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A raiva constante que sentimos na internet nos torna humanos piores

Close em um boneco do Hulk com a expressão fechada.

Na primeira onda de personagens da Marvel, lá na década de 1960, um dos favoritos do público que já consumia história em quadrinhos era um herói longe daquele ideal de Apolo que Superman e Capitão América carregam até hoje. O Coisa, do Quarteto Fantástico, exercia um certo fascínio por mostrar um sujeito que, transformado num amontoado de pedras à revelia, tinha que lidar com os lados bons — a força e a invulnerabilidade — e os nem tanto — basicamente você parece um muro com pernas.

Com isso na cabeça, Stan Lee e Jack Kirby, as mentes criativas da Marvel na época, se colocaram a pensar em um novo herói. De um lado, havia o racional. “Por um longo tempo eu percebi que as pessoas preferem alguém que não seja perfeito. É uma aposta segura que você lembra do Quasimodo, mas você consegue nomear personagens mais heróicos, bonitos e glamurosos de O Corcunda de Notre-Dame? E também tem o Frankenstein. Sempre tive um ponto fraco pelo monstro de Frankenstein. Ninguém vai me convencer que ele era o vilão. Ele nunca quis machucar ninguém. Ele simplesmente forçou seu caminho em uma segunda vida tentando se defender e neutralizar quem tentava destruí-lo. Decidi que também poderia pegar algo emprestado também do Dr. Jekyll e Mr. Hyde — nosso protagonista iria se transformar constantemente da sua identidade normal para seu alter ego super-humano”, segundo o Stan Lee.

Essa é a parte teórica. A inspiração prática para a criação veio quando Kirby, o outro criador, estava andando pela rua e viu uma mulher desesperada ao ver seu filho preso debaixo de um carro. Fora de controle, a mãe tentou, de qualquer jeito, levantar o carro para salvar o filho. “Essa mulher, totalmente desesperada, levantou a parte de trás do carro. De repente ficou óbvio para mim que, no desespero, todos nós poderíamos fazer aquilo — podemos derrubar paredes, perder o controle, o que fazemos. Você sabe o que acontece quando sente muita raiva — você pode destruir sua casa. Eu criei um personagem que podia fazer tudo aquilo e o chamei de Hulk”, segundo uma entrevista feita com o Kirby em 1990, quatro anos antes da sua morte, pela Comic Journal.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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No cânone dos heróis mainstream, não existe um que melhor reflita o ser humano que o Hulk: um sujeito esquálido que, ao perder o controle, vira uma besta gigantesca que sai quebrando tudo que encontra pela frente. O primeiro filme do Hulk explorava um pouco esse conceito, mas acabou lírico demais e porradaria de menos e foi considerado um fracasso comercial. Claro, você pode argumentar que, debaixo do storytelling todo, outros heróis também exploravam questões cruciais da experiência humana — o homem fora do seu tempo no Capitão América, o adolescente aprendendo o peso e os prazeres da responsabilidade do Homem-Aranha ou a síndrome de, após perder os pais, se tornar uma espécie de figura paternalista para toda a cidade com o Batman. Mas o Hulk é o mais humano. Todo mundo já teve a experiência de ser consumido por uma raiva tão grande a ponto de perder os sentidos e ter vontade de sair por aí quebrando tudo — metafórica ou literalmente. Mais que isso: alguns desses heróis criados nas décadas de 1950 e 1960 não envelheceram tão bem. O Hulk não. Ele é a síntese perfeita da vida que a gente vive hoje. O Hulk é um zeitgeist da nossa experiência atual com a internet.

Nos Tecnocracias mais recentes eu tive que parar uns momentos para demonstrar minha incredulidade em falar algumas frases, o que corrobora uma teoria que já falei em outros episódios: o modelo atual da internet, com grandes empresas lucrando com anúncios a partir das nossas interações e sem qualquer regulamentação, serve, em grande parte, para a gente passar raiva. E quando eu uso a primeira pessoa do plural estou abarcando a maioria dos “internautas”, esse termo tão jornal da hora do almoço no começo dos anos 2000. É bom deixar claro que é possível encontrar online conteúdos antigos muito interessantes, como a entrevista do Kirby, fazer parte de uma comunidade pequena cheia de aficionados em um assunto que você também ama ou encontrar doadores de órgãos, namorados, namoradas, amigos e amigas, parentes perdidos e por aí vai. Mas para cada um desses episódios edificantes e duradouros existem centenas de outros episódios menores e mais destrutivos de raiva, quase sempre nos ambientes de empresas que valem centenas de bilhões de dólares e usam o seu conteúdo e o seu tempo para alcançar lucros polpudos.

