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Mentir custa caro e quem paga a conta somos todos nós

Dois bonecos, um pinóquio ao fundo e uma caveira com chapéu em primeiro plano, atrás de uma vitrine/vidro.

Durante séculos, a base da economia do Brasil colonial era o açúcar, parte de algo que você aprendeu no colégio: desde 1500, a economia brasileira é compreendida de ciclos. O do açúcar é o segundo, sucedendo o ciclo do pau-brasil. Em termos econômicos, produzir açúcar para exportar para a Europa era muito lucrativo. Em termos práticos, porém, o processo exigia um volume enorme de mão de obra. Quem fazia o trabalho duro eram os escravos africanos sequestrados dos seus povoados na África e trazidos para o Brasil durante mais de três séculos. Acomodados em galpões sujos, abafados e pestilentos, os escravos tinham uma vida brutal, com horas extenuantes de trabalho diário e nenhum direito. Sempre que citamos o assunto vale a pena relembrar: a escravidão é o principal pilar no qual a sociedade brasileira se apoiou e ecoa até hoje. Desde 1888, quando a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, lá se vão 133 anos. É um terço de todo o tempo em que a escravidão foi praticada no Brasil. A sociedade brasileira sofrerá ainda séculos das consequências dessa chaga. Segundo o IBGE, mais da metade dos brasileiros é de pessoas pardas ou pretas, segundo a terminologia do próprio instituto.

O foco era plantar cana para colher, moer, ferver e processar para transformá-la em açúcar, mas existiam outros alimentos no engenho. Um deles era o leite. Da teta da vaca à goela da família dos senhores do engenho, o processo de ordenha, tal qual o da produção do açúcar, era concentrado nos escravos, mas nenhum deles consumia o produto final. Restava aos escravos consumir a comida restrita e os frutos que nasciam naturalmente nos engenhos. Um deles era a manga, que enchia as mangueiras entre outubro e janeiro (estamos na época). Você já deve saber para onde estamos indo: como forma de desincentivar os escravos a tomarem o leite, restrito apenas à família da casa grande, os senhores do engenho desenvolveram outra forma que não as brutais punições físicas. Espalhou-se a teoria segundo a qual a mistura do leite e da manga, abundantemente disponível nos engenhos, faria mal ao corpo humano. Quem tomasse leite e tivesse já no estômago o fruto mastigado corria o risco de morrer. As punições físicas, dos açoites à morte, passando por amputações e torturas diversas, incutiam medo pela crueldade e brutalidade. A história da manga com leite também — era medo a partir de terrorismo, mas sem precisar levantar a mão.

Eu queria muito ler um relato mais próximo de como o episódio se desenvolveu, mas todos os registros que encontrei são superficiais e não trazem detalhes mais próximos. Uma pena.

O fato é que a teoria alardeada com o único intuito de proteger o leite de desvios pelos escravos não condizia com a realidade. A frase anterior ficou palavrosa. Algo que não condiz com a realidade tem outro nome, mais simples e curto: é mentira. Ainda que tenha perdido sua “utilidade” há séculos (o ciclo do açúcar dura quase dois séculos e dá lugar ao ciclo do ouro a partir do século XVIII), a lorota da manga com leite seguiu viva ao se firmar na cabeça dos brasileiros. É provável que você já tenha conhecido alguém (provavelmente de mais idade) que atestava os malefícios e soube de alguém que tinha passado mal pela mistura.

