Imagem de divulgação do Google Pixel.

Pixel, o primeiro smartphone do Google, é um terminal para inteligência artificial


5/10/16 às 7h46

Confirmando o que já sabíamos, graças a vazamentos em baldes, o Google anunciou seus smartphones próprios, batizados Pixel e Pixel XL. Junto à dupla, a empresa também deu mais detalhes do Google Home, uma caixa de som Bluetooth inteligente; mostrou o Daydream View, óculos de realidade virtual que funcionarão com os Pixel; o Google Wifi, roteadores modulares que se conectam uns aos outros para ampliar o alcance da rede sem fio; e o Chromecast Ultra, agora com suporte a vídeo em 4K.

Falemos dos smartphones, que foram os que mais chamaram a atenção por uma série de motivos. Primeiro e mais importante: por que só agora, tantos anos depois, o Google se dispôs a enfrentar parceiros de hardware de longa data e tomar para si o trabalho de desenvolver, fabricar, distribuir e fazer o pós-venda de smartphones?

Rick Osterloh, chefão da divisão de hardware do Google, disse que mudanças significativas só são possíveis ao integrar software e hardware. Que mudanças são essas? Algumas profundas. Este slide, exibido logo no início, talvez tenha sido a parte mais importante da apresentação do Google:

Sundar Pichai na apresentação do Google Pixel.

Antes, Sundar Pichai, CEO do Google, havia mostrado outro composto por uma linha do tempo das plataformas dominantes até hoje. Tivemos o PC, depois a web e, então, o smartphone. Para o Google, estamos entrando numa quarta fase, a da “AI first”, ou inteligência artificial como prioridade. No blog do Google, Pichai escreveu:

Os últimos dez anos foram sobre construir um mundo que priorizasse o mobile, transformando os nossos smartphones em controles remotos das nossas vidas. Mas, nos próximos dez anos, nós passaremos a um mundo que prioriza a inteligência artificial, um mundo onde a computação se torna universalmente disponível — seja em casa, no trabalho, no carro ou em movimento — e interagir com todas essas superfícies passa a ser mais natural, intuitivo e, acima de tudo, mais inteligente.

Isso explica a grande ênfase no Google Assistant, o assistente pessoal que está nos Pixel, no Google Home, no Allo, que provavelmente se estenderá a outros produtos, do Google e de terceiros, e que passa a ser o centro da estratégia do Google.

Pixel: apenas mais um terminal

Confiando nesse contexto, o smartphone passa a ser só mais um terminal para o Google alcançar (e extrair informações d)o consumidor. O Google não está entrando no negócio de smartphones. Isso ele já tem com o Android, o seu sabor do Android, que domina o mercado no ocidente e, no modelo de parcerias, tira do Google muitos riscos do negócio — gerenciar inventário e lidar com pós-venda, para ficar em dois aspectos complicados.

O Pixel é, na realidade, uma das pontes de uma transição lenta, mas inevitável: a do campo de busca para a inteligência artificial. Isso já havia aparecido neste teaser:

O Google não tem o Android com a finalidade desenvolver um sistema operacional móvel de ponta. Todo o investimento que o transformou nisso foi uma ação indireta a fim de garantir que o campo de busca do Google estivesse no mobile, a plataforma dominante de 2008 até hoje. Ou seja, quase uma década atrás, o Google previu que uma mudança nos alicerces da tecnologia de consumo estava em trânsito e tratou de aproveitá-la. Estávamos prestes a sair da web para o mobile. Ter um pé ali era essencial e timing, mais ainda.

O Google Assistant é, hoje, o que o Android era em 2008. Ainda não está claro como o Google faturará em cima disso (como inserir anúncios em texto falado?), mas é quase consenso que essa será a próxima interface imensamente popular que todos nós usaremos.

Traços de inteligência artificial, que deu um salto assombroso nos últimos anos com as técnicas modernas de aprendizagem de máquina, estão por todos os lados e é algo que se beneficia de quantidades colossais de dados, coisa que o Google tem de sobra. Os retornos, alguns deles mostrados na apresentação (processamento de linguagem natural e traduções), são aperfeiçoamentos que saltam aos olhos.

Pode ser que essa visão não se concretize, mas parece cada vez mais seguro dizer que inteligência artificial é aonde a indústria está indo e que a interface por voz é a mais adequada para explorar esse potencial. O Google quer liderar o pelotão e, até agora, vem conseguindo — com um ou outro percalço. O maior deles, talvez, seja o Amazon Echo, que ganhou um concorrente próprio, o Google Home.

