O Google ainda parece estar atordoado com o atropelo da OpenAI e seu ChatGPT. Duas reportagens nos últimos dias mostram desavenças internas e dificuldades em lidar com as novas e sérias ameaças que rondam a empresa nesses tempos de inteligências artificiais.

Em uma, da Bloomberg, a reportagem conversou com alguns funcionários e ex-funcionários do Google para mostrar como o lançamento desastrado do Google Bard ignorou diversos alertas e pedidos por um adiamento, do setor de ética a funcionários comuns.

O Google jogou no lixo anos de trabalho em salvaguardas e cuidados no uso de IA frente a uma ameaça corporativa. Não que seja surpresa, mas o episódio dá uma dimensão do que realmente importa dentro dessas empresas.

A outra, do New York Times, revela o “pânico” que se instalou dentro do Google em março diante da notícia de que a Samsung estaria cogitando trocar o Google pelo Bing, da Microsoft, como motor de busca padrão em seus celulares. Estima-se que essa parceria renda US$ 3 bilhões por ano ao Google.

Bônus: uma música viral, com vocais de Drake e The Weekdn criados por uma inteligência artificial, colocou o YouTube (que é do Google) em um dilema existencial: ao tirar do ar a canção, a pedido da Universal (gravadora que representa Drake), o Google diz implicitamente que trabalhos derivativos de IAs ferem direitos autorais, abrindo um precedente que coloca em risco as suas próprias IAs. Se não fizer nada, compra briga com a indústria fonográfica. No The Vergeum ótimo artigo acerca desse assunto.

O Reddit vai cobrar o acesso à sua API de empresas que treinam grandes modelos de linguagem (LLMs) usados em inteligências artificiais como o ChatGPT. “Achamos justo”, disse Steve Huffman, cofundador e CEO do Reddit.

Desenvolvedores de aplicativos e robôs e pesquisadores continuarão tendo acesso gratuito à API do Reddit.

Atualização (10h39): Ao contrário do que noticiou o New York Times, a API também passará a ser cobrada de desenvolvedores. Pelo menos é o que diz Christian Selig, criador do Apollo: “O uso gratuito da API para aplicativos como o Apollo não é algo que eles [Reddit] vão oferecer, logo, eu oferecer o uso gratuito do app provavelmente será muito difícil. É quase certo que o Apollo terá que mudar para um modelo [em que exista] apenas Apollo Ultra (leia-se: assinatura paga).”

Huffman parece entender uma ou outra coisa melhor do negócio do que seu colega do Twitter, que quebrou a API gratuita e afugentou meio que todo mundo da plataforma.

Cabe aqui um exercício que extrapole a situação do Reddit a toda a web.

O Google e outros buscadores desde sempre vasculham e processam o conteúdo de sites, mas até então havia uma relação de troca: o Google e outros buscadores “pagavam” esse acesso mandando pessoas que buscam por coisas que os sites oferecem. É algo que funciona bem. No Manual, por exemplo, a maior parte dos acessos é originada no Google.

Com as IAs, como o ChatGPT, Google Bard e Bing Chat, essa troca deixa de existir porque elas devolvem a resposta na própria página do buscador, sem que a pessoa interessada precise visitar outro site — no caso, a fonte da informação. Os buscadores viram parasitas, e… bem, no fundo, os chatbots explicitam um problema que já vinha se desenhando, conforme estes dados de 2019.

Mesmo um site pequeno, como o Manual, pode oferecer um corpus de dados significativo. (Em quase dez anos, publicamos 4,3 mil posts e 111,1 mil comentários.) Se interfaces como a do ChatGPT realmente se firmarem na rotina das pessoas, ocupando o espaço antes dedicado às pesquisas na web, prevejo dias difíceis pela frente. Via New York Times (em inglês).

Enquanto especialistas debatem a consciência e o risco catastrófico das inteligências artificiais gerativas, no mundo real elas já causam desequilíbrios. Fóruns populares no Reddit e a pequena plataforma de blogs Bear Blog estão enfrentando ondas de spam potencializadas pelo ChatGPT. Spam sempre existiu, mas a IA gerativa aumenta exponencialmente o volume — e a dificuldade em lidar com o problema. Via Vice, Blog do Herman (ambos em inglês).

por Shūmiàn 书面

Sem anúncio prévio, o governo chinês publicou nesta terça-feira (11) o primeiro rascunho da lei de Inteligência Artificial generativa, que regula mecanismos como o ChatGPT.

A preocupação sobre quais serão os limites da IA nas nossas vidas é tema de debate no mundo todo. Quanto é preciso regular? Pequim trouxe propostas iniciais para isso, como mostra o analista Vincent Brussee, do Merics, neste fio no Twitter. Ele diz que, em linhas gerais, é preciso que o conteúdo gerado esteja de acordo com o pensamento socialista e que não deve conter nada que subverta o poder do estado, nem obscenidade, informações falsas e conteúdos que possam corromper a ordem social e econômica.

