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Milícias digitais como o QAnon ameaçam, com a ajuda das redes sociais, o pacto civilizatório

Quando eu entrei no jornalismo e, especificamente, no jornalismo de tecnologia, o clima que conduzia a área era de otimismo. Meu primeiro texto foi publicado em 2003, quando eu estava no terceiro ano de faculdade, o Google ainda era uma startup a se provar, Microsoft e GE se alternavam como maior empresa do mundo, a Nokia estava a quatro anos de lançar seu primeiro smartphone realmente popular, o N951, e Mark Zuckerberg era apenas um estudante de Harvard que fundaria o Facebook no ano seguinte2. O mundo ainda estava escalando a ladeira do “tecno-otimismo”, incentivado por algumas novidades que soavam, à primeira vista, como se fossem piadas.

Há um caso clássico a se relembrar: em 1º de abril de 2004, o Google anunciou o lançamento de um serviço de e-mail chamado Gmail, que daria, gratuitamente, a 1 GB de espaço a cada usuário. O anúncio foi calculado pelo Google para soar como uma piada — já naquela época, o Google tinha fama de fazer brincadeiras no Dia da Mentira. Um serviço de e-mails com 1 GB em um momento em que serviços similares ofereciam alguns Mega bytes soava como mais um chiste. Não era. Minha chefe na época passou algumas boas horas ligando para a sede da editora onde trabalhávamos para confirmar se era piada ou notícia.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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Um dos principais assuntos que ocupavam/preocupavam o jornalismo de tecnologia nessa época era a expectativa de que a internet revolucionaria a forma como consumimos e oferecemos nosso conteúdo. Parecia óbvio, do conforto de 2003, que o copyright, as regras que condicionam como e quem pode consumir, distribuir e reproduzir obras intelectuais, estava fadado ao fracasso, implodiria lentamente pela popularidade da internet. Em seu lugar, entraria um conjunto de regras e licenças chamado Creative Commons, nascido já tendo o compartilhamento digital em mente.

Ao contrário do copyright, o CC dava flexibilidade para que quem cria conteúdo definisse, por exemplo, que aquela música poderia ser compartilhada e remixada gratuitamente, desde que o conteúdo resultante também usasse uma licença CC. Embalado pelo otimismo de imaginar que haveria uma troca entre o conjunto de regras que governa a publicação e consumo de conteúdo digital, os mais apressados já passaram a desenhar um mundo em que a produção intelectual — músicas, livros, filmes e afins — seria totalmente gratuita, o que desencadearia uma nova “Belle Époque” intelectual. Com tudo, na teoria, livre para consumo, não existiria mais as amarras do preço para impedir que um futuro cineasta consumisse toda a filmografia do Kurosawa, do Bergman e da Agnès Varda para criar um catálogo cinematográfico de referências. Com tudo (ou quase tudo) grátis, era óbvio que as pessoas se informariam melhor e tomariam melhores decisões. Era explícito, cristalino como a água.

Corta para 2020 e não foi nada disso que aconteceu. O copyright continua firme e forte. Editoras, gravadoras e estúdios de cinema encontraram novas formas de proteger suas obras e lucrar em cima delas. (Vamos deixar algo claro aqui: é necessário um mecanismo que remunere quem passa anos e anos se dedicando intelectualmente a algo.) Já o Creative Commons nunca virou o que se esperava. Hoje, trata-se de um assunto limitado a um grupo pequeno de pessoas que ainda discute a evolução das leis de licenciamento no ambiente online. Você encontra artistas que oferecem discos por CC, por exemplo, mas o movimento não cresceu da forma como se esperava naquele 2003 utópico. O que não quer dizer que não existe conteúdo protegido por copyright disponível fácil e gratuitamente por aí. Plataformas de streaming de vídeo e música facilitaram o acesso a milhões de álbuns e filmes, ao mesmo tempo em que espremeram criadores de conteúdo com pagamentos considerados abusivamente baixos. Maior serviço de streaming do mundo em catálogo e número de assinantes, o Spotify continua operando no vermelho. É óbvio que essa balança ainda não encontrou seu equilíbrio. Mas meu argumento aqui não é na tensão entre quem produz e quem comercializa. É em quem consome. Seja nos streamings, na pirataria (que está crescendo com a fragmentação dos serviços de vídeo) ou no jornalismo, nunca houve tanto conteúdo disponível gratuitamente a todos. Mas a tal da Bella Époque nunca passou de uma ilusão.

