O Evernote, aplicativo de anotações pioneiro, foi vendido por valor não divulgado à Bending Spoons, empresa italiana especializada em aplicativos móveis.

No comunicado oficial, Ian Small, CEO do Evernote, diz que com a venda, o Evernote “aproveitará a comprovada experiência e as amplas tecnologias proprietárias” da Bending Spoons para melhorar o aplicativo — que, não faz muito tempo, em 2020, passou por uma reformulação profunda em todas as plataformas, adotando o framework Electron.

Um “case” de pioneirismo que não se converteu em domínio, o Evernote parecia inescapável em algum momento do início dos anos 2010, com seus aplicativos onipresentes e, até então, funcionais.

A startup levantou US$ 290 milhões entre 2007 e 2014 e, em algum momento depois disso, meio que se perdeu: funcionalidades básicas passaram a falhar, aplicativos diversos foram lançados e até produtos físicos, como cadernos Moleskine e meias (!), passaram a ser vendidos com a marca Evernote.

Em paralelo, algumas decisões de negócio, em especial a imposição de limitações rígidas ao plano gratuito (sincronia apenas entre dois dispositivos) somada a um forte aumento dos planos pagos e uma tentativa desastrosa de atualizar a política de privacidade em 2016, afugentaram muitos usuários. Via Evernote (em inglês).

Não é fácil manter uma operação editorial de pé. Duas más notícias vindas de fora:

  1. O Protocol, site derivado do Politico que cobria tecnologia, fechou as portas após três anos de operação deixando 60 pessoas sem emprego.
  2. O Buzzfeed, que por algum tempo deu as cartas do setor ao surfar o algoritmo do Facebook com compilações de memes, está numa espiral decadente desde que abriu capital via SPAC em 2021. Os números são ruins: prejuízo de US$ 27 milhões no último trimestre, queda de 32% no tempo gasto na página pelos leitores e uma queda brutal no engajamento no Facebook, de 91,2%, entre 2018 e 2021 — e este ano deve ser ainda pior.

Via Protocol, CNN e The Verge (todos em inglês).

Vez ou outra temos a sensação de que a história humana está condenada ao mesmo roteiro repetido eternamente, apenas com personagens e contextos um pouco diferentes.

Há alguns anos, o Substack despontou como destino principal para escritores de fim de semana e gente que quer levar a sério o radical ato de escrever textões na internet. Não por acaso: é uma ferramenta fácil de usar, bem apresentável e em constante evolução. Mais importante, é totalmente gratuito a menos que você cobre pelas sua newsletter, e não há qualquer pressão para que ela seja cobrada.

Não surpreende, pois, que uma centralização no Substack esteja em curso. Além de ver cada vez mais newsletters com endereços terminados em substack.com, fui chamado à atenção para o fenômeno por este texto do Erik Hoel (no Substack!). Nele, Hoel exalta algumas características descentralizadas do Substack, seus efeitos de rede e o potencial de crescimento (“growth”) que desencadeia em newsletters de todos os tamanhos.

Não é algo muito diferente do que aconteceu no Facebook, Twitter, Instagram, do que acontece em paralelo no TikTok. Produza seu conteúdo ali, em uma plataforma de terceiros cheia de facilidades e gratuita, em troca da atenção das pessoas.

Isso funciona bem até o dia em que a plataforma passa a querer capitalizar, a realizar sua promessa (de lucro). Aí o alcance do Facebook/Instagram desaba e, caso você queira se comunicar com as pessoas que seguiram/curtiram sua página em algum momento do passado, precisa tirar o escorpião do bolso.

O Substack ainda está na fase de crescimento e tem uma aura descolada, anti-redes sociais. No fundo, é uma startup clássica, com +US$ 80 milhões levantados em quatro rodadas de investimento feita por firmas como a16z, Y Combinator e Quiet Capital — as de sempre.

Por tudo que o Substack faz de bom (e é bastante coisa), o saldo de concentrarmos a escrita ativa na web e no e-mail em uma startup só tende ao negativo. Porque é questão de tempo (ainda que seja bastante tempo) para que o arrocho dos escritores comece. Quando isso acontecer, é bom que o próximo Substack esteja pronto. Essas viradas costumam ser abruptas e destrutivas.

Tem sido difícil cobrir o Twitter sob o comando de Elon Musk. Num mesmo dia o serviço lança um recurso, a coisa sai do controle e, horas depois, o recurso é desativado.