A mentira é uma parte fundamental da vida, gostemos dela ou não. Existem, lógico, variações sobre o que é enganação, o que é ilusão e o que mentira, e mesmo as mentiras respeitam uma escala. A gente vai falar sobre isso. É fácil notar o papel fundamental que a mentira desempenha na vida e na sociedade pela cultura. Alguns dos maiores produtos culturais da história partem de premissas baseadas em mentiras. Na literatura lá está ela no Pinóquio, o boneco de madeira cujo nariz cresce a cada mentira contada. O desenlace de Romeu e Julieta se dá por uma mentira, o protagonista d’O Grande Gatsby é um mentiroso contumaz e Shakespeare criou um mentiroso fanfarrão chamado John Falstaff presente em quatro peças suas. Até na Bíblia há os que mentem: Sarah, a esposa de Abrão, mente algumas vezes, inclusive para Deus em Gênesis 18:15. No cinema, uma das melhores comédias dos anos 1990 tinha um Jim Carrey no auge da forma interpretando um advogado incapaz de mentir — a mentira é algo tão comum que ser impedido de contá-la nos coloca em situações que amparam uma comédia de sucesso. Adeus, Lênin mostra as tentativas de um filho de proteger a mãe de um novo infarto, o que o leva a mentir que a Alemanha Oriental continua a existir após a queda do Muro de Berlim. Na música, o que mais tem é gente chorando pelas mentiras alheias. Se a gente considerar (justamente, a meu ver) traições amorosas como mentiras, aí abre-se uma escala completamente nova: “Love the way you lie”, do Eminem, “Suspicious minds”, do Elvis, “The biggest lie”, do Husker Du, “Fui muito fiel/Comprei anel/Botei no papel/O grande amor/Mentira” do “Samba do grande amor”, do Chico Buarque, e “Mente que vai dar uma volta e vem me ver/Entre uma briga e outra de vocês”, da “Bem pior que eu”, da Marília Mendonça. Nenhum produto cultural recente, porém, aborda tão bem a escolha pela mentira e suas consequências do que Chernobyl, minissérie da HBO sobre, sem surpresas, a tragédia na usina nuclear de Chernobyl. É tão boa que nós vamos falar mais dela adiante.

A mentira é tão permissiva e assumida como normal que, quando é preciso falar algo sério que exige honestidade total, você o faz sob juramento (e, caso você quebre o juramento para mentir, será enquadrado no artigo 342 do Código Penal, perjúrio) ou simplesmente jurar por alguém que você ama (sua mãe, seus filhos e por aí vai) para revelar algo a seus amigos. “Juro por Deus” é uma expressão que aparece até na boca de ateu e agnóstico (digo por experiência própria).

Mentir é a forma mais simples de “solucionar” um problema apenas usando um verbo. Solucionar entre aspas porque, na verdade, o problema (ou o que a gente considera um problema ou um descompasso entre realidade e nossas crenças) não se resolveu. Continua lá. A mentira só nos deu um falso e fugaz sentimento de alívio de não termos que nos preocupar. É uma garantia ilusória, um cheque sem fundo.

Em 2020, dediquei um episódio do Tecnocracia a um sentimento: a raiva. Há alguns meses eu decidi que faria algo na mesma linha nesta temporada e fiquei procurando o que faria sentido. Podia ser algo mais abstrato, não precisava ser um sentimento. Conforme eu pensava no assunto, começou a se formar um padrão: como o rio que sempre deságua no mar, as ideias se direcionavam a realidades paralelas, inexistentes. A mentira é a alvenaria do mundo paralelo, da auto-ilusão em que muitos de nós nos colocamos, admitindo ou não, e, em alguns casos, mentiras se solidificam para alterar o comportamento de uma sociedade por séculos.

Por isso, o penúltimo episódio da terceira temporada do Tecnocracia vai falar da mentira. A gente vai pensar alto para tentar entender o papel da mentira nas nossas vidas e como essa vida mediada por algoritmos ajuda a nos levar às realidades paralelas com a ajuda fundamental da mentira. O Tecnocracia mistura estudos acadêmicos, ensaios filosóficos, citações à Luciana Gimenez e piadinhas medonhas para ajudar a explicar os efeitos nem sempre positivos da popularização de tecnologia nas nossas vidas. A cada quinze dias (se eu não complementasse com “às vezes um pouco mais, às vezes bem mais”, essa frase seria uma mentira…), um episódio novo é publicado no Manual do Usuário. Eu sou o Guilherme Felitti e você já sabe: o Tecnocracia está na campanha de financiamento coletivo do Manual. A partir de R$ 16 mensais, você ouve episódios do Tecnocracia ao vivo uma vez por mês e entra no grupo do Telegram para falar com uma galera interessada em mais lados da tecnologia do que só o smartphone novo.

