Luta contra sindicatos expõe o lado retrógrado da Big Tech

por Guilherme Felitti

Terminado o primeiro semestre, 2022 já trouxe algumas novidades técnicas bastante relevantes em tecnologia: o chip M2 solidificou a Apple como um player cada vez mais poderoso no setor de chips, o DeepMind decifrou a estrutura de quase todas as proteínas conhecidas e o telescópio espacial James Webb produziu as imagens mais detalhadas do Universo, enquanto o metaverso, tal qual um carro a álcool numa manhã gelada de julho na década de 1990, dá várias partidas em falso com a esperança de pegar no tranco.

Como a gente já falou aqui, nos últimos anos os assuntos mais interessantes que acontecem no mercado de tecnologia não têm relação necessariamente com chips, códigos e placas de silício. São notícias que mostram como a tecnologia saiu do caderno de informática dos jornais1 para adentrar nas coberturas política e policial. É desse certame que, ao meu ver, vem um dos assuntos mais interessantes em tecnologia em 2022. Envolve um tipo de organização inventada não na última década e nem mesmo no último século. A Mesopotâmia e a Babilônia já experimentavam essa tecnologia 2 mil anos antes de Cristo. Após a Revolução Industrial, com o fim do vassalagem e a emergência de uma economia baseada na indústria, o movimento ganhou ainda mais força e os traços que observamos até hoje. Essa “tecnologia” não envolve necessariamente cálculos. É mais uma forma de mobilização e interação humana do que uma tecnologia naquele sentido clássico da acepção de tecnologia como uma ferramenta externa que lhe permite melhorar algo já possível ou executar algo impossível.

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O Ministério Público Federal (MPF) de São Paulo recomendou ao WhatsApp que adie a liberação das Comunidades no Brasil para 2023. No compromisso firmado com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o WhatsApp/Meta disse que seguraria essa e outras atualizações, como a expansão do limite de usuários em grupos, para depois do segundo turno das eleições, ou seja, final de outubro.

A recomendação do MPF tem 30 páginas de considerações. Embora o pedido faça sentido considerando a patifaria que ocorreu nos Estados Unidos em janeiro de 2021, quando o candidato derrotado e golpista Donald Trump tentou melar o resultado das eleições de lá, e considerando (estou parecendo o MPF nas considerações) a retórica golpista explícita do nosso postulante à reeleição, Jair Bolsonaro (PL), é quase como se os procuradores estivessem mirando no mensageiro (literalmente) e não no problema em si.

Afinal, não é como se o WhatsApp só pudesse ser usado para arquitetar golpes de estado, nem seja o único aplicativo do tipo. A um toque de distância está o Telegram, por exemplo, com capacidade para 200 mil pessoas por grupo e cada vez mais popular no Brasil.

Um caminho alternativa seria incluir salvaguardas e restrições ao funcionamento dos aplicativos na legislação — algo complexo e não sei se o melhor caminho. Outro, que em tempos de normalidade institucional seria óbvio, é enquadrar quem usa o WhatsApp ou qualquer outro meio digital para causar arruaça nos crimes já previstos em lei. Via Núcleo, MPF-SP.

O Brasil aparece em 54º lugar, com um preço médio de US$ 0,74 por 1 GB baseado em 45 planos, no ranking de planos de internet móvel da Cable.co.uk, empresa especializada em comparação de preços de planos de internet.

Ficamos atrás de alguns vizinhos sul-americanos — Uruguai (9º, US$ 0,27/GB), Colômbia (31º, US$ 49/GB) e Chile (32º, US$ 0,51) —, mas bem melhor que a média da região (US$ 4,09/GB). Note-se, porém, que essa média é puxada bastante para cima pelas Ilhas Malvinas, que têm o segundo gigabyte mais caro do mundo, por US$ 38,45.

O território com o gigabyte mais caro do mundo é Santa Helena, outra ilha britânica ao Sul do Atlântico, com pouco mais de 4 mil habitantes. Por lá, 1 GB custa US$ 41,06. O gigabyte mais barato é o de Israel, onde custa US$ 0,04.

O levantamento da Cable.co.uk considerou 5 mil planos de dados móveis de 233 países e territórios, com dados coletados entre 16 de março e 2 de junho. Gráficos, planilhas com os dados brutos e comentários da empresa estão no link ao lado. Via Cable.co.uk (em inglês).

por Cesar Cardoso

A expansão latino-americana das marcas da BBK Electronics segue um roteiro bem previsível: chega pelo Chile ou pelo México, se expande para países do Pacífico com mercados grandes (Peru ou Colômbia) e, a partir daí, atravessa os Andes para chegar no Brasil. Foi assim com a Realme, está sendo assim com a Oppo, conforme previmos há cinco newsletters atrás (e será assim com a OnePlus e a vivo).