Toda as nossas certezas partem de algumas premissas. Antes da pandemia, eu saía de casa para trabalhar em um café baseado nas premissas de que eu não seria assaltado no meio do caminho, o que mudaria totalmente meu planejamento, ou que o café estaria aberto e com Wi-Fi disponível. A teoria de que o conteúdo livre transformaria todos em intelectuais tem lacunas enormes não só no conjunto de regras, mas também na motivação humana. No desejo das pessoas. Em nós. A variedade de conteúdo disponível não fez a sociedade tomar decisões melhores, por exemplo, respeitando as evidências empíricas da ciência. Pelo contrário. Nunca fomos são fragmentados. Nunca houve tanto espaço para desinformação e teorias da conspiração. Nunca fomos tão polarizados. A sociedade, em diferentes países e culturas, nunca esteve tão rachada.

A abundância de conteúdo digital resultou no oposto extremo do consenso utopicamente esperado. Há um século, um sujeito já tinha visto isso e publicou um livro em que defendia que, em algum momento, chegaríamos à situação atual. Depois de décadas apanhando, esse sujeito está se vingando. O Tecnocracia da quinzena vai falar sobre teorias da conspiração, barbárie, pacto civilizatório e a culpa das plataformas digitais.

Walter Lippmann, de terno, sentado em uma mesa. Foto em preto e branco.No começo do século XX, o jornalista Walter Lippman fundou, com alguns colegas, a The New Republic, uma bem-sucedida revista de política e artes em circulação até hoje. Durante a Primeira Guerra Mundial, Lippmann percebeu como o fluxo de informação era usado pelos dois lados para moldar a forma como a opinião pública percebia o conflito. Sua experiência era prática: o jornalista tinha sido convocado pelo então presidente norte-americano Woodrow Wilson para formar o Comitê de Informação Pública, “a agência cuja função era criar propaganda para aumentar o apoio à Primeira Guerra Mundial. A experiência o ensinou o quão manipulável o público era, quão fácil o público se rendia a narrativas convincentes. Nós ouvimos sobre o mundo antes de vê-lo, nós imaginamos coisas antes de experimentá-las e nós nos tornamos reféns dessas pré concepções”.

A experiência foi tão profunda que, ao fim da guerra, Lippmann começou a colocar em palavras uma teoria baseada em suas observações: a de que existe uma lacuna intransponível entre a democracia e a percepção que cada um de nós tem sobre o mundo. Em outros termos, a democracia tinha falhas estruturais tão grandes que era possível usar narrativas para convencer o público a agir civicamente. “Public opinion” foi publicado em 1922, quatro anos após o fim da guerra, e se tornou um sucesso na mesma medida em que foi criticado. O livro é a pedra fundamental de áreas como relações públicas, estúdios de mídia e ciência política. Muitas das críticas que recebeu eram relacionadas à segunda parte do livro, em que, após descrever as principais falhas da democracia, Lippmann sugeria uma solução. Mais sobre isso adiante.

Um dos episódios que melhor demonstrou a Lippmann o tamanho monstruoso da mudança em curso aconteceu em 1916, quando franceses e alemães se enfrentavam na Batalha de Verdun, na França, a mais longa batalha na Frente Ocidental da Primeira Guerra Mundial. As tropas alemãs, muito mais preparadas, estavam esmagando as francesas naquela região ao norte do país. Em Paris, comandantes elaboraram relatos que seriam distribuídos à imprensa com palavras que não davam noção exata da encrenca. Quem lia o relato tinha a impressão de que tudo estava sob controle. Semanas depois, os alemães divulgaram que tinham tomado o Fort Douaumont, o principal em Verdun. A notícia era terrível à França. Como tinham “massageado a verdade” nos comunicados anteriores, restou aos comandantes franceses criar uma versão fantasiosa, segundo a qual o avanço dos alemães era fruto de derrotas inesperadas (com dezenas de mortes) em alguns fronts. A questão é que era mentira. Aliás, não só o relato francês. O alemão, embalado em um tom heróico, também era 100% fantasioso. Não houve batalha: alguns alemães entraram no forte e renderam ainda menos franceses. A história registra que não houve tiros disparados. O único ferimento foi o joelho raspado de um soldado alemão – um rolê de bike em São Paulo vai criar mais cicatrizes que tomar um forte na França (o N é de 1, não tente extrapolar3).