Você já mentiu? Se você disse que não, então, parabéns, você acabou de fazê-lo — e de criar um paradoxo. Se assumir está difícil, deixa eu te descrever alguns cenários muito comuns: você já falou algo que não condizia com a realidade ao atrasar para o trabalho ou encontro social? Você já cancelou a ida para alguma festa contando uma história que não refletia a vida real? Você já disse que um prato intragável estava ótimo para não decepcionar alguém querido? Então, bonito e bonita, você já mentiu. Não precisa se sentir exclusivo/a: certamente a maioria esmagadora da humanidade responderia sim a alguns desses eventos hipotéticos — suspeito eu que até profissões ligadas à pureza que a religião exige tropeçaram em algumas dessas pedras. Mentimos na tentativa de pintar um cenário que justificaria ou daria um caráter positivo à tal ação. Por exemplo, atrasar por causa do trânsito é a tentativa de terceirizar a responsabilidade própria (acordar mais cedo e se planejar) para algo do qual não temos controle (o trânsito). Nesses casos, cria-se um relato irreal. Mas é bom esclarecer que nem sempre mentiras envolvem relatos irreais. É possível se engajar em comportamentos que enganam apenas com verdades1. Dos livros que li este ano para fazer o Tecnocracia, o que mais me surpreendeu foi um livrinho curto escrito pelo filósofo e neurocientista Sam Harris sobre o ato de mentir. Chama-se — adequadamente — Lying e não tem edição no Brasil. Se inglês não é um problema para você, o livro está disponível na íntegra no Internet Archive. A gente acha que a experiência de vida nos ensinou o suficiente sobre a mentira, principalmente a parte prática: quando X está tentando te enrolar ou Y está claramente mentindo. Mas há alguns pontos muito interessantes na teoria da mentira.

“A fronteira entre mentir e enganar é, com frequência, vaga. Na verdade, é até possível
enganar com a verdade. Eu poderia, por exemplo, estar na calçada em frente à Casa Branca e ligar para a sede do Facebook no meu celular: ‘olá, aqui é Sam Harris. Estou ligando da Casa Branca e gostaria de falar com Mark Zuckerberg.’ De certa maneira, minhas palavras seriam verdadeiras, mas a declaração foi lapidada para enganar. Eu estaria mentindo? Quase isso. Mentir é enganar intencionalmente os outros quando eles esperam uma comunicação honesta.”

Em outras palavras: se você vai a um show de mágica ou vai jogar poker com seus amigos, pode-se assumir que ninguém ali está interessado em exibir ou consumir a realidade 100% verdadeira. A ilusão é parte do espetáculo, do divertimento. Volta o Harris: “As pessoas mentem para que outros formem crenças que não são verdadeiras. Quanto mais consequentes as crenças, isto é, quanto mais o bem-estar de uma pessoa depende de uma compreensão correta do mundo, maior é a consequência da mentira.”

No livro, Harris também destrincha os diferentes tipos de mentiras. Se você acha que essa escala oferece uma espécie de “carta branca” para praticar as mentirinhas inofensivas, saiba que o livro te pega pelas tripas e te leva para o sentido contrário: não existe mentira inofensiva, argumenta o Harris. Toda mentira tem consequências. Lógico, um presidente da República mentir que vacina pode provocar AIDS durante a pior pandemia do século é muito mais grave e tem consequências sociais muito mais nefastas do que mandar um WhatsApp para seu chefe falando que a marginal está parada enquanto se omite que a preguiça foi maior que a vontade ao acordar. É bem provável que esse mesmo chefe já tenha feito o mesmo durante sua carreira antes de ter virado chefe. O que o Harris argumenta é que mesmo essas “mentiras esportivas” têm um efeito, se não na sociedade, em você mesmo.

