Xícaras de café, bichos e orações

Várias mãos de pessoas enfileiradas segurando/mexendo em celulares.

Há cerca de três anos, Walter Vitti, de Mogi das Cruzes (SP), começou a receber mensagens de dois amigos pela manhã. Eles não se conheciam, mas tinham o hábito — assim como Walter — de acordar muito cedo, entre as cinco e seis horas.

Walter, 60, criou gosto pelas imagens de bom dia que recebia dos amigos e criou um esquema para respondê-las: “Eu sempre esperava um me mandar, pegava a mensagem e mandava para o outro”, explica. Assim, ele jamais repetiria a mesma mensagem e acumularia, organicamente, um arquivo de imagens que poderia servi-lo no futuro.

Com o tempo, essa rede de contatos ficou maior e mais complexa. Hoje, todas as manhãs, Walter envia imagens de bom dia a outras cinco pessoas que não se conhecem entre si e investe um tempo considerável na curadoria. “Fico esperando pra ver quem vai me mandar o mais bonitinho, para eu poder ter um ‘pool’ de mensagens e escolher aquela que me representa mais”. Suas preferidas são as com textos mais curtos e estética simples, nada “dessas que é com flor, passarinho, coração, um monte de coisa”. Ele também prioriza as que têm elementos da natureza e xícaras de café — afinal, o café da manhã é um dos momentos mais importantes do seu dia.

Foto de uma xícara de café com a mensagem, à esquerda: "O dia só começa depois de um belo café! Bom dia!"
É verdade! Imagem: Mensagens Com Amor/Reprodução.

“Sei que muita gente não curte”, reconhece. “Eu gosto, porque me estimula o dia, sabe? Ainda mais nessa época de pandemia, a gente falando sempre sobre COVID”. Médico e professor universitário, ele encara uma jornada dupla que começa pela manhã, no hospital, e termina à noite, dando aulas à distância na faculdade onde trabalha.

Recentemente, no entanto, Walter ganhou um problema. “Esse meu amigo [que iniciou o ciclo] agora começou a mandar boa noite também. Só que boa noite não é uma coisa que eu curta muito, não tenho esse costume”.

Ele então fez a mesma coisa que faz pelas manhãs: encaminha o boa noite recebido para sua ex-sogra, recebe outra imagem dela de volta e a encaminha para o amigo, como resposta. “Só que esses dias ele viu que eu tinha encaminhado, né? Aparece ‘encaminhado’. Aí ele ficou bravo: ‘Poxa, eu preciso que você fale boa noite, não que você mande um boa noite copiado’ ”, conta, rindo. “Achei legal, significa que pra ele tem peso também. Então agora não mando mais encaminhado, eu salvo e mando depois. Às vezes, quando a minha ex-sogra não manda e eu demoro pra responder, ele pergunta: ‘Ah, a sua fornecedora de boa noite tá demorando?’” Quando isso acontece, ele digita um boa noite manualmente.

Desenho da Lua com os olhos fechados, e a mensagem "Para você desejo os sonhos mais lindos de uma noite e que todos eles sejam realizados ao amanhecer. Boa noite!"
Imagem: Amplino/Reprodução.

Walter é um dos muitos brasileiros entusiastas das mensagens de bom dia do WhatsApp, possivelmente um dos conteúdos mais compartilhados no aplicativo — tanto que, em 2018, o Google desenvolveu uma ferramenta exclusiva com inteligência artificial para ajudar usuários de Android a gerenciar esse tipo de imagem. Todos as conhecem e todos têm uma opinião: há quem adore e há quem fique profundamente irritado, especialmente ao recebê-las em um grupo do qual não pode sair sem criar um mal-estar, como o da família.

Negócios misteriosos

Em setembro, o país foi surpreendido ao descobrir que muitas dessas imagens não eram feitas como hobby, mas como negócio. Embora a troca de imagens dentro do próprio WhatsApp, como Walter faz, seja talvez o maior vetor de disseminação, é preciso que alguém as leve para dentro da plataforma primeiro. Empresas especializadas suprem a demanda criando sites super otimizados dedicados à publicação de imagens, apelando a usuários mais familiarizados com tecnologia que recorrem ao Google em busca de material novo para compartilhar no WhatsApp.

Segundo revelou reportagem da BBC Brasil, esses sites têm tráfego suficiente — entre 900 mil a 3 milhões de visitas por mês — para gerar receita por meio de anúncios do Google a ponto de poderem contratar funcionários.

O Manual do Usuário apurou que o buraco é mais embaixo. O sigilo em torno das técnicas para colocar os principais sites no topo dos resultados de pesquisa do Google é tal que tentar falar com os responsáveis por essas empresas, muitas vezes, é como tentar entrevistar integrantes de uma máfia.

