 ‚ÄĒ Tim e Tom Stokely ‚ÄĒ, com um aporte de ¬£ 10 mil do pr√≥prio pai, o OnlyFans teve sua participa√ß√£o majorit√°ria comprada pelo Leonid Radvinsky dois anos depois. A partir da√≠, o site se tornou uma m√°quina de imprimir dinheiro. Em 2020, o OnlyFans faturou ¬£ 1,7 bilh√£o, quase R$ 11 bilh√Ķes, aumento de 615% em compara√ß√£o ao ano anterior. A pandemia, vamos lembrar, for√ßou trabalhadores sexuais a encontrar desesperadamente uma nova fonte de renda. O OnlyFans foi o principal beneficiado, com 69 milh√Ķes de novos usu√°rios ativos. A maior parte desse valor vultuoso vai para os bolsos das pessoas: todo d√≥lar que entra na plataforma rende ao OnlyFans US$ 0,20. Ou seja: em 2020, a opera√ß√£o embolsou 2 bilh√Ķes de reais. Em dividendos a acionistas, o valor foi al√©m dos R$ 100 milh√Ķes. Nada mal para uma empresa que tem apenas mil empregados.

O montante √© outro indicativo da mudan√ßa s√≠smica promovida pelo OnlyFans: ao desentermediar o consumo de pornografia ‚ÄĒ o(a) produtor(a) vende direto para consumidores ‚ÄĒ, o OnlyFans ‚Äúcolocou o entretenimento adulto nas m√£os dos pr√≥prios entertainers‚ÄĚ5, como bem resume o jornal New York Times. O voyeurismo √© uma parte natural do tes√£o humano O OnlyFans abriu um caminho para aliment√°-lo, sem financiar uma ind√ļstria escrota como os est√ļdios pornogr√°ficos tradicionais.

Falamos sobre Fantasia. Agora vamos para a segunda categoria: Interação. A gente vai falar de aplicativos e aqui vale a mesma questão da pílula: eu nem preciso explicar a que tipo de aplicativos me refiro para você entender do que estamos falando. O grande mérito do movimento iniciado pelo Tinder em 2012 foi convencer a sociedade de que buscar parceiros pela internet não era coisa de gente velha e/ou excêntrica.

O Tinder é o caso raro de inovação que toma o mercado ao ser parido do ventre de quem já o dominava: o aplicativo nasceu em um hackaton6 interno de funcionários da InterActiveCorp, dona do Match.com. Antes do Tinder, já existiam incontáveis sites do tipo, a começar pelo próprio Match.com. Ao gameficar a busca por sexo e/ou companhia, o Tinder ajudou a mudar a forma como a sociedade se pareia e gerou um punhado de apps similares com uma ou outra mudança ou explorando nichos específicos.

Para notar o tamanho da mudan√ßa, vamos voltar ao momento em que seu av√ī e sua av√≥ se encontraram pela primeira vez e arrepios correram por suas espinhas. Ou n√£o, existe a grande chance de que houvesse algo arranjado para uma menina cujo sistema reprodutor acabara de amadurecer. Em 1940, cerca de 80% dos casais se formavam por indica√ß√Ķes da fam√≠lia e/ou amigos ou por terem estudado juntos no col√©gio. Hoje, dois ter√ßos dos casais se conheceram pela internet ou em bares, segundo um estudo conduzido pelos pesquisadores Michael Rosenfeld e Sonia Hausen, da Universidade de Stanford University e Reuben Thomas, da Universidade do Novo M√©xico. Visto em gr√°fico, os dados desde a d√©cada de 1940 mostram de forma ainda mais clara a mudan√ßa radical. A partir de 2010, a internet se torna o principal meio pelo quais casais heterossexuais se conhecerem. Como bem resumo o jornalista da The Atlantic, Derek Thompson: ‚ÄúN√≥s costum√°vamos, como sociedade, depender de pessoas pr√≥ximas para selecionar futuros parceiros. Hoje, este √© um trabalho que n√≥s mesmos fazemos.‚ÄĚ A vers√£o mais atual do estudo √© de 2019. Estou curioso para ver o impacto que a pandemia e o p√≥s-pandemia tiveram nos dados.

