Lembra aquela representação contra o iFood junto ao CADE, em que a Abrasel, a Rappi e a Uber acusavam o iFood de práticas anticompetitivas (fechar contratos de exclusividade com restaurantes)? Chegou ao fim.

O iFood firmou um acordo com o órgão antitruste, a Rappi comemorou, parece que ficou tudo bem — menos para Uber e 99, que não aguentaram a espera e saíram do mercado de entregas de refeições.

Os termos, descritos pelo Brazil Journal:

Segundo o acordo, o iFood não poderá assinar mais contratos com redes com mais de 30 lojas, e eles não poderão durar mais de dois anos. Além disso, os acordos em vigor com as redes menores – e que já tem a duração superior a dois anos – deixam de valer em seis meses, e o iFood só poderá recontratar com estes restaurantes depois de um ano.

No total, o iFood não poderá ter mais do que 25% de seu volume de vendas ligados a restaurantes exclusivos.

O acordo também estipula que, nos municípios com mais de 500 mil habitantes, a quantidade de restaurantes exclusivos não poderá ultrapassar 8% do total de estabelecimentos ativos na plataforma do iFood.

Via Brazil Journal.

A Apple enviou ao AppleInsider um posicionamento a respeito da suspeita de que aplicativos como o iFood poderiam ter explorado uma falha no iOS e acessado a localização do iPhone sem autorização.

A empresa negou esse cenário e deu mais detalhes da falha corrigida no iOS 16.3. Segundo a Apple, ela só podia ser explorada em aplicativos fora da “sandbox” no macOS, mas foi propagada para os outros sistemas da casa mesmo assim, ainda que “eles nunca tenham estado em risco”.

Segue abaixo o comunicado oficial (tradução minha):

Na Apple, acreditamos firmemente que os usuários devem escolher quando compartilhar seus dados e com quem. Semana passada, emitimos um alerta para uma vulnerabilidade de privacidade que só poderia ser explorada a partir de aplicações “unsandboxed” no macOS. A base de código que corrigimos é compartilhada pelo iOS e iPadOS, tvOS e watchOS, portanto a correção e o alerta foram propagados para esses sistemas operacionais também, apesar do fato de que eles nunca estiveram em risco.

A sugestão de que esta vulnerabilidade poderia ter permitido que aplicativos burlassem os controles do usuário no iPhone é falsa.

Um relato também sugeriu incorretamente que um aplicativo iOS estava explorando esta ou outra vulnerabilidade para burlar o controle do usuário sobre os dados de localização. Nossa investigação concluiu que o aplicativo não estava burlando os controles do usuário através de nenhum mecanismo.

Só fica a dúvida do que aconteceu no iPhone do Guilherme. Terá sido um “glitch” (uma falha na interface do iOS)?

Via AppleInsider (em inglês).

Por dentro (ou por baixo) da tela de um Kindle e outros links legais

Breve introdução ao Nostr

“Um marco para protocolos abertos”. Foi assim que Jack Dorsey, co-fundador e ex-CEO do Twitter, anunciou a chegada do aplicativo Damus, um cliente do protocolo Nostr, à App Store/iOS.

O Nostr tem gerado burburinho em grupos de desenvolvedores, bitcoineros e uma galera super desconfiada de plataformas digitais. Motivo: o Nostr traz uma proposta alternativa às redes sociais comerciais que, nas palavras de quem o criou, seria “à prova de censura”.

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por Shūmiàn 书面

Os Estados Unidos derrubaram um balão chinês (vídeo) que sobrevoou seu espaço aéreo sem permissão no sábado (5).

O governo estadunidense alega que o objeto se tratava de um satélite espião e, por isso, adiou a visita do Secretário de Estado, Anthony Blinken, à China.

O governo chinês afirmou que era um balão meteorológico de uso civil que desviou de trajetória devido a fortes ventos e condenou veementemente o uso da força militar para o abatimento, destacando que se reserva o direito de agir da mesma maneira no futuro.

Também foi confirmado o sobrevoo sobre a América Latina e o Caribe de um segundo balão.

As diferentes narrativas foram analisadas pelo acadêmico Graham Webster, que assinala que o fato de ser uma pesquisa científica civil não descarta a possibilidade de uso militar por parte da China.

O New York Times pondera os significados do episódio sobre o que se supõe da liderança de Xi Jinping. Do outro lado do Pacífico, Dingding Chen frisou que o episódio não passa de um drama inflado pela mídia e por motivos eleitoreiros. De fato, apesar de reclamar do “exagero” estadunidense, Pequim já estaria sinalizando vontade de retomar a rotina diplomática, conforme matéria do Wall Street Journal.

