O clube dos fundadores arrependidos

Prints do novo Microsoft To Do; um deles exibe a torre de TV de Berlim como plano de fundo, imagem característica do antigo Wunderlist.

Em 2010, o desenvolvedor alemão Christian Reber iniciou uma busca por parceiros para uma empreitada digital: criar um pequeno aplicativo de listas de tarefas. Um ano depois, com um sócio e investimentos de grupos locais, ele deu à luz o Wunderlist, fruto da startup recém-criada 6Wunderkinder.

O Wunderlist poderia ter sido apenas mais um entre os milhares de apps do gênero que infestam lojas de aplicativos, mas ele se destacou por antecipar recursos úteis ainda raros e pela execução impecável. Em 2015, já com 13 milhões de usuários, a Microsoft comprou o app. O valor exato da transação jamais foi revelado, mas segundo o Wall Street Journal foi algo entre US$ 100 e 200 milhões. Até aquele momento, a 6Wunderkinder havia levantado US$ 35 milhões em capital de risco. Não foi um saída do nível de um Google ou Facebook da vida, mas deve ter rendido uns bons trocados para fundadores e investidores.

As duas partes, Microsoft e 6Wunderkinder, na época garantiram que nada mudaria de imediato no Wunderlist e que a nova casa, com recursos quase infinitos e um batalhão de profissionais de primeira classe, ajudaria a aperfeiçoar o app. Dois anos depois, a Microsoft anunciou que o Wunderlist seria descontinuado para dar lugar a um novo app criado do zero, o Microsoft To-Do, para ser integrado a outros produtos da empresa. Até hoje o já não tão novo app continua pior que o abandonado em muitos aspectos e apesar da sentença de morte dada ao Wunderlist, ele segue — junto aos seus usuários mais fiéis — em uma agonizante espera pelo dia em que um funcionário da Microsoft puxará o fio do servidor que o mantém funcionando.

Semana passada, Reber lançou-se em uma campanha para comprar de volta o app que criou e vendeu à gigante do software. “Ainda chateado que a Microsoft queira encerrar o Wunderlist, mesmo tendo pessoas que ainda usam e adoram [o app]”, disse ele no Twitter. “Falo sério, Satya Nadella [CEO da Microsoft] e Marcus Ash [gerente da Microsoft em Berlim que supervisiona os apps de listas de tarefas da empresa]: por favor, deixem que eu o compre de volta. Mantenham a equipe e foquem no Microsoft To-Do e ninguém ficará bravo por não desativarem o Wunderlist”.

Alguns suspeitam que o pedido é uma tentativa de Reber de punir a Microsoft pela displicência com que tem tratado o Wunderlist. Afinal, se havia alguma cláusula impedindo o pessoal da 6Wunderkinder de criar apps que competem com o vendido — bem provável —, cinco anos depois ela já deve ter expirado. E apesar do fato de que este hipotético novo app começaria sem a base instalada do anterior, o chamariz “dos criadores do Wunderlist” na imprensa, em blogs e nas redes sociais seria suficiente para recuperar ao menos parte daqueles usuários desassistidos e nostálgicos dos bons tempos pré-Microsoft.

Independentemente das suas razões, Reber se junta a tantos outros fundadores aparentemente arrependidos do destino dado a suas criações, como Jan Koum e Brian Acton do WhatsApp e Kevin Systrom e Mike Krieger do Instagram. Ambos os apps já eram grandes sucessos de público quando foram vendidos ao Facebook por valores que, à primeira vista, pareceram absurdos, mas que o tempo provou terem sido verdadeiras pechinchas. Provavelmente só não os pediram de volta porque, ao contrário do Wunderlist, WhatsApp e Instagram se valorizaram dramaticamente desde que mudaram de mãos — o valor estimado do Instagram, por exemplo, é de US$ 100 bilhões, cem vezes o que foi pago pelo Facebook em 2014.

Acton é o mais rebelde do quarteto. Deixou o Facebook em setembro de 2017 para investir e atuar no Signal, aplicativo sem fins lucrativos que disputa mercado com o WhatsApp. No ano seguinte, quando o escândalo da Cambridge Analytica explodiu, mandou um “Chegou a hora. #deleteFacebook” no Twitter.

O que esses fundadores talvez estejam descobrindo é que existem outros parâmetros de sucesso e maneiras de gerar receita além das saídas milionárias/bilionárias via aquisição por uma gigante corporativa ou com a abertura do capital, os dois únicos destinos que parecem povoar a cabeça da atual leva de empreendedores de tecnologia.

Coincidência ou não, nesta segunda (9) a Microsoft anunciou uma grande atualização para o To Do. O aplicativo perdeu o hífen no nome, mas ganhou um visual mais familiar que inclui o tradicional plano de fundo com a torre de TV de Berlim, herdado do Wunderlist. O velho app segue disponível para download.

Imagem do topo: Microsoft/Divulgação.

Acompanhe

  • Telegram
  • Twitter
  • Newsletter
  • Feed RSS

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

7 comentários

  1. O meu lamento, relacionado a aquisições da Microsoft, é com o Sunrise, app de calendário. Tentaram incorporar algumas funções no Outlook mas nunca foi o mesmo. Diversos programadores tentaram elaborar apps estilo Sunrise, que eu até testei versões beta, mas infelizmente não conseguiam ser bons…

    1. Aha! Então eu na não sou o único! Desde o final abrupto do Sunrise eu já devo ter passado por duas dezenas de calendários diferentes….nenhum chega nem perto do Sunrise…o calendários do Outlook é quase uma piada de mau gosto.

  2. Uso o Wunderlist consistentemente há mais de 3 anos. Implantei meu sistema GTD nele e funciona maravilhosamente bem. A simplicidade do Wunderlist permite uma flexibilidade que outros apps não têm, sem contar que a versão free é MUITO COMPLETA – estou olhando para você, Todoist, que é capado e cheio de firulas desnecessárias.
    Pelo menos uma vez por mês, junto-me ao coro de pessoas que lamentam o possível fim do app em algum retweet da conta do Wunderlist de alguma novidade do Microsoft ToDo; o assunto é quase sempre o mesmo: “deixem o app exatamente igual ao Wunderlist antes de puxarem o plugue”.
    Sobre o Microsoft ToDo em si, como fazem um app de tarefas que não tem INBOX?!! Usar o MyDay como tal é muito, mas muito errado. Não sei como erraram em algo tão básico assim.
    Enfim, até salvei a matéria para ler no dia do funeral do Wunderlist, esperando que o criador tenha feito algo de novo ou comprado a IP de volta.

  3. Eu acho o To Do perfeito pra mim. Sempre achei o Wunderlist cheio de recursos que, pra mim, nunca foram de uso algum. Se bem que, pra mim, o app Lembretes do iPhone antes do iOS 13 já funciona muito bem, então…

  4. Eu uso o Wunderlist diariamente. Inclusive está no dock do iPhone. Nada. Em nenhum app teve para mim a usabilidade e a facilidade dele. Sei lá, talvez tenha me acostumado. Tomara que o fundador o compre de volta!!!

  5. Acho engraçado e previsível que os fundadores só querem de volta aqueles apps que claramente poderiam dar um retorno muito maior do que o preço que venderam. Mas e se não dessem lucro? E se o Instagram fosse uma moda passageira que se tornaria irrelevante hoje em dia? Iriam querer de volta? Duvido.

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!