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Consórcio gamer e leasing de iPhone: bancões tentam conquistar clientes com crédito para eletrônicos

Home com headset brilhante em laranjado jogando em um computador num ambiente escuro — a tela, enorme à esquerda, iluminando seu rosto.

Nunca foi exatamente barato adquirir eletrônicos de ponta, como um computador para jogos ou o celular topo de linha do momento. Nos últimos anos, porém, turbulências na economia e novas estratégias das fabricantes empurraram esses objetos de desejo para ainda mais longe da maioria de nós. Na última semana, coincidentemente, o Banco do Brasil e o Itaú apresentaram novos produtos que prometem diminuir esse distanciamento.

Vamos tirar o elefante da sala logo de cara: é um tanto estranho, para não dizer maluquice, assumir uma dívida com bancos (bancos!!) para adquirir um video game ou um iPhone novo. Por mais que sejam produtos relativamente baratos e que as parcelas caibam no bolso, bancos não têm a fama que têm à toa e, nessa, ao menor deslize aquela parcela pequenininha pode virar uma bola de neve e uma tremenda dor de cabeça por anos a fio.

Dito isso, ainda assim Banco do Brasil e Itaú juram que suas novas ofertas são boas o bastante para conquistar novos clientes ou fidelizar os que já são.

A investida do Banco do Brasil é o chamado Consórcio Gamer. Durante a renovação do portfólio de bens do BB Consórcios, em 2020, o banco estatal considerou “o crescente mercado de e-sports” para incluir bens de referência específicos para o público gamer, com valores que variam de R$ 1.250 a R$ 11 mil, podendo ser parcelados em até 48 vezes. Não é preciso ser correntista e toda a contratação do consórcio pode ser feita digitalmente, pelo app do BB. Entre os itens de referência, estão consoles, kit headset, kit driving, PC gamer e óculos de realidade virtual, todos esses equipamentos para, segundo o banco, “tornar seus jogos ainda mais divertidos e confortáveis”.

Já o Itaú, em parceria com a Apple, lançou o iPhone para Sempre, uma espécie de leasing de iPhone com as parcelas atreladas aos cartões emitidos pelo banco. O cliente interessado paga 70% do valor do celular em 21 parcelas e, no final, se depara com três opções: devolvê-lo; integrar os 30% restantes em um único pagamento e ficar com o aparelho; ou renovar o contrato e trocar o iPhone, a essa altura antigo, por um modelo mais novo.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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São duas modalidades pouco usuais no mercado brasileiro para a aquisição de eletrônicos. Por isso, conversei com Alexandre Amorim, planejador financeiro da ParMais, para entender a razão de existir deles — e se compensa a alguém adquirir um Xbox ou iPhone dessas maneiras.

Consórcio Gamer

Print da página do Consórcio Gamer do Banco do Brasil.
Imagem: Banco do Brasil/Reprodução.

O consórcio já teve sua época de ouro no Brasil. Antes do plano Real, de 1993, a modalidade era uma boa saída para adquirir bens caros sem sofrer as consequências da hiperinflação. “Todo mundo tinha um consórcio”, diz Alexandre, que, com 45 anos, testemunhou seu próprio pai adquirir nos anos 1980. “Naquela época de inflação alta, era impossível fazer financiamento de longo prazo ou comprar algo na Casas Bahia em 12 vezes sem juros, porque a inflação comia tudo”.

Embora escanteado pela estabilidade econômica das últimas décadas, o consórcio resiste. Para o Banco do Brasil, a inclusão de equipamentos gamers é só mais uma entre várias modalidades oferecidas no segmento “Outros Bens Móveis”. O banco também oferece consórcios para eletroeletrônicos (tablets, computadores, bicicletas digitais) e serviços, que incluem cirurgias plásticas, viagens, festas e cursos. Alexandre lembra que o BB tem um histórico forte na área de consórcios e que esse é um nicho rentável. Com a pulverização de produtos mais comuns desencadeada pela digitalização — pense em contas correntes nas fintechs e investimentos em corretoras digitais —, ele acredita fazer sentido o BB focar em consórcios, onde a competição é menor.

