Dois homens, em poses diferentes, usando cuecas pretas da Insider, um em cada canto da imagem. No centro, a frase: “A cueca mais confortável com 12% Off. Cupom MANUALDOUSUARIO12”

Reação do Telegram alivia, mas não resolve desinformação eleitoral no Brasil

Homem branco, de cabelo curto, vestindo terno e com o olhar apreensivo olhando para cima.

Todo ser vivo vive para reproduzir e não existe reprodução consentida que não envolva lubrificação1. O objetivo é sempre levar o gameta masculino ao encontro do gameta feminino. Quando a coisa fica quente, todo corpo animal tem métodos bastante eficientes de facilitar a reprodução. No homem, um dos principais são os chamados corpos cavernosos. Quando ele se excita, os corpos cavernosos se enchem de sangue, o que resulta na ereção. Nas mulheres, quem faz o papel de facilitar a penetração e, consequentemente, a fecundação são as glândulas de Bartholin, duas glândulas alveolares do tamanho de ervilhas localizadas na entrada da vagina. Quando a mulher se excita, as glândulas de Bartholin secretam muco que lubrifica a entrada e o corpo vaginal, como forma de facilitar a penetração.

O muco secretado pelas glândulas de Bartholin não é a única secreção que o corpo expele para lubrificação. Existem também a “transudação de plasma através do epitélio vaginal para a superfície da vagina e secreções do útero”, segundo artigo sobre os estímulos psicológicos envolvidos na excitação feminina dos pesquisadores Terri Woodward, da Universidade do Texas, e Michael Diamond, da Universidade Estadual de Wayne.

A descoberta das glândulas de Bartholin e sua secreção de muco só foi possível pelo trabalho do anatomista dinamarquês Caspar Bartholin the Younger, no século XVII. Há uma confusão que, às vezes, credita a descoberta ao avô de Caspar, o matemático e físico dinamarquês Thomas Bartholin, sujeito que descobriu o sistema límbico e cujas pinturas mostram um visual que só pode ser descrito pela mistura entre Miguel de Cervantes e a Cher2.

O objetivo, lembremos, de aproximar gametas é facilitado pela ereção e pela lubrificação. Bom lembrar que a mecânica não é puramente fisiológica: os corpos cavernosos e as glândulas de Bartholin podem estar tinindo, mas se o psicológico estiver em frangalhos, nada disso funciona direito. Quem nunca passou por uma fase de preocupação profissional, luto ou angústias aleatórias que deixou paus moles e xanas secas? Quando a terapia está em dia, as fontes de prazer estão estabilizadas e a vida te trata minimamente bem, a hidráulica é suficiente. Pelo menos na maior parte dos casos. Em alguns ambientes, a eficiência despenca e eu quero falar de uma situação específica: transar na água. Quem planeja transar na água? Jovens que entendem pouco do riscado, quem criou devaneios na sua imaginação depois de ver muito pornô ou se, depois de anos de uma relação morna, bateu aquela vontade de apimentá-la.

Por mais contraintuitivo que pareça, estar com o corpo molhado não te deixa mais molhada. Não só a água que nos cerca não é a mesma que lubrifica o corpo vaginal como uma luta contra a outra — a água limpa o muco, o que diminui sensivelmente a lubrificação e torna o sexo doloroso. Agora, você pode insistir: “Mas, Guilherme, e se, ainda assim, eu tiver uma fantasia e quiser realizar?” A primeira coisa é simples: compre um lubrificante íntimo à base de silicone. Não vai ser uma maravilha, mas vai ser melhor do que a lubrificação natural. O segundo ponto exige uma distinção entre águas.

Se você quiser transar na piscina, as notícias são um pouco melhores. Vamos lembrar que, mesmo com a lubrificação funcionando artificialmente, há um risco enorme de bactérias na água entrarem na vagina e/ou no pênis e dar ao casal uma dolorosa lembrança infecciosa da aventura sexual. A piscina tem cloro, que combate grande parte das bactérias, mas não todas.