Foto em preto e branco de soldados montados em cavalos dentro de um rio.
A batalha de Verdun.

O que não estava claro, nem para os soldados nem para os cidadãos longe do front, é que nascia ali a campanha em larga escala para influenciar audiências e avançar agendas, principalmente políticas. Os norte-americanos (e Luciana Gimenez com eles) chamam isso de “propaganda”, o mesmo termo que a gente usa em português (sorry, Lu) para descrever o mercado publicitário. Falta um termo exato para “propaganda” em português. Historicamente, você tem campanhas de cunho político para influenciar a sociedade desde, pelo menos, 500 anos antes de Cristo, no império Persa. Mas foi a partir da Primeira Guerra que a informação passou a ser vista como uma arma a ser usada em outro prolongamento da guerra, bem longe das trincheiras enlameadas da Europa de 1916.

As opiniões que cada um de nós tem sobre o mundo são constituídas de experiências, mas também de relatos que nos foram repassados por obras, como livros, ou relatos orais, da boca de nossos parentes ou amigos. Todo mundo, todo dia, constrói o mundo que não pode ver por si mesmo. A gente consome (num ritmo hoje até desconfortavelmente alto) informação para ser capaz de entender, opinar e tomar decisões sobre o mundo que a gente vê e que a gente não vê. Parecia claro para Lippmann que a intromissão de poderes políticos nesse processo de formação que cada um de nós passa diariamente teria consequências bastante sérias na formação da opinião pública — não à toa o nome o livro.

O relato fantasioso sobre a tomada do Forte Douaumont só foi divulgado, segundo Lippmann, porque aquela guerra sangrenta e heróica já fazia parte da expectativa da população. Franceses e alemães tentaram explorar a noção já construída na cabeça das pessoas de que algo grandioso estava acontecendo. É o que ele chama de estereótipo, uma simplificação de um cenário muito mais complexo na vida real.

Esse impacto só era possível porque, explica Lippmann, a propaganda em escala mostrou que existe uma cisão entre notícia e verdade, algo que ele explica melhor no segundo parágrafo do capítulo 24. “Notícias e verdade não são a mesma coisa e devem ser claramente distinguidas. A função da notícia é sinalizar um evento, a função da verdade é trazer à luz os fatos escondidos, é traçar a relação entre eles e pintar uma cena de realidade na qual os homens podem agir”.

O problema é que determinar efetivamente o que é verdade é mais difícil em alguns campos do que em outros. “Se estamos reportando estatísticas esportivas, pesquisas eleitorais ou cotações de ações, então a objetividade é fácil, mas quando discutimos as análises de condições econômicas ou o valor dos sindicatos ou os méritos do sistema de saúde universal ou os limites do poder do Estado, não existe um teste do tipo. O que estamos fazendo não é descobrir a verdade, mas construir narrativas e essas narrativas refletem nossos vieses, nossas experiências, nossa ignorância, nossas esperanças, nossa confusão. Todos nós vemos a realidade por uma lente fosca”. Isso nunca foi novidade nenhuma para quem trabalhou ou trabalha no jornalismo, mas eu já não me choco de ver que o resto do planeta descobriu a realidade nos últimos anos.