Abre aspas para o Harris em entrevista a respeito do livro à rádio norte-americana WBUR (a NPR em Boston): “Quando você está mentindo, está constantemente jogando este jogo em que precisa acompanhar o que disse e este cenário é a antítese da integridade, da abertura e da autenticidade. Quando você finge ser alguém que não é, está pagando um preço, mesmo que não seja óbvio para você. Quando você se entrega para a mentira, nega a si mesmo os tipos de choques com a realidade necessários para melhorar sua vida. Um compromisso com a honestidade é um tipo de espelho no qual você mesmo levanta para se enxergar e onde você pode descobrir quem você é em relação aos outros e em relação à experiência momento a momento (que temos na vida)”.

Trair e coçar, é só começar, diria o título da peça de enorme sucesso do Marcos Caruso. Quando alguém se acostuma a mentir, para de inventar histórias só para os outros e começa a mentir para si mesmo — e, pior, a acreditar nessas mentiras. Quando você começa a mentir sobre o mundo ao seu redor para justificar suas ideologias e crenças, você tira o pé do chão e passa a viver em uma realidade paralela. As mentiras sustentam as tensões entre as bolhas nas quais vivemos e o mundo real fora delas. É o escudo contra os fatos, muitas vezes incômodos, da realidade.

Eu não sei se você já teve a experiência de lidar com um(a) mitômano(a)2. Eu já. É difícil. A pessoa entende que pode usar apenas do verbo para se tirar de posições desconfortáveis, como a responsabilização por um erro ou uma escolha errada, mesmo antiga. Mas, tal qual fala o Harris, acompanhar o que foi dito e manter a história inventada na cabeça se torna cada vez mais complicado até o momento em que se torna impossível rastrear o que foi dito e quando. A partir de certo momento, mente-se sobre a própria mentira. Tal qual a fábula do Pedro e lobo, a mentira entra no lugar da credibilidade. Quando se escangalha essa comunicação verbal, o único jeito de ter certeza sobre sentimentos ou posições é adotar um procedimento cansativo que a Luciana Gimenez chamaria de cross-checking (bjs, Lu) em que você tem que apurar com terceiros o quanto aquilo é verdade e o que está sendo omitido. É exaustivo. Porque, bonitinho e bonitinha, ninguém é tonto. O(A) mitômano(a) pode achar que está enganando todo mundo, mas depois de um tempo, após ouvir três vezes a mesma história com posições diferentes, todo mundo se liga. E, tal qual já falamos no episódio da raiva, mergulhar na mentira também acaba isolando quem vive em uma realidade paralela. A sociedade só consegue coordenar milhões de desconhecidos vivendo em relativa harmonia quando há uma mínima credibilidade inata — eu vou sair na rua, pedir informação a alguém que nunca vi na vida e existe uma maior chance de a pessoa me passar a informação correta ou, se não, a incorreta de modo não intencional. Lógico, existem os espíritos de porco, mas confiamos que esses sejam minoria. Quem ganha o carimbo de mitômano(a) dificilmente o perde.

Agora é a hora em que o(a) ouvinte mais esperto(a) olha para o relógio e reclama: “Guilherme, XX minutos de episódio de um podcast de tecnologia, quando começa a falar sobre tecnologia?” Sempre bom lembrar: o Tecnocracia não é um podcast de tecnologia, mas dos efeitos nefastos nem sempre falados da tecnologia nas nossas vidas. E, relaxa, bonito(a): é agora. Quer dizer, agora a gente introduz um conceito para falar de tecnologia um pouco mais para frente. A esta altura, a gente precisa definir o que é essa palavra curta de quatro letras que parece ter perdido relevância nos últimos anos: “fato”.