Agora, se a ideia é transar no mar, bonitinho e bonitinha, não tem muito o que falar. Primeiro que, basicamente, o mar é uma enorme sopa gelada (cada dia menos…) de bactérias. Segundo que entra sal na jogada. Ainda que você tenha uma lubrificação tinindo, o sal transforma a penetração em uma arma. Com o movimento, o sal vai criando micro fissuras na glande ou na parede vaginal. Ou seja: além de ter milhões de bactérias nas suas entranhas, você está dando uma porta de entrada para elas invadirem sua corrente sanguínea mais facilmente pelas feridas na vagina e no pênis. Boa sorte em cicatrizar essas feridas e sarar da infecção que periga aparecer depois.

Se você deu uma leve contorcida de agonia na cadeira, eu te entendo — eu também. Com todas essas informações, quem em sã consciência se deixa levar pelo tesão e transa no mar? Pelo menos uma pessoa eu e você conhecemos.

Daniela Cicarelli.

Não que seja um hábito. Mas pelo menos uma vez rolou, comprovadamente. A gente sabe porque foi filmado e caiu na internet. Em 2006, a modelo e seu então namorado foram filmados transando em uma praia espanhola. Na época, o site de vídeos mais popular no Brasil era o brasileiro Videolog. Publicado na internet, o vídeo fez a procura nas plataformas explodir.

Esse não é um episódio sobre sexo. É um episódio sobre como a Justiça brasileira tem um histórico destrambelhado para bloquear plataformas digitais por completo no país. Aconteceu há 15 anos, de novo alguns anos depois, de novo alguns anos depois e estamos aqui de novo debatendo o assunto. O Tecnocracia da quinzena vai falar do caso Telegram nas eleições de 2022 e pensar alto alguns dos principais pontos que envolvem uma discussão que, até a última semana, caminhava para um desfecho tipo o do caso da Cicarelli. Não de sexo na praia, mas de bloqueio de uma aplicação na internet. A cada quinze dias (às vezes, mais) o Tecnocracia detalha alguns assuntos sem relação nenhuma com tecnologia, só por pura curiosidade mesmo, para depois dar um cavalo de pau e entrar no assunto tecnológico. Eu sou o Guilherme Felitti e o Tecnocracia está na campanha de financiamento coletivo do Manual do Usuário. Quem assina a partir do plano II ganha o adesivo do podcast e participa do Tecnocracia Balcão, episódio ao vivo uma vez por mês. Custa R$ 16 mensais. É sua chance de me perguntar direto por que diabos eu começo um episódio sobre Justiça falando de lubrificação e eu vou te responder honestamente que eu não tenho a menor ideia, a vida é cheia de perguntas para as quais não sabemos a resposta.

Voltemos a 2006. Cicarelli e seu namorado desafiaram o corpo humano e arriscaram infecções ao transarem no mar, alguém filmou e jogou na internet e os advogados da modelo entraram em ação. Já acostumado com notificações judiciais, o VideoLog reagiu rápido para limpar sua base. Sem operação brasileira, o YouTube passou batido — os advogados da modelo não sabiam a quem recorrer. Com o vídeo no ar, a Justiça vislumbrou a alternativa. Em janeiro de 2007, o site foi bloqueado durante dois dias. A ordem foi enviada para os provedores de acesso, que bloquearam o acesso no backbone, a infra-estrutura física que conecta os países. Além de ajudar na ascensão do YouTube e atrelar a história da modelo ao site, o vídeo escancarou pela primeira vez a tensão entre provedores de aplicação estrangeiros e a Justiça brasileira.

Não demoraria muito para um repeteco. Em setembro de 2008, a um mês das eleições municipais, uma candidata à prefeitura de Fortaleza acionou a Justiça para tirar do ar contas falsas que se passavam por ela no Twitter. A Justiça não só deu razão à candidata, como ordenou o bloqueio do Twitter no Brasil. A decisão já era questionável pelo exagero, mas ficou ainda pior quando, em um desdobramento que orgulharia Os Trapalhões, o bloqueio atingiu em um blog homônimo dedicado a cobrir a recém-chegada plataforma de microblog no Brasil.