A repórter Yaling Jiang acompanhou a reação das redes sociais chinesas com relação ao episódio. Segundo sua análise, muitos fazem chacota da importância que os EUA estão dando ao balão e notam que Washington já fez muitos sobrevoos com balões espiões por aí. Apenas uma minoria das postagens dá razão às ações e suspeitas estadunidenses. Como mostra o What’s on Weibo, uma parcela considerável do público aproveitou a oportunidade para fazer chacota do “balão à deriva”.


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O que eu uso (2023)

Em 2022, mostrei as coisas que usava para fazer o Manual do Usuário. Foi uma tentativa de dar contexto a algumas escolhas editoriais — o que eu uso no meu dia a dia influencia muito do que é publicado aqui no site.

O objetivo é fazer esse raio-x todos os anos. Por isso, cá estamos em 2023 com a segunda edição.

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Post livre #353

Toda semana, o Manual do Usuário publica o post livre, um post sem conteúdo, apenas para abrir os comentários e conversarmos sobre quaisquer assuntos. Os comentários fecham segunda-feira ao meio-dia.

O JWST tirou as primeiras fotos de um planeta fora do nosso sistema solar.

— Bard, a inteligência artificial gerativa do Google.

O equívoco acima do Bard, o concorrente do Google para o ChatGPT, da OpenAI, apareceu no vídeo do anúncio do Bard, assinado por Sundar Pichai, nesta segunda (6).

A primeira foto de um exoplaneta foi feita em 2004 pelo VLT do Observatório Europeu do Sul, em Cerro Paranal, no Chile. Descobri isso clicando no primeiro link de uma pesquisa no DuckDuckGo. Via @IsabelNAngelo/Twitter (em inglês).

Após três betas, o ótimo Transmission 4 chegou à versão final na madrugada desta quarta (8). O aplicativo está bem moderno, mais eficiente e traz suporte a torrents v2 e híbridos. O único “porém” é que ele ainda não tem tradução para o português brasileiro — em nossas máquinas, a interface aparece em português lusitano. Gratuito, de código aberto, para Linux, macOS e Windows.

O Twitter tem cerca de 290 mil assinantes do Twitter Blue. A informação foi obtida por duas fontes distintas: uma interna, por um documento visto pelo site The Information, e outra pelo projeto @BlockTheBlue, que está compilando todos os perfis verificados do Twitter para facilitar o bloqueio deles (ideia genial).

Para quem esperava gerar US$ 3 bilhões por ano em assinaturas, ideia do Musk para compensar a queda de arrecadação com publicidade, os US$ 28 milhões representam 0,93% da meta.

A próxima frente do Twitter para estimular assinaturas do Twitter Blue, ao que tudo indica, será colocar o ótimo TweetDeck atrás do pagamento. Algo me diz que isso não surtirá efeito. Via The Information, @BlockTheBlue/Twitter, @TitterTakeover/Twitter (todos em inglês).

Seguindo a linha de que “onde há fumaça, há fogo”, Google e Mozilla estão testando versões dos seus navegadores (Chrome e Firefox) para iOS com motores de renderização próprios (Blink e Gecko).

Hoje, a Apple proíbe outros motores de renderização nos aplicativos do iOS — todos usam o dela, WebKit. Os testes podem ser um sinal de que, em breve, a Apple relaxará essa restrição, talvez já no iOS 17.

É uma situação complexa. Em outras plataformas, o Chrome domina o segmento de navegadores web. Bem ou mal, a obrigatoriedade do WebKit, embora limite a escolha dos usuários e seja uma postura nociva no geral, na prática serve como resistência contra o domínio total do Blink/Google. Via The Register (em inglês).

A Anatel lançou o site Qual Empresa Me Ligou para “dedurar” quem faz ligações telefônicas não solicitadas. Basta informar o número que te ligou e o site devolve o nome da culpada.

Junto à consulta, a agência divulgou a lista dos “maiores ofensores”, 20 empresas cuja proporção de chamadas curtas entre o final de outubro e dezembro de 2022 foi maior que 85% e que ultrapassaram o limite de chamadas definido numa cautelar.

Ambas as iniciativas são bem intencionadas, mas não parecem úteis porque as empresas abusadoras são terceirizadas e, até onde se sabe, os nomes dos clientes não são divulgados.

Chamou-me a atenção o volume de chamadas curtas, aquelas com menos de três segundos que empresas de telemarketing abusivo fazem para otimizar as abordagens.

Entre 5 e 11 de junho de 2022, eram cerca de 4 bilhões por semana. O esforço da Anatel reduziu esse número em 40%. Ainda assim, entre 15 e 21 de janeiro foram 2,47 bilhões de chamadas. É muita coisa. Via Anatel.

A resposta do Google ao ChatGPT veio mais rápido do que eu esperava. Nesta segunda (6), o CEO do Google, Sundar Pichai, anunciou uma versão de testes e acesso limitado do Bard, uma espécie de ChatGPT integrado ao buscador.

