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Como o bolsonarismo usou a tecnologia para prender nossos pais em uma realidade paralela

Foto em preto e branco de homens idosos jogando dominó ao ar livre.

É uma história que todo mundo conhece, viveu ou está vivendo. Enfermeira e epidemiologista, Maria Cristina Willemann vinha alertando desde fevereiro de 2020 sobre os potenciais efeitos nocivos de um vírus detectado na China e como se proteger dele. Os alertas de Maria Cristina não estavam restritos a seus familiares, amigos e vizinhos. A epidemiologista deu algumas entrevistas tanto para a mídia local em Santa Catarina, onde vive, como para a nacional. Em agosto de 2020, por exemplo, lá estava Maria Cristina falando sobre a pandemia de Covid-19 para o Jornal Hoje, da TV Globo.

Para o jornal, ela deu direcionamentos que não soam como enorme surpresa para qualquer pessoa acompanhando o desenrolar da pandemia: “É importante que a população entenda que nós ainda estamos em franca expansão da pandemia em nosso Estado e é preciso tomar cuidado. Não frequentem locais que não estejam adequados. Não frequentem locais onde possa haver qualquer aglomeração de pessoas.” A entrevista ao Jornal Hoje é um marco para ela, não só pela relevância nacional, mas porque no dia seguinte o pai de Maria Cristina foi internado em estado grave com a doença. Dias depois, ele morreu.

Segundo Maria Cristina, o pai contraiu a Covid-19 por não seguir os próprios conselhos que a filha dava a milhões de brasileiros na TV e nos jornais. Abre aspas para a Maria Cristina na reportagem da BBC Brasil que conta toda a história: “É muito frustrante saber que estou desde o começo da pandemia trabalhando para evitar o adoecimento das pessoas, mas não consegui convencer o meu próprio pai a seguir as medidas adequadas. É um misto de frustração e raiva.”

É uma sensação familiar?

Nas primeiras semanas da pandemia, o pai de Maria Cristina, preocupado com as notícias que vinham do mundo inteiro, se isolou com a mulher em casa. Conforme as semanas passavam, porém, o isolamento foi perdendo o sentido para ele. “Aos poucos, ele foi voltando à rotina normal. Como ele saía de casa várias vezes e não pegava o coronavírus, pode ter pensado que não pegaria em nenhum momento. Então, cada vez mais foi voltando às atividades de antes”, disse ela.

Uma parte relevante dessa mudança de postura está relacionada às informações consumidas sobre a pandemia. Ainda que tivesse acesso livre à filha, mestra e pesquisadora em epidemiologia, o pai preferia se informar de outra maneira: pelos grupos de WhatsApp. O pai de Maria Cristina repetia todas as teorias que qualquer pessoa que acompanhe o papel do Governo Federal e do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no combate à pandemia conhece.

“Ele recebia as informações falsas, como sobre a cloroquina, pelo WhatsApp, que era o meio de comunicação que ele mais usava. Por mais que dissessem na televisão que não tinha evidência científica sobre a cloroquina, ele preferia acreditar no WhatsApp. Por mais que eu falasse tudo pelos critérios científicos, ele preferia acreditar nas conversas dos amigos, nas mensagens de WhatsApp… Ele pensava: se para tudo tem um tratamento, por que para a Covid não vai ter?”

O pai adorava dominó e jogava em um boteco com os amigos. “O bar era um local fechado, com algumas janelas abertas. Havia uma placa que dizia que o uso da máscara era obrigatório, mas não era isso que acontecia na prática, porque as pessoas bebiam e jogavam ao mesmo tempo. O meu pai, com certeza, jogava sem máscara. Tenho plena convicção de que ele contraiu o coronavírus no bar. Soube que muitos frequentadores do local também adoeceram no mesmo período, porque [entre o fim de julho e o começo de agosto] foram semanas de altíssima transmissão do vírus em Lages”, a cidade catarinense onde ele morava.

Essa reportagem, apurada e escrita pelo jornalista Vinícius Lemos na BBC Brasil, foi publicada em janeiro. A gente não sabia em janeiro, mas os piores dias da pandemia ainda estavam diante de nós: em março, chegamos ao assustador número de 3 mil mortos diários na média móvel. A reportagem tem algumas fotos muito bonitas da vida que a gente tem com nossos pais e mães, da forma como eles estão lá (na maioria das vezes) nos acompanhando em momentos cruciais — lá estão os dois na formatura da epidemiologista e ela, ainda bebê rechonchudo e com um chapeuzinho branco, no colo do pai orgulhoso. E eu vou te aconselhar a clicar na reportagem da BBC para lê-la inteira e ver as fotos. A história é triste por essa muralha erguida entre pai e filha que impedia uma comunicação efetiva feita por alguém que domina sua área, sabe o que fala e, sem a menor sombra de dúvida, quer o melhor para seu pai. No sentido contrário, eu acredito piamente que o pai da Maria Cristina a amava — e eu nunca troquei uma palavra com ela nem com ele, cujo nome eu não vou declarar em sinal de respeito.

