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Burlesco derruba os paywalls dos maiores jornais do Brasil

Homem de boné, barba e óculos, de lado, olha jornais pendurados na parede de uma banca.

Paywall é um desses termos em inglês que acabaram incorporados ao debate público brasileiro do jeito que veio de fora, sem tradução, nesse caso talvez pela falta de uma já que se trata de neologismo. Ele designa restrições artificiais ao acesso gratuito a conteúdo publicado por jornais na internet. Ao se deparar com a barreira, em tese o leitor se sentiria impelido a botar a mão no bolso e pagar pela assinatura pedida para continuar. “Pay” significa pagamento e “wall”, parede. Na prática, é como se fosse um pedágio da informação.

O termo foi criado no início dos anos 2010. Até hoje, o assunto é controverso e, fora uma ou outra iniciativa, a maior e mais usada em discussões sendo o do jornal norte-americano New York Times, os resultados da sua aplicação são mistos. Inúmeros fatores contestam a lógica simplista do paywall, sendo um deles a facilidade em burlá-lo.

Em 2016, o estudante Rodrigo Orem, de São Paulo (SP), se preparava para o vestibular. Ele adquiriu o hábito de ler jornais para não dar mole nas perguntas de atualidades das provas e, sem surpresa, não demorou muito para começar a bater em paywalls. Ele fez os cadastros gratuitos nos sites dos jornais, que em alguns casos concedem acessos extras, e até assinou os períodos experimentais, oferecidos a preços módicos como estímulo, mas logo cancelou as assinaturas porque seria financeiramente inviável mantê-las todas. Em vez disso, Rodrigo começou a derrubar paywalls.

Pouco tempo depois, o estudante automatizou o trabalho e criou uma extensão de navegadores que batizou de Burlesco. Ela está disponível para Chrome, Firefox e Opera, e também na forma de um “userscript”, que permite seu uso no Edge e Safari. Quatro anos depois de lançado, o Burlesco continua na ativa, é compatível com 20 publicações brasileiras1 e já teve mais de 100 mil downloads.

Todo o trabalho no Burlesco é feito voluntariamente pelo Rodrigo, hoje com 25 anos e estudante de ciência da computação no IME-USP, em São Paulo (SP), e por Caio “CaioWzy”, 24, que faz o mesmo curso na Estácio, em Florianópolis (SC). Caio descobriu o projeto em meados de 2017 durante um evento promovido pela Digital Ocean para fomentar colaborações no GitHub, tornou-se colaborador ativo e, em pouco tempo, foi promovido a mantenedor do código junto a Rodrigo.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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“Foi meio que para resolver minha própria dor e para automatizar essa tarefa”, disse Rodrigo em entrevista ao Manual do Usuário. “Aí eu coloquei [a extensão] na internet e começou a ganhar alguma tração, e o Caio encontrou depois”.

O Burlesco se aproveita da maneira como os paywalls são construídos para derrubá-los. “O paywall poroso, como o próprio nome diz, tem furos que são encontrados no lado do usuário”, explica Caio. “É um script que é carregado, então se a gente bloquear esse script, o paywall não aparece”. Paywalls desse tipo são codificados com uma linguagem de programação chamada JavaScript, que tem como principal característica o fato de que os códigos são executados no navegador do usuário, e não no servidor. Por isso, dá para modificar o código antes dele ser executado, o que abre brecha para iniciativas como o Burlesco e outras mais rudimentares, como desativar a execução de JavaScript no navegador — considere, porém, que a maioria dos sites aparecerá quebrada e alguns sequer abrirão, tamanha a dependência que a web contemporânea tem no JavaScript. Outras maneiras de burlar paywalls, como ativar o modo leitura do navegador (Firefox, Safari), sites como Outline e apps como Pocket, partem do mesmo princípio.

Homem de cabelo e barba curtos vestindo camiseta preta com ilustração no peito, de pé em frente a várias plantas.
Rodrigo Orem, criador do Burlesco. Foto: Arquivo pessoal.