“Os sites dependem muito de tráfego orgânico nos mecanismos de busca, SEO”, diz Denis Rigotti, diretor financeiro da Contteudo, uma das principais empresas desse mercado. SEO, abreviação em inglês para “otimização de conteúdo para busca”, é o conjunto de práticas, como repetir palavras-chave muitas vezes, que melhoram o posicionamento de um site nos resultados de pesquisas no Google. “A gente não quer que as estratégias caiam de mão beijada na mãos dos nossos concorrentes”, justifica Rigotti.

Procurados pelo Manual, Denis e seu irmão, Fernando — que preside a empresa, sediada em Maringá (PR) —, pediram à reportagem que enviasse as perguntas a serem respondidas por e-mail. Após mais de um mês no aguardo, no entanto, a dupla desistiu de respondê-las. (Fernando comentou apenas que “nesse nosso nicho há uma concorrência muito forte”.)

Algo parecido ocorreu com os donos das outras 15 páginas e sites com quem tentamos conversar, de amadores e profissionais. A maioria ignorou o pedido completamente; um topou e desapareceu logo em seguida; e outras duas pessoas pediram para ver a lista de perguntas com antecedência, e então se negaram a dar entrevista. No jornalismo, esse pedido costuma vir de políticos e outras figuras públicas que dependem de orientações minuciosas de assessores para falarem com a imprensa. A prática é vista como sinal de insegurança e utilizada em casos excepcionais.

Dada a impossibilidade de falar com as empresas, fomos atrás de outras pessoas que têm essas mensagens de bom dia como parte do cotidiano, ainda que passem longe do estereótipo da “tia do zap”. Por trás da aparente banalidade desses conteúdos e de seus disseminadores, encontramos opiniões tão diversas e contundentes quanto em qualquer outra comunidade online.

Projeção de positividade e conforto

O artesão José Luís Ferreira, 66, de Santos (SP), é o caso raro de alguém que migrou de um extremo ao outro. Quando começou a usar o WhatsApp, em 2015, não ficava um dia sem repassar imagens de bom dia aos amigos. Hoje, acha a maioria delas “uma babaquice”.

“Você acorda, põe lá no WhatsApp e tal. ‘Ai, bom dia, que tudo se ilumine, que tudo se torne um paraíso’ e tal. Bacana, bacaninha, Deus lhe ouça, né. Aí daqui a pouco toca o banco: ‘Ó, você tá devendo.’ Aí não dá, né. É uma coisa incompatível”.

Na sua idade, explica, não há como alcançar o padrão de felicidade, otimismo e realização pregado por essas imagens. “Acho que essas pessoas mandam as mensagens pra saber se [você] ainda tá vivo. Se não responde uma, duas, três, ‘Ih, esse aí já morreu, tá com a COVID’. Se a pessoa quer falar alguma coisa, ela escreve, digita a própria mensagem”, diz.

No entanto, ele abre uma exceção crucial para as imagens com filhotes de cachorros e gatos, suas preferidas. “Aquilo é uma gracinha, é uma coisa que levanta, entendeu? Eu acho bacaninha, acho humano. Aquilo representa o amor, o bem-querer, representa tudo de bom que nós, os humanos, deveríamos ter como os bichos têm”, afirma. “A coisa do bicho eu acho legal quando é uma mensagem bacana, bonitinha, transada, tal. Agora, você mandar uma borboleta — que hoje eu recebi uma borboleta de bom dia — não dá, né, me poupe.”

Duas imagens de bom dia, lado a lado: a da esquerda mostra uma borboleta azul contra um fundo abstrato verde. A da direita, dois filhotinhos de cachorro, um deles sobre as patas traseiras com os "braços" abertos.
Borboletas? Tô fora. Doguinhos? Sim! 🐶. Imagens: Recanto das Borboletas/Facebook, ImagensBomDia/Reprodução.

A psicanalista Sylvia Dias também vê uma camada subjacente de hipocrisia em algumas dessas mensagens. “Faz muito sentido que essas imagens tenham vingado tanto no Brasil, porque elas traduzem algo muito específico da cultura do país: essa exigência constante de projetar positividade, alegria, de esquecer os problemas a todo custo”, diz. “Mas é uma positividade de fachada na maior parte do tempo. Se a gente investigar a origem dessa pulsão — e de tudo que a acompanha, ou seja, evitar o conflito, evitar a negatividade —, parece ter muito a ver com um impulso de negar o trauma, seja na vida particular de cada um, seja na sociedade.”

O Brasil, Sylvia explica, é um país com traumas coletivos gigantescos, que vão da escravidão à ditadura e que nunca foram processados propriamente — no jargão da psicanálise, foram recalcados. “Você reprime de forma inconsciente aquilo que te incomoda, que te contradiz, que te gera angústia, e enterra aquilo no fundo do subconsciente. Isso fica muito claro em 2020, com a pandemia e tudo o que está acontecendo”.