Abre aspas para uma reportagem excelente (outra) da Jill Lepore (que já apareceu aqui no episódio da solidão) para falar como a humanidade mudou seu foco do poder divino para um registro de um acontecimento: “Um ‘fato’ é, etimologicamente, um ato ou uma ação. Ele passou a significar algo estabelecido como verdadeiro somente depois que a Igreja aboliu efetivamente o julgamento por ordálio3 em 1215, ano em que o rei João prometeu, na Carta Magna, que ‘nenhum homem livre deve ser preso ou encarcerado […] salvo pelo julgamento legítimo de seus pares ou pela lei do país’. Na Inglaterra, a abolição do julgamento por ordálio levou à adoção de julgamento por júri para casos criminais. Isso exigiu uma nova doutrina de evidências e um novo método de investigação, e levou ao que a historiadora Barbara Shapiro chamou de ‘a cultura do fato’: a ideia de que um ato ou coisa observada ou testemunhada — a substância, a matéria, o fato — é a base da verdade e o único tipo de evidência que é admissível não apenas no tribunal, mas também em outras esferas onde a verdade é arbitrada. Entre os séculos XIII e XIX, o fato se espalhou do direito para a ciência, história e jornalismo.” Desde então, o fato virou rei na hora de comprovar a culpa de alguém. Antes dele, os regentes, sejam eles imperadores ou reis, clamavam a si a justiça divina imbuídos daquela imagem de enviados por Deus à Terra.

Gravura em preto e branco de pessoas em uma floresta, ao longe, uma delas deitada (presumivelmente envenenada).
Um julgamento por ordálio em Madagascar, no século XIX.

As plataformas por onde concentramos nossas comunicações nas últimas décadas, como já dito aqui inúmeras vezes, ajudam a nos prender em câmaras de eco: o algoritmo entende que você gosta de conteúdo sobre picanha invertida e sobre lucha libre boliviana e vai não apenas te trazer mais conteúdo sobre aquilo como também sugerir grupos ou outros usuários que compartilham do mesmo interesse. Isso vale para todo tipo de assunto, mas é inegável que teve uma editoria que, nos últimos anos, se envolveu em problemas sérios decorrentes dessas realidades paralelas: a política.

Antes dos algoritmos nos encarcerarem em bolhas nos alimentando apenas conteúdo com o qual concordamos, a mídia centralizada fornecia um condutor único do qual todos nós partilhávamos. Fatos que nos incomodavam ou duvidavam nossas crenças eram tidos como verdade — nem sempre essa centralização de versões produzia bons resultados para a sociedade, mas, de maneira geral, mantinha-se uma linha condutora sobre o que era real e o que era delírio. Ao assumir a comunicação e dar um confortável ninho que te retroalimenta com mais do que você acredita, independente se é comprovado ou teoria da conspiração, as redes sociais acabaram equiparando fato e delírio. Ajuda muito nessa ação o papel omisso que as plataformas têm na proliferação de conteúdo mentiroso e a discussão é delicada — temos que tomar o cuidado de não dar o poder às plataformas de definir o que é verdade e o que é mentira. Na edição do episódio, o Ghedin fez uma ponderação excelente que achei valer a pena trazer para cá: “Acho que o caminho é condicionar a remoção de mentiras a escaladas perigosas. O lance da COVID-19 é um bom exemplo: desinformação que coloca em risco a saúde das pessoas é vetada. E, reforçando a complexidade da questão, mesmo neste assunto uma postura muito rígida pode ter consequências indesejadas. No início da pandemia, dizer que máscaras eram úteis na prevenção da doença ia contra o que a OMS dizia. Naquele momento, era mentira. Depois deixou de sê-lo”.