“Eu gosto de uma analogia”, começa Rodrigo. “Imagine que você vai à banca de jornal e sempre que está lá o jornaleiro te dá o jornal, mas coloca um aviso na frente dizendo que você não pode ler. Ele fala ‘ah, por favor, você precisa ser assinante para ler’, mas ele já te deu o jornal, é seu, você tem o direito de tirar aquilo e não precisou assinar nenhum contrato para receber aquele jornal. O paywall poroso tem essa ideia, né? Tem uma restrição bem frouxa que você consegue facilmente remover”.

Nesse sentido, a dupla não encara o Burlesco como algo ilegal. Em termos objetivos, no paywall poroso a notícia/reportagem/coluna é descarregada por completo pelo navegador ao ser acessada e só é bloqueada por um código posterior que se insere na máquina do usuário. “O Burlesco não tem nada a ver com pirataria. A gente só modifica conteúdo para que ele se torne legível, conteúdo que a própria empresa que serve já te deu”, diz Rodrigo.

Existe outro tipo de paywall, o rígido ou “hard paywall”. Neste, o acesso ao conteúdo depende de uma autenticação no servidor, ou seja, se o usuário não estiver logado, receberá em seu navegador apenas um pedaço introdutório do conteúdo. Sites como Valor Econômico e os das revistas piauí (nas matérias da revista republicadas no site) usam o modelo rígido e não há nada que o Burlesco possa fazer para burlá-los. Ou quase nada, porque tudo depende da implementação. Como exemplo, Caio cita sites com paywall teoricamente rígido, mas que entregam o conteúdo completo quando o acesso é feito por um robô indexador de buscadores como o Google. “A gente faz um tratamento [no acesso ao site] em que ele [o servidor do site] detecta o seu acesso como se fosse um robô do Google, achando que a página será indexada, e acaba retornando a notícia completa”.

As técnicas variam, mas a dupla tem bem definidos os limites em que trabalham. Jamais burlam paywalls rígidos via acessos não autorizados e não aceitam dinheiro pelo trabalho no Burlesco. A quem oferece doações, Rodrigo e Caio recomendam que o dinheiro seja gasto em assinaturas de jornais. “Preferimos que isso fique com quem está de fato produzindo jornalismo”, diz Rodrigo.

Gato e rato

Dois prints de uma notícia do site do O Globo. À esquerda, um popup informa que ela é exclusiva para assinantes. À direita, ela aberta graças ao Burlesco.
À esquerda, notícia do site d’O Globo barrada pelo paywall. À direita, a mesma notícia liberada pelo Burlesco. Imagens: O Globo/Reprodução.

Até hoje, nenhum dos jornais burlados pelo Burlesco entrou em contato com seus criadores. Não que o Burlesco seja desconhecido dos grandes jornais. A dupla já flagrou uma função chamada “Detecta Burlesco” no código-fonte do jornal carioca O Globo, que detectava diversas formas de burlar seu paywall. Outro caso curioso foi o de um desenvolvedor que trabalhava em um grande jornal e que, ao perceber que a dupla do Burlesco estava com dificuldades para derrubar o paywall do seu empregador, mostrou a ela o caminho das pedras para conseguirem êxito.

Nos primórdios da extensão, havia uma espécie de briga de gato e rato com alguns jornais, que sempre mudavam o código dos paywalls a fim de quebrar o Burlesco e outras soluções similares. O ritmo de atualizações da extensão era mais frenético, mas Caio diz que já faz algum tempo que eles não têm problemas do tipo.

Outros contribuidores esporádicos do projeto, que tem seu código aberto no GitHub e aceita ajuda externa, já fizeram contribuições decisivas. Em uma das mais engenhosas, a extensão passou a baixar o código JavaScript do paywall, modificá-lo e reinseri-lo na página. “Mesmo que eles [do jornal] modificassem algo no script, desde que não afetasse o padrão, a gente conseguia fazer o patch”, relembra Caio.

É ético?

Print do Firefox exibindo as configurações do Burlesco.
É possível desativar o Burlesco em sites específicos.

É impossível falar de paywall sem mencionar a crise que se abate sobre o jornalismo. Há anos as redações estão encolhendo, a confiança da população vem diminuindo e a receita da publicidade, que já sustentou todo o negócio no passado, foi capturada quase que totalmente por Facebook, Google e outras plataformas digitais. Para fechar as contas, novos modelos de negócio surgiram. Um dos mais populares é o de assinatura digital, em que a própria audiência banca os custos da operação.