O ponto aqui não é o amor. Quer dizer, é, mas como consequência, comparação, expectativa corrompida. A história da Maria Cristina é dolorosamente familiar para muita gente. O caso dela é mais extremo, já que ela é especialista e o pai morreu ao negligenciar a doença que ela instruiu milhões de pessoas a evitarem. Mas, em menor grau, essa relação complicada se replicou em milhares de casas pelo Brasil desde 24 de março de 2020, quando o presidente Jair Bolsonaro foi à TV e chamou o então ainda bastante desconhecido COVID-19 de “gripezinha”.

Literalmente, o prato do brasileiro está vazio, mas, metaforicamente, tem muita coisa para digerir — a fome volta a ser um problema endêmico, junto à pior pandemia do século, com quase 600 mil mortos, inflação mais alta desde 2014, risco de estagnação econômica, ameaças explícitas à democracia, a incompetência e a corrupção generalizada do Governo Federal e aquela incerteza inquietante se o vencedor das eleições de 2022, independente de quem seja, vai assumir em janeiro de 2023. Além de todas essas questões, existe outra: há um descompasso tamanho entre gerações, principalmente na política, que interfere diretamente nas relações pessoais, principalmente familiares. Talvez o verbo não seja interferir, mas azedar ou inviabilizar. Histórias similares à contada no começo do episódio são populares o suficiente para que você, muito provavelmente, não precise se esforçar para lembrar de alguém. Talvez a história seja a sua.

Ao cooptar uma parcela da população para uma realidade paralela moldada e transmitida por, majoritariamente, celulares, o bolsonarismo ergueu uma muralha que dificultou as relações de milhões de pais e filhos, avós e netos e condenou uma batelada deles à morte.

Deixemos algo claro: não é algo que acontece com todo mundo e, dada a implosão do governo Bolsonaro nos últimos meses, demonstrada pelas pesquisas, o fenômeno já deve ter sido pior. Há, porém, um inegável fato capturado desde 2019 nas mesmas pesquisas: o atual governo tem um apoio muito maior em uma fatia mais velha da população que entre os mais novos1. É algo que não parece exclusivo do atual governo. Governos com viés conservador encontram mais apoio entre os mais velhos e mais resistência entre os mais jovens desde que o ser humano passou a se organizar em sociedades. Mas a escala aqui é diferente, não apenas por Bolsonaro ocupar orgulhosamente uma extrema-direita que flerta abertamente com autocratas fascistas, mas também pela importância basilar que a mentira, contada em fluxos constantes e blindada de maiores consequências, tem nas estratégias de campanha e governo de Bolsonaro.

No Tecnocracia da quinzena a gente vai pensar alto para tentar entender em quais pilares esse choque geracional se sustenta e, principalmente, como a tecnologia, do uso excessivo de apps de mensagem a um traço de analfabetismo digital, fizeram com que o bolsonarismo cavalgasse a geração dos nossos pais. A cada 15 dias, o Tecnocracia costura artigos acadêmicos, histórias do passado, livros de sociologia e umas piadas que constrangeriam seus pais bolsonaristas (para meu grande orgulho) para mostrar como tecnologia e política estão profundamente entrelaçadas e deverão continuar pelas próximas décadas. Se você acha que a tecnologia está apartada da política em 2021, eu tenho 55 episódios prontos provando o contrário. Eu sou o Guilherme Felitti e você já sabe: o Tecnocracia está na campanha de financiamento coletivo do Manual do Usuário. Por a partir de R$ 16 mensais, você ouve episódios do Tecnocracia ao vivo uma vez por mês.

Organizemos, então, algumas ideias. Quando eu falo que o bolsonarismo cavalgou a geração dos nossos pais com ajuda da tecnologia, suponho que você tenha entre 25 e 45 anos e seus pais estejam entre os 50 e 80 anos, um pouco para mais, um pouco para menos.

Seria leviano e até meio burro acreditar que só a tecnologia é responsável pelo bolsonarismo. Não é. Existem centenas de cientistas sociais, antropólogos e analistas políticos, alguns excelentes, tentando mastigar o que vem sendo o Brasil desde 2013 para explicar o fenômeno Bolsonaro (fenômeno mais como em “fenômeno natural que destrói uma região” do que como sinônimo de competência extrema, como Ronaldo Fenômeno).