São as fintechs, aliás, que podem explicar a excentricidade de um consórcio de games. “Entendo isso — e é uma opinião pessoal — como uma forma de reter de clientes”, diz o planejador financeiro. Para ele, a iniciativa é uma maneira de fisgar um público que os bancões estão perdendo para as startups financeiras, o do jovem que está começando a ganhar seu próprio dinheiro. “O eletrônico, no caso, é consequência, uma forma de atingir esse público”, prossegue. “Não se trata necessariamente de desenvolver o mercado de eletrônicos, mas sim que o público-alvo [do BB] tem interesse nisso”.

Alexandre diz que, em seu dia a dia, percebe que o brasileiro — seja por necessidade ou falta de educação financeira — é bastante imediatista com o dinheiro. O principal parâmetro para justificar um gasto é se a prestação cabe no bolso. Para quem não consegue ou não tem o hábito de poupar, o consórcio acaba sendo percebido como uma “poupança forçada”, pois há um boleto todo mês gerando a obrigação de guardar uns trocados.

Mesmo que a rentabilidade não seja das melhores, o compromisso ajuda o cliente a poupar — e se a carta de crédito é de um valor baixo, isso significa que as parcelas também são, o que aumenta o apelo para o público de baixa renda, que por motivos óbvios tem mais dificuldade em economizar. No mais, não há nenhuma obrigação para que o valor guardado seja necessariamente usado para comprar o produto do consórcio, o que reforça a característica de poupança forçada do consórcio. O próprio Banco do Brasil destaca isso em sua comunicação:

Importante ressaltar a versatilidade do consórcio do Banco do Brasil: Se o consorciado possui um Consórcio Gamer, ao ser contemplado, ele pode optar por comprar qualquer bem do segmento, por exemplo: ele pode comprar equipamentos Gamer, mas também pode comprar eletroeletrônicos, equipamentos de ginástica ou até instrumentos musicais.

iPhone a prestações infinitas

Print da página do iPhone para Sempre no site do Itaú.
Imagem: Itaú/Reprodução.

O Itaú não chama de leasing, mas o seu novo programa iPhone para Sempre tem cara, cheiro e forma de leasing. Em outras palavras, o cliente pode pagar eternamente pelo iPhone e, a cada 21 meses, trocá-lo por um modelo mais novo do celular da Apple.

Para participar, é preciso ter um cartão do Itaú com limite suficiente para cobrir o valor cheio do iPhone escolhido e contratá-lo pelo app do Itaú — aqui também a jornada é 100% digital. Podem ser adquiridos pelo programa os seguintes modelos: iPhone SE, iPhone XR, iPhone 11, iPhone 11 Pro e iPhone 11 Pro Max, e apenas um por CPF.

Segundo Rubens Fogli, diretor de negócios digitais do Itaú Unibanco, o grande diferencial do iPhone para Sempre é estender o parcelamento e, com isso, diminuir as parcelas: “O mercado brasileiro geralmente trabalha com parcelas de até 12 vezes, o que torna o valor de cada parcela mais caro. Agora estamos tornando mais fácil para que mais clientes do Itaú possam desfrutar da experiência de alta qualidade do iPhone — e oferecendo a opção de atualizar para um novo modelo regularmente”. O modelo mais barato, o iPhone SE, começa em R$ 140,91 por mês.

E compensa? Sem fazer contas, Alexandre Amorim, da ParMais, explica que essa resposta depende sim de um cálculo, mas principalmente da relação do consumidor com o celular: “A maioria toma prejuízo com celular porque a depreciação é pior que a do carro”, alerta. Para alguém que troca de celular com frequência, pode compensar, mas àqueles que passam três, quatro anos com o mesmo aparelho (algo cada vez mais comum) e que o revende ou repassa a parentes próximos, não.