Google vs. fabricantes de smartphones Android

O Google pode se dar ao luxo de lançar um smartphone próprio porque a guerra dos smartphones acabou. Google e Apple ganharam e não há nada que os parceiros de hardware do Google possam fazer para fugir do Android. Nem se a Samsung quisesse e despejasse muito dinheiro numa missão para emplacar o Tizen, seu sistema operacional, conseguiria criar o terceiro ecossistema móvel. Num passado recente, quando as circunstâncias eram mais favoráveis, a Microsoft tentou com bastante afinco. Não deu.

Tentar isso outra vez, hoje, em smartphones, é bobagem. (A própria Samsung, embora tenha um ou dois smartphones com Tizen, tem focado mais em aplicar seu sistema em Internet das Coisas e gadgets vestíveis.) Mesmo que saísse um sistema legal e com apoio dos desenvolvedores, ninguém se importaria. Smartphone é um mercado consolidado e saturado. Falta-lhe apenas atingir o que resta da humanidade ainda sem um — algo que deve acontecer logo e uma missão que deve ficar exclusivamente com o Android.

Esse cenário, consolidado de um lado (smartphones) e incipiente de outro (inteligência artificial, ou a próxima plataforma dominante), propicia uma investida pesada do Google sem medo de ferir os outrora aliados, agora reféns do Android. As vantagens de integrar hardware e software, como a Apple mostra há tanto tempo, são irresistíveis para quem quer ser uma empresa “para você”, o novo mote do Google. É um mundo novo, onde as regras da guerra dos smartphones não valem muita coisa.

Alguém pode gritar “Nexus!” lá no fundo. A linha acabou. Ela servia para outro propósito, que variou ao longo dos anos, mas que pode ser resumido na lição anual do Google aos parceiros de hardware, amostras de como fazer uma experiência melhor com o Android. Não é mais preciso — fazer um smartphone ruim a essa altura é mais difícil do que fazer um minimamente bom.

A única menção a Android na apresentação dos Pixel, aliás, se deu quando o Google falou em atualizações, não por acaso uma pendência grave e jamais resolvida com os parceiros de hardware. Pixel e Pixel XL, obviamente, terão atualizações rápidas e garantidas. Fora isso, não encare-os como “smartphones Android”, mas como “smartphones Google”, porque é isso o que eles são acima de qualquer outra coisa.

Outro detalhe da apresentação: nenhum app, fora os do próprio Google, foi citado ou mostrado. Isso denota uma abordagem diferente da da Apple, exemplificada de maneira muito fácil de entender pelo OpenTable, app para reservar mesas em restaurantes. Na Apple, existe o app para iOS e um mini-app para iMessage. A Apple oferece plataformas para que terceiros supram as lacunas dos seus sistemas e acrescentem valor a eles. O Google quer absorver as funções de terceiros, relegar apps a meros fornecedores de funções. No Pixel, você reserva mesas (com a tecnologia do OpenTable) apenas conversando com o Google Assistant.

O Google dobra a aposta

Toda essa movimentação converge em uma empresa, que já era notoriamente sedenta por dados, disposta a conhecer ainda melhor seus consumidores — e, na mesma medida, ainda menos preocupada com privacidade. O Allo, novo app de bate-papo que tem o Google Assistant embutido, é um símbolo dessa nova fase do Google: uma aberração que virá pré-instalada nos Pixel. O que mais vem depois? Até que ponto seremos tão permissivos com essa estratégia? (Palpite: até onde o Google quiser.)

Esses anúncios também acentuam o contraste entre Google e Apple no que tange a abordagens e estratégias comerciais. O Google abraça cada vez mais forte a ideia de que precisa saber todos os detalhes do consumidor para entregar os melhores serviços possíveis — e, entre eles, anúncios. A Apple tem feito malabarismo para aplicar inteligência artificial a seus produtos sem que isso dependa do processamento de dados dos seus consumidores.

A promessa do Google é tentadora. Espaço infinito na nuvem (a princípio, apenas para fotos e vídeos), serviços extremamente cômodos e, agora, hardware de primeiríssima qualidade, superior a tudo que a indústria fez até então. Os US$ 649 pedidos pelo Pixel de 32 GB não cobrem tudo isso. Ora, nem começam a cobrir o valor disso.

Em troca, o que você realmente confere ao Google, além de algumas centenas de dólares, é uma chave-mestra da sua vida digital, que a cada dia se mistura e se torna mais indissociável da sua vida em geral, que o Google usará para vasculhar, indexar e processar tudo que encontrar a fim de te devolver anúncios segmentados. Se é uma troca vantajosa, fica a critério de cada um.

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