Pelo primeiro rascunho há ainda preocupação com questões ligadas a discriminação e à propriedade intelectual. É também mencionada a necessidade de que os provedores de IA deixem claro como o mecanismo é elaborado, a fim de evitar que os usuários confiem demais na tecnologia.

O China Translate Law trouxe comentários detalhados de artigo por artigo. O Rest of World publicou um texto mostrando como a IA já está levando alguns empregos.

Lembrando que a Administração do Ciberespaço da China, em parceria ministerial, já havia definido a regulação de serviços de “síntese profunda” — a IA usada na geração de conteúdos como realidade aumentada e em deepfakes.

A Shūmiàn 书面 é uma plataforma independente, que publica notícias e análises de política, economia, relações exteriores e sociedade da China. Receba a newsletter semanal, sem custo.

Alarmismo e inteligência artificial

Mais de 1 mil personalidades, de Elon Musk a Steve Wozniack, passando por Yuval Harari e Tristan Harris, publicaram uma carta aberta pedindo a suspensão de “grandes experimentos com inteligência artificial (IA)”.

A presença proeminente na lista de figuras como Harari, que tem difundido um alarmismo incompreensível em jornais de grande circulação, e de Musk, que dispensa comentários, já seria sinal de alerta.

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Papa de casacão estiloso; seu backup está em dia?

Neste episódio do Guia Prático, Rodrigo Ghedin e Jacqueline Lafloufa comentam a foto viral do Papa Francisco vestindo um casacão estiloso. Ela foi feita com inteligência artificial, não existiu, mas enganou muita gente. No segundo bloco, aproveitamos a deixa do Dia Mundial do Backup para debater boas práticas e soluções para facilitar a manutenção de backups — não dá para deixar esse assunto para quando for tarde demais.

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Indicações culturais

Música de abertura: Free Jazz, de Steve Combs.

Papa Francisco vestindo um casaco branco estiloso.
Imagem: r/midjourney.

A imagem do Papa Francisco vestindo um casaco estiloso é provavelmente a primeira imagem falsa gerada por inteligência artificial (IA) a viralizar como real. Muita gente (eu também) achou que ela era verdadeira — antes que alguém notasse um glitch na mão direita do papa.

A imagem foi gerada com a IA Midjourney, que em sua versão mais recente aprendeu a contar os dedos das mãos de seres humanos. (Pelo visto, precisa treinar mais.)

Na newsletter Garbage Day, Ryan Broderick fez a cronologia da imagem. Ela foi criada por alguém no Reddit, mas viralizou no Twitter.

Nota relacionada: semana passada, o TikTok publicou regras para conteúdo gerado por IAs. Agora, “mídias manipuladas ou sintéticas que mostrem cenas realistas devem apresentar informação clara sobre a natureza do conteúdo”.

Seria pedir muito que o Twitter de Elon Musk tivesse ou estivesse preparando algo similar. Musk acredita que a solução para esse problema é todo mundo pagar R$ 42/mês para o Twitter, o que não faz o menor sentido, mas… né, o que faz sentido no Twitter da era Musk? Via Garbage Day, @elonmusk/Twitter (ambos em inglês), TikTok.

A OpenAI abriu o ChatGPT para plugins. Os vários exemplos são bem impressionantes. É como se o chatbot tivesse ganho a sua “loja de aplicativos”.

Destaque para o plugin Browsing, da própria OpenAI. Com ele, o ChatGPT aprende a pesquisar a web e resolve uma das suas principais limitações: o corte seco em sua base de conhecimento em 2021. Até então, ele não conseguia “conversar” a respeito de nada que tivesse acontecido nos últimos anos. Agora, o chatbot “dá um Google” (não no Google; você entendeu) e extrai informações de sites.

A princípio, os plugins serão limitados a desenvolvedores e alguns usuários pagantes do ChatGPT. Acesse a página ao lado para ver as (impressionantes) demonstrações. Via OpenAI (em inglês).

Eu sabia que tinha acabado de testemunhar o avanço mais importante na tecnologia [IA gerativa] desde a interface gráfica.

Bill Gates, cofundador da Microsoft e filantropo, falando da “era da inteligência artificial”.

Um eterno otimista, Gates vê usos benevolentes e revolucionários para a inteligência artificial — do tipo desenvolvido pela OpenAI e Google — em setores deficitários no mundo, em especial saúde e educação.

Na parte em que aborda os usos na educação, ele admite que “computadores não tiveram o efeito na educação que muitos de nós na indústria esperavam”.

Posso estar sendo negativo aqui, mas algo me diz que a história se repetirá com a inteligência artificial…

Via Gates Notes (em inglês).