Quase uma década depois, novo caso. Em 2016, um juiz de Lagarto, cidade no interior do Sergipe, mandou bloquear o WhatsApp após o Facebook se negar a quebrar o sigilo de conversas no app entre dois traficantes investigados.

Dois mil e seis. Dois mil e oito. Dois mil e dezesseis. E, agora, 2022. No fim de fevereiro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes ordenou que o aplicativo de mensagens Telegram bloqueasse três canais de Allan do Santos, bolsonarista e foragido da Justiça no inquérito que investiga milícias digitais por trás de campanhas antidemocráticas. Àquela altura, ninguém que acompanhava de perto o desenrolar da história esperava que o Telegram, após quase um ano se negando até mesmo a estabelecer contato com autoridades brasileiras, capitulasse e cumprisse a ordem. Só que, para surpresa geral, no dia seguinte, o Telegram bloqueou os três canais e jogou um bem-vindo balde de água fria no caldeirão fervente em que havia se metido no Brasil.

A expectativa criada durante esse período apontava para um desfecho dramático, construído ao longo dos últimos meses com crescente intensidade: o bloqueio completo de acesso ao aplicativo no Brasil por ordem da Justiça.

A capitulação do Telegram provoca diferentes sentimentos em grupos específicos. Entre os observadores do setor de tecnologia, membros do Judiciário e qualquer um preocupado com a escalada golpista registrada desde 2019 contra a democracia brasileira, a sensação é de alívio.

O relacionamento entre o Telegram e a Justiça brasileira está longe de ser perfeito. Enquanto outras grandes plataformas digitais assinam memorandos, têm contato direto com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e acatam ou no mínimo recebem decisões judiciais, a intermediação com o Telegram parece que se dará pelas ameaças nos tribunais. Até onde se sabe, a decisão proferida em agosto de 2021 para apagar conteúdo golpista da página de Jair Bolsonaro (PL) segue ignorada. No mais, é preciso entender se futuras ordens serão cumpridas. É só o app ignorar a próxima, como já fez outras vezes, para a discussão do bloqueio voltar com a mesma potência de antes.

É inegável, porém, que o episódio envolvendo os canais de Allan dos Santos será lembrado como uma vitória do TSE — e uma derrota do Telegram.

Para o bolsonarismo, a capitulação provocou um arrepio na espinha. Desde janeiro de 2021, com a ação mais enérgica da chamada Big Tech para banir o ex-presidente norte-americano Donald Trump de Twitter, Facebook, YouTube e afins após sua participação na tentativa de golpe de estado, o Telegram despontou como uma das melhores alternativas para acomodar quem confunde moderação de conteúdo com censura.

Durante mais de um ano, o bolsonarismo, tão fiel em replicar e tropicalizar movimentos trumpistas, pareceu ter encontrado um ninho confortável onde, na contramão da crescente moderação imposta pelas plataformas da Big Tech, poderia coordenar campanhas de desinformação e mentir em volume atacadista sem temer qualquer tipo de punição.

Print de peça de propaganda de Jair Bolsonaro convidando militantes a segui-lo no Telegram.
Peça da página de Bolsonaro no Facebook promovendo o Telegram. Imagem: Facebook/Reprodução.

Até que a decisão do sábado (26/2) mostrou que o Telegram não está fora do alcance da Justiça. A reação foi imediata. Nas horas seguintes aos bloqueios dos canais de Santos, outros influenciadores bolsonaristas na plataforma passaram a criar canais reservas caso o mesmo acontecesse com eles.

Há, por fim, um terceiro sentimento compartilhado entre alguns dos observadores da questão: o de esperança. Esperança de que, com a capitulação, o debate da desinformação eleitoral no Brasil se reequilibre e volte a encarar o Telegram com o tamanho correspondente ao seu risco real no cenário digital.