Pois bem. Nesta quinzena, a gente não vai falar de uma empresa, de um empreendedor, de uma tendência, de uma tecnologia. A gente vai falar de um sentimento. O Tecnocracia de hoje é sobre essa sensação que nos acompanha diariamente quando nos conectamos: a raiva. Vamos pensar alto para tentar não passar tanta raiva.

Façamos um exercício prático: pare para lembrar quando foi a última vez que você sentiu raiva na internet. Qual foi o motivo? Quem te irritou? Era uma notícia de política? Ou alguma babaquice que alguém desprovido de intelecto (uma maneira mais bonita de descrever um imbecil) fez? Ou você ficou bravo(a) consigo mesmo(a) porque foi stalkear alguém e descobriu algo que te fez mal? Lembrou?

Ok. Agora qual foi a penúltima vez em que você ficou puto(a) na internet? Mesma coisa: motivo, razão, duração, como você reagiu? Pronto. De novo: qual foi a antepenúltima vez que você ficou maluco(a) de raiva na internet? É bem provável que você lembre da mais recente — comigo, por exemplo, foi com as queimadas do Pantanal e a reação propositadamente incompetente do Ministério do Meio Ambiente. Mas não lembro direito quais foram as anteriores. Foram muitas. Ainda que você não acompanhe o noticiário político, existem outras tantas razões para você se sentir furioso(a) diariamente: um imbecil que quebrou uma sorveteria quando pediram que ele usasse uma máscara, um criminoso que raptou uma criança e a estuprou e uma mulher branca que, crente na impunidade, foi racista contra um pai e uma criança.

O ponto principal do meu argumento é que as redes sociais, o Twitter principalmente, viraram uma máquina em que você entra tranquilo e sai horas depois espumando após ser exposto(a) a dezenas de conteúdos e perfis, reais ou fictícios, que te deixam nesse estado de excitação, adrenalina e agressividade que caracteriza a raiva.

Vamos deixar claro já de começo: não existe vida livre de raiva. A raiva é um sentimento comum da experiência não apenas humana — animais também sentem raiva. A raiva, inclusive, é uma sensação que facilita a sobrevivência. Em termos primitivos, a raiva se manifesta quando temos a impressão de que fomos provocados e machucados ou estamos ameaçados. Há quem argumente (ou seja, não existe um consenso) que a raiva é parte fundamental da reação de lutar ou fugir, aquilo que sentimos quando nos vemos diante de uma ameaça. De novo, mais que humano, é uma sensação animal: com o perigo adiante, o corpo se prepara para cair na porrada ou fugir pela própria vida. A raiva está na sopa de emoções cujo objetivo principal é aumentar as chances de você sobreviver e, consequentemente, seus genes serem passados adiante, se perpetuando. É a razão primordial pela qual estamos nessa vida, não? Crescei e multiplicai-vos1. Óbvio que, entre o Homo sapiens caminhando pelas savanas atrás de alimento e o Homo Sapiens sentado em sua confortável cadeira rolando uma tela infinita de vídeos e fotos há uma diferença brutal no nível da ameaça. Ninguém espera que um tigre dentes de sabres apareça da grama alta, crave os caninos no seu filho e saia carregando aquele corpinho indefeso até sua toca para dá-lo aos filhotes famintos. Ainda assim, esse Homo sapiens lavando a louça enquanto ouve podcast ou se dobrando de rir de ver as pessoas jogando Fall Guys no YouTube periga estar num nível de raiva idêntico ao Homo sapiens tenso por não ver o tigre à espreita. Por quê?

Antes de tudo, tiremos um elefante da sala: “é difícil cientificamente mensurar se estamos mais furiosos ou se estamos simplesmente explodindo mais em público. A versão mais recente da pesquisa Gallup Global Emotions Report ouviu mais de 151 mil pessoas em 140 países. Desde seu início, em 2016, a pesquisa descobriu que o número de respondentes que se sente furioso(a) cresceu, com a média global hoje em 22%. Regiões destroçadas pela guerra registram o dobro disso, com 43% das pessoas na Palestina e 44% no Iraque se sentindo muito bravos/as”, segundo a Science Focus, publicação de ciência da BBC. Ou seja: há um aumento comprovado na sensação generalizada de raiva — das pessoas, pelo menos. O que a gente ainda não sabe são os ingredientes desta sopa e qual a dose de cada um deles.