Há uma questão ainda não totalmente resolvida deste recorte de tempo sobre a relevância da tecnologia na ascensão de Bolsonaro: teria ele chegado ao Palácio do Planalto sem ferramentas de comunicação pulverizadas e online? Eu tendo a achar que não — a estratégia de produção em escala industrial de memes e factoides políticos, incluindo caminhões de mentiras explícitas, tudo isso distribuído por páginas do Facebook e em grupos de WhatsApp, deu força para posicionar o candidato no melhor lugar para surfar a onda antipetista. Como já falamos no Tecnocracia #35, enquanto os outros partidos e candidatos davam de ombros para a internet e apostavam tudo na TV (ou em projetos tecnológicos utópicos, como Haddad registrando seu plano de governo no blockchain), Jair Bolsonaro, sob a coordenação do filho Carlos (Republicanos-RJ), colocou de pé uma máquina de propaganda, montada durante anos, para uma campanha baseada no tripé memes-WhatsApp-mentiras. Na parte WhatsApp está o já comprovado impulsionamento de mensagens, proibido pela legislação eleitoral, que o TSE julgará. Nesse aspecto, é inegável que a tecnologia tem papel preponderante.

O que nos leva ao problema principal: essa máquina de propaganda, junto aos ataques constantes à mídia tradicional, tem como objetivo manter sua base alimentada apenas por conteúdos publicados em ambientes controlados pelo bolsonarismo, especialmente grupos de WhatsApp e, para 2022, Telegram. Essa alimentação incessante de delírio cria uma base hipnotizada, nos moldes de dinâmicas vistas em seitas. Falaremos mais disso adiante. Essa dinâmica se equilibra em duas bases: a primeira é a montagem da máquina. A outra é a aderência — é preciso que as pessoas tenham razões para ficar ali, num loop infinito de delírio. Comecemos pela montagem.

O primeiro fator fundamental que ajuda a explicar como o bolsonarismo cavalgou a geração dos nossos pais é a desintermediação. Durante séculos, se você, candidato(a), quisesse falar constantemente com o público em geral, precisaria passar pela mídia — ir aos debates, dar entrevistas a jornais, participar de programas de TV. Só conseguia driblar essas situações potencialmente desconfortáveis quem comandasse um estado autocrático, algo que não fosse uma democracia. A internet mudou ao permitir que, mesmo em democracias, candidatos mantivessem uma conexão direta com seu público e, ainda assim, as chances de se elegerem.

Todo autocrata, independente da posição na matriz ideológica, faz questão de usar a tecnologia disponível na sua época para falar diretamente ao povo, como explicado pela pesquisadora e professora da Universidade de Nova York, Ruth Ben-Ghiat, no livro Strongmen: Mussolini to the present (ainda sem edição no Brasil). Foi assim com Benito Mussolini e os cinejornais entre as décadas de 1920 e 1940, Adolf Hitler com o rádio (o Terceiro Reich construiu um rádio popular chamado de Volksempfänger para ajudar a propagar a mensagem), Hugo Chávez e Nicolás Maduro com a televisão (são bem conhecidos os programas dominicais de horas e horas de Chávez na TV venezuelana). Os déspotas digitais pioneiros, como Donald Trump e Jair Bolsonaro, usam o Twitter e, no caso do segundo, os grupos de mensagem. A maneira como podemos entender os déspotas digitais, dos antigos aos atuais, foi detalhada profundamente no primeiro episódio da terceira temporada do Tecnocracia.

Ex-presidente Hugo Chávez, de camisa vermelha e gesticulando, durante um discurso na TV.
Hugo Chávez, ex-presidente da Venezuela.

Ao se desintermediar — ou seja, ser capaz de falar direta e constantemente com seu público —, Bolsonaro não precisava passar pelos crivos impostos pela mídia tradicional, como perguntas incômodas ou checagens sobre a veracidade do que falava. Ao se comunicar apenas em ambientes controlados pelo seu grupo, pode-se falar o que quiser, sem esperar qualquer tipo de questionamento. A desintermediação não envolve apenas a construção do grupo, mas também sua alimentação — é preciso uma produção constante de novos conteúdos ou a recuperação de antigos a fim de manter a base sempre revoltada, mobilizada, ativa.