Gr√°fico de como casais se conhecem, com a linha da internet inclinando para cima a partir do final dos anos 2000.
Como casais se conhecem ao longo das décadas.

H√° uma outra maneira de ver os mesmos dados: separando por orienta√ß√£o sexual. A√≠, salta aos olhos um ponto: a internet j√° era usada majoritariamente por casais n√£o-h√©teros uma d√©cada antes dos h√©teros. Fora o fato de ter menos potenciais parceiros, √© f√°cil entender o porqu√™: quando o seu tes√£o √© rejeitado pela sociedade, voc√™ precisa encontrar maneiras mais ‚Äúescondidas‚ÄĚ de procurar parceiros. Antes do Tinder, do Plenty of Fish e, especialmente, do Grindr, toda cidade do interior de S√£o Paulo tinha um bar escondido, quase sempre longe do centro, que todo mundo sabia que era onde gays e l√©sbicas se encontravam. A dificuldade de se encontrar criava um ecossistema, c√≥digos de comunica√ß√£o e ambientes pr√≥prios. A coes√£o da comunidade era necess√°ria para sua sobreviv√™ncia. A internet mudou isso. Hoje √© poss√≠vel se agrupar virtualmente em comunidades para procurar parceiros sem o risco de ‚Äúser descoberto(a)‚ÄĚ e sofrer consequ√™ncias f√≠sicas (inclusive com risco de morte). Neste caso, a internet √© sin√īnimo de sobreviv√™ncia.

Gr√°fico de como casais do mesmo sexo se conheceram, com ‚Äúonline‚ÄĚ despontando e respondendo por 70% dos encontros hoje.
Como casais do mesmo sexo se conhecem nos Estados Unidos.

Essa mudan√ßa de paradigma ‚ÄĒ de estourar a bolha ao nosso redor e nos colocar em contato com c√≠rculos sociais com os quais normalmente n√£o ter√≠amos contato ‚ÄĒ tem l√° seus custos. Ao entrar num aplicativo pela primeira vez, voc√™ √© s√≥ √Ęnimo. Ao voltar aos aplicativos, o p√™ndulo balan√ßa entre um √Ęnimo menor e um certo cansa√ßo. Ao te colocar em contato com tanta gente nova ao mesmo tempo, Tinder, Bumble, Grindr, Her, Happn, Inner Circle, Badoo, OK Cupid, Hinge, Plenty of Fish e Coffee Meets Bagel te colocam na rodinha de hamster: estamos sempre contando nossa hist√≥ria, repetindo desde o in√≠cio os epis√≥dios, os causos, e por mais que no come√ßo seja um exerc√≠cio at√© de autoconhecimento interessante, eventualmente isso enche o saco. Existe sempre o risco de, ap√≥s horas conversando com algu√©m, voc√™ descobrir algo que irremediavelmente te brocha. A√≠ vai para os pr√≥ximos. O sucesso est√° no volume, mas o segredo do sucesso no volume √© a paci√™ncia.

Todo mundo que j√° passou per√≠odos de tempo nos aplicativos tem hist√≥rias, entre divertidas e assustadoras, para contar, principalmente de trombar com gente radicalmente diferente de voc√™ (mesmo de c√≠rculos sociais distantes, espera-se o m√≠nimo de similaridade). Aplicativos de pega√ß√£o s√£o marketplaces: tem gente para todos os gostos. √Č √≥bvio que, naquela imensid√£o, n√£o √© todo mundo que vai te agradar. S√≥ que, nessa trabalheira inicial, voc√™ vai aos poucos entendendo as regras e filtrando melhor potenciais casos de gente com quem voc√™ definitivamente n√£o quer contato.