Ninguém nega que o aplicativo — que limita sua moderação a questões de direitos autorais e pedofilia, mas não trata de desinformação, conteúdo golpista e exposição indevida (revenge porn) — é uma fonte de preocupação ao TSE. A questão é o tamanho que essa dor de cabeça atingiu na opinião pública, tão grande que players com potencial para cefaleias ainda maiores foram esquecidos.

A cada ignorada que o TSE, o STF e o Ministério Público Federal (MPF) tomavam do Telegram, a discussão escalonava e, com ela, a busca por uma solução definitiva. Todos os caminhos pareciam levar ao bloqueio. Ao acompanhá-las, não conseguia pensar no assunto sem ter as três histórias acima como parâmetro. Muita coisa mudou desde 2008, mas o histórico brasileiro em sanções do tipo é de arrepiar a espinha de qualquer um.

Foi uma história para a qual você era capaz de antever um possível fim enquanto ela vai se desenrolando na sua frente desde o comecinho de 2021. Com dados, é fácil visualizar o crescimento do Telegram para fora dos grupos tradicionalmente afeitos ao aplicativo, os entusiastas de privacidade.

Desde o primeiro mês da presidência de Bolsonaro, conteúdos em português sobre Telegram no Facebook acumularam cerca de 1,5 milhão de posts. Até o fim de 2020, o número de interações semanais geradas por esses posts (ou seja, cada curtida, comentário ou compartilhamento) ficava na casa dos 100 mil — pouco mais, pouco menos.

Gráfico do Crowdtangle mostrando menções a Telegram no Facebook ao longo do tempo.
Gráfico da ferramenta Crowdtangle mostra evolução do número de posts em português citando “Telegram” no Facebook — a partir de janeiro de 2021, número cresce e atinge seu ápice em junho e julho. Imagem: Manual do Usuário.

Na última semana de janeiro de 2021, aproximou-se dos 700 mil, segundo o Crowdtangle. Dali em diante, o número passou a crescer consistentemente até atingir seu ápice na primeira semana de junho, com mais de 1,7 milhão de interações.

Quem começou a migração, sem surpresa, é Jair Bolsonaro.

Em 12 de janeiro de 2021, dias depois da tentativa de golpe nos EUA e o banimento de Trump, Bolsonaro lançou seu canal no Telegram. Seus asseclas o seguiram nas semanas seguintes. Nos primeiros meses, era só um laboratório. Em abril o assunto se tornou muito relevante a Bolsonaro.

O número de posts citando “Telegram” no seu Facebook triplicou em relação ao mês anterior e atingiu um patamar que se manteve no restante de 2021. Coincidência ou não, foi no começo de maio que Bolsonaro, pela primeira vez, começou a ventilar publicamente a ideia de um decreto para mudar o Marco Civil da Internet, numa tentativa de proibir redes sociais de moderarem conteúdo. Era um balão de ensaio para a medida provisória (MP) editada em setembro. Com o fracasso tanto da MP quanto das manifestações golpistas que acabaram com o presidente pedindo desculpas ao STF, as menções ao Telegram desabaram.

Gráfico de linha mostrando as menções a Telegram na página de Jair Bolsonaro no Facebook.
Número de menções mensais ao termo “Telegram” nos posts do presidente Jair Bolsonaro no Facebook. A popularidade coincide com discursos golpistas de Bolsonaro contra o sistema eleitoral. Imagem: Manual do Usuário.

O assunto não morreu; ficou incubado. Na virada do ano, ele voltou à tona simultaneamente ao retorno dos ataques ao sistema eleitoral, ao TSE e a seus presidentes no período, os ministros Luís Roberto Barroso e Edson Fachin. Para Bolsonaro, o Telegram é peça fundamental na estratégia de desinformação que fundamentará (tal qual ocorreu em 2018) sua campanha eleitoral de reeleição agora, em 2022.

Conforme a cobertura da imprensa aprofundava e dava detalhes sobre a crescente tensão entre Justiça e Telegram, o debate público colocou o app sob holofotes e o transformou numa espécie de panaceia, solução mágica na luta contra a desinformação.