Algumas coisas valem o registro, porém. Das últimas notícias, destaco a primeira reunião geral da empresa convocada por Musk, nesta quinta (10). Ele avisou que o Twitter pode sangrar bilhões de dólares em 2023 e que corre até o risco de ir à falência. A solução, diz, são as assinaturas pagas, que ele espera respondam por metade do faturamento do Twitter.

Momentos depois de terminada a reunião, mandou um e-mail aos funcionários dizendo que a “prioridade máxima” no momento é livrar a plataforma de robôs, spammers e trolls. Boa sorte com isso: executivos que lideravam áreas relacionadas a esse tema pediram demissão esta semana.

Há quem diga, a sério, que Musk está ativamente tentando destruir o Twitter por dentro. É uma hipótese meio descabida porque implica em torrar US$ 44 bilhões e comprometer as ações das duas outras empresas do magnata, Tesla e SpaceX. Apesar disso, é difícil imaginar uma gestão pior — e considere que o Twitter não tinha, nunca teve, na real, gestores exemplares. Via Platformer (em inglês).

A FTX era a terceira maior exchange de criptomoedas, avaliada em US$ 32 bilhões, antes de implodir no início desta semana. Uma mutreta do seu fundador, Sam Bankman-Fried, envolvendo uma empresa-irmã, a Alameda Research, e o FTT, token emitido pela FTX, expôs a incapacidade da exchange em garantir o dinheiro investido, o que levou a uma corrida de investidores para sacarem o que tinham lá.

Piora. A Binance, maior exchange do mundo, se ofereceu para comprar a FTX e cobrir o prejuízo, mas voltou atrás após dar uma olhada na contabilidade.

A Sequoia, que injetou mais de US$ 200 milhões na FTX em 2021, entubou o prejuízo integral — a famosa firma de capital de risco do Vale do Silício reavaliou sua parte na FTX em US$ 0 (zero). O futuro da FTX é incerto. Via Bloomberg, Wall Street Journal, @sequoia/Twitter (todos em inglês).

Uma das principais promessas do mercado de NFT era a de que os artistas ganhariam comissões nas negociações do mercado secundário, ou seja, de vendas feitas após a inicial.

Só tem um problema: as comissões/royalties não estão previstas na blockchain e, dada essa discricionariedade, vários marketplaces passaram a isentar os negociadores da comissão ou torná-la opcional.

Para ilustrar a situação, na x2y2, um dos marketplaces que adotaram a comissão opcional, em apenas 18% das compras de outubro os criadores receberam comissão.

A OpenSea, maior marketplace de NFTs do mundo, está prestes a adotar uma política que banirá marketplaces rivais que não obrigam ao pagamento das comissões. Só que isso valerá apenas para novos NFTs. Os antigos estão num limbo e os artistas, com razão, impacientes com a situação. Via Decrypt (em inglês).

US$ 20 por mês para manter meu selo azul? Foda-se, eles é que deviam me pagar. Se isso for instituído, estou fora igual a Enron.

— Stephen King, comentando a ideia de Elon Musk de cobrar mensalidade pelo selo azul de verificação.

Musk respondeu King e propôs um valor menor, de US$ 8 por mês. Mais tarde, oficializou a ideia ruim com uns penduricalhos adicionais e, depois, fez chacota com os críticos.

O selo azul de verificação sinaliza que um perfil é de quem diz ser, e apenas isso. Não tem valor de autoridade, mas algumas pessoas (e Musk parece estar nesse grupo) o encaram assim.

Cobrar pelo selo de verificação não resolve nenhum problema do Twitter. Pelo contrário: cria um balcão para a venda de legitimidade na plataforma — e por uma mixaria.

Imagine o tanto de golpistas que não pagariam felizes US$ 8 para terem um endosso da plataforma? De propagadores de desinformação explorando essa noção torta de que o selo azul confere autoridade para bagunçar ainda mais o debate público? (Ainda mais agora, com as ferramentas de moderação do Twitter restritas.)

O sistema de verificação do Twitter é historicamente falho, mas botar um preço nele é, provavelmente, a pior “solução” em que alguém poderia pensar.

A ideia de que os poucos interessados em pagar para manter o selo azul faria alguma diferença nas contas do Twitter é ridícula. Não há escala para isso e, como Stephen King apontou, a verificação de perfis é um negócio mais vantajoso ao Twitter do que aos perfis verificados. No mínimo, é de interesse é mútuo.