Um aspecto que joga contra os aficionados por iPhone novo é o intervalo de troca do programa do Itaú, de 21 meses. Em regra, a Apple lança um novo iPhone a cada 12 meses, o que significa que o participante ficará no mínimo 9 meses com um iPhone defasado. E com a próxima geração na boca do forno, a ser anunciada em setembro ou outubro, alguém que pegue um iPhone 11 agora passará ainda mais tempo com um modelo defasado, o que contraria a promessa do banco.

Foto do topo: Sean Do/Unsplash.

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12 comentários

  1. Sobre “Mesmo que a rentabilidade não seja das melhores”: carta de crédito é remunerada a partir do momento em que você é contemplado e não do início, e você paga taxa de administração, entre 10 e 20% do valor do bem adquirido.
    Só que, diferentemente de um financiamento, quanto mais parcelas, melhor. A taxa de adm. vai ser a mesma e diluída em mais vezes.
    Pagar à vista sempre é a melhor opção, mas num país onde você está nos 10% mais bem pagos ganhando de 3K pra cima, é uma opção meio-termo, ao menos melhor do que financiamentos – com exceção de quando você tem urgência no bem, porque daí o preço não é a característica mais importante e sim a disponibilidade. Mas esses consórcios citados aceitam lance a partir de 10%, então se eu fosse comprar um bem e tivesse entre 30 e 40%, entrava num consórcio de sangue doce e ia dando lance todo mês. Deduz o lance do valor das parcelas e diminui o comprometimento mensal, mantendo o prazo.
    Já sobre o iPhone, não chego a achar ruim o plano e sim ficar com 4 a 5k utilizados do limite, acho que prefiro um consórcio pra isso também, a não ser que ficasse sem telefone e não pudesse programar a compra.

  2. O esquema do iPhone é o mesmo método que se tem nos EUA com os contrato de 12/24 meses com operadoras como a AT&T. A diferença é que por lá já se tem tudo integrado num “boleto” apenas. Como as operadoras brasileiras são fachada para agiotagem, acaba que outro meios precisam suprir essa demanda. Se der minimamente certo o leasing do Itau, será amplamente copiado.

    O consórcio do BB é algo que me atrai pela prestação baixa. Se fala muito de “educação financeira” em um país onde a média de rendimentos familiares não bate em R$4000. Educação financeira é quase sobra algo no final do mês. Sendo assim, uma prestação de até R$100 para ter um produto/crédito bom é algo que faz sentido sim. Talvez não faça no mundo das pessoas que tem renda per capita acima de 3 mil reais, mas esses já estão observando as pessoas do Brasil numa nave espacial e tomando notas como um antropólogo que observa uma tribo amazônica.

    1. Eu acredito que esse negócio do Itaú foi mal divulgado, a vantagem são as parcelas (21x + 1x ao invés de 12x) no mesmo preço da Apple. A questão da troca deveria ser vendido mais como um benefício do que um programa vitalício, já que se você não devolver funciona simplesmente como ter comprado o telefone com preço cheio.

      Ao tentar vender dessa forma, está todo mundo chamando de leasing e tentando achar pegadinha, quando é uma proposta bem mais simples. Tanto que você precisa ter o limite no cartão de crédito, então não é algo que atinge outro público como o consórcio e o telefone não é a garantia do crédito.

      Poderiam tentar colocar outro benefício, como Apple Care. Do jeito que está, vejo como pontualmente interessante apenas. Nada muito diferente do esquema que a Samsung tem de dar um desconto se você dar o telefone atual.

      1. Mas leasing não é exatamente isso, digo, pagar X prestações e, ao final do contrato, optar por renová-lo, devolver o bem ou pagar o residual e adquiri-lo? Qual seria a diferença entre leasing e o que o Itaú está oferecendo?