Vamos parar um pouquinho porque você já notou que a gente tocou em alguns pontos que, sim, eram presentes depois da Primeira Guerra Mundial, mas que estão no centro de debates muito atuais — campanhas de desinformação, viés de confirmação, campanhas fortes de PR, ataques à imprensa… Walter Lippmann morreu em 1974, com a “propaganda” mais forte do nunca, mas ainda a algumas décadas de ver como sua teoria ganharia corpo. Da mesma forma que eu adoraria ler um artigo do Antoine Lavoisier sobre os restaurantes a quilo no Brasil, onde realmente nada de cria e tudo se transforma, eu daria um bom dinheiro para ler o que Lippmann teria a falar do atual estado da propaganda, principalmente por uma questão de escala.

Pelo menos desde a Primeira Guerra Mundial, sempre tivemos estratégias de comunicação com fundo político em larga escala. Foi da Primeira Guerra que também surgiu a indústria da publicidade como conhecemos hoje — o primeiro capítulo de The attention merchants, no qual o Tim Wu explica como o modelo de agregar atenção oferecendo um veículo gratuito ou muito barato e revender para anunciantes, é fruto da mesma década em que Lippmann publicou Public Opinion. As primeiras peças da publicidade moderna (no sentido de um esforço concentrado em passar uma mensagem de maneira visual) eram grandes pôsteres espalhados pela Inglaterra convocando jovens britânicos a se alistarem para a guerra. Enfim, voltando. Desde pelo menos 1916 a gente vê estados distribuindo desinformação ou contrainformação para tentar mudar a forma como o público os vê. Isso era uma numa realidade em que governos e uma ou outra organização (como empresas) adotavam a estratégia. Era 1 (ou 2) para N. Quando a gente entrega numa comunicação de N para N, o modelo ganha uma escala — e um potencial danoso — inédita.

A vantagem de você ter uma narrativa única é o incentivo à coesão social: existem pontos de contato entre pessoas que pensavam radicalmente diferente dentro de uma mesma realidade, seja ela real ou fabricada (como a história do Forte Douaumont)4. Quando não existe mais uma narrativa centralizada que una todos, quando cada um pode escolher se abrigar na sua câmara de eco para consumir a informação que mais corrobora suas visões de mundo, a gente vê uma fragmentação brutal dessa “convivência coletiva”, digamos assim. Tem um livro muito bom sobre o assunto escrito há mais de dez anos chamado O filtro invisível, do Eli Pariser.

Isso não seria um problema se fossemos todos pessoas decentes que admitem que muitas informações que não nos agradam ou que desafiam a nossa noção de realidade, o estereótipo que construímos do mundo, nas palavras do Lippmann, são verdadeiras, inquestionáveis, que o erro está na nossa percepção, não nos fatos. Que aquilo, para seguir de novo a distinção do Lippmann, é verdade, não (só) notícia. Mas a sociedade de maneira geral não tem essa decência embutida. Quando fato vira opinião na cabeça de quem está enclausurado em suas narrativas, perdem eles, mas também perdemos todos.

E aqui há um fator que torna aquele modelo do Lippmann, quando modernizado, ainda pior: há um século, você sabia quem estava por trás da campanha de desinformação. Eram governos, basicamente. Hoje, existe a aliança entre governos nacionais e grupos sobre os quais você não sabe absolutamente nada, mas que produzem um conteúdo que justifica as crenças de um grupo cada vez maior de gente, por mais amalucado que seja o teor desse conteúdo. Na prática, é como se todos nós andássemos com uma caixa de papelão bem em frente ao rosto onde se desenrola uma narrativa que só a gente vê. Quem é o diretor dessa peça de teatro?

Você já deve ter entendido que eu fiz essa volta toda para falar sobre QAnon, um grupo extremista (o FBI o classificou como uma potencial ameaça terrorista doméstica) que surgiu do esgoto da internet com crenças que seriam rejeitadas pelo Hermes & Renato, de tão esdrúxulas e nonsense que são. Segundo o QAnon, o governo norte-americano é composto por uma seita de satanistas e pedófilos cujo único objetivo é impedir Donald Trump de descobri-los e combatê-los. Some a esse caldo racismo, antissemitismo, xenofobia… O que nasceu como uma piada virou um movimento político inacreditavelmente relevante. Em agosto, a primeira política que apoia publicamente o QAnon foi eleita para o equivalente à assembleia legislativa do estado da Geórgia. Não deverá ser a única. A eleição norte-americana de outubro, que colocará em disputa a Casa Branca e centenas de outros cargos, como cadeiras no Congresso, estará cheia de candidatos que apoiam publicamente o QAnon.