‚ÄúAh Guilherme, mas s√≥ tem gente que quer sexo nos apps.‚ÄĚ N√£o necessariamente. Claro, √© muito f√°cil achar algu√©m para trepar, mas procurando bem encontra-se gente para construir rela√ß√£o. Eu e minha mulher nos conhecemos no aplicativo. (Dica: o Bumble, fundado por ex-funcion√°rias do Tinder e com um proposta, a priori, ‚Äúfeminista‚ÄĚ, costuma produzir matches melhores que o Tinder.) Marketplace √© isso: tem o que voc√™ procura. √Äs vezes s√≥ tem que buscar um pouco mais. E aqui entra uma conclus√£o baseada tanto na minha experi√™ncia como nos relatos de amigas solteiras: se voc√™ √© um homem h√©tero ou bi que sabe conversar minimamente (citar Jordan Peterson ou dizer ‚Äúvoc√™ tamb√©m √© liberal? Gosta dos austr√≠acos?‚ÄĚ n√£o √© conversar, bonito), tem interesses al√©m do trabalho e sabe lidar minimamente com os pr√≥prios sentimentos, ent√£o voc√™ estar√° em alta demanda ‚ÄĒ qualquer mulher que j√° tenha frequentado os apps pode confirmar.

O Tinder tamb√©m mostrou que existe espa√ßo para explorar orienta√ß√Ķes, fetiches e taras espec√≠ficas em aplicativos mais espec√≠ficos. Tinder, Bumble e Happn aceitam qualquer tipo de orienta√ß√£o sexual, mas se voc√™, homem, quer algo dedicado, tem o pioneiro Grindr. Curte um urso? Baixa o Growlr. Mulher procurando mulher? Tem o HER, o Zoe e o Scissr. Casais que queiram transar com um(a) terceiro(a) ou fazer troca? O 3der e o Feeld servem. S√≥ quer pegar gente de esquerda? Lefty. Namorar quem pedala? BikerKiss. Quer um fazendeiro ou uma cowgirl? FarmersOnly. S√≥ quer quem tem os mesmos produtos dentro da geladeira? Refrigerdating. A chance de encontrar pessoas que te atraem para dividir a cama ou a vida nunca foi t√£o alta.

Capa da revista √Čpoca, com uma mulher com os p√©s parcialmente amputados e a chamada: ‚ÄúUsei um anticoncepcional que quase me matou. O tratamento necrosou meus dedos dos p√©s. Tiveram que ser amputados.‚ÄĚ

Vamos voltar √† hist√≥ria do come√ßo: a p√≠lula inventada pelo Pincus impactou diretamente a vida de milh√Ķes de mulheres nas √ļltimas d√©cadas, mas para algumas delas o impacto foi al√©m do sexo. O que ainda n√£o se sabia em 1950 √© que bombardear o corpo feminino com horm√īnios sintetizados artificialmente pode ter consequ√™ncias terr√≠veis e eu n√£o estou falando de incha√ßos nos seios ou dores de cabe√ßa. Para algumas mulheres, a p√≠lula aumenta consideravelmente o risco de co√°gulo sangu√≠neo, trombose e AVC, quest√Ķes relacionadas ao sistema circulat√≥rio. Em 2014, a revista √Čpoca publicou reportagem da jornalista Cristiane Segatto sobre o assunto. Na capa, uma funcion√°ria p√ļblica mostrava o toco dos p√©s ap√≥s perder os dedos necrosados por problemas causados pelo consumo da p√≠lula. Um dos mantras do Tecnocracia √© que nenhuma tecnologia atua no v√°cuo: ela produz efeitos e consequ√™ncias ao ser adotada. Pode demorar um pouco, mas os desdobramentos inesperados sempre aparecem.

A gente j√° falou de algumas das consequ√™ncias da forma como a internet impactou o sexo. H√° o v√≠cio em pornografia, apoiado no volume quase infinito. Mas tem uma outra quest√£o que, analisada com cuidado, n√£o parece fazer o menor sentido. O tanto de ferramenta que facilita o contato e o tanto de conte√ļdo gratuito e instant√Ęneo para ati√ßar a curiosidade, logicamente, parecia indicar uma era de ouro do sexo. Na pr√°tica, acontece o contr√°rio: ‚ÄúO n√ļmero m√©dio de parceiros sexuais dos adultos nascidos nos anos 1980 e 1990 √© o mesmo que o dos nascidos entre 1946 e 1964, de acordo com estudo publicado pelo jornal acad√™mico Archives of Sexual Behavior‚ÄĚ, diz reportagem do Los Angeles Times. Ao isolar os efeitos geracionais, a pesquisa descobriu que os baby boomers tiveram em m√©dia 11 parceiros na vida toda, contra 8 dos millennials.