Mas o que ajuda a explicar a adesão tão alta até hoje por alguns grupos? Só resumir em “ah, é o antipetismo” é pouco esclarecedor, ainda que o fenômeno tenha tido uma importância comprovada. Vamos falar sobre alguns traços facilmente perceptíveis nestes grupos. O primeiro é a desconfiança generalizada. Há um traço quase neurótico dentro de grupos bolsonaristas de que ninguém no mundo presta e todos estão tentando enganá-los. Isso vale, especialmente, para a mídia e os políticos rivais. É comum encontrar nesses grupos lembranças sobre erros ou falta de isenção históricas de alguns veículos para justificar o porquê daquele jornal ou TV não ser confiável. Tiremos algo da frente: toda empresa de mídia tem um lado e todo veículo erra. Isso é fato. Todos os veículos tradicionais publicam erratas, alguns mantêm profissionais dedicados apenas a analisar e criticar a cobertura do veículo, cargo conhecido como ombudsman, para ter uma abordagem mais honesta sobre erros e incorreções. Você pode não concordar com editorial X ou Y, mas é inegável que os veículos tradicionais, principalmente na reportagem, trabalham com informações factíveis e/ou verificáveis, buscam o contraditório e, quando erram, se justificam (na maior parte das vezes) sem que a Justiça as obrigue.

Isso passa por outro ponto fundamental: o público em geral não entende como funciona o jornalismo. Um jornal é um apanhado de diferentes formatos de conteúdos. Há o editorial, que é a voz do dono expressa em artigos curtos. Há os artigos de opinião, assinados por autores(as) convidados(as) pelo jornal. Há as reportagens, feitas por jornalistas que ouvem fontes especialistas, testemunhas, pesquisa — enfim, apuração. Ainda assim, é comum perceber o quanto reportagens baseadas em dados oficiais são encaradas como artigos de opinião, como se o(a) jornalista tivesse sentado com a ideia pronta da manchete e forjado textos e dados do nada para justificar sua opinião.

“Ah, Guilherme, isso já aconteceu”. De novo, inegável, mas é muito mais exceção. O padrão é o(a) jornalista acompanhar o tema durante meses ou anos, juntar dados, falar com especialistas e, ao discutir o tema com outros jornalistas da redação, decidir o que é notícia e o que não é. Existe método no jornalismo profissional. Esse é o jeito correto, da mesma maneira como a melhor abordagem de segurança da informação é assumir que o sistema tem falhas e trabalhar incansavelmente para corrigi-los ou mitigá-los em vez de se fechar em uma bolha de negação. Mas, para o bolsonarismo, essas eventuais falhas do jornalismo tradicional é argumento mais que suficiente para que abracem “sites” e “ativistas” travestidos de jornalismo cujo único propósito é enaltecer Bolsonaro e espalhar narrativas que corroborem seu projeto de poder. A forma como o bolsonarismo — e talvez seus pais sejam assim — descarta a Folha de S.Paulo, por exemplo, mas consome o Terça Livre é um indicativo claro de como essa falta de conhecimento sobre o metiê funciona. Vale lembrar também que essa desconfiança não é nova, foi nutrida por décadas. Não foi o bolsonarismo que inventou a expressão “Globolixo”2.

Outro comportamento constante em grupos bolsonaristas é o saudosismo de um tempo que nunca existiu ou, se existiu, não viveu ou, se viveu, era limitadíssimo a um grupo específico. Ouço, com uma certa frequência, algo na linha de que “a educação do Brasil era boa durante a ditadura militar”, algo que é uma mentira deslavada. Qualquer estatística educacional mostra que, hoje, a educação brasileira é melhor e mais inclusiva. Em 1968, 24 de cada 100 jovens eram analfabetos. Hoje, não passam de 5. O gasto com educação saltou de menos de 3% do PIB na ditadura para quase 6% na última década. A quantidade de jovens na escola também subiu: “em 1970, 67,1% da população de 7 a 14 anos frequentava a escola. Esse número sobe para 81,8% em 1985, último ano do governo militar (…) e alcança 98,5% em 2015, de acordo com a Pnad, realizada pelo IBGE”, segundo uma reportagem completa feita pela revista Nova Escola com ajuda da agência de checagens Aos Fatos. No geral, o Brasil da ditadura era majoritariamente miserável, faminto, ignorante e rural.

A educação é um exemplo de um padrão. A realidade que os pais bolsonaristas sentem é, na maior parte das vezes, baseada em delírios ou em uma visão deturpada ou limitada da realidade. Não é porque você aprendeu latim na escola há 50 anos que a educação hoje é pior do que era. Muitas dessas teorias acabam sendo recebidas e/ou amplificadas por conteúdos dos grupos, o que nos leva a outro ponto: os pais bolsonaristas são simples repetidores. Eles recebem informações e as replicam sem pensar muito, movidos mais pela emoção do que pela razão. Até mesmo por gente formada em áreas diretamente relacionadas à pandemia, como medicina e biologia. Eu estudo comunidades de extrema-direita e é impressionante como os mesmos assuntos e argumentos que você vê surgirem nesses grupos acabam, dias depois, nas bocas ou nas palavras de pais, tios ou avós próximos. A repetição dias depois de argumentos codificados em memes e espalhados por grupos é infalível. O ciclo de desinformação segue como o rio que nasce nas montanhas e caminha em direção ao mar.