O que levou um grupo conduzido por anônimos que divulgam teorias da conspiração delirantes da latrina da internet para a campanha presidencial norte-americana em pouco mais de dois anos? Claro, há a explicação de como as grandes plataformas, guiadas pela postura petulante de defender que o papel de cada uma não era julgar o conteúdo publicado, deram o fermento para que o grupo terrorista atingisse um público ainda maior. O QAnon nasceu num chan, quando um user chamado Q passou a divulgar “informações” sobre como havia um pequeno grupo de resistência no governo norte-americano a combater os burocratas satânicos e pedófilos que queriam derrubar Trump. Sério, gente, isso não é piada. Acredita-se que, tal qual o Pirate Dread Roberts, personagem do criador do Silk Road que, depois da sua prisão, foi adotado por outros, Q é um apelido coletivo atualmente. Mas o simples fato de não termos certeza quanto a formação de um grupo que está distribuindo teorias da conspiração no palco político do país mais poderoso do planeta é perturbador5.

QTeam virou também o apelido da equipe próxima a Trump com inteligência militar que, incapaz de falar publicamente sobre a “guerra contra os satanistas pedófilos” (mano, não acredito que essas palavras estão saindo da minha boca…), solta pistas sobre as “ameaças”. Aí, bonitinho, qualquer coisa que o presidente fale ou faça, qualquer gravata de cor X ou Y vira alguma pista que ele está tentando comunicar. Discursos, caminhadas, tuítes são destrinchados. A política vira um jogo de caça ao tesouro sem qualquer ligação com a realidade. Sabe aquelas reportagens do pessoal que vê Jesus numa torrada e, por isso, vende tudo que tem para construir uma igreja banhada de ouro no interior do país? É isso multiplicado por 100, tanto no alcance quanto na loucura.

O alcance é uma oferecimento das plataformas digital e você não vai se surpreender agora quando eu disser que o Facebook tomou ações há alguns anos que ajudaram muito no crescimento do QAnon, né? Em 2017, o Facebook anunciou com alarde que mudaria o algoritmo para mostrar mais conteúdo dos grupos do que das páginas, uma forma de tentar contornar o crescente problema das mentiras espalhadas na rede sem assumir o papel de mediador. Dois anos depois, Mark Zuckeberg falou aos investidores que a mudança tinha sido um sucesso. O número de usuários do Facebook que faziam parte de “grupos significativos” saltou de um milhão em 2017 para “centenas de milhões” em 2019. Só que o que parecia água para tentar apagar o incêndio das fake news era, na verdade, gasolina. Ao indicar novos grupos e incentivar usuários a entrarem neles, o Facebook colocou em contato, pela primeira vez, milhões de usuários com movimentos antivacina, terraplanismo e, sim, QAnon. Um estudo interno do Facebook divulgado em julho mostrou que a base QAnon dentro da rede já era composta por milhões de usuários espalhados em milhares de grupos.

Alimentado pela maturidade da Poliana, o Facebook ajudou a radicalizar ainda mais rápido uma audiência ainda maior, que passou a receber “propaganda” diretamente em seus feeds. Em agosto, o Facebook removeu 790 grupos, 440 páginas e mais de 10 mil contas do Instagram, além de restringir quase 2 mil grupos ligados ao movimento.

Tarde demais. A serpente já tinha nascido. “O Facebook é definitivamente o maior pedaço de infra-estrutura do QAnon. Enquanto as pessoas que foram tragadas para essas campanhas de desinformação já estão afetadas, prevenir que elas se espalhem para novos grupos e novas audiências é uma intervenção, entre tantas, necessária. A não ser que exista algum tipo de coordenação entre plataformas online para se livrar dos principais influenciadores QAnon, o movimento vai continuamente voltar a aparecer”, diz a pesquisadora Joan Donovan, diretora do Shorenstein Center on Media Politics and Public Policy da Kennedy School dentro de Harvard.