Nesse cenário, o Burlesco poderia jogar contra a viabilidade financeira dos sites onde ele atua? Rodrigo e Caio acreditam que não.

“A assinatura não é o único método de pagamento [dos jornais]. A gente tem 20 publicações hoje, nenhuma delas vive só de assinaturas”, diz Rodrigo. A dupla acredita que o Burlesco ajuda a aumentar outra fonte de receita dos jornais, a da publicidade, ao permitir que mais olhos vejam notícias nesses sites e os anúncios que as acompanham. Tanto que eles escrevem no site da extensão que “usar o Burlesco com com adblockers [bloqueadores de anúncios] é fortemente desencorajado”, pois “o financiamento dos jornais precisa vir de algum lugar”.

“A democracia depende disso, né?”, diz Caio. “Da imprensa livre, e a imprensa precisa de dinheiro; deixamos isso a cargo de cada um”. Além disso, para Rodrigo o Burlesco não teria impacto na decisão de assinar ou não um jornal específico: “Não sei dizer se alguém deixou de ser assinante [de um jornal] por causa do Burlesco. Acho que a ideia da contribuição é que você não está pagando só pelo acesso; está pagando porque vê valor naquilo e quer apoiar”. Eles usam o exemplo do jornal britânico The Guardian, que não tem paywall e, mesmo assim, encerrou o ano fiscal de 2019 com 790 mil assinantes e 340 mil contribuições pontuais dos seus leitores.

Alguém que quisesse assinar os 20 sites suportados pelo Burlesco teria que desembolsar cerca de R$ 270 por mês2, valor inviável à maioria da população.

Sem fazer juízo de valor, o tema é, como já dito, controverso. Quem procura pela extensão do Burlesco nos diretórios oficiais do Chrome, do Google, e do Firefox, da Mozilla, não a encontra nesses locais porque ela foi banida deles. A Chrome Web Store tem uma cláusula que proíbe extensões de burlarem paywalls. No caso do Firefox, a Mozilla recebeu uma reclamação de infração de direitos autorais do Burlesco e, com base nela, removeu a extensão do diretório. Rodrigo e Caio acreditam que a reclamação tenha sido feita por um jornal estrangeiro. Após o episódio, eles decidiram concentrar seus esforços em publicações nacionais e ainda não sabem se, no futuro, voltarão a dar suporte a jornais de fora. A única maneira de instalar e atualizar o Burlesco é pelo site oficial.

Gráfico de acessos ao site do Burlesco, com um pico entre março e abril.
Pico de acessos entre março e abril no site do Burlesco. Imagem: Burlesco/Reprodução.

Por outro lado, a profusão de notícias falsas, totalmente gratuitas em apps que sequer descontam a franquia de dados dos planos de internet móvel, aumenta a pressão pela circulação de informação de qualidade, bem apurada e verificada — em outras palavras, o “produto” do jornalismo. Em eventos excepcionais, como a pandemia de COVID-19 pela qual passamos, essa urgência se revela com mais força. “Durante a pandemia, tivemos um pico de acessos no Burlesco”, lembra Caio. “O gráfico [acima] faz um ‘monte Everest’. A gente viu o Burlesco sendo utilizado como uma forma de ter acesso livre à informação. Achei isso bem importante”.

O Manual do Usuário oferece um programa de assinatura paga, mas o acesso ao site não está condicionado a ele — em outras palavras, não temos paywall. O assinante recebe alguns benefícios extras, como um relatório de bastidores mensal, ingresso em um grupo exclusivo no Telegram e participação em sorteios de livros e produtos de tecnologia.

Foto do topo: Heitor Godau/Flickr.

  1. Na data da publicação desta reportagem, eram: Correio Popular, Diário Popular, Exame, Folha de Londrina, Folha de S.Paulo, Gazeta do Povo, Gazeta Online, GaúchaZH, JOTA, Jornal NH, Jornal Pioneiro, Jornal VS, Nexo, NSC Total, O Estado de S. Paulo, O Globo, Quatro Rodas, Superinteressante, UOL e Veja. Nas configurações da extensão, porém, aparecem outros veículos como Crusoé e Estado de Minas
  2. Valores coletados no dia 8/9/2020, desconsiderando descontos para novos assinantes de curta duração (até três meses). A soma não inclui valores dos seguintes sites: Exame, Jornal Pioneiro, Quatro Rodas e UOL, por não terem ou apresentarem facilmente seus planos de assinatura digital.