Foto de uma pista de boliche, com um homem, de costas, que acabou de jogar uma bola.
Foto: Anderson Schmig/Unsplash.

Há outro pilar fundamental para entender o que faz com que nossos pais se mantenham hipnotizados pelos delírios dos grupos bolsonaristas: a socialização. Arrumar novos amigos se torna difícil conforme envelhecemos. Nas últimas décadas também foi detectado um processo de enfraquecimento das conexões sociais coletivas, aquelas amizades que fazemos em clubes de dança, jogos de bocha e campeonatos de tranca. O melhor símbolo desse enfraquecimento das fibras que formam o tecido social é o boliche. O cientista político Robert Putnam usa o esporte para explicar a decadência das redes de relações entre pessoas no trabalho ou na vida pessoal, o chamado capital social, a partir da década de 1950: “A evidência mais estranha e desconcertante de desengajamento social que descobri é esta: mais norte-americanos estão jogando boliche hoje do que antes, mas o boliche organizado em ligas despencou na última década. Entre 1980 e 1998, o número total de jogadores de boliche aumentou 10%, enquanto o boliche de liga diminuiu 40%. A ascensão do boliche solo ameaça a subsistência dos proprietários de pistas de boliche porque aqueles que jogam em ligas consomem três vezes mais cerveja e pizza do que jogadores solitários, e o dinheiro no boliche está na cerveja e pizza, não nas bolas e nos sapatos. O significado social mais amplo, no entanto, reside na interação social e até mesmo nas conversas cívicas ocasionalmente durante a cerveja e pizza que os jogadores solitários renunciam.” Ou seja: as principais consequências não são boliches quebrando, mas a cisão nos laços sociais que mantêm sociedades coesas. O livro do Putnam, Bowling alone: The collapse and revival of American community, é surpreendentemente interessante e não se limita a boliche. Eu gostaria muito de ler como a teoria do Putnam se encaixa no Brasil.

Nos grupos políticos com desconhecidos, especialmente os bolsonaristas, suspeito que a política funciona apenas como um condutor social — mais que as mentiras, o foco parece ser a interação e o acolhimento. É uma dinâmica já comprovada em grupos QAnon, dos quais o bolsonarismo pega muito emprestado. Uma reportagem do New York Times publicada em janeiro toca nesse ponto. Valerie Gilbert é uma atriz e escritora formada em Harvard que mora no Upper East Side, uma das regiões mais elegantes e caras de Nova York. Ainda que com uma educação tradicionalíssima, Gilbert é uma apoiadora fervorosa da milícia digital QAnon. Abre aspas para a reportagem: “O que atrai a Sra. Gilbert e muitas outras pessoas ao QAnon não são apenas as teorias da conspiração. É a comunidade e o senso de missão que a comunidade oferece. Novos apoiadores do QAnon são convidados para salas de bate-papo e grupos de mensagens, e suas postagens recebem uma chuva de curtidas e retuítes. Eles fazem amigos e são informados de que não são solitários viciados no Facebook que dão zoom em fotos de paparazzi atrás de pistas, mas sim patriotas reunindo ‘informações’ para uma revolução justa. Este elemento social também significa que os seguidores do QAnon provavelmente não serão persuadidos de suas crenças apenas com a lógica e a razão. ‘Essas pessoas não são membros de um culto babando e com a mente controlada. As pessoas no QAnon gostam de fazer parte. Você não vai conseguir quebrar isso com verificação de fatos já que as pessoas não querem sair’, segundo Mike Rothschild3, pesquisador do QAnon.”

Essa ideia de ser relevante em uma missão (“salvar o Brasil para nossos netos!!”) soa familiar para você?

