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Sapir–Whorf, linguagens de programação e startups de tecnologia

Círculo com bordas escuras desenhado em uma parede branca. No lado esquerdo do enquadramento, de frente para o círculo, mulher com headset apontando para o círculo.

Um conteúdo de:
Palavra 'Alura' escrita na cor cinza.

Por Paulo Silveira, CEO do Grupo Caelum Alura

É fundamental dominar a tecnologia com que você trabalha, e com profundidade. Mas quero te mostrar que você pode se tornar um profissional melhor se trabalhar outras habilidades além da sua especialidade.

Hipótese Sapir Whorf

A arte alemã costuma representar a morte como um ser masculino em 85% das suas imagens, dado que seu gênero também é masculino. A Espanha, onde a palavra morte tem gênero feminino, como a nossa, apresenta este correspondente linguístico em suas pinturas. Será que isso pode mudar a forma como pessoas, grupos, países pensam?

A hipotése Sapir–Whorf é conhecida bem mesmo antes do filme A chegada. E está no conto A biblioteca de Babel, de Borges. Línguas diferentes moldam o nosso pensar de modos diferentes. Uma língua influencia aspectos da percepção ou da cognição. A tribo Piraña, no Amazonas, não possui números. Não há necessidade para eles. Lera Boditisky traz diversos exemplos de como a língua forma o pensamento.

A língua influenciando o perceber, o conhecimento… e o caminho inverso também pode acontecer: as descobertas e o pensamento modificando a língua. Onde mais isso aparece? Sim, na programação, nos paradigmas de programação.

Linguagens de programação e relatividade linguística

Será que uma programadora que domina Haskell vai conseguir fazer um trabalho melhor em sistemas que envolvam concorrência? E quem tem o background todo em C# não teria a mesma facilidade, por causa de as estruturas e dialetos e comunidade não serem tão direcionadas a esse tipo de problema?

E se um dia sentirmos uma nova necessidade, uma forma de pensar diferente, será que podemos alterar uma linguagem de programação para que ela absorva essas novas estruturas? Sim. Podemos e isso acontece o tempo todo. Algumas outras linguagens vão optar por só responder questões específicas, conferindo vantagens para formar aquela comunidade, um paradigma único para guiar mais o pensamento das pessoas que nela programam.

Línguas diferentes selecionam aspectos diferentes que precisam ser expressos.
— Franz Boas

Obviamente não sou o primeiro a colocar essas perguntas, nem a associar isso com Sapir-Whorf. Jiahao Chen, em 2018, enquanto pesquisador do MIT em inteligência artificial, publicou um artigo que questiona alguns desses pontos. “Quais abstrações existem em uma linguagem de programação que podem ser mapeadas em ideias que programadores gostariam de implementar?” Jiahao não está sozinho nessa associação. Matz, pai do Ruby, diz que para criar a linguagem foi fortemente inspirado no romance Babel-17, que tem Sapir-Whorf por trás da trama. O vencedor do prêmio Turing de 1979, Keneeth Iverson, também se relaciona com essa questão.

Fluxograma de paradigmas de desenvolvimento.

Sim, é controverso. Como Sapir-Whorf também é e Jiahao deixa claro no texto. Mas eu não quero focar em linguagens de programação, nem dizer qual é a melhor para qual caso. Também não estou glorificando o programador poliglota ou a programadora full-stack, quero ir além da questão de ser especialista versus generalista. Em resumo: conhecer profundamente uma nova linguagem de programação, um novo paradigma, vai te possibilitar capacidades que antes estavam travadas, mesmo que nunca venha a utilizar essa nova ferramenta. É aplicar o aprendizado de um paradigma, de uma linguagem, em uma outra, totalmente diferente, que não faz parte da mesma família, da mesma árvore.

Em uma analogia com línguas, conhecer mecanismos de declinação do alemão, do latim ou do russo vai abrir um caminho para a sua mente que o inglês, o francês e o espanhol dificilmente te possibilitariam. Mesmo que você nunca venha a usar o alemão no dia a dia. Na extrapolação da ficção científica de A chegada, a Dra. Louise Banks ganha uma compreensão do espaço-tempo muito além da nossa ao aprender a língua dos Heptapodos. É lindo demais. Mas vou além.