O ponto aqui é que existe uma área longe dessa zona cinzenta argumentativa: a Terra é redonda, vacinas funcionam e preconceito racial ou religioso são crimes. De um lado, todas as grandes plataformas têm regras boas para evitar conteúdo criminoso (é preciso melhorar as que vetam conteúdo golpista), mas a execução é insuficiente, feita sempre a reboque. Do outro, o próprio modelo de negócios baseado em publicidade impulsiona conteúdos mentirosos – a popularização de organizações por trás de discursos preconceituosos e conteúdo anticiência dentro do Facebook foi feita pelo próprio Facebook recomendando grupos antivaxx, de Terra Plana e de supremacia branca a seus usuários.

Sem um bastião comum no qual todos concordávamos antes da pulverização da comunicação em bolhas, não existe mais o constrangimento, a consequência que enfrentamos a vida toda por mentir. Abre aspas para o livro In praise of reason: Why rationality matters for democracy (sem edição no Brasil), do filósofo Michael Lynch, citado na excelente reportagem da Lepore na New Yorker: “Sem um um pano de fundo comum de padrões contra os quais medimos o que conta como uma fonte confiável de informação, ou um método confiável de investigação, e o que não é fonte confiável, não seremos capazes de concordar sobre os fatos, muito menos os valores. Na verdade, esta é precisamente a situação para a qual parecemos estar caminhando nos Estados Unidos”. Não só nos EUA. No mundo todo.

Não parece aleatório que, na última década, presenciamos a ascensão de governos autoritários que atacam diretamente o fato. Todo político mente, mas nenhum usa a mentira como um pilar do projeto de poder como os autocratas digitais da última década. A expressão “fake news” passa a figurar no léxico a partir do momento em que Donald Trump ganha a preferência dos Republicanos nas eleições de 2016. Em um país com economia prestes a estagnar, inflação galopante e milhões de volta ao mapa da fome, Jair Bolsonaro escolheu se pronunciar de forma assertiva contra um projeto de lei (PL) em discussão no Congresso que tinha o objetivo de punir a divulgação de mentiras com objetivos políticos. É possível discutir como o PL enquadra o que é mentira e estudiosos do tema já acenderam o sinal de alerta, mas o ponto aqui é a prioridade de Bolsonaro: tipificar punições pela divulgação de mentiras merece uma manifestação contundente, enquanto brasileiros se estapeando por ossos ou por lixo para vencer a fome não.

Não parece aleatório também que todos esses autocratas digitais embaralhem o discurso político com o religioso. O ataque ao fato não está apenas nas críticas e ameaças contra veículos e jornalistas, mas também na retomada do conceito de ordália, da punição de Deus usando o governante apenas como veículo. O objetivo aqui parece tomarmos caminho de volta a uma sociedade pré-Magna Carta em que não existe pacto civilizatório, a frieza da lei, só a vontade suprema do governante supostamente escolhido por Deus. Demos meia volta.

Em termos práticos, esse uso da mentira como estratégia política enfraquece o fato. Existem tantas e sobre tantos assuntos que distinguir o que é delírio do que é acontecimento exige um gasto de energia enorme. Mergulhados nesse nevoeiro, fica mais fácil borrar a linha que separa mentira e verdade. Quem melhor definiu essa situação, de forma até premonitória, foi a escritora Hannah Arendt em uma série de entrevistas para o escritor francês Roger Errera em 1974: “Se todos mentem para você sempre, a consequência não é que você acredita nas mentiras, mas que ninguém mais acredita em nada. Isso ocorre porque as mentiras, por sua própria natureza, precisam ser alteradas, e um governo mentiroso precisa constantemente reescrever sua própria história. No final das contas, você recebe não apenas uma mentira — uma mentira que poderia seguir pelo resto de seus dias —, mas sim um grande número de mentiras, dependendo de como o vento político sopra. E um povo que não consegue mais acreditar em nada não consegue se decidir. Ele se priva não só de sua capacidade de agir, mas também de sua capacidade de pensar e julgar. E com essas pessoas você pode fazer o que quiser.”