O centro parece ser não o conteúdo, mas a socialização, algo corroborado por estudo publicado pela revista Nature. Três pesquisadores da Universidade de Regina, no Canadá, e do Massachusetts Institute of Technology deram um questionário para 1.825 pessoas de diferentes posições ideológicas que compartilham informações no Facebook e no Twitter. A descoberta mais chocante é que os entrevistados indicaram que sabem quando compartilham algo notoriamente falso, mas o fazem como uma forma de sinalizar pertencimento a uma comunidade e/ou agradar o círculo social onde estão inseridos. O pesquisador Rodrigo Pelegrini Ratier encontrou uma dinâmica semelhante em grupos de WhatsApp bolsonaristas: a troca de mensagens obedece a um padrão “amigo-inimigo” em que o compartilhamento de conteúdo mais extremo, esteja ele apoiado ou não na realidade, indica o pertencimento explícito ao grupo “amigo”. Qualquer crítica ou questionamento direcionada ao líder periga jogar o apoiador no outro lado do pêndulo: o de inimigo, comunista, traidor.

A mentira ou a hipérbole funcionam como cola nessa teia composta majoritariamente por pessoas sem rosto, mas com opiniões muito parecidas às suas. De novo, apelar para a checagem não pega exatamente no coração da questão. Mais que a verdade, o ponto central parece ser o pertencimento. Não teria problema nenhum se o pertencimento: 1) não ameaçasse sua própria vida, como mostra a história inicial; 2) atacasse de forma rábica a democracia; e 3) acontecesse em detrimento à socialização familiar. Para escrever esse episódio eu fui conversar com gente próxima que se sente confortável em falar sobre as consequências de se relacionar com quem vive nesse Brasil paralelo. No geral, o que ouvi foram filhos(as) frustrados(as) pela distância que a crença intransigente em delírios por parte de pais, mães, tios e tias mergulhados em grupos bolsonaristas causou.

Duas frases foram frequentes: “eu perdi contato constante com meus pais” e “eu perdi muito a admiração pelos meus pais”.

Por fim, há um outro elemento fundamental: o analfabetismo digital. Quando a internet comercial chegou ao Brasil, éramos crianças. A gente não entendia direito como aquilo funcionava, o que dirá nossos pais, criados em uma geração diferente. Eu aposto que você, criado na classe média, ouviu seus pais te alertando para não acreditar em qualquer desconhecido que lhe abordasse online, um conselho que valia também para o mundo real. É irônico perceber como o conselho não envelheceu bem, já que a raiz da dinâmica dos grupos é baseada em mentiras contadas por desconhecidos. A recente onda de golpes pelo WhatsApp fez cair uma ficha enorme em mim: há uma faixa etária que acredita em qualquer coisa que chega por mensagens desde que seja minimamente lapidada, como uma notícia escrita com o mínimo de apuro e com imagens selecionadas ou um golpe que use a foto de alguém próximo pedindo dinheiro com “um novo número”.

A junção de todos esses fatores (e, provavelmente, outros que não abordamos aqui) cria um fenômeno inverso ao processo científico. Como funciona o processo científico: é preciso raciocinar, analisar e revisar até chegar a uma conclusão. No bolsonarismo, a conclusão exige a criação de teorias amalucadas, lapidadas à exaustão conforme aponta-se erros. Se o líder do culto falou, é preciso remodelar até tornar aquilo verdade. Quando o líder do culto é um mitômano como Bolsonaro, é preciso um alongamento iogue para acomodar as mentiras dentro de uma uma realidade. Como quase ninguém é capaz de — metafórica ou literalmente — colocar o calcanhar atrás da orelha, então perde-se o contato com a realidade. Não é uma questão de burrice: muitos são cultos, letrados, mestres e doutores. Mas repetem barbaridades que deixariam qualquer pessoa de bom senso horrorizada. Esse é o verdadeiro Brasil paralelo.

Eu vejo todas as razões descritas no episódio perfiladas numa parede de delegacia e eu me demoro um pouco mais olhando para o fator socialização da história.

Durante a criação desse episódio eu não consegui tirar da cabeça aquelas histórias horrorosas de cultos em que um sujeito megalomaníaco se vê na condição de antever o Apocalipse. É tudo groselha, óbvio, mas o sujeito é capaz de arrastar uma multidão, hipnotizada por suas palavras, para comunidades próprias e, em casos extremos, à própria morte. Um dos casos mais famosos de seita é do reverendo Jim Jones, que acabou com um suicídio coletivo. Em 1978, “918 pessoas, incluindo 304 crianças e adolescentes, haviam morrido em Jonestown, assentamento agrícola erguido no coração da selva guianense por integrantes da seita americana Templo do Povo”. A seita era liderada por Jones, segundo a reportagem da BBC Brasil traçando seus passos no Brasil. Já se gastou muita tinta e papel tentando entender o que leva essas pessoas, muitas em condição de fragilidade financeira e/ou social, a embarcar num culto do tipo. Antropólogos e cientistas sociais gastarão ainda mais para adicionar nesta bibliografia um capítulo sobre os traços de seita vistos no apoio e na organização da base dos autocratas impulsionados por plataformas digitais. A crença cega está lá. Até a morte, como mostra a postura negacionista frente à pandemia de Covid-19, também está lá. Só é um pouco mais lenta e sofrida e atinge muito mais gente.