O fato de o estudo ter sido publicado em 2015 merece aten√ß√£o, mas seguidos estudos divulgados posteriormente para pa√≠ses al√©m dos Estados Unidos chegam a conclus√Ķes parecidas: em 2017, estudo liderado pela pesquisadora Jean Twenge, do departamento de psicologia da Universidade Estadual de San Diego, sugeriu que, no √ļltimo s√©culo, os millennials foram os que menos treparam enquanto os mais sexualmente ativos foram os nascidos nos anos 19307. Os suecos, holandeses e brit√Ęnicos, segundo estudos locais, tamb√©m est√£o menos carnais.

Mesmo com todas as ferramentas, a nossa gera√ß√£o, na m√©dia, trepa menos que a gera√ß√£o dos nossos pais e dos nossos av√≥s, algo que a revista The Atlantic chamou de ‚Äúrecess√£o de sexo‚ÄĚ: ‚ÄúAdolescentes est√£o come√ßando suas vidas sexuais mais tarde. De 1991 a 2017, a porcentagem de estudantes do colegial que tiveram sexo caiu de 54% para 40%, segundo a Pesquisa sobre Comportamentos de Risco dos jovens, organizada pelo CDC [a Anvisa dos EUA]. Em outras palavras, no espa√ßo de uma gera√ß√£o, o sexo deixou de ser algo que a maioria dos estudantes tinha experimentado para algo que a maioria n√£o experimentou. E n√£o, eles n√£o est√£o praticando sexo oral no lugar ‚ÄĒ a taxa n√£o mudou tanto‚ÄĚ, diz a reportagem.

O que ajuda a explicar? Pesquisadores t√™m algumas teorias. Para come√ßar: em 1930, a no√ß√£o de consentimento n√£o estava t√£o clara como na √ļltima d√©cada. Segue a reportagem da Atlantic: ‚ÄúTaxas de abuso sexual infantil t√™m ca√≠do pelas √ļltimas d√©cadas e abuso pode levar para comportamentos sexuais tanto precoces como prom√≠scuos. Algumas pessoas hoje podem se sentir menos pressionadas a transar quando n√£o querem, gra√ßas √† mudan√ßa dos costumes de g√™nero e √† crescente conscientiza√ß√£o sobre diversas orienta√ß√Ķes sexuais, incluindo a assexualidade. Talvez mais pessoas estejam priorizando estudo e trabalho sobre amor e sexo, pelo menos por um tempo. Ou talvez eles estejam sendo mais cuidadosos em escolher um parceiro de vida ‚ÄĒ se for o caso, bom para eles.‚ÄĚ

N√£o parece haver uma teoria unificadora: sex√≥logos, psic√≥logos, economistas, soci√≥logos, terapeutas, educadores sexuais e jovens adultos ouvidos pela Atlantic levantaram as mais diversas teorias: a culpa √© da crise econ√īmica, ‚Äúdas crescentes taxas de ansiedade, da fragilidade psicol√≥gica, do uso generalizado de antidepressivos, do streaming, da queda dos n√≠veis de testosterona, do porn√ī, da era de ouro do vibrador, dos aplicativos de namoro, do carreirismo, dos celulares, do ciclo de not√≠cias, da sobrecarga de informa√ß√Ķes em geral, da priva√ß√£o do sono, da obesidade‚Ķ‚ÄĚ Tudo √© causa, nada √© causa.

Gr√°fico mostrando percentual de pessoas de 18 a 30 anos que n√£o transaram no √ļltimo ano. Homens lideram com 28% no ano mais recente (2018).
Homens jovens lideram o declínio do sexo.