Um dos possíveis ingredientes desta sopa (provavelmente a batata, usada como base para dezenas de sopas diferentes2) é que a raiva é o combustível que alimenta o modelo de negócios das redes sociais, onde passamos horas e horas dos nossos dias. Você, ouvinte do Tecnocracia, sabe bem: redes sociais e serviços interativos fazem dinheiro mostrando anúncios publicitários, uma forma de monetização criada há pouco mais de um século por jornais muito baratos em Nova York. As maiores dessas empresas também têm capital aberto, o que significa que precisam, a cada trimestre, divulgar crescimentos polpudos em receita e, principalmente, no lucro para deixar seus acionistas felizes e, consequentemente, seus fundadores/as e diretores/as ainda mais ricos. Para atingirem esse objetivo, tentam manter o sujeito o maior número de horas possível em suas propriedades e, enquanto ele ou ela está lá, espreme a maior quantidade de anúncios até o limite do tolerável.

Aqui vem um detalhe fundamental: sentimentos como felicidade e satisfação não são bons condutores desses usuários para o seu serviço. É preciso de algo que fará aquela pessoa voltar constantemente para que possa ver ainda mais anúncios e os cofres da empresa se encham ainda mais. Não há nada mais fidelizador que a raiva. Não há laço mais definitivo que a raiva. Qual é o contrário da raiva? Engana-se se você acha que é alegria, serenidade. É a apatia, a incapacidade de reagir a algo. Um usuário apático não posta, não responde, não engaja. A raiva nos torna mais engajantes, para usar um termo popular hoje em dia.

É como o clássico quadrinho do xkcd: “there’s someone wrong in the internet”3 e nosso primeiro impulso é gastar energia para tentar “consertar” aquele erro, ainda que seja só a resposta a um comentário. Nasceu aí a cultura troll que permeia tantos cenários da nossa vida hoje, o político inclusive. A raiva é a alvenaria dessa casa. Uma pesquisa da Universidade de Nova York liderada pelo professor Jay Van Bel — que já passou pelo Tecnocracia — mostra que o uso de adjetivos mais fortes é suficiente para aumentar o engajamento em suas mensagens. Num sistema pavloviano, a gente entende que meio-termo não agrada tanto nosso público e, primitivamente, vamos aumentando a fervura, salpicando um adjetivo aqui, um vocativo ali até que o tom se torne mais agressivo. Interagir sem raiva com desconhecidos que pensam diferente de você na internet é um trabalho muito difícil, mas o impulso de tentar está lá.

Alguém está errado na Internet.
— Você está vindo dormir?
— Não posso. Isto é importante.
— O quê?
— Alguém está errado na Internet. Imagem: xkcd/reprodução.

Não à toa, você tem hoje presidentes em países como EUA e Brasil que são extremamente “galvanizantes”. Donald Trump e Jair Bolsonaro sabem a revolta que suscitam em quem discorda deles e usam isso a seu favor. A raiva mantém os correligionários engajados, mesmo que seja por conteúdo explicitamente fantasioso, e permite “direcionar” os eleitores contra para longe de um assunto desagradável. Quantas vezes Jair Bolsonaro e Donald Trump não publicaram ou disseram coisas revoltantes que fizeram com que a discussão pública mudasse o foco para aquela nova barbaridade? Quantas vezes, no Brasil, Bolsonaro e seus filhos usaram a raiva dos que são contrários a eles para mudar um assunto e centralizar a discussão nas redes de oposição para algo revoltante, porém inócuo do ponto de vista político? Na era da atenção, quem consegue pautar as discussões em torno de si mesmo, ainda que por razões que tradicionalmente não seriam bem vistas, ganha o jogo. Eu não acredito que vou falar isso, mas quem melhor mostrou o caminho há mais de dez anos foi Alexandre Frota, que se reinventou e ganhou uma projeção inédita quando virou estrela de reality shows e ator pornô. Foi a partir dali que ele ganhou uma atenção que nunca tinha tido na vida. Não à toa, ele virou uma figura política depois de 2013 e hoje é deputado federal. O que a gente vê em política hoje é manual Alexandre Frota de concentração de atenção. A cortina de fumaça só funciona porque se apoia na raiva dos discordantes.