Edição 20#33

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16 comentários

  1. Nos tempos da mídia impressa, o candidato a leitor de notícias podia assinar, comprar o jornal/revista em banca ou simplesmente parar em frente à banca e olhar as capas. A mídia digital cobra compromisso desde o início, exceto no caso de sites que oferecem alguma forma de degustação sem registro.

    Cheguei a usar sites como o Burlesco. Parei porque me sinto nadando contra a maré. Se me mandam links de notícias com paywall, simplesmente digo que não tenho acesso e pronto. Por outro lado, nenhum desses jornalões me convenceu a assiná-los.

    Se o Google desse uma opção de excluir dos resultados os sites com paywall, eu a selecionaria com gosto. Assim iria direto aos sites que posso consultar e não perderia tempo.

    Outro dia encontrei num site do grupo Globo uma notícia produzida pela BBC. Ao esbarrar no paywall, acessei a matéria no próprio site da BBC.
    O modelo do The Guardian é interessante porque põe o leitor em posição de poder. Eu mesma sou colaboradora e sei que esse suporte ajuda outros leitores a terem acesso às matérias – e não vejo isso como um problema.

  2. O trabalho que eles fazem sem dúvidas precisa de muito reconhecimento. É um repositório no Github que faço questão de acompanhar.

  3. Eu uso o Burlesco pra ler as notícias que eu quero, eventualmente – não leio tantas notícias assim – e assino a GZH aqui do RS que é a minha fonte principal para me informar – e faço com contraponto com o Correio do Povo e o Sul21, já citado, que são jornais sem paywall.

    Muitas vezes eu uso o burlesco para burlar o paywall de “jornalões” quando estou catando a notícia verdadeira que parentes me passaram pelo Whatsapp em correntes “patriotas”. Hoje em dia eu cato a informação verdadeira, verificada, e jogo num Gist no Github para poder espalhar pros meus parentes que jamais iriam instalar uma extensão “por fora”.

  4. Queria agradecer ao Editor do Site pela matéria e aos desenvolvedores do Burlesco. Utilizo com frequência a extensão e tem sido muito útil para me deixar bem informado e compartilhar notícias além da manchete.
    A “grande mídia” tem os seus problemas, mas ainda é uma excelente fonte para informações qualificadas. Assim que possível pretendo fazer uma doação mensal para um jornal local aqui do RS (Sul21) pois acredito que o trabalho deles merece ser remunerado, detalhe que eles nem usam paywall. Outro jornal muito bom é o Nexo, com matéria completas e muito claras, cheguei a assinar uns meses mas tranquei.

  5. Não há como não dizer que é ético tirar a forma como os jornais encontraram para tentar se financiar. Se está sendo suficiente, não cabe ao usuário decidir. Se o jornal colocou é porque acredita que é a forma que terão de sustentar suas contas, caso contrário podem vir a falência. Se anúncios fossem suficientes para manter o jornal, não colocariam paywall, mas é óbvio que não é suficiente, já foi, há anos, quando se pagava bem por anúncios, hoje as plataformas pagam migalhas e não há como se sustentar com elas, pra isso veio o paywall.

    Enfim, o modelo é complicado, talvez não se sustente e tenha que ser revisto, mas é tão pirataria quanto qualquer outra. Se é pra fazer analogia, digamos que na era dos DVDs eu alugasse um filme e fizesse uma cópia. Oras, o produto estava comigo, se eu consigo copiar eu posso copiar. Acho que todos concordam que não. Eu paguei pelo direito de vê-lo por 2 dias e devolver, tal qual o paywall, o fato do texto ser enviado do servidor para o usuário e em seguida bloqueado não te dá o direito de tirar o bloqueio, você não pagou por aquele conteúdo, voce não tem direito de acessá-lo. Se tecnicamente é possível tirar um bloqueio, tal qual o bloqueio de cópia dos DVDs, não significa que não seja errado fazê-lo.

    Uma boa discussão sobre paywall (e o que eu disse não é um resumo nem necessariamente segue a mesma linha da conversa do podcast em questão), é o recém publicado Braincast #373 O Dilema do Paywall, recomendo fortemente. Nele inclusive se menciona o caso do New York Times e como é uma compara ao injusta, um argumento fraco usá-lo como exemplo.