Por fim, você ouviu o episódio, se emocionou com a história inicial por espelhar um pouco a relação que você tem com pai/mãe/tio/avô e se identificou mais do que gostaria com muitos trechos. O que fazer? Eu não tenho a menor ideia. Eu até tenho dúvida se há algo a ser feito. Se (e esse é um grande se) o foco principal desse fenômeno não é a veracidade dos dados, mas a socialização, o sentimento de pertencimento, então talvez uma saída não esteja necessariamente em enxugar o gelo de corrigir as mentiras espalhadas industrialmente, mas organizar no atacado aulas de hidroginástica, clube do filme e rodas de truco.

Foto do topo: Ivan_z/Pixabay.

  1. Replica-se a mesma quebra nos EUA: a resistência a vacinas e a crença de que Trump ganhou a eleição de 2020 são muito maiores entre os mais velhos.
  2. O bolsonarismo que rejeita a grande mídia, porém, é o mesmo que distribui montagens toscas e mentirosas de Bolsonaro sendo enaltecido por veículos tradicionais, como a Veja no Brasil e o Washington Post nos EUA. Parece uma tentativa de tentar pegar carona na credibilidade para “corroborar” pontos de vista radicais da extrema-direita.
  3. Esse sobrenome vai fazer todo o teórico da conspiração procurar pistas. Não caia na armadilha.

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13 comentários

  1. Puxa, votei no atual presidente e provavelmente votarei no cara de novo, por algumas razões (segundo um aí, faço parte de uma seita. Sério?!).. O site aqui é ótimo, mas tem que tomar cuidado pra não destoar da realidade lá fora. O ódio está cegando o pessoal… E depois o pessoal ainda se vende como “inclusivo”…

    1. Quais suas razões para votar novamente no pior presidente da história do país, amigo?

  2. Fiz uma pesquisa rápida aqui com 11 amigos e nenhum dos nossos pais gostam do Bolsonaro, por mais que alguns (minoria) tenham votado nele.
    Nem vou entrar em detalhes pq claramente vc tá num grupinho anti bolsonarista que que tão chato tanto o outro e pessoas como vcs que fazem parte destes “grupos” não aceitam críticas e se acham sempre donos da razão.

  3. Excelente artigo. Eu iria fazer exatamente a pergunta que você respondeu ao final: “O que fazer?” pois essa é uma situação angustiante e, em muitos casos, revoltantes.

    Eu continuarei apostando no esclarecimento. Tentando, aos poucos, levar aqueles menos fanáticos a pensar um pouco sobre as questões que ele anda repetindo e que não tem fundamento.

    Abraços,

    Ronaldo

  4. Só vi dois erros no texto.
    1- Ignorar que a seita bolsonarista é fruto da má gestão dos governos anteriores.
    A população só votou no Bolsonaro porque não aguentava mais o petismo. Alguns até hoje repetem aquela frase de que “naquela época do Lula a economia era boa”, ignorando que houve muita corrupção. A cada mês era um novo caso.
    Ironicamente, tudo indica que o Lula voltará ao trono em 2022, pois entre a esperança num novo rosto, a população prefere a figurinha manjada, embora corrupta.

    2-Afirmar que a educação de antigamente não era melhor.
    Na década de 80 e décadas anteriores, a população era um pouco mais instruída. Quem vê vídeos dessas épocas percebe que até os detentos tinham um bom vocabulário.
    Se menos ou mais pessoas tinham acesso à educação, não importa tanto, pois não adianta quantidade sem qualidade. Hoje muita gente frequenta aulas em faculdade, mas é analfabeta funcional. Adianta? Pra mim, não. Vemos erros de português até em matérias jornalísticas.
    Quantas e quantas vezes tive que repetir perguntas pra atendentes de telemarketing, dentre outros profissionais! Lêem, mas não interpretam.
    Se digitamos um texto de tamanho razoável, se incomodam. Surgiu a frase: “Não faça textão”.
    As pessoas se limitaram a textos de poucas palavras. Não há compreensão, raciocínio e capacidade de debater.