A raiva te seca: Os efeitos no corpo humano da exposição a tanta raiva

“Ah, Guilherme, eu vou me alienar, então?” Não, bonitinho. O problema não é ler o noticiário, é não deixar ele desengatilhar um processo que vai te comendo por dentro. O psicoterapeuta e escritor Aaron Balick faz uma boa comparação: “esse estreitamento das nossas margens de tolerância acontece quando você está dirigindo. ‘Você está em um estado de médio ou alto estresse, então se alguém te cortar, é mais provável que você grite pela janela. Se você estiver em um estado relativamente mais calmo e o mesmo estímulo acontecer, você tem uma margem para não deixar que isso te afete. Pessoas que são expostas a posts raivosos nas mídias sociais tendem a ter uma margem menor para conter sua própria raiva’”. Mergulhados/as até o último fio de cabelo na virulência, a margem de tolerância cai e passamos a sentir as consequências — todas negativas — que essa raiva constante nos traz.

Existem alguns lados: o primeiro é como a vida fica sem graça e cansativa pela raiva. A raiva funciona como um trator que terraplana todo o ambiente — transforma os morros, as árvores, os arbustos, os relevos geográficos na mesma planície contínua, empoeirada, sem graça. Você perde gradualmente a capacidade de ver os detalhes, as filigranas que tornam a vida interessante. Tudo é brutal, urgente, revoltante. Sem essas filigranas, esses tons de cinza, você passa a ter muitas certezas, poucas dúvidas e isso é perigoso. Sua visão começa a se aproximar daquele preto no branco enganador — um dos lemas do Tecnocracia é que são poucas as coisas preto no branco na vida, nazismo sendo uma delas.

O outro lado é mais sério — são as consequências psicológicas. Ao ser exposto por tanto tempo e continuamente a tanta raiva, a nossa cabeça começa a entender que aquilo, para usar uma frase famigerada, é o “novo normal”. Se você se acostuma com aquilo e, de uma hora para outra, não tem mais aquilo, você vai atrás de mais daquilo. A raiva funciona como uma droga. Em termos psicológicos, a partir de um certo momento cria-se um mecanismo interno em que se goza pela raiva, uma espécie de “prazer no desprazer” articulado pelo psicanalista francês Jacques Lacan. Cria-se um círculo vicioso do qual é cada vez mais difícil sair. Romper esse gozo por meio da raiva é muito mais trabalhoso porque ainda que você tenha se afastado da fonte da raiva, sua própria cabeça vai começar a jogar razões para você se emputecer — quem nunca, de uma hora para outra, lembrou de alguma briga ou discussão de anos atrás do nada?

Jacques Lacan, em preto e branco, encara a câmera.
Foto: Seminários de Lacan/YouTube.

Viver em raiva constante também quebra a régua com a qual medimos a motivação alheia e a intensidade da resposta. Com a raiva constante, periga-se desenvolver uma síndrome de perseguição que, em sua expressão mais severa, faz com que qualquer ação alheia que lhe prejudique seja entendida como um complô da sociedade contra você. Claro, existem ações e pessoas sacanas, mas muitos dos casos são problemas de comunicação, incluindo incompetência comunicativa. O que nos leva à distorção na hora da resposta. Se todo mundo está contra você, então toda resposta tem que ser definitiva, violenta. A raiva constante alimenta uma agressividade que, em muitos casos, não condiz com o que está acontecendo. Algumas ações alheias, sim, exigem respostas, mas entenda que entre uma conversa assertiva e a fúria de 2 milhões de elefantes selvagens existe uma escala enorme. É essa régua que quebra quando estamos mergulhados na raiva. Em outras palavras: quando nos tornamos reféns da raiva, periga vermos uma realidade irreal (com o perdão da contradição), um mundo que só existe dentro da nossa cabeça.

Há consequências fisiológicas também: um estado de estresse constante mergulha o organismo em adrenalina e cortisol, substâncias que, em altas doses, criam um estado contínuo de inflamação. Logo, sua imunidade vai para o pé. Mais que isso: estudos já mostraram o quanto a raiva constante diminui seu poder concentração e memorização e te leva a tomar decisões piores.