Startups de tecnologia e squads

Gostemos ou não, os squads vieram pra ficar, independente do que você entender por “Spotify model”. A quebra dos departamentos é um fato. Profissionais de diferentes áreas estão cada vez mais próximos, para ganhar velocidade, diminuir lead time e “gerar valor”. Gera também um atrito mais constante: quem programa está o tempo inteiro ao lado de quem faz o design, de quem define as prioridades e de quem faz o marketing e o suporte. As startups, que nasceram pequenas, já estão mais acostumadas a trabalharem com essa proximidade. Não há necessidade de quebrar compartimentos e limites. Em corporações o desafio é maior e alguns consideram fazer parte da tal transformação digital (eu pessoalmente acho que a transformação é maior do que um modelo). Os times multidisciplinares estão aí. Nos filmes, são usados até em um encontro com alienígenas:

Mulher em primeiro plano segurando um cartaz com um círculo. À esquerda, homem ao fundo. À direita, três pessoas com roupas de proteção laranjadas. Todos dentro de uma caverna.
Foto: Paramount Pictures/Divulgação.

O profissional em T, que já tinha popularidade entre os cargos mais gerenciais e de liderança, começa a aparecer por aqui. Não basta mais só escrever código-fonte, precisa entender por que te pediram isso, pensar nas necessidades de quem desenhou o layout e considerar se isso vai vender ou não. Isso é, além da sua especialização em uma linguagem, em um framework, além de sólidos fundamentos em computação ou na sua área, você precisa também entender o contexto inteiro da pequena startup, ou da grande corporação.

Onde Sapir-Whorf se encontra aqui? Quem programa em JavaScript e conhece um pouco de design, um aprofundamento de marketing, pode ter sua forma de pensar e programar totalmente influenciada por isso. E não é apenas “essa pessoa conseguiu entender melhor o problema e fez mais rápido a tarefa no Sprint”. É ir além da tarefa dada: é sugerir, é poder resolver sem tanta troca de bastão, é trabalhar como um verdadeiro time. É o fim do “isso não é do meu departamento”. É aplicar essas novas disciplinas dentro do seu próprio trabalho. É mais que multidisciplinaridade, é algo como transdisciplinaridade. Time, Transdisciplinaridade, Tecnologia. Profissionais em T, no plural.

É a psicóloga que se tornou programadora e depois gerente de produtos, por entender melhor a necessidade dos clientes. É o engenheiro ambiental que usou ciência de dados para otimizar os processos do governo. É o Steve Jobs que fez o semestre de caligrafia e aplicou 10 anos depois. É a programadora que foi trabalhar com gestão de pessoas e RH e consegue entender muito melhor a necessidade dessas pessoas. É o programador que também faz mágica profissional e desenvolveu as habilidades de teatralização para ser melhor professor. É o desenvolvedor que abandonou a faculdade, se tornou grande referência de uma comunidade e cuja paixão por games, animes e pelo japonês o tornam um grande youtuber de computação.

Quer um outro exemplo das disciplinas diferentes, juntas, produzindo resultados incríveis em time? Sapir era engenheiro químico. Whorf era linguista. E foi somente um terceiro, o antropólogo Harry Hoijer, muitos anos depois, que fez toda essa mirabolante ligação.

As carreiras de tecnologia estão cada vez mais líquidas. Mas não é apenas por uma questão prática, profissional, que acredito que é interessante estudar e conhecer uma outra disciplina: é mais que isso.

Com novos aprendizados, profundos e impactantes, mesmo em uma área de trabalho completamente diferente da sua, você cria um pensamento diferente. E é esse pensamento diferente que te permite modificar a própria forma como você faz o seu trabalho atual, como você aplica o conhecimento prévio, agora com uma nova visão adicionada.

E o click-bait estava aqui: quero te convidar para a Imersão Carreira Tech, um evento gratuito com grandes profissionais de tecnologia, onde conversaremos sobre o presente e futuro do trabalho na área. Falaremos sobre a importância de disciplinas e contextos diferentes para crescer na vida profissional, quem sabe até para crescer como pessoa.

A Imersão Carreira Tech acontece dos dias 7 a 12 de Setembro, totalmente online e gratuita. Espero você lá :)

Inscreva-se.


PS: Não tenho pretensão de ter corretude científica sobre linguística neste artigo. Muita coisa estudada de última hora, muitas associações feitas com liberdade poética. Agradecimento especial ao meu pai, Carlos, que leu Rodrigo Tadeu Gonçalves, Relativismo linguístico ou como a língua influencia o pensamento, e tantas outras referências para me ajudar. Obrigado ao Sergio Lopes, Alexandre Aquiles, Vivian Matsui, Guilherme Silveira e Mario Souto pelos reviews.

Foto do topo: Paramount Pictures/Divulgação.

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5 comentários

  1. Oi, Paulo! Como vai? Meu nome é Guilherme Teixeira. Sou linguista, desenvolvedor e aluno da Alura!

    Queria acrescentar um ponto ao comentário do Paulo Guilherme Duarte, especificamente sobre a hipótese Sapir-Whorf. Muito embora você tenha feito uma ressalva no final do texto sobre ter estudado algumas coisas correndo (acontece!), calhou de existirem duas versões da hipótese da relatividade linguística — uma “strong” e uma “weak” — e você ter apresentado a versão “strong”. Tal versão da hipótese foi refutada pela linguística há décadas.