O debate técnico e jurídico de um eventual bloqueio

Fora as posturas vitriólicas e ocasionalmente delirantes que caracterizam as redes sociais, o debate do bloqueio se concentra em duas frentes: a técnica e a jurídica.

Pelo lado técnico, é preciso entender como o bloqueio se daria e sua efetividade. As perguntas são muitas e a maioria ainda não tem resposta exata: é preciso derrubar o app todo ou é possível mirar canais específicos? Como driblar as ferramentas próprias criadas pelo Telegram para impedir bloqueios? Usar um proxy ajudaria? E, principalmente, o quão efetivo seria um bloqueio do tipo?

Pelo lado legal, juristas debatem qual a fundamentação teórica do bloqueio — nenhum magistrado ou ministro do STF ordena sem base na legislação. Duas correntes se contrapõem: a que argumenta que é preciso ter uma nova lei aprovada que preveja o bloqueio de apps sem operação local e os que alegam que o Marco Civil da Internet, a Lei Geral de Proteção de Dados e até o Código de Defesa do Consumidor podem ser usados como base.

A advogada Flávia Lafavre, que vem pensando nesta interseção entre Justiça e tecnologia anos antes de muitos de nós nos interessarmos pelo tema, escreveu um post interessante explorando cenários. No fim, sua fundamentação teórica usa artigos dos Códigos de Processo Civil e Penal.

Todos concordamos que nenhuma empresa ou serviço pode decidir se segue ou não as leis de um país onde opera. Esgotadas todas as alternativas jurídicas possíveis, o bloqueio, com toda sua radicalidade, vira a única alternativa, desesperada, definitiva e que desencadeia outros questionamentos, já conhecidos dos bloqueios anteriores.

A capitulação do Telegram suspende os debates técnicos, jurídicos e até morais.

Mas não se engane: na próxima decisão da Justiça brasileira que o Telegram ignorar, todas voltam instantaneamente.

Com esse refresco, é preciso cuidado para não cair na armadilha de acreditar que a desinformação eleitoral perdeu seu principal pilar. Enquanto o Telegram ocupava no debate público um espaço maior do que o efetivo perigo que representa à desinformação eleitoral, fatores potencialmente mais nocivos foram deixados de lado.

Ter uma operação local, com executivos repetindo com boa oratória textos lapidados pelo departamento de relações públicas não significa, necessariamente, interesse e compromisso reais com o combate à desinformação.

É o caso da Big Tech no Brasil.

Em dezembro de 2021, a menos de um ano das eleições, o WhatsApp apresentou a representantes de setores estratégicos no Brasil a possibilidade de derrubar os limites de circulação de mensagens impostos pelo aplicativo em resposta aos abusos verificados em 2018. Ao oferecer opções que não obedecem ao limite de 256 membros por grupo, o WhatsApp planeja se tornar “mais parecido com o Discord e o Telegram”, diz a reportagem no jornal O Globo assinada pelo repórter Guilherme Caetano.

A possibilidade de o WhatsApp, presente em 99% dos celulares no Brasil, segundo pesquisa da Opinion Box, afrouxar as regras impostas para evitar o inferno comunicacional em 2018 a menos de um ano das eleições majoritárias é um importante sinal de alerta. Em uma entrevista no começo de março, o chefe de política pública do WhatsApp na América Latina, Dario Durigan, afirmou que o app não sofrerá nenhuma mudança significativa até o fim das eleições. Alívio, sim, mas o histórico do WhatsApp no tema sugere ficar de olho.

No livro “A máquina do ódio”, a jornalista Patrícia Campos Mello explica como o WhatsApp, após as eleições de 2018, adotou uma postura de pouca transparência e ajuda para esclarecer os pontos que levaram aos disparos em massa ilegais na campanha brasileira. O app promoveu mudanças técnicas na tentativa de conter a viralização de mentiras e boatos e resistiu em compartilhar informações que ajudassem a elucidar o caso. Só um ano depois das eleições um executivo do app assumiu que, sim, o WhatsApp sabia que tinha sido usado para disparos em massa, cena que Patrícia descreve entre as páginas 65 e 72 do seu livro.