Ao oficializar o plano no Twitter, Musk bradou que se trata de dar “poder ao povo”. “É a caricatura da democracia burguesa”, que tem a desprezível característica de colar uma etiqueta de preço a tudo, até à condição inerente a todos nós, que independe de dinheiro, de sermos “povo”.

O PicPay vai encerrar o Guiabolso em novembro. Compra em julho de 2021 para transformar-se em “protagonista em OpenBanking e acelerar marketplace financeiro”, o Guiabolso é (era?) um aplicativo simples de controle financeiro que se conectava às instituições bancárias do país.

“O objetivo é centralizar todas as funcionalidades, serviços e produtos em um único app, que é ainda mais completo”, disse a empresa em seu blog. O PicPay afirma que todas as funcionalidades do Guiabolso foram migradas para o app do PicPay.

Usuários do Guiabolso serão avisados do fim do aplicativo ao longo da semana e poderão baixar seus dados em formato de planilha eletrônica. Ótima escolha, aliás: bem flexível e à prova de aquisições e encerramentos abruptos. Via PicPay.

A Adobe e a Pantone™ encerraram uma parceria de longa data e, como resultado, agora é preciso pagar uma mensalidade pelo plugin Pantone™ Connect para que arquivos do Photoshop, Illustrator e InDesign que usem cores da paleta proprietária da Pantone as exibam corretamente. Não quer pagar? As cores Pantone™ são substituídas por preto.

Os preços variam por região. No Brasil, a assinatura anual do Pantone™ Connect custa R$ 37,85 por mês (12 meses pagos numa tacada só), com 7 dias de gratuidade.

A Pantone™ conseguiu, de alguma maneira, tornar-se proprietária de cores (o que estou escrevendo?) e após décadas de colaboração com a Adobe, decidiu tirar uma lasquinha do mercado de SaaS que a Adobe vem explorando há alguns anos com grande sucesso financeiro.

O “legal”, nos lembra Cory Doctorow, é que, sendo softwares alugados, não existe a possibilidade de estacionar numa versão do Photoshop para não ser afetado pela mudança. Há relatos de arquivos criados há 20 anos que tiveram cores Pantone™ trocadas por preto. Via @funwithstuff/Twitter, Kotaku, Pluralistic (todos em inglês).

Atualização (15h20): Stuart Semple lançou o Freetone, um plugin gratuito que faz o “matching” de cores com a paleta Pantone™.

Agora é oficial: Elon Musk é o novo dono do Twitter. Nesta quinta (27), ele visitou o escritório do Twitter, demitiu Parag Agrawal, CEO da empresa, e outros executivos do alto escalão (segundo o Washington Post), e iniciou alguns processos burocráticos inerentes ao negócio, como a retirada do Twitter da Bolsa de Nova York e a dissolução do conselho administrativo.

Musk assumirá o cargo de CEO interinamente, de acordo com o New York Times e o TechCrunch.

Antes, também na quinta, Musk publicou uma carta aberta aos anunciantes do Twitter em seu perfil. Com um tom mais comedido, afirmou que, apesar das suas promessas anteriores de “liberdade de expressão absoluta”, não espera que o Twitter vire uma terra sem lei.

O Twitter sob a direção de Musk é uma incógnita. Se por um lado a saída do mercado de capitais diminui pressões externas, por outro as ideias e visão de mundo de Musk são… esquisitas, para dizer o mínimo. (Dia desses ele estava planejando uma solução para o conflito na Ucrânia como se fosse uma briga de crianças da quinta série. O ego desse homem deve ser infinito.)

Considerando que o Twitter já não vinha bem das pernas desde… sempre?, é esperar para ver. Mas espere usando o colete salva-vidas. São grandes as chances de estarmos em um barco afundando. Via Washington Post, New York Times, TechCrunch (todos em inglês).

Como chegamos até aqui?

por Guilherme Felitti

Nota do editor: Este é um Tecnocracia diferente, gravado ao vivo pelo Guilherme Felitti durante a Python Brasil, evento que rolou em Manaus (AM) no último sábado (22). O texto abaixo foi levemente adaptado para facilitar a leitura. Se preferir, veja no YouTube e acompanhe os slides.

Quando me convidaram [a palestrar na Python Brasil], fiquei muito honrado e pensando por que que me chamaram. Não foi exatamente pela minha capacidade de programar em Python. Tem seis anos que programo — eu era jornalista e fiz uma mudança de carreira.