Tem o lado social também.Quem sente muita raiva não tem tempo para pensar em outras coisas, como, por exemplo, a capacidade de escutar e dedicar atenção ao outro, dois pilares de qualquer tipo de relação, seja familiar, fraternal ou sexual. No fim da década de 1970, a Marvel fez uma série televisiva do Hulk que, entre outras coisas, ficou marcada na história pela frase que o Bruce Banner falava: “Você não vai gostar de mim quando eu estiver nervoso”. A frase continua valendo, mas não pelos mesmos motivos. Na série, era porque o sujeito viravaum mamute verde que destruía o que encontrava pela frente. Na vida real, é porque quem é muito raivoso(a) sempre se torna intragável, a companhia deixa de ser um prazer para virar um martírio. Não à toa, o raivoso(a) vai, gradualmente, se isolando ou, após a popularização de redes sociais, encontrando guarida em grupos de outros raivosos/as, o que leva a uma radicalização ainda maior. Você acha que gostar da mesma série é razão para namorar alguém? Espere odiar a mesma coisa. Ou também tem o efeito de te tornar um misantropo que acha que todo ser humano é um babaca que não tem nada a te acrescentar.

É preciso entender que, uma vez acumulada, essa raiva não vai embora sozinha. Para algum lugar ela vai. Há quem lute boxe, corra ou escale paredes para externá-la. Se você não faz algo, corre o risco dela transbordar dentro da sua cabeça. Passar raiva interna parece com o hamster que fica gastando energia correndo na rodinha sem sair do lugar. Gastamos uma energia desgraçada pelo exercício de gastar energia, sem qualquer tipo de ação que resolva aquilo que nos revolta. A mangueira está vertendo água direto para o ralo. Para usar outro exemplo do Hulk, é como se todos tivéssemos a raiva do Hulk sem, no entanto, jamais nos transformarmos nele. Somos todos os esquálidos Bruce Banner gritando com raiva para as paredes. Essa raiva contínua represada deságua na nossa saúde mental. Raiva e tristeza são dois lados de uma mesma moeda — quem já teve crises de fúria sabe bem a ressaca moral que vem depois, a vergonha, a culpa.

O doutor Mark Zimmerman, professor de psiquiatria da Universidade de Brown, fez um teste com alguns colegas em 2019: os milhares de pacientes da divisão de psiquiatria do Hospital de Rhode Island foram questionados sobre o nível de raiva que tinham experimentado na semana anterior. Dois terço deles reportaram raiva e irritabilidade notáveis e metade reportou em níveis moderado ou severo. “Outro grande estudo feito por um grupo de pesquisa diferente (em cinco centros médicos nos EUA) analisou mais de 500 pessoas que foram diagnosticadas com depressão severa. A análise indicou que mais da metade mostrou ‘raiva e irritabilidade evidentes’ e que essa raiva e irritabilidade pareciam estar associadas com casos mais severos e crônicos de depressão”, segundo a reportagem da NPR para a qual Zimmerman deu entrevista. Freud definia a depressão como a “raiva direcionada internamente”. “Um estudo de 2016 descobriu que, quando falamos em desordens emocionais em geral, a presença de raiva tem ‘consequências negativas, incluindo uma maior severidade dos sintomas e pior resposta ao tratamento’. Pesquisadores concluíram que ‘baseado em evidências, a raiva parece ser uma emoção importante e não estudada suficientemente no desenvolvimento, manutenção e tratamento de desordens emocionais’. Quando falamos especificamente de depressão, a ciência oferece suporte à teoria de Freud, mostrando como a raiva contribui para os sintomas. Um estudo feito no Reino Unido em 2013 sugeriu que direcionar nossa raiva para nós mesmos contribui para a severidade da depressão”, segundo a psicóloga e escritora Lisa Firestone. Se não está claro ainda, eu falo: a saída aqui, bonitinho, não é escrotizar os outros, é não cultivar a raiva. Vale dizer que a frase do Freud é polêmica até hoje. Há outra corrente da psiquiatria que defende que a depressão seria uma alteração na topologia psíquica, com alta carga de investimento libidinal. O melhor conceito para descrever a raiva contra si mesmo segundo essa outra corrente seria o masoquismo.

“Ah, Guilherme, mas você não quer que eu fique bravo ao ver essas situações revoltantes?” Bonitinho, o mundo está cheio de situações revoltantes acontecendo a cada minuto e as redes sociais, principalmente o Twitter, criaram um conceito que eu chamo de “A REVOLTA DO DIA”: como a promoção no restaurante ao lado da sua casa, sua bolha do Twitter te dá um motivo para se revoltar por dia, muitas vezes bem diferente do motivo no dia anterior. Cria-se um ciclo onde o objetivo principal é passar raiva e só. Você entra, vê o motivo, escreve algo raivoso e retuita mensagens alheias para se posicionar e expressar sua raiva. A expressão online não extirpa, provável que a raiva vá continuar com você nas horas seguintes. Você vai tocar sua vida com aquela agitação que a raiva dá, quase uma substituta da cafeína. No dia seguinte começa tudo de novo. Meu ponto é: embarcar nesse ciclo e consumir todas essas razões para ficar raivoso(a) diariamente não vai resolvê-las. Mais que isso: só vai prejudicar a sua saúde mental, bonitinha.