    Enfim, quero informação gratuita, não as sinto nenhum jornal, nem uso quebradores de Paywall. Tal qual a era da pirataria, estou esperando que seja resolvida pelos próprios criadores com um Netflix e Spotify, por exemplo, sonho com o dia em que haverá uma assinatura única, digamos 30 reais, que me dará acesso a todos esses jornais, e o valor será distribuído entre eles em proporção ao tempo e número de artigos que eu ler. Acredito que isso seria bom pra todos, mas falta uma boa conversa entre os concorrentes, o que é bem difícil.

    1. A questão do conteúdo ser entregue na minha máquina, a meu ver, diz que eu não sou obrigado a rodar localmente um código que um veículo injeta na página. Depois que o veículo me entregou os arquivos, scripts e conteúdos do seu site, eu rodo como quiser na minha máquina. Isso é um princípio básico da internet.

      Além disso, é (no mínimo) interessante quando o veículo entrega o conteúdo completo e sem travas para o Google para ganhar o benefício de ser indexado e receber acessos, mas não quer o ônus de manter essa informação aberta para quem possa chegar nele pelo resultado da pesquisa do Google. Se é pra falar de ética, acho que esse é um ponto importante de ser abordado também.

      De resto, não é tão simples fazer uma assinatura única tipo Netflix pra acessar todo o principal conteúdo de jornalismo do país. Já existem iniciativas nessa frente lideradas pelas grandonas de tecnologia Apple e Facebook e, até onde acompanhei, os resultados sempre são duvidosos. Os veículos não se beneficiam tanto, logo saem dos acordos.

      1. Os arquivos são entregues e espera-se que sejam carregados da forma como um navegador naturalmente o faria. Alterar esse fluxo para ter um acesso que você não deveria ter fatalmente é irregular. É como quebrar um código de um programa, acessar conteúdos pagos de um jogo sem ter pago, enfim, o fato do arquivo estar lá mas ser protegido por uma forma de pagamento deixa claro que usar artifícios pra acessá-lo sem pagar é irregular. Não adianta tentar dar voltas e dizer “ah, mas se tá lá eu posso”. Bem, você entra num avião, o assento da executiva está livre, mas você pagou pela econômica. você pode sentar na executiva? Ué, mas ele tá lá, não custa nada, qual o problema? Entende? Ficar tergiversando sobre como “eles entregam os arquivos e eu tenho o direito de fazer o que quiser” sendo que eles entregam com uma lógica do que vai ser feito e você está tentando interromper essa lógica propositalmente para ter acesso gratuito a um conteúdo que seria pago é indefensável.

        É mais honesto você dizer “eu sei que é irregular mas eu acredito na informação livre e espero que eles encontrem outros meios de se financiar”, do que tentar dar voltas na explicação tentando dizer que burlar paywall é correto.

        1. O que seria irregular, exatamente? Digo, irregular segundo qual parâmetro? Jurídico/legal? Ou algo de cunho moral? É importante termos essa base, porque dizer que algo simplesmente é “irregular” é um tanto abstrato nessa conversa.

          1. Eu considero ilegal, tal qual qualquer outro tipo de pirataria – ver art 184 do código penal.

            Salvo engano você é bacharel em Direito né Ghedin? Pode me dizer melhor do que eu se estou viajando na definição, mas trago o texto da lei pra faciltar:

            “Art. 184. Violar direitos de autor e os que lhe são conexos:
            Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa.”

            Simples é direito, se o autor exige um pagamento para ter acesso à obra, acessar sem pagamento é violar os direitos do autor, logo, crime.

          2. @ Juan Lourenço

            No direito brasileiro, pirataria só é entendida como crime quando há intuito de lucro, direto ou indireto de quem pirateia. Isso está expresso no § 4 desse mesmo artigo 184 do Código Penal:

            § 4º. O disposto nos §§ 1º , 2º e 3º não se aplica quando se tratar de exceção ou limitação ao direito de autor ou os que lhe são conexos, em conformidade com o previsto na Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998 , nem a cópia de obra intelectual ou fonograma, em um só exemplar, para uso privado do copista, sem intuito de lucro direto ou indireto.