        1. No leasing de carro, por exemplo, o carro fica no nome do banco até você devolver ou pagar o valor cheio. Não é um crédito propriamente dito, já que você está alugando e não financiando o carro. Isso deixa mais acessível e menos flexível para o cliente, já que ele não pode vendê-lo antes de quitar por exemplo. E, suponho, que seja mais fácil para o banco pegar de volta em caso de inadimplência. Se não me engano, nem tem mais isso no Itaú por dificuldade operacional, só financiamento comum de carros.

          A ideia do leasing é uma alternativa para quem não tem acesso ao crédito. Nesse caso do iPhone, se usa o crédito caro e restrito do cartão. Só pessoas que podem abrir mão de 4K ~ 5K de limite do cartão por um tempo podem entrar nesse esquema, talvez seja menos acessível que pagar à vista inclusive. Ninguém (acho) vai pegar seu telefone como garantia também, entra no fluxo normal de inadimplência de cartão que é basicamente bloqueio de uso.

          Em resumo, o banco não está concedendo nenhum crédito novo, é mais uma parceira tipo desconto em loja e cinemas. Parece um leasing mesmo no funcionamento, mas você pode ignorar esse plano e o iPhone é seu desde o primeiro dia.

          1. Saquei. A propriedade é um diferencial importante mesmo. É como se o Itaú tivesse copiado a ideia de leasing pela metade.

            Quando você diz que “só pessoas que podem abrir mão de 4K ~ 5K de limite do cartão por um tempo”, significa que esse valor fica bloqueado no limite do cartão? Não cheguei a pesquisar tão a fundo, mas imaginava que era só uma espécie de caução, ou seja, que mês a mês o débito se limita ao valor da parcela e que somente em caso de inadimplência ou outro motivo inesperado o valor cheio apareceria na fatura.

        2. Sim, o limite é bloqueado, parece que simplesmente é uma compra parcelada: “Assim como em qualquer outra compra, você deve ter limite disponível em seu cartão de crédito e a compra está sujeita à aprovação. Após a compra ser aprovada, o limite do seu cartão será consumido no valor total do iPhone”.

          No final, se não devolver, é cobrada a parcela final: “O pagamento final (até 30% do preço do iPhone) será cobrado na fatura do seu cartão de crédito”.

          Fui ver agora e já esgotaram uns modelos no app, então deve ter funcionado esse modelo. A impressão de que poderia ser mais simples veio dos comentários em redes sociais e blogs de tecnologia, mas talvez não seja tão relevante se ficou claro para quem de fato compra.

      2. É muito pior do que o esquema das operadoras de telefone nos EUA. Ao menos lá é só um contrato mensal com fidelidade + entrada, não se perde o limite do cartão.

  3. Acredito que o leasing do Itaú compensaria se fosse 24 vezes. Para pessoas que não tem uma educação financeira adequada ou dificuldade de juntar dinheiro, poderia ser uma boa. Dito isso, o melhor caminho é sempre aprender a utilizar o dinheiro da melhor forma possível.

  4. Ate que gostei do consorcio… Tem que comparar as taxas com os juros das lojas.. Porque vez ou outra tem promoções com 15, 20% de desconto no boleto. Então, pra quem rala em casa, freelancer e precisa de uma maquina de 8-12k é uma boa.. principalmente pra quem tem uma graninha guardada pra dar um bom lance. A chance de ser sorteado é maior. Dá o lance, pega o dinheiro compra o PC a vista e paga o consorcio em 3 anos, um custo mensal mais suave.. No final do 3º ano já esta na hora de trocar de PC novamente, refaz tudo de novo e vende o pc antigo pra abater em algumas prestações…

    1. Sim. Lembrar das pessoas que usam os PCs como ferramentas de trabalho. Nesse caso consórcios e financiamentos fazem bem mais sentido.

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