É preciso cuidar de si mesmo. Estudos já mostraram que há um limite para a raiva que se sente. A partir de um certo ponto, tudo vira um pastiche — a partir do momento em que tudo é motivo de revolta, mesmo as coisas menores, então a gente perde a capacidade de se revoltar de verdade com o que é verdadeiramente revoltante. É a lógica de “Pedro e o lobo” aplicado à sua sanidade mental. Mais que isso: é exaustivo estar sempre revoltado, algo que só funciona para o Hulk do Marvel Cinematic Universe.

Como melhorar na prática?

Você ouviu ou leu esse Tecnocracia até agora e, para seu horror, se identificou (até demais) em alguns trechos sobre essa raiva constante ou talvez ficou preocupado(a) pela questão lacaniana de gozo na raiva. Calma, há o que fazer. Se eu defino essa questão com tanto detalhe, é porque a raiva é um sentimento constante na minha vida, hoje bem menos que há anos. Eu já tive muita raiva. Durante uma época da minha vida, muitas das minhas ações foram definidas pela raiva que eu sentia, uma raiva difusa sobre algo que eu não conseguia entender direito. Algumas dessas coisas eu não consigo explicar até hoje. Talvez você tenha algumas dessas dores que, por um curto-circuito cerebral, se manifestam como fúria. Ou então essa mesma fúria funciona como um tampão: você está tão ocupado(a) passando raiva que é incapaz de notar que ela te impede de sentir efetivamente o que te dói. A raiva vira uma distração cujo maior prejudicado(a) no fim do dia é você. Sempre. A raiva cobra um preço terrível. Pessoalmente, esse é o Tecnocracia mais difícil que já escrevi. Há formas de se desmontar essa máquina. Só você vai saber qual é o nível da sua raiva, o quanto ela te controla e te torna uma pessoa pior. Se você, por exemplo, desconta em pessoas próximas irritações que nada têm a ver com elas, então talvez esteja na hora de buscar ajuda profissional. É preciso entender que raiva não é personalidade. “Ah, ele é assim, é o jeito dele”. Mentira. Ataque de fúria não é personalidade, não se tem que tolerar.

Agora, se a raiva ainda não chegou ao ponto de atingir sua humanidade e/ou produtividade, algumas ações diárias podem ajudar. Uma das principais conclusões a que você chega quando analisa sua raiva durante um tempo é que ela é parecida com um bonde: ela chega e passa ou você embarca e escolhe passar. Quando estamos investidos nessa raiva diária, é difícil resistir à tentação de não mergulhar naquela raiva, passar na cara, jogar pra cima, como se fosse um elefante numa poça de lama. Quanto mais você não se sujeitar a situações em que encontrará essas tentações, melhor.

O app de meditação Headspace tem uma excelente metáfora para você entender. Imagine que você está sentado na beira de uma estrada e carros de diferentes tipos, tamanhos e velocidades estão passando. Você está sentado ou sentada na beira da estrada, olhando para todos, vendo o fluxo de carros sem, no entanto, embarcar em nenhum deles. A raiva funciona mais ou menos dessa maneira. Você tem (para usar um termo muito popular ultimamente) gatilhos que te incitam a agir. Na real, você não precisa agir. Você pode deixar que os gatilhos disparem e fiquem ali, disparados, sem que direcionem seu comportamento. Eu sei, é difícil. O próprio Headspace tem um treinamento de raiva muito bom — e tantos outros treinamentos que não são focados especificamente em raiva, mas que vão ajudar você a se manter centrado.

Trecho da animação do Headspace. Um boneco está à beira da estrada, em uma espécie de deserto, e na rodovia passam muitos carros de formas diferentes, com olhos e expressões humanas.
Imagem: Headspace/YouTube.