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O ministro das Comunicações, Fabio Faria, disse que vai aos Estados Unidos na próxima terça-feira (2/8) pedir à Apple para atualizar o iPhone para a rede 5G brasileira. A suposta falta dessa atualização seria o impeditivo para que os modelos compatíveis (linha iPhone 13 e iPhone SE de 3ª geração) acessem a rede 5G standalone (o 5G “puro”, na faixa de 3,5 GHz).

O presidente da Anatel, Carlos Baigorri, deve acompanhar Faria nesta importantíssima ~missão crítica. Como os 1% de brasileiros com iPhone 13 nas capitais podem ficar sem 5G?? Ainda bem que o governo está atento a esse absurdo.

Pedi posicionamentos às três envolvidas na história — Anatel, Ministério das Comunicações e Apple.

A Apple não respondeu.

A Anatel disse apenas que eu deveria “entrar em contato com o Ministério das Comunicações”. Reforcei o questionamento, afinal esses modelos de iPhone constam na lista de aparelhos compatíveis com 5G da própria Anatel. Se não são compatíveis, não deveriam ser removidos de lá?

Por qualquer motivo estranho, essa segunda mensagem foi barrada porque “violou as políticas de segurança por ser classificada como SPAM/Phishing”.

O Ministério das Comunicações enviou o seguinte posicionamento:

Os aparelhos homologados pela Anatel para funcionamento com a quinta geração de redes móveis já estão habilitados a operar as duas versões de 5G: o non-Standalone (em rede compartilhada com as outras gerações) e o Standalone (puro). Porém, smartphones da marca Apple necessitam de uma atualização de software para o funcionamento específico do 5G Standalone.

A visita do ministro das Comunicações, Fábio Faria, e do presidente da Anatel, Carlos Baigorri, à sede da empresa nos EUA pretende agilizar a disponibilização dessa atualização para que os usuários brasileiros possam desfrutar do “5G puro” nas próximas semanas.

Por que o estado deveria se envolver nisso, sem falar no envolvimento pessoal do ministro das Comunicações, são perguntas que seguem em aberto. Afinal, não é como se não houvesse modelos já compatíveis com 5G — Samsung e Motorola têm vários à venda. É do interesse exclusivo da Apple, das operadoras e dos seus clientes que essa lacuna seja resolvida. O que o Estado tem a ver com isso? Via Telesíntese.

Apple, Google, Microsoft e Amazon usaram ouro ilegal de terras indígenas brasileiras

Apple, Google, Microsoft e Amazon usaram ouro ilegal de terras indígenas brasileiras, por Daniel Camargos no Repórter Brasil:

Você não sabe disso, mas ao ler esta reportagem você pode estar usando ouro extraído ilegalmente de terras indígenas brasileiras. Celulares e computadores das marcas Apple e Microsoft, bem como os superservidores do Google e da Amazon, têm filamentos de ouro em sua composição. Parte desse metal saiu de garimpos ilegais na Amazônia, passou pela mão de atravessadores e organizações até chegar nos dispositivos das quatro empresas mais valiosas do mundo, revela uma investigação da Repórter Brasil.

Documentos obtidos pela reportagem confirmam que essas gigantes da tecnologia compraram, em 2020 e 2021, o metal de diversas refinadoras, entre elas a italiana Chimet, investigada pela Polícia Federal por ser destino do minério extraído de garimpos clandestinos da Terra Indígena Kayapó, e a brasileira Marsam, cuja fornecedora é acusada pelo Ministério Público Federal de provocar danos ambientais por conta da aquisição de ouro ilegal. A extração mineral em terras indígenas brasileiras é inconstitucional, apesar dos esforços do governo Jair Bolsonaro (PL) para legalizá-la.

A Agência Pública, primeira agência de notícias sem fins lucrativos do Brasil, lançou nesta segunda (25) o Projeto Sentinela, uma aliança entre jornalistas e acadêmicos para investigar as campanhas de manipulação do debate público e a desinformação online nas eleições de 2022, com especial foco naquelas que ameaçam a estabilidade democrática.

O Projeto Sentinela é fruto de uma parceria da Pública com o pesquisador David Nemer e o Berkman Klein Center for Internet & Society da Universidade de Harvard.

O Manual do Usuário entra nessa como veículo parceiro do projeto, ao lado de outras três redações — Núcleo Jornalismo, Galileu e MobileTime.

Daqui até as eleições de outubro, republicaremos os conteúdos do Projeto Sentinela. A primeira já está no ar.

Como uma rede de políticos articulou ataques virtuais contra professores em Santa Catarina

por Mariama Correia

Selo de republicação da Agência Pública.Esta matéria foi produzida pela Agência Pública, a primeira agência de jornalismo investigativo sem fins lucrativos do Brasil.

O professor de História Carlos Eduardo Bartel tem mais de 20 anos dedicados ao ensino. Há cerca de um mês, ele virou alvo de uma campanha de difamação e assédio nas redes por defender melhorias na educação. As mensagens de ódio foram impulsionadas no Instagram e no Facebook por perfis bolsonaristas que se articulam com políticos locais e com uma rede de ataques ao ensino público no Brasil, conforme apurou a Agência Pública.