            Eu não confiaria em mim para comentários jurídicos, por isso, quando escrevi sobre torrent, recentemente, consultei um especialista em direito digital e ele confirmou que pirataria para consumo próprio não é crime.

            Além disso, não me parece que o Burlesco configura pirataria. Ele não reproduz nenhum conteúdo. Como os criadores da extensão dizem, o que ela faz é remover um script de um conteúdo que já foi entregue pelo jornal.

            Acho que há espaço para debate na pirataria e no burlar paywalls, mas para um de natureza moral. Eu pirateio algumas coisas, como obras de grandes estúdios e/ou conteúdos velhos, que ainda não caíram em domínio público, mas que já se pagaram e hoje só sustentam herdeiros. Zero peso na consciência por isso. Mas eu me sentiria muito mal em piratear um filme independente, por exemplo.

            Essas discussões, da pirataria e da viabilidade dos jornais, têm muitas camadas (outra relevante: a gente vive num país pobre, é uma desconexão da realidade muito grande esperar que a maioria pague assinatura de jornal ou que somente isso vá sustentar qualquer operação editorial). Acho que reduzi-las a dicotomias do tipo se é certo ou errado burlar paywall/piratear o último Vingadores não nos leva pra frente.

    2. Entrando atrasado na discussão.

      A discussão moral e legal da pirataria bate em um problema extra: a questão da desigualdade social e da cultura.

      Teoricamente as pessoas deveriam ser bem informadas “sem custos” – dado que o Estado já fornece escola gratuita e permite que geradores criem conteúdos de informação e entretimento em canais abertos, tais deveriam ter “qualidade” suficiente para informar a todos os públicos, sem custos extras senão o gerado e ganho pelos tais.

      Informação hoje é commodity. Se vende para quem quer usa-lo para seus negócios ou para viver minimamente confortável sabendo do seu arredor. E a moeda de troca, senão o dinheiro, é a atenção do leitor e a conquista do ideal do mesmo.

      No caso do paywall, entendo que dependendo do canal que fornece a informação, burla-lo é apenas desvalorizar a commodity. Não é bem pirataria per si – pirataria, creio eu, seria pegar tal informação e replica-la em um terceiro canal sem bônus ao produtor do criador do primeiro.

      Entendo também que jornalistas deveriam ganhar um salário justo. Mas ao mesmo tempo não tenho como pagar todos os bons jornalistas para isso.

      Sei lá, um “fundo para financiamento jornalístico” ou uma “criação de cooperativa jornalística” será que seriam canais relevantes? Acho que já são uns 15 anos de discussões sobre como dar valor a informação em tempos atuais. Mas muitos dos bons jornalistas se perderam na discussão quando caiu na questão da pirataria e paywall.

      No final, o que vem sobrando ultimamente é oportunista que apoia canal de fakenews por exemplo, ou apoia o poder, mesmo que podre, para estar do lado do mesmo e exercer parte do tal.

      Uma vez acho que fiz uma provocação ao Felitti, dado que até hoje se ataca o Estadão devido as posições do jornal e muito jornalista mesmo contrário as posições está lá. No que o Felitti me responde ironicamente “Já ouviu falar em boleto?”.

      Toda e qualquer profissão hoje sofre por causa de um mercado ávido para lucro a engravatadinho liberalecu que corre com carro acima do limite de velocidade gerando poluição sonora, enquanto galera que trabalha para este sofre debaixo do sol forte literalmente tentando gerar informação.

  6. Nem todos os heróis usam capa, agradeço ao Rodrigo e o Caio pelo burlesco que há um bom tempo me ajuda a ficar bem informado.

    Mas depois desse ótimo texto fiquei pensando, existe algum estudo sobre a relação dos paywall nos grandes veículos de mídia e a disseminação de notícias falsas nos últimos anos?

    1. Eu acredito que devem estar sendo feitos diversos estudos nesse sentido. E dou o salto: as fake news PRECISAM dessa lógica torta do paywall para se disseminar de maneira viral. Sem os jornais grandes do país impedindo a informação de circular as pessoas recorrem a jornais “menores” e que acabam sendo financiados por grupos com interesses escusos, vide o que anda mostrando a CPI da Fake News.

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