Desligar notificações e blindar sua timeline de gente e discussões tóxicas é a dica mais básica de todas. Diminuir o uso de serviços sociais, principalmente no celular, também ajuda. Uma mudança prática que teve um ótimo efeito foi diminuir o consumo neurótico de notícias. Crie janelas para se informar. Se sua fúria está fora de controle, um traço leve de alienação ajuda, sim, principalmente num país como o Brasil com esse governo genocida durante a pior pandemia do século. Outra forma de se recuperar da raiva é voltar a embelezar o terreno que o trator da raiva terraplanou. Nada melhor que consumir beleza para isso — saia do Instagram e vá ler, ver filmes, ouvir música. Entre em contato com o que a humanidade tem de melhor. Lembre-se que o planeta é composto, em sua maioria, por pessoas gentis, generosas, interessantes, que têm algo a te ensinar e só estão confusas em algumas vezes. Tenha em mente que, para a maioria das questões, existem respostas possíveis que não envolvem descarregar sua fúria. Recupere sua régua para entender o que merece uma palavra e o que merece um murro na cara. São poucas as que merecem o segundo.

Alguns sentimentos ou substâncias não têm dose segura — ressentimento, tabaco, ciúme, cianureto envenenam toda a água do poço, ainda que seja só uma gotinha. Não acho que seja o caso da raiva. Na medida certa, ela te impulsiona a tomar ações ou romper ciclos prejudiciais. O problema está no excesso. Raiva é caldo de peixe — um toque torna o prato melhor, mas erre a mão e ele se torna intragável. No momento, mergulhamos a comida num barril de óleo de peixe. E para quê? Para que a gente está se sujeitando a essas consequências? Estamos impactando a nossa saúde mental para algo edificante? Nada. É para que algumas centenas de milionários e bilionários (a maioria na Califórnia) ganhe ainda mais dinheiro com o nosso destempero online — e nenhum deles vai pagar a conta da terapia mais tarde, quando nos sentirmos miseráveis.

Foto do topo: ErikaWittlieb/Pixabay.

  1. Gênesis 1, 28, uma frase tão impressa na nossa cultura que até eu, um agnóstico que nunca leu a Bíblia, sabe de cor.
  2. Qual é o tamanho da sua surpresa de descobrir o lado gastronômico do Tecnocracia?
  3. “Tem alguém errado na internet”.

Edição 20#35

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13 comentários

  1. Paulo Freire falava em uma “justa raiva”, aquela que pode ser transformada em amorosidade na busca de um mundo melhor.

    No Twitter ou no Facebook, porém, parece que não há Paulo Freire que resista à intensidade de produção de raiva que têm esses algoritmos.

    Perdemos, né? Transformamos uma das maiores invenções da humanidade numa máquina de produção de raiva.

    O podcast foi muito bom (tenho lá minhas discordâncias com alguns aspectos mais biologizantes do discurso, mas isso é secundário), mas é impossível deixar de pensar, ao fim e ao cabo, que simplesmente… perdemos!

      1. Não lembro exatamente de todos, mas acho que essa frase resume: “A raiva, inclusive, é uma sensação que facilita a sobrevivência.”

        Sempre fico um pouco incomodado com esse tipo de argumento biologizante.

  2. As vezes me pergunto porque não conseguimos direcionar nossa raiva para realmente “acabar” (incluso sentido literal) com quem gera nossa raiva, seja um político inescrupuloso, um dono de rede social ou um comentarista de site que incomoda…

    1. Agora falando bem sério.

      – Faço terapia acho que faz 10 anos. É um dos mecanismos que ajudou a eu pensar mais sobre o que venho fazendo. Imagino que parte dos meus problemas antigos se deram por causa de excesso de ansiedade. E ansioso, quando não satisfeito, se enraiva com facilidade.

      – Noto isso não só no online, mas no IRL também: somos meio que “bombardeados” com questões que nos levam a raiva – parte o relatado nos primeiros parágrafos. O andar no trânsito, as relações com as pessoas – as vezes julgamos a outra como imbecil, mas na verdade nem sabemos se a pessoa na verdade não faltou ensino para uma falha que julgamos a pessoa de forma errônea…

      Creio que como pessoas em uma sociedade, nos falta muito trato psicológico. Muitos falam sobre “nos tratar sempre, procurar terapia”. O que é ótimo.

      Mas talvez nos falte conversar mais sobre o aspecto psicológico da coisa. Jogar mais em público estas questões – tal como o tecnocracia hoje fala na parte de lidar com o tech.

      O ponto é que também sinto um cinismo maior nas pessoas. Difícil confiar em qualquer um que cative a atenção e peça para não ter mais raiva. Estamos em uma época que dado as raivas passadas, estas viraram traumas, cismas que não são facilmente superadas. A raiva que poderia movimentar situações virou na verdade um muro de lamentações difícil de transpor.