Sem fiscalização rígida, mas com doodle

Ao analisarmos os memorandos assinados pelas plataformas com o TSE, o que chama atenção, mais do que o proposto, é o que falta.

O Google cogita, tentando demonstrar compromisso, trazer ao Brasil uma fiscalização mais rígida do discurso eleitoral já vigente nos EUA e na Alemanha. É inacreditável a empresa por trás do buscador e do site de vídeos mais populares do Brasil, após incontáveis provas do uso dos seus serviços para campanhas de desinformação política nos últimos quatro anos, já não tê-la implementado.

Em troca, o Brasil ganhará um doodle comemorativo — aquela versão temática do logo do Google que aparece vez ou outra em datas especiais. Soa como piada, mas é real.

A falha de prometer ou replicar de forma limitada o que já foi usado lá fora não é exclusividade do Google. Em seu memorando, o TikTok se compromete a combater discursos que alegam fraudes na votação por correios, sistema disponível nos EUA, mas não no Brasil.

Há razões para preocupação até mesmo quando as regras são cristalinas. Facebook, YouTube, Twitter e Instagram seguem ignorando suas próprias regras para deixar no ar e impune conteúdos que mentem sobre a pandemia, a vacinação infantil e o processo democrático brasileiro.

A Agência Lupa encontrou 122 tuítes de contas de grande projeção com mentiras que infringem as regras do Twitter e, ainda assim, seguem no ar sem nenhum alerta. Reportagem do jornal O Globo3 mostrou como figuras próximas a Jair Bolsonaro, como seu filho Flávio Bolsonaro e o pastor Silas Malafaia, não sofreram as sanções previstas — notoriamente o bloqueio temporário do canal — quando tiveram vídeos excluídos por infringir as regras da plataforma.

Não é difícil encontrar no Facebook lives transmitidas por membros do Congresso Nacional, como a deputada Bia Kicis (PSL-DF), que mentem sobre a vacinação infantil e/ou o ineficaz “tratamento precoce” da covid-19. Também no Facebook, o sistema eleitoral brasileiro vem sendo atacado com mentiras por uma campanha que rende, diariamente, cerca de 247 mil interações, segundo estudo da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (DAPP-FGV) no período de novembro de 2020 a janeiro de 2022. Também no YouTube, é facílimo encontrar vídeos, alguns monetizados, que pedem expressamente o fechamento do Congresso e do STF.

Print de vídeo golpista de Políbio Braga: “Chegou a hora de fechar o STF e o Congresso Nacional”.
Em vídeo de 2019, Políbio Braga pede, expressamente, o fechamento do Congresso Nacional e do STF. Mesmo contra a Constituição, vídeo segue no ar no YouTube e já atraiu 145 mil visualizações. Imagem: YouTube/Reprodução.

Todos esses são problemas reais e urgentes que continuam sem solução.

Há fartas evidências de que, mesmo com os memorandos cheios de boas intenções assinados com o TSE, as responsáveis pelas principais plataformas digitais onde ocorrem os debates políticos do Brasil fizeram o trabalho de combate à desinformação e conteúdo golpista pela metade.

A capitulação do Telegram é, sim, uma boa notícia.

Mas, se o TSE pretende sanear o ambiente digital para conter redes de desinformação e disparos de mensagens em massa com objetivos antidemocráticos, ideológicos ou financeiros, é preciso que o ruído criado pelos departamentos de relações públicas não mascare a realidade.

Foto do topo: Alan Santos/Presidência.

  1. Em algumas vezes, a lubrificação é antecipada pelo ludíbrio, o ato de ludibriar, mas não vamos entrar no mérito aqui. Se existisse a palavra “ludibriação”, o texto ficaria melhor. Taí a língua portuguesa destruindo minha piada.
  2. Eu sempre fico muito surpreso como pinturas de alguns dos maiores filósofos e cientistas do último milênio mostram todos com cabelos longos e super sedosos. Argan bombando desde sempre.
  3. Full disclosure: minha empresa de análise de dados, a Novelo Data, forneceu os dados.

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