Agora, o alcance explica só uma parte. A gente podia ter um feed entulhado das piores teorias da conspiração possível que, se o bom senso da galera fosse bom como a vontade de biscoitar no Instagram, toda essa loucura que faria José Mojica Marins se envergonhar passaria batida. A outra parte é: por que diabos as pessoas acreditam nisso?

A comunicação mediada por bolhas, o questionamento de instituições atreladas à divulgação de “notícias e verdades” e de fatos inegáveis (as vacinas, a forma da Terra…), alimentada por campanhas perpetradas por grupos muitas vezes anônimos e entubada por um público que precisa corroborar seus estereótipos, leva a um cenário de esgarçamento do pacto civilizatório, aquele conjunto de leis que nos separa dos animais e permite que vivamos em sociedade sem precisar recorrer à violência constante.

Se ainda não está claro o que é pacto civilizatório, um exemplo simples. Existe um meme que roda a internet que mostra um comentario do Mano Brown falando que “depois que inventaram desculpas nunca mais morreu ninguém kkkk”. Pacto civilizatório é mais ou menos isso6. Para conseguir fazer com que bilhões de pessoas desconhecidas entre si dividam o mesmo espaço e convivam diariamente sem descambar para a guerra campal e as mortes idiotas, a sociedade adotou regras básicas — a Constituição, o Código Penal, BIll of Rights, o código moral não escrito que rege quase todas as sociedades — e as aperfeiçoou ao longo da história na medida em que evoluímos — daí não usarmos mais a Lei de Talião, a do “olho por olho, dente por dente”. Quem infringir essas regras pode sofrer sanções leves, como o isolamento, ou graves, como décadas de prisão ou, cada vez menos, a pena de morte. O pacto civilizatório funciona como um tecido que nos conecta, mas a metáfora também vale para quando tentam rasgá-lo — você vai puxando para testar o quanto as fibras se mantêm unidas. A partir de um certo momento, a tensão é tamanha que o tecido se rompe. O Brasil tem visto algo do tipo nos últimos anos, embalado por essa adoração à morte, o governo dos sonhos de Tânatos. É aí, quando não faz diferença se há lei ou não pois que a realidade já não a obedece, que regredimos. Entramos na barbárie.

A gente já tem episódios de barbárie conectados diretamente ao QAnon. Uma das pedras fundamentais do QAnon foi um caso conhecido como PizzaGate: em dezembro de 2016, um sujeito invadiu uma pizzaria em Washington DC (a da foto, lá em cima) e deu tiros com um fuzil AR-15 por ter lido na internet que a pizzaria estava por trás de um escândalo de pedofilia que envolvia Hillary Clinton, a então candidata democrata à Casa Branca naquele ano. Com o QAnon formado e já muito popular, Cynthia Abcug se juntou a colegas do movimento para sequestrar a própria filha, da qual não tinha custódia. Jessica Prim foi presa em maio após publicar vídeos e fazer lives em que repetia teorias da conspiração do QAnon e dirigir até Nova York com dezenas de facas para “se livrar” do candidato democrata Joe Biden. Está notando um padrão aí? A gente pode passar a madrugada falando de casos de violência no mundo real que são consequência direta da retórica QAnon: todos os casos são alinhados politicamente à extrema-direita. Não existe QAnon que não de extrema-direita (pelo menos até agora). É a atualização da teoria do Lippmann: projetos de governos e grupos anônimos trabalham em consonância para espalhar uma agenda política para um público maior. Não à toa, Trump já retuitou dezenas de contas atreladas ao QAnon — o pesquisador Alex Kapman mantém um fio no Twitter com todos os episódios desde maio de 2019. A pá de cal veio em coletiva no fim de agosto, quando o presidente enalteceu o grupo.

Prints de tuítes conspiratórios retirados por Donald Trump. Nomes das contas ocultados.
Alguns retuítes conspiratórios de Trump no Twitter. Imagem: @AlKapDC/Twitter.