      Boulos – o candidato a prefeito de São Paulo – diz que vai fazer uma campanha “baseada em amor”. É algo bom, mas pode ser que as pessoas na política ainda votem pela raiva, e não pelo amor.

      1. Ligeiro, você mesmo responde sua pergunta: pq vão aparecer inúmeras razões para se sentir raiva (o trânsito, o pensamento dos outros, políticos salafrários…). Vamos reagir a tudo explodindo? Não há sanidade que resista.

        O ponto aqui é cuidar da própria saúde mental para entender que não é abafar a raiva – raiva tem um espaço fundamental na vida. O problema é o excesso em que vivemos hoje. Defendo que cada um ache o espaço da raiva na sua própria vida também como forma de saber quando vale liberá-la totalmente. Spoiler: não é 3x ao dia.

        1. O comentário que fiz acho que tentei ir além disso. E não nego que justificar que as vezes acho que o nosso mal é que não sabemos porque não direcionamos nossa raiva onde deve ser direcionada -em um problema comunitário por exemplo, ou em uma situação pessoal que precisamos do ímpeto para resolver com alguma vontade.

          Falo por mim: há uma situação que é um dos motivos que fui para a terapia, que é o fato que tenho um problema sério com uma questão bem específica: existe um apelido que se alguém usa ele para me provocar, reajo de forma extremamente violenta.

          Sempre sofri (e apesar de não me lembrar bem, não nego que devo ter praticado – apesar de pouco) bullying em TODA a vida escolar. Apelidos, provocações, etc…

          Só que infelizmente um apelido pespegou (não, não é o Ligeiro – e por questões pessoais não mencionarei aqui, ainda não tenho mentalidade estável suficiente para publicar tal), e virou uma espécie de “gatilho”: se alguém o mencionasse, eu meio que reagiria com alta violência. Até porque geralmente quem provocasse com este apelido, o faria sempre de forma oculta.

          Isso (ainda) é um gatilho de raiva difícil de controlar, apesar que ultimamente tem sido raro alguma ocorrência com isso.

          Como falei: tenho a sensação que a gente não lida com a raiva como uma geração ou resposta a um trauma. Ou ao menos não falamos muito sobre isso também.

  3. Eu me vi várias vezes no seu texto.

    Eu sempre tive problemas com raiva e explosões de raiva quando eu era jovem (até uns 21 anos, mais ou menos). Iniciei terapia pra raiva e passei a me controlar. A questão é que “controlar” essa raiva era apagar a minha opinião pata evitar conflitos, de forma que controlar, nesse caso, virou uma panela de pressão interna e, atualmente, eu segurei tanta coisa que ela voltou em impulsos suicidas (2019 foi um ano terrível) que me acometiam em ondas. Aos poucos eu consegui equilibrar as coisas novamente (eu acho) e hoje eu não me informo como anteriormente, ou seja, não acompanho as coisas em tempo real, e deixo as minhas opiniões para pessoas que eu realmente sei que vão ouvir ou que vão debater e, em último caso, que são imbecis e que merecem uma dose de raiva na vida (e um “block preventivo” posterior).

    Algo que eu sigo atualmente pra não passar raiva com tudo é fazer o o perfil @startupdareal fala que faz: notícias de uma fonte confiável (jornalão local) e deu. Segundo essa ideia as notícias mais importantes de forma geral estão ali de maneira apurada minimamente (por jornalistas) as passo que as notícias com mais impacto pessoal vão chegar de qualquer modo até a gente (mensagem, conversa, email). Tem funcionado. As vezes eu assisto Globo News durante a tarde para saber o que tá acontecendo no país (isso é basicamente passar raiva de forma programada, diria eu).

    No Twitter eu denuncio todas as contas que atuam de forma odiosa ou que xingaram a esmo. Por incrível que pareça o Twitter retira tweets, contas e conteúdo da rede (ao contrário do Facebook). As listas de bloqueio do Twitter também apagaram boa parte dos trolls da extrema-direita que, usualmente, atuam de forma a gerar engajamento para contas maiores se baseando em uma atuação belicosa nas redes. Não sei se eu fiz o “certo” para acabar com os gatilhos de raiva, mas, comigo tem dado certo. Tem dias que a coisa sai do controle, claro, mas eles são bem raros quando eu comparo com uns 3 anos atrás.

    Abs.

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