Que ela tenha cravado o que estamos vivendo hoje, quase meio século depois, é daquelas que deixam qualquer um boquiaberto.

Pessoas brancas de terno, incluindo uma mulher, sentadas à mesa, com um deles de pé, todas olhando à direita.
Foto: Warner Bros./Divulgação.

Se a explicação da Arendt foi muito complicada, usemos um produto cultural mais recente para facilitar: Chernobyl, a série da HBO já citada ali em cima. À primeira vista, ela parece ter como pano de fundo a energia atômica. Afinal, trata do maior desastre nuclear da história — físicos calculam que a queima de combustível nuclear desengatilhada pelo desastre continuará a se consumir por mais de 20 mil anos. Estima-se que demorará cerca de 3 mil anos até que a cidade de Pripyat, na Ucrânia, onde está a usina, se torne habitável outra vez. Não restará nem um pózinho de nós na Terra e aquela porra continuará queimando. Mas o ponto principal da série não é a energia nuclear. Ela é só o pano de fundo para o festival de mentiras orquestradas pelos envolvidos e pelo governo russo para tentar acobertar o tamanho da tragédia que suas incompetências provocaram.

O melhor episódio é o final, no julgamento dos envolvidos. Claro, a série abusa da licença poética para introduzir um naco de ficção para tornar a série um melhor entretenimento (a New Yorker lembra que um julgamento do tipo jamais teria acontecido em uma União Soviética envolvida até o pescoço na Guerra Fria). Quem conduz a acusação no julgamento é o protagonista da série, o cientista soviético Valery Legasov. No fim da sua apresentação, Legasov profere a frase que mastiga o que a Arendt falou há 47 anos dos efeitos do excesso de mentiras: “Quando a verdade ofende, nós mentimos e mentimos até esquecermos que ela existe. Mas ela ainda está lá. Toda mentira que nós contamos incorre em um débito da verdade. Mais cedo ou mais tarde, esse débito é pago.”

Mentiras têm consequências.

A facilidade com que a comunicação mediada por algoritmos nos coloca em realidades paralelas, nos mantendo saciados de delírio, significa que a mentira coopta mais gente e se prolonga por mais tempo. Qual o resultado final disto? Essas mentiras sobrevivem séculos após seu “objetivo” original – vide a mistura de manga com leite que enganou milhões de brasileiros séculos após sua criação. Não é coincidência que figuras com um desprezo radical pela verdade tenham escalado para o topo do poder em grandes democracias. Claro, não é a única razão, estamos falando de uma sopa cheia de ingredientes. Mas a facilidade de espalhar mentiras, das mais fantasiosas, para enganar cidadãos é um dos ingredientes fundamentais. Os delírios ouvidos nos últimos anos sobreviverão. Dentro da metáfora de Legasov, o débito agora está astronômico e inevitavelmente todos nós teremos que pagar, ainda que o delírio não seja nosso.

Por fim, eu queria abordar uma questão mais prática sobre a mentira: como lidar como mitômanos? Comecemos pelos outros. Primeiro ponto: em termos políticos, não há caminho para recuperar a sanidade social que não passe pelo destronamento da mentira como política de Estado. O caminho é a urna e, em 2022, meu conselho (se já não está claro o suficiente) é escolher qualquer pessoa que tenha o mínimo apreço pelo fato. O mínimo. Buscar quem não minta (não apenas na política) é impossível, mas a sociedade pode medir a escala das mentiras.