Tá bom, mas uma pergunta não foi respondida: por que diabos as pessoas acreditam nisso? Daqui a uma década a gente já deve ter estudos suficientes para pintar um cenário mais definido que justifique a ascensão de fenômenos como o QAnon e seus impactos na política. Agora, tudo está meio nublado, mas dá para concluir alguns pontos.

As pessoas não começaram a acreditar em teorias da conspiração agora. Há quem duvide que o homem pisou na Lua desde que o homem pisou na Lua, em 1969. Há algumas explicações. A primeira passa por superestimar nossa habilidade em reconhecer padrões. “Algumas vezes, nós exageramos — achamos ter encontrado sentido e significado quando não há nada. Nós assumimos que algo acontece porque alguém ou algo fez aquilo acontecer por uma razão”, explica professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Londres, Chris French. Há também a discussão sobre traços psicológicos. Estudo liderado por Anthony Lantian, professor do Departamento de Psicologia da Universidade Paris Nanterre, atrelou traços pessoais como “abertura a experiências, desconfiança, baixa capacidade de concordar e maquiavelismo” à crença em teorias da conspiração. Talvez o mais interessante do estudo, porém, é que ele detalhou como acreditar em teorias da conspiração nos dá um ar de singularidade. Em um mundo que preza pela individualidade, cujo discurso de autenticidade impregna Instagram e LinkedIn, sair da corrente de pensamento padrão, ainda que baseado em delírios, é uma forma de se descolar do rebanho. É o tipo de coisa que fica muito claro quando você, solteiro ou solteira, entra nos aplicativos de paquera. É óbvio como todos, homens e mulheres, criam seus perfis com um objetivo de singularidade, de ser especial, mas, agregados, é explícito como todo mundo é mais ou menos igual, fala mais ou menos as mesmas coisas, assiste a mais ou menos os mesmos filmes e séries em épocas determinadas. Com a cabeça no travesseiro, o(a) conspirador(a) se vê como alguém especial por “NÃO CAIR NO PAPO DA GRANDE MÍDIA”, quando na verdade ele/a está caindo no papo de uma galera incomensuravelmente pior.

Além da busca por autenticidade no esgoto da internet, há uma outra explicação: “experimentos revelaram que sentimentos de ansiedade fazem as pessoas pensarem mais em termos conspiratórios. Tais sentimentos, junto à percepção de exclusão/privação de direitos, atualmente atingem vários norte-americanos7, segundo pesquisas. Em situações assim, uma teoria conspiratória pode fornecer conforto ao identificar um conveniente bode expiatório, dando a impressão de que o mundo é um lugar mais objetivo e controlável. ‘As pessoas assumem que se esses vilões não estivessem ali, então tudo estaria bem. Enquanto que, se você não acredita em teorias conspiratórias, então tem de admitir que coisas horríveis acontecem aleatoriamente'”, segundo Stephan Lewandowsky, pesquisador de teorias da conspiração da University of Western Australia em entrevista para a Scientific American.

A vida é uma coisa complexa, uma sucessão absolutamente aleatória de fatos. Absorver e processar algumas das novidades que a vida nos traz é um trabalho difícil; nem todo mundo consegue. De vez em quando, esses fatos totalmente aleatórios se alinham de uma forma que você olha e pensa: “hummm…” Quem nunca passou por uma fase terrível em que várias coisas ruins aconteceram ao mesmo tempo? Eu já. Foi uma merda, o pior semestre da minha vida. Pessoas em situação de vulnerabilidade, seja psíquica ou financeira, são mais facilmente recrutadas por esses movimentos radicais, simplesmente por eles oferecerem uma explicação (delirante, factualmente errada, preconceituosa) para a complexidade do mundo. Baseado nesse framework, não é uma surpresa que exista um interesse maior em teorias da conspiração durante a pior pandemia do século e as crises — econômica e de saúde — que se seguiram.