Mas tem um recorte aqui que merece aten√ß√£o: a faixa et√°ria que conduz essa recess√£o de sexo √© composta por pessoas entre 18 e 29 anos, segundo a General Social Survey, pesquisa a partir do qual a pesquisadora Jean Twenge faz suas an√°lises. Entre 2008 e 2018, a taxa daqueles que est√£o nesta faixa e n√£o transam h√° um ano dobrou e chegou a 23% do p√ļblico. Quebrado por sexo, o dado √© ainda mais assustador: no mesmo per√≠odo, a taxa de homens jovens que n√£o transam triplicou para 28%. A cada 10 homens de at√© 30 anos, 3 n√£o tiveram contato √≠ntimo no √ļltimo ano, segundo reportagem do Washington Post. A pr√≥pria Twenge tenta explicar conectando a queda nas rela√ß√Ķes est√°veis ao crescente desemprego, √†s altas taxas de homens jovens morando com os pais e ao ‚Äúexcesso‚ÄĚ de distra√ß√Ķes tecnol√≥gicas. ‚ÄúExistem mais coisas a se fazer 10 horas da noite hoje do que h√° 20 anos.‚ÄĚ N√£o sei se eu sou velho, mas que frase triste, puta merda.

Por fim: l√° no come√ßo do epis√≥dio eu citei dois te√≥ricos da primeira metade do s√©culo 20 que passaram a aprofundar estudos sobre o papel que o sexo tem na sociedade contempor√Ęnea. Um √© o Kinsey, outro √© o Wilhelm Reich. Seguidor do Freud, o Reich escreveu um livro em 1927 chamado A fun√ß√£o do orgasmo, no qual ele alega que a libido e essa pot√™ncia org√°stica que todos carregamos, em vez de ser sufocada e encarada com vergonha, funciona como um pilar da nossa sa√ļde mental. Que essa for√ßa que todos carregamos pode ser fundamental para ajudar em momentos de ang√ļstia profunda. Em trabalhos nos anos seguintes, inclusive, o pr√≥prio Reich costurou melhor essa interse√ß√£o entre psiquismo e a ascens√£o de governos autorit√°rios, argumentando que movimentos fascistas se constituem e s√£o alimentados pela repress√£o sexual.

Mentor de Reich, Freud j√° tinha deixado claro que humanos se equilibram entre duas puls√Ķes, a de vida e a de morte. Atividades prazerosas alimentam a puls√£o de vida e, ainda que n√£o seja a √ļnica, sexo √© uma das principais. Isso √© natureza humana, independente se temos smartphone no bolso ou n√£o. Como a gente falou o epis√≥dio inteiro, a tecnologia introduziu enormes mudan√ßas sobre como pensamos, discutimos, consumimos, produzimos e fazemos sexo. Ela precisa ser utilizada para nos colocar em contato com esta puls√£o de vida. A gente pode at√© tentar replicar sexo remotamente em momentos dif√≠ceis, como a quarentena, mas ele s√≥ se executa no mundo real. Eu vou acompanhar com aten√ß√£o estes dados sobre a recess√£o sexual pelos pr√≥ximos anos para ver se n√£o estamos vendo s√≥ algo moment√Ęneo, mas parece existir um consenso at√© agora que toda a tecnologia ajuda, mas, no fim das contas, n√£o resolve sozinha, mesmo que o assunto seja gozar.

  1. Se livro acad√™mico n√£o √© sua praia, o Liam Neeson interpreta o Kinsey num filme hom√īnimo muito bom de 2004. ‚Ü©
  2. Ou pelo menos deveria ter introduzido. ‚Ü©
  3. Para citar alguns. ‚Ü©
  4. Na sexologia, “baunilha” √© o termo usado para definir pessoas ou casais habituadas apenas √†s pr√°ticas sexuais mais convencionais. ‚Ü©
  5. Pron√ļncia t√° correta, Lu? ‚Ü©
  6. Taí um raro hackaton que rendeu alguma coisa fora campanhas de PR e promessas vazias. ↩
  7. E você achando sua avó careta… ↩

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6 coment√°rios

  1. Na primeira vez que esse título passou por mim, surgiu o pensamento: estamos QUEM transando menos? Salvei para mais tarde e, agora que já li tudo, pude confirmar o recorte heterossexual.

    Nas duas vezes em que o autor sup√īs que o leitor entendia o que estava sendo falado sem precisar explicar, me senti um peixe fora d’√°gua: antes de Tinder, √© o Grindr que vem a minha cabe√ßa; e se n√£o fosse todo o contexto, n√£o sei se entenderia lendo apenas “a p√≠lula”.