Segundo ponto: você talvez tenha algum parente ou pessoa próxima que é mitômano. Como lidar? A partir da minha experiência, é ilusório achar que, de uma hora para a outra, as mentiras vão parar. Mentir funciona como uma droga: é muito fácil, principalmente se não existe responsabilização após. É comum que, ao envelhecer, a gente ache que não deve satisfação e pode acreditar e falar o que quiser. Então é preciso paciência e um espaço de afastamento. Seguir a confiar 100% no outro é o caminho para você se machucar. É preciso também entender a razão: mente-se por N motivos, de acobertar um erro a não querer assumir ou falar sobre uma situação difícil da vida. No meu caso, ajudou eu sentar para conversar e deixar claro que a relação estava se deteriorando e que eu sentia que, nesse volume de mentiras, eu não poderia mais confiar na pessoa, algo que me machucava. Tente conversar: não resolve 100%, mas atenua.

O terceiro ponto é sobre a única questão que a gente controla nessa bagaça inteira: nós mesmos. Você sabe quando mente explicitamente: quando um contatinho te convida para um catraco e você diz que não está se sentindo bem, mas a verdade é que você já tem outro contatinho engatilhado. Ou quando você mente para não desagradar alguém que você gosta.

O que mais me preocupa na relação entre nós e a mentira são aquelas que a gente não sabe estar contando. Todos vivemos com um certo grau de ilusão — a mente volta automaticamente para um ponto que não reflete necessariamente a realidade. São muitas razões para isso — Freud vai dizer que traumas infantis são a ponta do novelo. Todo dia a gente luta contra esse “ponto morto” da nossa percepção para que não reajamos a uma ilusão que só existe na nossa cabeça. A ilusão também é uma mentira, mas com o objetivo de aplacar uma falta. Talvez a gente não consiga aplacá-la totalmente, mas para se viver uma vida mais próxima da realidade admitir que ela está lá é o primeiro passo para não ficar tropeçando nela. É duro, as consequências não são agradáveis, você vai ter a realidade nem sempre positiva esfregada na sua cara com frequência. Mas ainda é melhor do que viver no mundo da ilusão, preso em uma realidade que só você vê.

Foto do topo: Anita Jankovic/Unsplash.

  1. Se você tem mais de 30 anos, deve ter se lembrado da clássica campanha da Folha de S.Paulo para TV com o mote “É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade”.
  2. O Houaiss define mitomania como “a tendência a narrar extraordinárias aventuras imaginárias como sendo verdadeiras” ou “hábito de mentir ou fantasiar desenfreadamente”. Quem mergulha na mitomania é mitômano (proparoxítona) ou mitomaníaco.
  3. Ordália significa “juízo de Deus” em latim.

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1 comentário

  1. As vezes acho que a mentira nasce do fato que nós, como seres conscientes, ainda buscamos uma validação das perguntas “de onde viermos” e “para onde vamos”, pois desde quando provavelmente nós humanos e conscientes começamos a criar nossos conceitos, vivemos nos perguntando a origem deste vasto e infinito (?) universo.

    Deus é umas das definições que hoje é difícil mensurar como mentira ou verdade. Yavé, o criador deste universo (isso dependendo da mitologia), se existe, não conseguimos saber exatamente detalhes sobre. E nisso entramos em um estado híbrido (tal como o Gato de Schrödinger): descobrir sobre a existência de (um) Deus nos levaria a se perguntar se ele existe como ser físico como nós humanos, ou se é em um estágio talvez até inatingível por nós, em alguma forma ainda desconhecida. E se descobri-lo, talvez nós (ou ele) estaremos mortos.

    Fugir da mentira tem um ponto também – a mentira também é usada para se defender de abusos de autoritários, tal como os autoritários abusam da mentira para abusar de a quem eles tentam controlar – povos, funcionários, etc… Nisso, tem uma questão social: o aceite da população em se manter sob o julgo de autoritários.

    De qualquer forma, o ideal seria nunca mentir. Mas nunca mentir talvez seria um problema. Pois mentir também funciona como uma mola social.

    Eu estaria mentindo se eu falasse que não queria matar algumas pessoas.

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