rsync vira lixo de IA e quebra seus backups
O rsync é um programa para copiar diretórios de arquivos inteiros de um computador para outro, fazendo atualizações incrementais se houver apenas algumas mudanças. Você pode manter uma cópia de backup contínua. É super confiável para esse trabalho.
Até recentemente. Em 28 de maio, Jeremiah Fieldhaven postou sobre como seu sistema de backup quebrou depois de uma atualização do rsync:
Então, meus sistemas atualizaram recentemente para o rsync 3.4.3, e assim que isso aconteceu meu sistema de backup […] começou a falhar em qualquer coisa além de um backup completo. Revertendo para a versão 3.4.1, voltou a funcionar.
Fui ver o código no GitHub para entender o que poderia ter mudado, porque não parece haver nada relevante no changelog.
Desde a 3.4.1, 36 commits [assinados] por “tridge e claude”.
O rsync basicamente está finalizado. Não se anseia por novos recursos. Mas o Claude Mythos desencadeou uma enxurrada de hackermen de segurança apontando chatbots para projetos de código aberto e enviando aos projetos uma punhado de ruído e lixo.
Alguns mantenedores estão combatendo IA com IA. O problema é que código vibe é lixo não confiável e os usuários do rsync estão sofrendo as consequências.
Existe uma reimplementação do rsync, chamada openrsync, do projeto OpenBSD. A distribuição Alpine Linux está empacotando o openrsync e considerando a possibilidade de substituir o rsync pelo openrsync. O Alpine é o sistema em que a maioria das imagens Docker rodam, então é bastante crítico por si só.
Vibe coding em infraestrutura crítica é um grande alerta vermelho para o Alpine:
Sim, é porque toda a nossa infraestrutura é construída em cima do rsync, que agora está sendo vibe coded, e isso parece ser um problema.
O projeto Debian — no qual Ubuntu e Linux Mint são baseados — também está debatendo ficar em uma versão anterior à do rsync vibe coded.
O mantenedor do rsync, Andrew Tridgell, respondeu em um blog sobre o problema de código gerado por IA do rsync.
Muito do post é copia e cola de material dos convertidos à IA. O software mudou completamente nos últimos meses, sabe? Ele até mandou esta:
Além disso, ninguém realmente sabe se a inteligência humana é apenas predição estocástica mais refinada.
Sim, sabemos, não é. Humanos não são grandes modelos de linguagem. Afirmar que humanos podem ser apenas chatbots é um lugar comum entre aqueles que foram conquistados por um chatbot e querem justificar isso.
Tridgell recebeu muitas “mensagens de ódio” bem desagradáveis, como ele as chama — no Hacker News foi chocante — e ele realmente não merecia isso.
Por outro lado, seu post descreve posts de mantenedores de distribuições Linux que afirmaram não conseguirem mais confiar no rsync, e que estão migrando para o openrsync, e uma longa explicação técnica sobre o novo framework de testes vide codado, como “acusações raivosas contra mim”. Calma lá, também.
Tridgell tem o direito de conduzir o projeto rsync à sua maneira, e ninguém pode impedi-lo. Só que outras pessoas também têm o direito de dizer: isso quebrou nossas coisas, continuará quebrando nossas coisas porque agora é lixo de IA, então estamos de saída, e toda essa situação é lamentável.
Porque você não quebra a infraestrutura e passa incólume, seja qual for seu histórico.
Tridgell é aposentado, mas sente uma obrigação de continuar trabalhando no rsync:
Eu preferiria estar velejando do que trabalhando em problemas de segurança do rsync.
Tridgell entregou o projeto rsync para outra pessoa 20 anos atrás, mas o retomou em 2024.
A resposta para descobrir que você é crítico não é começar a usar código de IA com testes de IA.
A teoria do Grande Homem no desenvolvimento de código aberto, onde tudo depende de um indivíduo heroico, sempre foi um ponto de falha fatal. Acontece porque as empresas que se beneficiam do software simplesmente não remuneram os caras que permitem que elas funcionem. Daí as empresas tentam fazer esses caras se sentirem obrigados a trabalharem de graça para elas.
Esses caras precisam começar a dizer “não”. Vão velejar. Declarem o projeto encerrado e vejam se os beneficiários finalmente passam a contribuir. Talvez contribuam, talvez não, mas nenhuma empresa alocará desenvolvedores ou dinheiro para que isso seja feito até que você diga “não”.
Publicado originalmente no Pivot to AI em 3/6/2026.
Esse episódio me fez perceber o valor de um software como o Kup, o app de backup integrado do KDE Plasma, que passei a utilizar como solução principal. O app usa dois backends como motor: o rsync e o bup – esse último com versionamento e verificação de integridade. Em uma situação como essa, escolher o backend sem perder a integração me parece uma vantagem imensa
Mas a tendência é essa. Acho difícil projetos diminuírem o uso de IA, ainda mais se tratando de projetos sem base financeira sólida.
Nesse trecho, acho que faltou a palavra “estamos” depois de então:
“porque agora é lixo de IA, então de saída, e toda essa situação é lamentável.”
Faltou mesmo. Obrigado, Helen!
Acompanho o manual do usuário há mais de 10 anos. Não entendo esse ódio gratuito pela IA. Parece que está torcendo para que tudo dê errado. O rsync já teve várias vulnerabilidades e problemas e regressões muito antes da IA existir. O dono disse que usou IA mais pra fazer testes e outras coisas, e mesmo que tenha usado pra fazer essa versão com bugs, agora ele vai corrigir, vai adicionar 500 testes e nunca mais vai ter esse problema, lição aprendida.
Esses posts contra IA que tem aparecido aqui no Manual são traduções do blog Pivot to AI que são publicados uma vez por semana.
Acompanho também há 10 anos (ou mais até), e sou a favor desse conteúdo, gosto das traduções, e acho que tem que continuar :)
Qual o problema?
Se ele não gosta mesmo?
Se ele torce pra dar errado?
Agora todo mundo tem que amar?
Que distopia estamos vivendo…
Oi Bernardo! Não é ódio (está mais para desgosto) nem gratuito (IA tem muitas implicações negativas), mas esta série de publicações são, como o Paulo apontou, traduções do Pivot to AI.
Pessoalmente, faço uso da IA e até falo bem dela às vezes, porém acho que estão inflando demais essa tecnologia, o que dá margem para pegar no pé dela — e, principalmente — dos seus proponentes e entusiastas.