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A Oppo, da China, está desembarcando no Brasil. É a quarta maior fabricante de celulares do mundo, de acordo com a consultoria IDC, atrás de Samsung, Apple e Xiaomi.

Para a estreia por aqui, a Oppo escolheu o celular Reno7, um modelo intermediário com suporte a redes 4G. Ainda não foram divulgados outros detalhes, como preço e data de lançamento.

A Oppo chega ao Brasil num momento de baixa, com projeções indicando uma retração de 12,7% nas vendas de celulares em relação a 2021. Via Valor Econômico.

A organização do Codecon fez um mapeamento dos profissionais de tecnologia brasileiros. Os números são baseados em 1.293 entrevistas, feitas via formulário online, respondidas por desenvolvedores do Brasil inteiro.

Há muitos dados interessantes e surpreendentes ali, como a quantidade de celetistas (51,9%) e salários (média nacional de R$ 7.489,50).

Outros revelam que a pecha de pouco diverso do setor de tecnologia não é à toa: 86% dos respondentes são homens, 85,8% se dizem heterossexuais e 61,6%, brancos.

Todos os resultados podem ser vistos no link ao lado. Via Codecon.

Apesar da conclusão contrariar o argumento, este artigo do Tecnoblog assinado por Josué de Oliveira condena a pirataria fazendo uso de uma série de terrorismos e imprecisões legais.

“É difícil convencer as pessoas sobre os impactos negativos da pirataria”, escreve o autor. Acho eu que é mais difícil convencer dos supostos prejuízos. As estimativas de perda de receita da indústria, por exemplo, partem da premissa (equivocada) de que quem consumiu um filme ou uma música pirata compraria o original se não tivesse outra opção.

O maior problema do texto, porém, é a caracterização estreita que ele tenta fazer da pirataria — um tema delicado, complexo, cheio de nuances.

O artigo do Tecnoblog coloca no mesmo balaio a venda de DVDs piratas na rua, a venda de produtos físicos falsificados em lojas virtuais e a pirataria digital, em grande parte feita por hobbistas e consumida por pessoas comuns, sem intuito de lucro (o que configuraria o tal crime previsto no nosso Código Penal). Também nivela a produção das grandes empresas à das pequenas, como se as circunstâncias e consequências fossem as mesmas nos dois cenários.

Esse artigo replica o discurso da grande indústria, aquela que, a despeito dos bilhões de “prejuízo” causados pela pirataria, nunca deixou de lucrar. Ele toma uma posição sem assumi-la de fato. É, em resumo, um desserviço ao debate, aos consumidores e aos próprios leitores do Tecnoblog.

Do nosso arquivo:

Golpe do trabalho de meio período já causou prejuízo de pelo menos R$ 200 mil

Mantenho uma listinha com possíveis pautas para o Manual do Usuário. É normal, para o ritmo do site, que algumas fiquem ali por semanas, maturando, até entrarem em produção, outro processo longe de ser imediato — em geral leva alguns dias; às vezes, semanas.

Para o relato em que “caí” no golpe do emprego de meio período que prometia pagar até R$ 5 mil por dia, o intervalo entre a ideia e publicação foi de algumas horas.

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Nova marca da Multi, com um “M” cheio de curvas contra um fundo roxo.
Imagem: Multi/Divulgação.

A Multilaser agora se chama Multi e lançou uma nova marca (acima). A mudança reforça a origem brasileira da empresa e seu vasto portfólio, com mais de 5 mil produtos. Junto à mudança de nome e marca, a Multi vai investir R$ 100 milhões em ações de marketing.

A nova marca teve a consultoria da In Brand, com a agência Soko e com o time in-house da Multi. Via Propmark.

Sem especificar um motivo, a Crunchyroll, streaming especializado em desenhos japoneses, anunciou uma redução de preço em 95 países. O Brasil está entre eles; por aqui, a mensalidade caiu de R$ 32 para R$ 19,99, redução de 37,5%. Talvez seja um reflexo da superpopulação de serviços de streaming pagos? Via Crunchyroll (em inglês).

O Reddit é conhecido pelo seu modelo descentralizado de moderação, mas mesmo ali existem algumas regras gerais que precisam ser respeitadas. A administração da rede social está lembrando alguns subreddits dessas regras de maneira mais ativa.

Na última semana, os subreddits r/PoliticalCompassMemes e o brasileiro r/Brasilivre publicaram anúncios gerais dizendo para os usuários pegarem mais leve em alguns temas sensíveis, como insultos e incitação à violência contra a população LGBT+, mulheres, celebração de suicídio e alguns outros.

No r/Brasilivre, um subreddit com quase 200 mil inscritos que flerta abertamente com a extrema-direita, os moderadores reagiram espelhando a comunidade no Scored, uma rede social que replica o funcionamento do Reddit, mas com regras mais frouxas, e no Matrix. Via r/Brasilivre, r/PoliticalCompassMemes, r/AgainstHateSubreddits (os dois últimos em inglês).