    A cognição humana é universal, faz parte que nossa espécie é. Pressupor que determinada língua permite que seus falantes atinjam pensamentos inalcançáveis a falantes de outras línguas — parafraseando aquela famosa frase que diz que “só é possível filosofar em alemão” —, embora pareça fazer sentido e soar quase que poético, essa pressuposição beira argumento eugenista de que “se língua x é gramaticalmente mais complexa (aka, tem vocabulário maior, mais declinações, mais fonemas etc.) do que outra língua y, então o cérebro do falante da língua x deve ser mais complexo também”. Poderia ser o caso? Poderia. Mas a ciência testou e refutou o argumento eugenista por completo, como todos já sabemos hoje em dia.

    Por fim, fica a reflexão sobre por que algumas hipóteses há muito refutadas continuam pop, como por exemplo o teste de personalidade Myers-Briggs, a relatividade linguística e até mesmo a astrologia. São ideias que de cara parecem fazer sentido, são de fácil assimilação/aceitação, parecem dar automaticamente um significado às ideias de quem está aprendendo sobre elas — e, como sabemos, isso às vezes é o contrário do que o conhecimento científico traz como resultado, conhecimento esse que é por vezes contraintuitivo, incômodo, desagradável.

    Um abraço e vida longa!

    1. Ótimo comentário Guilherme =D

      Confesso que eu não sabia, na hora que estava escrevendo, se Sapir-Whorf tinha sido refutada ou não. Me lembro de muita discussão na minha época de graduação (2011/2016) sobre a relatividade linguística e quase todos os professores eram contrários a ideia central da hipótese. Bom saber que ela não é aceita (eu sempre achei uma exacerbação, por isso mesmo falei dos estruturalistas como ponto de partida para uma analogia entre programação e linguística), até porque, se ela fosse aceita a sociolinguística e até mesmo o gerativismo de Chomsky seriam, no meu ver, inúteis.

      Pensando sobre assunto, enquanto escrevia esse comentário, acho ainda que usar a pragmática como ponte de atrito entre os dois sistemas de aprendizagem (língua/programação) seria mais útil e até mesmo mais direto. Mas ainda preciso pensar mais sobre.

      1. Olá, Paulo! Obrigado :)
        Pois é! Como você bem disse, muita coisa seria inútil.
        Palpite interessante. Gostaria de ouvir/ler mais sobre. Estou estudando os fundamentos da Pragmática!

  2. Ferdinand de Saussure explica melhor a ideia de quem povos expressam em sua língua aquilo que eles lidam no dia-a-dia. A língua – em termos de estrutura – é dada por uma dualidade de significado significante. O significante é a imagem acústica da palavra (o som mesmo) e o significado é o objeto/conceito/sentimento que estamos descrevendo (abstrato ou não), os dois juntos formam o signo linguístico.

    Dentro da ideia geral do artigo, uma abordagem mais clara (pra mim) seria tratar dessa base linguística antes de falar sobre Sapir-Whorf porque a primeira mostra exatamente a ideia de criação por necessidade. Falando exclusivamente do que dialoga com o texto, uma linguagem de programação é pensada, inicialmente, para suprir uma demanda especifica (ou não), tal qual como ser web-friendly ou servir como linguagem de marcação. Esse seria o significado. O significante seria trazido pela experiência de quem cria a linguagem baseado no conceito que se quer “traduzir”. Ambos resultam numa linguagem de programação (signo) e por fim resultam no profissional (falante nativo) que faz uso desses conceitos todos.

    Meu problema central em usar Sapir-Worf como exemplo inicial é que essa hipótese é a demonstração de uma hipótese anterior (a hipótese de Humboldt) que nos diz que as pessoas primeira falaram para depois pensar, ou seja, no paradigma da linguagem de programação seria como dizer que as pessoas primeiro resolveram problemas e depois criaram as linguagens para facilitar a tarefa (o que me parece crível).

    Se algum dia alguém que ler isso quiser aprofundar a discussão, eu posso explicar mais do alto da minha formação de linguista e de toda a minha experiência com processamento de linguagem natural (/ironia, ainda que eu tenha essa formação e essa experiência).

    Finalmente, recomendo a minha própria tradução de um artigo que trata sobre a ideia de que pessoas que tem um pensamento mais voltado ao aprendizado de idiomas se dão melhor, ou tão bem quanto, quando aprendem uma linguagem de programação do que pessoas “boas com números”: https://medium.com/pensamentos-rasos/n%C3%A3o-%C3%A9-uma-pessoa-com-n%C3%BAmeros-voc%C3%AA-pode-aprender-a-programar-melhor-do-que-pensa-bc231837c036

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