Por outro lado, ela contempla a possibilidade da função terapêutica dessas imagens. Pessoas com cotidianos extenuantes, como pacientes terminais ou trabalhadores endividados, podem se sentir um pouco menos desoladas ao terem suas mensagens correspondidas, mesmo que a interação não evolua para além disso. “O dilema da maioria dos meus pacientes não é o problema em si, mas a solidão que eles sentem ao serem confrontados com ele. Se as imagens servirem para aliviar essa sensação, não vejo problema algum nisso”.

A aposentada Therezinha Parpinelli, 87, também de Santos, se enquadra nessa situação. Doze anos atrás, ela sofreu uma queda que dificultou muito movimentos comuns, como subir e descer escadas. Recentemente, também parou de andar.

Charlie Brown e Snoopy se abraçando em uma imagem de "Bom dia, domingo!"
Imagem: Snoopy e Charlie Brown/Facebook.

“Tem horas que eu tô muito pra baixo, daí vem uma mensagem e eu gosto, faz bem pra mim”, diz. “Acho que depende de como a pessoa está quando recebe”.
Ela repassa essas mensagens esporadicamente, mas prefere recebê-las. As últimas que mandou mostravam o Snoopy abraçando o Charlie Brown, uma xícara de café com dois passarinhos de biscuit e uma mulher cuja saia do vestido era feita de lápis de cor (“A vida tem a cor que você pinta”). Também gosta das de cunho religioso — ela costuma usar em suas orações frases que pega de páginas do Facebook e correntes do WhatsApp.

Seu gosto pessoal é mais discursivo do que estético. “Tem mais a ver com a mensagem, mas não gosto que fique na mesmice”, diz. “Tem que ser uma coisa profunda, não pode mandar qualquer coisa”.

Foto do topo: Robin Worrall/Unsplash.

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20 comentários

  1. Achei interessante todo esse conteúdo. Nós humanos vez por outra não enxergamos onde levam os críticos a essa análise. Eu mesmo me acho crítico com relação a algumas postagens e concordo com alguns dos colaboradores relacionados o tipo de mensagens exemplos:
    Mensagens volumosas com exageros de cores e flores diversas, com borboletas, com pássaros. Acho que mensagens mais sérias atingem mais as pessoas, um fundo escuro para o boa noite ressaltando montanhas, fazendas, céu
    estrelas, etc. E o bom dia, o raiar de uma casa de campo, flores lindas, enfim sem exageros de comentários.. parabéns a todos, Abraços.

  2. Muito boa e engraçada!

    Eu vejo a relação dos boomers com esse material como o problema da pornografia: o “bom dia” por escrito deixa de ser suficiente, tem que ter apelo visual e precisa de algo diferente todo dia.

  3. gente, eu amei a interação do médico Walter com o amigo…hahaha que texto delicioso esse! Parabéns demais!

  4. Fui lendo este texto desde a saida da sala da terapia ate a 25 de Marco, entre risadas e cara de surpreso.

    Obrigado Laura pelo texto.

  5. Ficou excelente a reportagem. A gente pensa que não, mas essa é uma genuína subcultura digital que merecia uma abordagem nesse nível. MdU no seu melhor :)

  6. Eu não sei se era o objetivo do post, mas ri demais com esta matéria. Desde as opiniões do seu José Luiz até a psicanalista “analisando” este comportamento. E claro, a comparação dessas empresas com a máfia kkkkkk. Não sabia que era um mercado tão disputado.

  7. Outra coisa que vem crescendo bastante são as figurinhas de WhatsApp de bom dia, mas elas geralmente não têm mensagens, só o “bom dia” e umas firulinhas mesmo. Acho que as imagens com mensagens mais desenvolvidas são perfeitas pra quem tem preguiça de escrever um texto próprio, elas vão demorar pra perder espaço

  8. Cara. Esse texto até me trouxe emoções positivas e me fez refletir um pouco mais sobre essas mensagens de bom dia (coisa que eu sempre julguei desnecessária). Muitas vezes até já falei para as pessoas me mandarem um “bom dia” escrito mesmo, pois a figura eu não iria nem ler. Contudo, a pessoa foi lá passou um tempo escolhendo a imagem (ou não) e encaminhou para você por te considerar especial, então melhor retribuir. Além do mais, diante de todo o cenário caótico que vivemos, um mensagem positiva logo pela manhã pode nos ajudar a encarar melhor o dia.

    1. Bem verdade Henrique. Eu nunca tinha pensado nisso.
      É como se fosse um “cartão virtual”. Vou olhar essas mensagens com mais carinho.

      1. Eu também.

        Sempre tive ranço com essas mensagens, mas a matéria abriu minha visão por uma perspectiva que até então eu não tinha.

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