Meu nível técnico é muito melhor do que era, mas tem algumas coisas do Python que ainda não consigo entender, como decoradores. Aquilo para mim um grande mistério. O ponto principal é eu não estou aqui para falar de questões técnicas, mas para “desanimar” vocês um pouco. Quero conversar sobre as consequências da tecnologia, porque falar das consequências da tecnologia é falar também do trabalho de vocês e como ele está impactando a sociedade.

Começo dizendo que nenhuma tecnologia é isenta, nenhuma tecnologia age no vácuo. A partir do momento que ela sai da mente humana, ela sempre é adaptada e impacta outros seres humanos. De uma maneira um pouco menos etérea, isso significa que as tecnologias, quando são introduzidas na sociedade, têm consequências que quase ninguém é capaz de antever.

(mais…)

Uma coisa é preciso reconhecer: o sangue frio que Mark Zuckerberg tem mantido no último ano da Meta.

Nesta quarta (26), a empresa apresentou seu balanço do terceiro trimestre. Os números vieram abaixo do esperado, Zuck avisou geral que vai continuar torrando bilhões de dólares no metaverso, mesmo com o prejuízo tendo aumentado consideravelmente e os produtos mornos que a Meta tem lançado.

Neste momento (~13h30), o papel da Meta na Nasdaq cai quase 30%, colocando seu valor de mercado abaixo dos US$ 300 bilhões. E pensar que em setembro de 2021 esta mesma empresa valia quase US$ 1 trilhão… Via CNBC (em inglês).

Junto às novas versões do iPadOS e macOS, a Apple atualizou várias diretrizes da App Store nesta segunda (24). Destaque para a que estende a “taxa Apple” (até 30%) às compras de impulsionamento em aplicativos de redes sociais, como Facebook, Twitter e Instagram.

No mesmo movimento, a Apple diminuiu consideravelmente o apelo dos NFTs no iOS (apps não podem vincular recursos e benefícios à venda de NFTs) e aumentou seu poder de controle, dando a si mesma o poder de rejeitar aplicativos que faturam/lucram com “eventos recentes” prejudiciais, como conflitos violentos e ataques terroristas (aplicativos de jornais entram nessa classificação?).

A partir do raciocínio de Neil Katz, dá para dizer que Apple é uma empresa “sui generis”: aumenta sobremaneira seu poder centralizador no momento em que a pressão por suas práticas momopolistas atinge o ápice e, ao mesmo tempo, consegue vender sua marca como premium mesmo vendendo várias dezenas de milhões de produtos todo trimestre. Via Apple, FOSS Patents, @neilkatz/Twitter (todos em inglês).

por Shūmiàn 书面

Logo depois de os Estados Unidos publicarem restrições no segmento, a China foi listada formalmente como o principal desafio econômico para os EUA, segundo documento publicado pela Casa Branca na semana passada. De acordo com a Estratégia de Segurança Nacional do governo de Joe Biden, a China tem destaque sobretudo na concorrência econômica.

Mais do que isso, a nova política do governo Biden levou à demissão em série de funcionários estadunidenses que trabalhavam em empresas de semicondutores chinesas.

O impacto, explicado nesta edição do ChinaTalk, veio a partir de um documento, lançado na sexta-feira (7), que impõe uma série de sanções no setor, inclusive exigindo licenças para seus cidadãos trabalharem com essas tecnologias na China e exigindo inspeções em uma lista de fábricas selecionadas.

A Associação Chinesa da Indústria de Semicondutores (CSIA) respondeu às mudanças, criticando a decisão de transformar uma questão comercial em tema de segurança nacional. O discurso de Xi Jinping — sobre autossuficiência — parece estar em consonância com o perigo que a nova política oferece para a indústria chinesa, conforme comentou Jordan Schneider.


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A ressaca pós-pandemia do mercado de computadores bateu forte, com as vendas declinando 15% no terceiro trimestre deste ano. Há uma exceção, porém: a Apple.

Pela primeira vez, a Apple vendeu mais de 10 milhões de computadores em um trimestre. Enquanto todas as outras grandes fabricantes apresentaram quedas na casa dos dois dígitos, a Apple aumentou as vendas dos seus Macs em 40,2%.

Tudo bem que parte desse desempenho é mera compensação de gargalos logísticos que afetaram as vendas do primeiro trimestre. Ainda assim, é algo a ficar de olho. Via IDC (em inglês).