    Sim, muito mais gente passou a frequentar escolas do fim dos anos 80 pra cá, mas com muito menos aulas de qualidade e com muito mais dificuldade pra conseguir emprego. As exigências empresariais são impressionantes, enquanto é vistoso o despreparo de muitos empregados e de grande parte dos donos de negócio.
    Antigamente as pessoas trabalhavam a vida inteira na mesma empresa. Um dos meus tios passou mais de 50 anos num escritório. Hoje tudo ficou descartável. Banalizou-se a educação, o trabalho, a família, o casamento(“bom” é formar “trisal”) e até a vida. Chegou-se a esse ponto de um presidente que se diz de direita e nunca foi, propagar doença respiratória em meio a uma multidão, e ficar por isso mesmo. Uma criança teria dificuldade de entender se ele é um presidente ou um deus, pois ninguém pode prendê-lo enquanto estiver na função.
    Está blindado e aparelhou todas as instituições.
    Vivemos uma falsa democracia e temos jornalistas que mentem dia e noite. Democracia não consiste numa diferença abismal de tratamento entre um chefe de Estado e um cidadão comum. Teria que haver uma paridade entre ambos.
    O Bolsonaro pode espalhar doenças à vontade, mas se eu formasse aglomeração, surgiria a polícia pra me levar pra delegacia.
    O Bolsonaro pode atrasar a compra de vacinas, matando milhares de pessoas. Pode divulgar remédios ineficazes pra covid pra que morra a maior quantidade possível de gente. Imagine o que aconteceria comigo se eu fosse o charlatão.

    1. Paulo, a gente argumenta com dados e fatos por aqui, algo inexistente no seu ponto 2. Me traga estatísticas e dados, como eu fiz no episódio, para que a análise apresentada vá além da impressão pessoal.

      1. Não tenho dados.
        Além disso, todas as informações precisam de revisão. Dado numérico não comprova que algo é verdadeiro ou preocupante sem que o leitor os interprete.
        Um exemplo é quando a secretaria de segurança diz que aumentou o número de homicídios no período X a Y, mas não especifica o contexto. Se aumentou a quantidade de bandidos mortos, não é preocupante. Se aumentou a quantidade de pessoas comuns mortas por bandidos, passa a ser.
        Então no mínimo as informações não ficaram claras.
        De que maneira a educação do Brasil melhorou, se hoje, apesar de tanta gente com acesso à internet, sequer dominam o próprio idioma? Sequer sabem o inglês básico. Sequer interpretam um texto de 10 linhas ou sabem juros e porcentagem.
        Um bom parâmetro pra avaliar a educação do público é o vocabulário do mesmo. O português usado no Brasil nos anos 70 era muito mais rico do que o de 2021.
        Antigamente o falante ficava zangado, aborrecido, enfezado etc. Hoje ele só fica “puto”(?) ou “pistola”(?).
        Antigamente existia a turma, o povo, o pessoal, o grupo. Hoje é só “a galera”(?).

        1. Curiosamente, essa flexibilização da realidade lastreada pe a desvalorização das evidências em detrimento da percepção pessoal e de um certo sentimento saudosista é EXATAMENTE o ponto do episódio.

          Essa conversa termina por aqui para que não mergulhemos em um comportamento prejudicial e nada racional.

          Ignorância contra o que você discorda continua sendo ignorância.

        2. Olha, eu realmente não esperava estar lendo discurso reacionário aqui nos comentários do MdU.

      2. Inexistente também no ponto 1. Não é possível afirmar que a gestão petista foi mais ou menos corrupta que as anteriores, pois somente durante a gestão petista passamos a ter uma Controladoria-Geral da União, uma Lei de Acesso à Informação que tem a publicidade como preceito geral e o sigilo como exceção, e um presidente que nomeasse sempre o primeiro da lista tríplice da PGR como Procurador-Geral (prática abandonada a partir de Temer). Somente a partir de 2013 tivemos a criação do instituto da delação premiada, alicerce da Lava-Jato. Não é possível comparar a corrupção do período recente com a corrupção de períodos anteriores, visto que, antes, não tínhamos instrumentos adequados de mensuração e combate à corrupção.

      3. Parabens pelo texto Guilherme.
        Os dados (sobre a educação) estão todos muito bem organizados no livro: “O que o Brasil quer ser quando crescer?” do Gustavo Ioschpe (um critico ferrenho do atual governo). O Paulo tem razão, a quantidade só vem aumentando mas a qualidade, so piorando. No livro, Gustavo mostra o aumento expressivo no investimento em educação, uma das maiores do mundo. Porém a qualidade só piora.

    2. Ah o chorume dos comentários…

      Aos poucos, um dos poucos lugares interessantes da internet para se ler, a área de comentários está ficando raidioativo. Me pergunto se no grupo de apoiadores tem essa msm reação.

      As pessoas estão absurdamente individualizadas ou são bots, não sei se teria diferença.

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