É exatamente o que alguém esperaria como resposta do Google, o que é meio decepcionante. Zero criatividade, apenas uma resposta apressada a uma ameaça incipiente, mas promissora, de uma rival muito menor, mais ágil e com nada a perder.

Em certo sentido, lembra a insanidade da Meta em enfiar conteúdo de gente que não seguimos nos feeds do Facebook e do Instagram.

Há diferenças, porém. A “inspiração” da Meta, o TikTok, é um negócio real, enorme e que já gera alguns bilhões em publicidade — uma grana que, dois ou três anos atrás, iria para a Meta.

Outra grande diferença é que o Google não está exatamente “correndo atrás” da OpenAI. Desde 2016 o Google se define como uma empresa “AI first”, ou seja, que prioriza inteligência artificial, e já havia demonstrado algo similar ao ChatGPT, o LaMDA, em maio de 2021. (O LaMDA é a base do Bard.)

O Google só não tinha colocado no mercado algo como o ChatGPT por receio do “risco à reputação” decorrente dos erros factuais que IAs gerativas do tipo cometem.

Agora que a OpenAI abriu a porteira, a concorrência será feroz. Além do Google, nesta terça (7) a Microsoft anunciou a versão de testes do Bing com a próxima geração da IA da OpenAI (“mais poderosa que o chatbot ChatGPT e desenhada para buscas”) e o Quora, o Poe, um chatbot em forma de aplicativo (iOS) que usa várias IAs gerativas para tirar dúvidas do usuário.

Existe outra discussão subjacente que é o papel que o Google tem na web aberta e a ameaça que essa mudança de foco representa para nós, aqui fora. Deixo esse papo para outra hora. Via Google (em inglês).

Pessoas que compraram o novo Galaxy S23 têm reportado um consumo enorme da memória de armazenamento com o sistema-base. Um usuário no Twitter, dono de um Galaxy S23 Ultra de 512 GB, mostrou o sistema ocupando 57 GB.

Esse valor é quase quatro vezes o que o mesmo Android 13 ocupa num Pixel 7 do Google (~15 GB). No meu iPhone SE, o iOS 16.3 e os “dados do sistema” ocupam 26,5 GB. O macOS Ventura, um sistema para computadores, 32,9 GB.

O Ars Technica especula que a duplicidade de aplicativos da Samsung (de baixa qualidade) e acordos que pré-instalam aplicativos de terceiros (Facebook, Microsoft Office e sabe-se lá o que mais) podem ser os culpados.

Será por isso que a Samsung está oferecendo “upgrade” de memória de armazenamento? (Compre a versão de 128 GB, leve a de 256 GB, por exemplo.) A promoção vale até 5 de março. Via @alexmaxham/Twitter, Ars Technica (ambos em inglês).

Não é a primeira vez que o espaço consumido pelos arquivos do sistema em celulares vira polêmica. No Brasil, em 2017 a Apple foi condenada a pagar multa de R$ 100 mil e a readequar suas peças publicitárias devido à mesma questão, em uma ação movida pela Proteste. A diferença de espaço perdida pelos usuários, porém? Três giga bytes. Via Gazeta do Povo/leiaisso.net.

por Shūmiàn 书面

Essa é uma das pautas da semana. Após mais de um ano de uma série de mudanças regulatórias para as gigantes (e nem tão gigantes) de tecnologia na China, o ritmo parecia ter desacelerado um pouco — mas não necessariamente.

Dois novos textos discutem esse tema: para o Nikkei Asia, Angela Zhang escreveu sobre os sinais atuais, como a liberação do IPO da Didi e a aquisição de ações do Alibaba por parte do órgão regulatório.

O segundo texto é uma discussão entre oito especialistas para o DigiChina (da Universidade de Stanford), no qual nem todo mundo concorda sobre o que vem por aí — exceto na garantia do peso de Pequim no setor.

Aproveitando o embalo: para o ChinaAI, o Jeffrey Ding traduziu do mandarim da Caijing Elaw uma lista com os 10 principais eventos ou acontecimentos na área de governança da internet na China em 2022. Estão lá a divulgação de IPs, a multa da Didi e da CNKI, e mais.

De fato, dois novos livros podem trazer algumas reflexões. A obra de Ning Ken, Zhong Guan Village: Tales from the heart of China’s Silicon Valley, conta como o bairro de Zhongguancun em Pequim se tornou a resposta chinesa para o desenvolvimento de startups e empresas de big tech. A Wired publicou uma matéria sobre o livro e a região de Zhongguancun. Já o livro The labor of reinvention, de Lin Zhang, foca em três tipos de empreendedores (do Vale do Silício chinês, rurais e de artigos de luxo), e seus papel especialmente na economia digital. Ela foi entrevistada para o MIT Technology Review.


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