Movimentos como o QAnon não vão embora tão cedo. Primeiro porque as plataformas digitais mantêm uma postura displicente. É a lógica da Hidra de Lerna8: se não houver um esforço em desplataformizar os principais líderes, o movimento ressurgirá sempre com força e isso é culpa das plataformas também. Ao ignorarem o movimento nos últimos anos, a plataformas lhe deram fermento. A serpente saiu do ovo e ainda teremos que lidar com movimentos que seguem regras parecidas por um bom tempo. Não vai embora. Segundo porque a comunicação continuará mediada por telas em ambientes aos quais, muitas vezes, não temos acesso — o Facebook e o WhatsApps “profundos”, com links que fazem sucesso lá, é um ótimo lembrete. Terceiro porque o QAnon apresenta um novo método de influenciar no processo político: a aliança entre atores públicos e milícias digitais anônimas em nome de um projeto de poder, numa visão atualizada do que o Lippmann propôs. Esse novo método deverá ser adaptado e replicado nas próximas décadas por diferentes grupos do espectro ideológico.

O lado bom é que as premissas falsas de que a gente falou no comecinho do episódio já foram destruídas. Temos à nossa frente, cristalino, qual é o problema: milícias digitais exploram a comunicação em bolhas para distribuir conteúdo falso e preconceituoso a um público que precisa corroborar seus estereótipos com objetivos puramente políticos. A escalada da barbárie é necessária para quem tenta vender a lei e a ordem a qualquer preço. Não me parece aleatório que, na última década, tenhamos visto a ascensão de projetos de poder de extrema-direita no mundo. A comunicação digital não é a única explicação (existem questões relativas à globalização e uma crescente desigualdade de renda), mas é um ingrediente muito relevante nessa sopa. Mais que aleatório, o esgarçamento do pacto civilizatório é projeto. Projeto do qual, mesmo sem querer, as plataformas digitais ajudaram quando resolveram fechar os olhos.

Ótimo, mas qual é a solução? Não tem uma óbvia, bonitinho(a). No meio da leitura do livro do Lippmann, você percebe o quanto ele é uma crítica à democracia. O sistema democrático é cheio de falhas que podem ser exploradas por atores maliciosos (taí essa aliança entre políticos e milícias digitais), mas ainda é, entre todos os sistemas de governo, o menos pior. Lippmann tomou muita pedrada desde que Public Opinion saiu por sugerir, na segunda parte do livro, que a solução seria “a criação de um conselho de especialistas que decidiria política pública em nome do público. Mas isso não é democracia. No melhor dos casos, é um tecnocracia. No pior, uma oligarquia”. A democracia tem, sim, sua elasticidade, capaz de suportar aventureiros que atentem contra ela. Já vimos isso nos EUA, uma democracia secular. E no Brasil, onde a democracia mais recente é mais nova que eu? O problema é quando o próprio projeto de poder se esforça em desmontá-la de dentro amparado por narrativas delirantes. É aí que, para angústia generalizada, coloca-se à prova o quão firmes são as fibras do pacto civilizatório.

Foto do topo: Farragutful/Wikimedia Commons.

  1. Nenhuma relação com a máscara.
  2. Alô, viajantes do tempo-espaço, taí uma boa marcação.
  3. N é o tamanho da amostra. Toda pesquisa (acadêmica ou de mercado) precisa usar um N mínimo para que a amostra tenha relevância estatística frente ao conjunto inteiro (por exemplo: a população brasileira).
  4. Há desvantagens também, claro, como o óbvio risco de que episódios fossem fabricados ou contados de forma altamente ficcional.
  5. O podcast Undivided Attention tem um episódio excelente sobre o QAnon com um pesquisador que acompanha os impactos do movimento desde seu começo. Aconselho muito a ouvir.
  6. O comentário do Brown foi feito depois que um desses influenciadores fez um comentário racista disfarçado de piadinha, e tanto o Brown como o Dexter estavam comentando o caso. Vamos relembrar que racista bom é racista desacordado no chão sangrando ou racista condenado a mofar na cadeia. Em alguns casos é entendível dobrar a orelha do pacto civilizatório.
  7. Brasileiros também.
  8. Essa analogia também vale para a pirataria.

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2 comentários

  1. Só uma correção, os jovens que o assassino branco matou não eram brancos, isso não apaga o fato dele tá lá pra fazer o que fez.

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