    Sobre os apps, “O grande m√©rito do movimento iniciado pelo Tinder em 2012” parece uma frase atrasada, j√° que o Grindr veio anos antes e sempre pareceu conectar parceiros sexuais pela internet com maior efici√™ncia e rapidez.

    Quando o texto aborda a orientação sexual, um equívoco surge: A internet *não* mudou a cultura sexual reprimida do homossexual no que diz ao ecossistema, códigos de comunicação e ambientes próprios. Na verdade, ela *impulsionou*. Esses lugares continuam existindo e os códigos de comunicação continuam existindo. Chutaria que até mais lugares existem após a internet, e que se mudou alguma coisa nisso foi a disseminação da informação sobre quais são esses lugares. Os gays não deixaram de frequentar esses lugares simplesmente porque é possível se agrupar virtualmente com maior segurança, mas passaram a se agrupar em mais lugares e com maior frequência a partir da informação que conseguem virtualmente, mesmo que ainda estejam arriscando ser descoberto e sofrer consequências físicas.

    Fui dar uma olhada nos dados do estudo da Universidade de San Diego a fim de entender a diferen√ßa ao longo dos anos entre h√©teros e gays e aparentemente eles n√£o fizeram esse recorte. Tem os dados de g√™nero, idade, ra√ßa, educa√ß√£o etc, mas n√£o tem de orienta√ß√£o sexual (!) numa pesquisa sobre sexo. Poxa…

    Enfim, √≥tima pesquisa e trabalho com esse Tecnocracia, mas t√ī saindo da p√°gina com a pulga atr√°s da orelha, ser√° que a queda de frequ√™ncia sexual tamb√©m vale para os gays ou √© algo espec√≠fico entre h√©teros?

  2. E ou√ßo um tema que muito me interessa pela voz e pensamentos de um jornalista foda! EEEEE. Bem elogio feito √© legal ouvir sobre o assunto tendo como foco as tecnologias e o reflexo nas pessoas, muitas vezes ouvia o contrario. E √© bom tamb√©m normalizar a quest√£o, penso que tendo mais esse assunto como algo normal conseguimos falar de outros assuntos com franqueza para melhorar o convivi-o social com equil√≠brio e respeito pela diversidade. Sobre o futuro vamos ver o que nos reserva em uns 60 anos experi√™ncias de realidade aumentada j√° imaginou uma sub online com pessoas ao redor do mundo onde roupas poderiam dar diferentes sensa√ß√Ķes? Sempre ser√° algo f√≠sico, mas sem o envolvimento psicol√≥gico (tes√£o; n√£o amor romantico necessariamente) acho que prefiro malhar que mecanizar o sexo.

  3. Ainda bem que existe o Tecnocracia de forma escrita. Sinceramente tenho que admitir que creio que ficaria constrangido em escutar sobre o assunto. Consigo ler e tolerar melhor neste formato do que escutar e/ou ver quando se fala em assuntos sobre sexo.

    Aproveito para abrir um pouco da minha vida (nem tanto, vou aproveitar-me do pseudo-anonimato do pseud√īnimo que uso, pois temo que as vezes falar demais pode gerar um efeito negativo ao inv√©s de positivo).

    Sou filho de uma pessoa que teve nos anos 80 uma boate na lend√°ria regi√£o da “Boca do Lixo” em S√£o Paulo. . Diferente do dono (no qual na verdade nunca conversamos direito sobre sexo, logo n√£o sei muito sobre o que ele passou, mas pelo pouco que sei, teve mais rolos do que se pensa), minha educa√ß√£o (e viv√™ncia) sexual √© mais contida. Quase “carola”. Curiosidade: quando fiz 18 anos, a boate faliu e fechou. E as poucas vezes que entrei l√° dentro, foram com “portas fechadas” e sem movimento (ou seja, sem mulheres na boate, ou talvez nunca notei na hora que eu entrava, pois o fazia de forma discreta).