O Google abriu o Bard, seu rival do ChatGPT, em caráter experimental. Por ora, apenas em inglês, com fila de espera e limitado a residentes dos Estados Unidos e Reino Unido.

Devem existir motivos para essa restrição geográfica, provavelmente de cunho jurídico, mas é frustrante para o resto do mundo. Mais ainda porque, hoje, ChatGPT e Bing Chat estão disponíveis para qualquer um, em qualquer lugar do mundo, falando português do Brasil, até mesmo “mineirês” (eu vi, haha).

No comunicado oficial, executivos do Google dizem que o Bard “será expandido a mais países e idiomas” sem especificar prazos. Esperarmos sentados.

Em nota mais ou menos relacionada, a Microsoft embutiu o DALL-E, gerador de imagens da OpenAI, no Bing Chat. Via Google, Microsoft (ambos em inglês).

Inovação para quem?

O South by Southwest (SXSW) voltou a ter uma edição normal em 2023, toda presencial em Austin, no Texas, depois de um cancelamento, uma edição online e outra híbrida, tudo isso em decorrência da pandemia de covid-19.

Com recorde de brasileiros, o evento tem a inglória missão de falar de inovação e antecipar tendências em um mundo que muda rapidamente, o tempo todo. Ainda é possível?

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Esta pedra estava cantada: na quinta (16), a Microsoft anunciou o Copilot, uma integração do GPT-4/ChatGPT aos produtos da antiga família Office, atual Microsoft 365 (Word, Excel, Outlook etc.).

É tudo aquilo que se esperaria num primeiro momento. Com breves comandos, o Copilot escreve textos, resume outros, extrai dados de planilhas, gera apresentações de slides. Há, ainda, um chatbot baseado na tecnologia.

A Microsoft diz que um diferencial do Copilot é que ele combina o poder do GPT-4 com os dados gerados pelo usuário. É um caso de uso mais fechado, e que, por isso, pode acabar se mostrando mais útil.

Um parêntese aqui: o marketing da Microsoft, não é de agora, vem pesando a mão nesses vídeos de divulgação, não? Por um momento acreditei que o Word estivesse bonito como no vídeo acima. Não é o caso. Via Microsoft (em inglês).

Coincidência ou não, 14 de março de 2023 foi um dia marcante para o agitado setor de inteligência artificial.

A OpenAI lançou o GPT-4, nova versão da sua IA gerativa, base do ChatGPT. Alguns produtos comerciais, como Duolingo e o Bing, da Microsoft, já fazem uso da nova versão da IA. (Para usá-la no ChatGPT, por ora, só pagando.)

Em testes divulgados pela OpenAI, o GPT-4 mostrou-se ainda mais articulado e parecido com seres humanos, passando com sucesso por testes de cognição. O grande diferencial da nova versão, ainda indisponível ao público, é a capacidade de interpretar imagens. Vários exemplos no site oficial.

Do outro lado do front, o Google anunciou uma API e ferramentas para desenvolvedores “plugarem” seus sistemas aos grandes modelos de linguagem da empresa, e uma espécie de ChatGPT integrado ao Google Docs e ao Gmail.

Sobrou até espaço para a Anthropic, empresa especializada em IAs gerativas que recebeu um investimento pesado do Google em janeiro (~US$ 300 milhões), lançar o Claude, um chatbot que, promete a startup, “alucina“ menos que os rivais. Via OpenAI, Google, Anthropic (todos em inglês).

Em vez de colocar um chatbot sabe-tudo na frente dos resultados da busca, como os rivais Bing e Google estão fazendo, o DDG está usando os poderes da OpenAI e Anthropic para resumir textos da Wikipédia e devolver em consultas/perguntas mais objetivas, que comportem respostas diretas.

Por ora, só funciona em consultas em inglês e usando o navegador ou extensão do DDG. Se tudo correr bem, o chamado DuckAssist será “promovido” ao buscador, independente do navegador/extensão próprio da empresa.

Fora a utilidade, que ainda precisa se provar, a iniciativa do DuckDuckGo é, no mínimo, interessante, por mostrar que outros usos de IAs gerativas são possíveis. Estou curioso com o que virá a seguir — no comunicado, a empresa disse que o DuckAssist é o primeiro de vários produtos previstos que usam essa tecnologia. Via DuckDuckGo (em inglês).

O lado bom do ChatGPT; Uma conversa sobre o Órbita com Gabriel Nunes

Neste Guia Prático, Rodrigo Ghedin e Jacqueline Lafloufa voltam a falar de inteligências artificiais gerativas, como o ChatGPT, só que com uma nova perspectiva. E se… elas forem legais? No segundo bloco, Ghedin conversa com Gabriel Nunes, idealizador e parceiro no Órbita, o novo espaço para conversas no Manual do Usuário.

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