    Meu primeiro (e √ļnico) relacionamento (mais) longo foi com 23 anos (meu primeiro beijo em uma namorada foi com 22, e dias depois deu o 11 de setembro). E s√≥. Raras vezes fiquei com uma mulher na vida. :\

    Vamos dizer que aprendi mais sobre sexo em livros escolares, alguns programas de TV e na revista Playboy do que na vida em si. E todas as pessoas ao meu redor, ao que entendi, tinham uma vis√£o sobre sexo e relacionamento ainda recheada de preconceitos e vis√Ķes bem “estereotipadas”.

    J√° tentei alguns aplicativos de namoro, mas sem sucesso (contei o caso em um Post Livre uma vez de ir ver uma pessoa sem avisar, e n√£o sem raz√£o o Ghedin fez a critica correta – meio que seria um abuso se eu tivesse realmente encontrado a menina, ent√£o ainda bem que n√£o ocorreu o encontro. Nem eu saberia como reagir, e provavelmente a menina estaria constrangida).

    Enfim. Do meu ponto de vista, entendo que de fato ao menos nos √ļltimos 30 anos houve uma mistura de gera√ß√Ķes que ainda busca como se entender em rela√ß√£o a relacionamentos. Vale para o ponto principal dito: o consentimento. Talvez ainda temos um tabu cultural a ser vencido que √© entender o sexo de uma forma livre, s√≥ que ao mesmo tempo temos o medo de misturar o sentimento de desejo com o sentimento de estar com a pessoa de forma afetuosa (amor/amizade). E com isso, ainda soma-se um valor que noto que √© pouco discutido sobre: a quest√£o da “posse”. O ci√ļme, a ideia de que a pessoa √© “dona” da outra, no que gera muitas vezes os feminicidios ou mortes por ci√ļme.

    Acho que para mim, o fato de eu por exemplo n√£o ter tantos relacionamentos √© porque temo em ser um inc√īmodo (sim, isso √© em partes quest√Ķes psicol√≥gicas que me devo a colocar em um div√£, n√©?). E temer tamb√©m ser iludido por alguma menina que queira abusar (n√£o me lembro de na fase adulta ter ocorrido algo assim, mais na inf√Ęncia… ). Enfim.

    Pe√ßo desculpas pelo inc√īmodo nos coment√°rios e espero que isso ajude a puxar mais gente para a conversa aqui. Ou ao menos tamb√©m agradecer pelo Tecnocracia de hoje :).

    1. misturar os sentimentos de tes√£o e romance realmente pode ocorrer, mas com trabalho de auto esclarecimento d√° para separar. N√£o que seja facil, pois eu como vc sou de uma gera√ß√£o onde as duas coisas andavam acorrentadas, por√©m ouvindo pessoas mais novas como no “Prazer, Renata” parece que a nova gera√ß√£o usa a velocidade do consumo de hoje para aproveitar e descolar as coisas (https://g1.globo.com/fantastico/podcast/prazer-renata/noticia/2022/11/13/prazer-renata-tudo-para-ontem-com-barbara-paz-valeria-almeida-e-valentina-bandeira.ghtml).

      Não sei se com tanta efemeridade pessoas mais velhas como nós aproveitariam, mas pode ser uma boa dica dar umas pitadas disso.

      1. Obrigado pela resposta. Fiz 40 este √ļltimo m√™s. Ent√£o tou “velho”, vamos dizer.

        A quest√£o de misturar sentimentos acho que vem da idealiza√ß√£o, esta que √© embutida em v√°rias hist√≥rias e situa√ß√Ķes culturais (“dama em perigo” a mais comum, n√©?) .

        Creio que este tipo de confusão também me gera uma proteção Рacabo não indo com tanta sede ao pote ou indo atrás de mulher para depois cair em alguma situação desagradável para ela (pois sou inexperiente com muita coisa) ou para mim (a pessoa ser aproveitadora ou eu cair em um golpe do tinder).

        N√£o vou chegar mais a fundo de certos assuntos sobre sexo, mas digamos que como n√£o sei definir corretamente o que seria a “primeira vez”, h√° duas condi√ß√Ķes que entram em confus√£o comigo – a√≠ √© novamente assunto de div√£ . :p